sexta-feira, 15 de abril de 2022
1002/1003 Paixão de Cristo (tomos 06/07)
Depois de dois dias assistindo A Paixão de Cristo, o menino entre o bem e o mal, tive a certeza de que trata-se de um espetáculo para o ar livre. A prova disso, foi a grandeza das atuações e o aproveitamento do público, a emoção e a potencialidade com que Crissiumal e Horizontina visualizaram o teatro. A cena é a união de voz, corpo, plástica, ritmo, luz, cor. Tudo formando uma semiótica que nos conta coisas que vão muito além do enredo, da mensagem, do instinto. Por isso repleta de energia, força, calor, espiritualidade, transcendência.
A Capacidade de improvisar os espaços revela a maturidade de Maldaner em cena (**)(***). Devi tem domínio do espetáculo como uma jovem aprendiz de direção, (**)(**) em 2023, merece um papel de maior relevância, embora esteja no caminho de direção.
Heger é uma assistente de palco incrível, certamente subirá de Status no Máschara o mais depressa possível. Valoriza e muito o espaço de contrarregragem, faz escola(**)(***). Outra que faz escola é Raquel Arigony, Principalmente quando criou partituras lindas como a anciã na frente da igreja de Horizontina (**)(***), Sua possibilidade de evolução no palco tem a ver também com a generosidade para com os colegas. Stalin Ciotti (**)(**) é um ator maravilhoso, criativo, lúcido. porém parece procurar um espaço solitário no palco, o que as vezes passa uma ideia de egoísmo cênico. Laura Hoover tem mordida em cena, uma força descomunal (**)(***). Está linda em Salomé, mas acrescenta muito também como mulher de Jerusalém.
Eliani Aléssio (**)(**) alcança volumes incríveis, flutua pelo palco. O casal Herodes é praticamente um espetáculo a parte. E o fato de em todas as apresentações ter um número expressivo de pessoas se retirando nesse quadro, mostra, embora assuste, que o espetáculo chegou onde a direção pretendia. Uma cena cinematográfica.
Acredito que as duas ultimas sessões tenham sido dos figurantes e baixos coadjuvantes, que apoiados pelo elenco principal, sentiram-se tranquilos, a vontade para criar. Maria Eduarda recebeu pequenas funções e entregou-se muitas vezes a uma linda emoção em cena, espero que a jovem siga pelos caminhos da arte (**)(**).
Jesmar Peixoto (***)(**) tem se destacado, crescido, surpreendido, e de onde estou, parece que tem se divertido e muito. Assim como Marcel Prates, que não deixa a desejar em nada (**)(***), jogando e colaborando com tudo e todos. Henrique Lanes as vezes parece inseguro, (***) (**) pode ter mas confiança, e cumpre uma figura linda em cena. Sua responsabilidade e a seriedade com que assumiu suas funções, foi louvável. Carol Guma (**)(***) que prazer ver uma atriz começar sua carreira, e que privilégio começar essa carreira com uma tournée. As vezes pode ser mais tranquila, mais aberta as possibilidades da direção. Mais confiante e principalmente, torçamos que um dia seja do Máschara. As crianças Anita Serquevitio (***)(**), Allana Ramos (**)(***), Biby Prates (***)(**), as três dispostas a construir, a trabalhar, a aprender arte, cada vez que entravam em cena, arrancavam suspiros do público. Aliás as vezes contracenar com crianças é injusto, elas sempre roubam a cena!
No quesito revelação, Pedro Henrique, alcança um espaço único, brilha com detalhes, fragmentos, corporeidade. Perfeito! (***)(***) - Eduardo Fernandes (**) também se destaca, mas precisa estudar, ler, observar(**), o teatro é uma longa caminhada, de muito trabalho e comprometimento. Leonardo Jorgelewicz é a cereja do bolo, não sei como foi no quesito equipe, mas em cena, ajudava, parecia mesmo guiar os colegas. Um arrojo (***)(**).
A contrarregragem, os membros desse corpo que se chama espetáculo e que é formado por cabeça/cerebro (direção), coração (ator principal) , outros tantos orgãos e finalmente membros, Vitoria Ramos (***) (**) e Ellen Faccin (**)(***). A primeira totalmente leal, preocupada, observadora e perspicácia pois carrega dentro de si a compreensão do palco que traz de sua carreira de bailarina. A segunda muito esforçada e capaz, Ellen apenas precisa agregar confiança, para não se desestabilizar. Deveria, acredito eu investir na carreira de chefe de palco. O pequeno príncipe Henrique Arigony (**)(**) ganha responsabilidades complexas para sua idade. Cumpre, preocupa-se, dedica-se. Leve sempre a humildade em primeiro lugar, ser bom ator é principalmente colocar os colegas à frente. Se um dia eu voltar aos palcos, quero ter a tranquilidade com que ele pisa no palco.
Para encerrar, aplaudo em pé os anciãos. Pela dedicação, fazer teatro depois de uma certa altura da vida, dividir o palco com os jovens, auxiliá-los, compreender o choque de gerações. Ter energia para uma turnée. Sacrificar-se por tanto tempo pelo teatro do interior que é tão desrespeitado. Tudo isso acrescenta a eles um valor e em nós, plateia, uma gratidão de quem precisa que seu trabalho continue. Parabéns Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Fabio Novello, Ricardo Fenner e Renato Casagrande.
O melhor: A arte do teatro ao lado da fé.
O Pior: Atores com celular enquanto colegas estão em cena, quebrando assim a corrente, e por isso entrando estabanados, desarrumados, etc... A prepotência de alguns jovens que não aprenderam a ter a humildade de reconhecer seus erros e simplesmente ouvir em silencio os mais velhos.
Arte é Vida
A Rainha
quarta-feira, 13 de abril de 2022
1000-1001 Paixão de Cristo (tomos 4 e 5)
Assistindo o teatro do
Máschara, sempre fico muito curiosa sobre de onde vem os roteiros, o processo dramatúrgico,
a adaptação das obras... O texto de A Paixão de Cristo, me atrai e muito. Foi a
partir de 2018 que comecei a me ater no fato de que havia algumas possibilidades,
raciocínios interessantes e pontuais que
deveriam ser levados em conta. No texto dessa turnê, por exemplo, há uma
passagem que diz: “Todo o Cristão deve...”, sendo que o termo Cristianismo surgiu
apenas muito depois que Jesus morreu na Cruz. Já que o termo é exatamente para
se referir àquele que sofre. Será que é por isso que Carol Christ Guma foi
escolhida para ser Madalena? Mistérios... Bem ao estilo Máschara de fazer
teatro. Cléber Lorenzoni faz uso desses mistérios, dessas entruncadas palavras,
para alcançar os seus objetivos na
direção.
Mas engana-se quem
pensa que a arte de dirigir é fácil. Há três momentos na vida dos atores. O inicio,
principiante e desajeitado, curioso e disposto dentro da humildade. O nível
médio, de quem dá os primeiros passos e já domina muitas coisas, que já
consegue solucionar-se, e finalmente, aquele que praticamente não precisa mais
de diretor, pois considera-se pronto, e que com dificuldade se submete às decisões
de outros.
Nas apresentações de Campos
Borges/RS e Ibirubá/RS, o palco foi quase organizado como espaço italiano, ou
uma de suas versões. A meu gosto esse espetáculo adapta-se mais ao formato
arena. Em Campos Borges, o palco central referiu-se aos blocos mais importantes
do espetáculo: Última Ceia e Prisão. Em Ibirubá o diretor preferiu posicionar a
ceia a esquerda do palco. Essa última foi para mim a mais funcional, embora
tenhamos tido algumas situações complexa que surgiram daí. Henrique Arigony por
exemplo conseguiu enganar a plateia e sumir perante o público enquanto Cléber
Lorenzoni assumia seu lugar. No entanto ninguém auxiliou o menino e ele
atravessou a passos lentos o palco inteiro, sozinho e chamando toda a atenção
paras si em um tempo agoniante em que eu quase sai de onde estava, para socorrê-lo.
Em Campos Borges, a
delicadeza de muitas cenas, oferece a esse tomo o mérito de melhor apresentação
da turnê, com direito a beijo em Madalena e lutas corporais entre romanos e
mulheres de Jerusalém. Aliás, Eliani e Laura Hoover, estão maravilhosas na cena
das chorosas, mas precisam ficar mais ao fundo do palco. Por mais que Salomé e
Heródia se convertessem, acredito que não se colocariam na linha de frente, a
ponto de serem vistas pelos soldados. Embora claro, mulheres como aquelas possivelmente
ao se converter não seriam das que ficam no fundo de fileiras. Mas aqui falamos
de limites plausíveis aos olhos da plateia.
O beijo de Pilatos
e Madalena é interessante, mas a meu ver possibilita um outro aspecto ao
espetáculo. O casal Herodes está muito bem em cena, mas dentro do espaço
fechado sua gravação é penosa de ouvir. Clara Devi, assim como Eduardo Fernandes,
ainda que em lugares muito distintas, vem se destacando muito. Dulce Jorge
também evolui a passos largos. Laura Heger é uma façanha, consegue ser uma boa
contrarregra e atuar magnificamente. Sempre mantendo a humildade de quem sabe
que tudo é passageiro.
Stalin Ciotti,
Renato Casagrande e Fabio Novello, são grandes atores, mas precisam tomar
cuidado, não se trata apenas de um espetáculo de teatro. E um espetáculo de
cunho religioso. Se tentarem fazer dele o trabalho de suas vidas, podem
estragar tudo.
A corte de
Herodes, sempre magnifica, ficou prejudicada pelo espaço em que as meninas dançaram
na encenação de segunda-feira. Escolha equivocada da direção.
Douglas Maldaner
precisa de mais coragem nas intenções e decisões rápidas que precisam ser
tomadas em cena. Chega de insegurança depois de tanto tempo fazendo teatro. A
queda de Dulce Jorge, a saída pelo lado errado de alguns interpretes, o elástico
que não está no lugar, o pão que fica pelo palco, a taça sem água. Tudo são
aprendizados, mas cuidado com a perniciosidade.
Lembremos que
o teatro não deve e não precisa ser tão formal, ou ele pode perder o frescor.
Lembremos também do lúdico, da minha capacidade de acreditar em vocês e que se
perde quando um ator da uma volta pelo palco, quando poderia ter ido direto,
sem circunlóquios, ou quando toda a plateia os vê saindo de cena e lá adiante o cristo descendo e saindo correndo.
Uma lástima
conter as intenções libertinas das bailarinas de Herodes, “as boas intenções cabem
no jardim de infância, o palco é o lugar
da gangrena” e quem disse foi Nelson!
No mais,
estou cansada de correr de uma cidade a outra, orgulhosa e curiosa, afinal essa
equipe é muito criativa.
O melhor sem
duvida tem sido o comprometimento e a fé cênica.
O pior por
outro lado, é a falta de dignidade que o ator enfrenta em algumas cidades.
Campos Borges e Ibirubá
Douglas Maldaner (**)(**)
Clara Devi (**)(***)
Laura Heger (*)(***)
Raquel Arigony (**)(***)
Stalin Ciotti (**)(**)
Laura Hoover (**)(**)
Eliani Aléssio (***)(**)
Jesmar Peixoto (**)(**)
Romeu Waier (***)(**)
Marcel Prates (***)(**)
Henrique Lanes (**)(**)
Carol Guma (***)(**)
Pedro Henrique (***)(**)
Eduardo Fernandes (***)(**)
Maria Eduarda (***)(**)
Leonardo Jorgelewicz (***)(**)
Nicolas Miranda (*)(**)
Biby Prates (***)(**)
Anita Coelho (***)(**)
Antonia Serquevittio (***)(**)
Ellen Faccin (***)(**)
Vitoria Ramos (**)(***)
Allana Ramos (***)(**)
Henrique Arigony (***)(**)
Arte é Vida
A Rainha
terça-feira, 12 de abril de 2022
999-Paixão De Cristo/ Rodeio Bonito (tomo 3)
Grandes Iniciativas
Durante muito tempo, a
peripécia de Jesus Cristo foi contada de pai para filho, ou ensinada nas catacumbas
de Roma. Os Cristãos demoraram muito tempo para realmente conhecer a historia
de sua como um todo, principalmente devido a forma como as missas eram
realizadas, em latim, e havia ainda a falta de bíblias em linguagem vernácula.
Foi somente e graças a idade das
trevas, quando monges e abades começaram a realizar encenações catequizadoras,
que o conhecimento passou a ser liberado, a sair dos templos e invadir os
vilarejos. Buscava-se sempre, antes disso, o mistério.
Há paralelo a isso, um
outro mistério. O mistério do teatro. Uma aura de energia, de postulados, e
dogmas que os seres do palco carregam e somam às suas tradições. Palavras como:
merda, galharufa, elan; figuras como: Deuses, musas, Bacco, passeiam
por historias e situações que são passadas de gerações a gerações de atores.
Então me peguei pensando: Quantas historias, divertidas, inusitadas, tristes,
de sacrifícios e vitórias, serão contadas por esses atores. Sobre palcos improvisados, sobre tombos,
sobre secretários de cultura que pouco ou nada se importam com o artista. Nessa
turnê, há uma família inteira atuando, bebês, gente que fazia teatro há muito
tempo, gente que está passando a semana longe de casa, gente que nunca fez
teatro. Gente generosa que está abrindo sua casa para colegas. Artistas que
atuam com garra, que esquecem problemas e os transformam em soluções.
Há é claro as
situações sem soluções, como os grandes ginásios, com eco e ruídos complexos de
se solucionar durante o espetáculo. Há colegas que extrapolam no exibicionismo
e colocam em risco o todo. Há colegas que cansam rapidamente, e que não sabem
disfarçar em cena. Há os que descontam seus fracassos nos que os cercam.
Hoje o maior
desafio foi o palco de Rodeio Bonito, meio arena, meio tudo e meio nada. Não aprecio
rótulos, mas eles ajudam, as vezes na compreensão das regras do jogo. As regras
nesse domingo, foram: “simplesmente atuem”. Atuem com a energia e presença que
vocês aprenderam a propor em seus corpos e em suas cenas. Adaptem-se ao espaço.
Dito isso grandes destaques de atuação
surgiram, e hoje Laura Heger nos mostrou por que cresce como interprete a cada
dia. Douglas Maldaner também se destacou, seja pela força, pelas intenções ou
pela triangulação. A forma como atores como Antonia Serquevittio, Laura Heger,
Clara Devi, Renato Casagrande e outros ainda, conseguem atuar e ainda ser
contrarregras do espetáculo, é uma aula, senão de generosidade, de concentração
e dedicação ao teatro e ao Máschara.
De onde eu estava
sentada, não consegui visualizar algumas interpretações, apenas as costas de
alguns atores, e se essas estivessem ligadas teriam cumprido, mas não
estavam. A cena da ceia não foi visível o suficiente, pois além de estar muito
para dentro do palco, os atores fecharam muito a meia lua, escondendo o Cristo.
A descida de
Cléber Lorenzoni da cruz, quase foi um fracasso e a forma como as atrizes se
colocaram sobre o palco para a exposição das faixas não ficou apoteótica, nem
mesmo cerimoniosa o suficiente. É preciso abrir os tecidos, com uma plena conexão, emoção, corpo e ambiente
ao redor. A marcha final soou longa demais, e a cena do Consul foi muito
confusa. O fato de Renato Casagrande adentrar a cena sem capa não atrapalha em
nada, viemos em busca do psicofísico e não da perfumaria, essa ao menos foi a
aula que ficou para mim ao estudar Grotowski. O jogo entre Carol Guma e
Casagrande está aumentando e ficando muito interessante. A atriz deve aprender
a cair, correr pelo palco, etc...
Vitoria Ramos e Ellen Faccin se
esforçaram em criar climas e isso é bom, no entanto as vezes menos é mais. Henrique
Lanes compõe muito bem, mas precisa de mais força, gana em cena. Vou elogiar a
clã dos Herodes, mas preciso dizer que atuar com fluxo de explosão constante se
torna fácil desde que haja atores razoavelmente preparados, mas atuar na
sutileza, no sub ritmo, na contenção continua... São tarefas nada fáceis.
Fabio Novello esteve
muito bem, embora a dublagem mereça cuidados. Maria Eduarda e Eduardo Fernandes
tem melhorado muito nisso. E esse é o momento de fazer escola, de aprender
observando colegas mais antigos. Leonardo Dias também agrega com uma composição
muito interessante, um ritmo interno gracioso e potente.
Foi uma apresentação
difícil, mas que ensinou muito. Lembremo-nos, teatro é equipe. E as plateias
não tem culpa de não terem as ruínas
bonitas de São Miguel das Missões para oferecer.
O Melhor: A
interpretação sutil de Cléber Lorenzoni, Laura Heger, Leonardo Dias, Henrique
Arigony.
O Pior: A
movimentação desnecessária de alguns atores que iam e vinham tentando vencer o ginásio,
esquecendo que quanto mais se movimenta mais se enfraquece nesse tipo de
espetáculo.
Rodeio Bonito-Aniversario do Município
Douglas Maldaner (***)
Clara Devi (**)
Laura Heger (***)
Raquel Arigony (**)
Stalin Ciotti (*)
Laura Hoover (**)
Eliani Aléssio (***)
Jesmar Peixoto (***)
Romeu Waier (**)
Marcel Prates (**)
Henrique Lanes (*)
Carol Guma (**)
Jesmar Peixoto (***)
Pedro Henrique (**)
Eduardo Fernandes (**)
Maria Eduarda (***)
Leonardo Jorgelewicz (**)
Nicolas Miranda (**)
Biby Prates (**)
Anita Coelho (**)
Antonia Serquevittio (**)
Elle Faccin (**)
Vitoria Ramos (**)
Allana Ramos (**)
Arte é Vida
segunda-feira, 11 de abril de 2022
998- O menino entre o bem e o mal (tomo 02)
Uma constelação de grandes estrelas...
Ao olhar para a noite de
Sepé Tiarajú, não vi muitas estrelas, mas via
a lua lá embaixo, e o esplendor de uma das grandes maravilhas da
humanidade. Erguida a mais de trezentos anos, São Miguel Arcanjo parece teimar
em sobreviver. E parodiando Erico, nosso escritor maior, eu diria que nem O
Tempo e nem o vento dissiparão a grandeza do que foram os sete povos das
missões. Mas quem decide isso? Nós, os atuais donos da terra!
Já estive várias vezes na
região Missioneira e confesso que meu lugar preferido é o santuário de Caaró.
Já assisti também, diversas vezes “som e luz”, mas nunca havia visto dentro do
Sítio Arqueológico, algo parecido com o que vi na redução neste fim de semana.
Cheguei cedo, orgulhosa que estava para ver meus atores preferidos, e vi
rapidamente o espaço ser preenchido por centenas de cadeiras.
Emocionei-me, havia três
espetáculos acontecendo simultaneamente. O interpretado pelo elenco, que se
esparramou pelo terreno acidentado, provando que não há obstáculos que detenham
a equipe do Máschara. Outro, que se tratava da imensa construção silenciosa,
rodeada pela imensidão. E o terceiro, o som, que fez a passarada voar assustada
pelos corredores de árvores e que banhou cada espaço de um texto bem escrito e
carregado de passagens tão importantes aos valores cristãos.
A iluminação infelizmente
foi fraca, e o que poderia ser realçado pela mesma, pareceu precário, talvez
por questão de contenção de gastos. Como o teatro é vida, e a vida é mutável, nessa
incursão foi a cena de Herodes e a crucificação que ficaram realçadas, valorizadas
em palco mais próximo ao público.
O casal Herodes e Salomé
estiveram intensos e quase assustadores e a violência tão crível que a plateia
deve ter ido para casa pensando que Cléber Lorenzoni estivesse realmente
machucado. O interprete de Herodes pode tomar mais cuidado para não perder
momentos importantes das ações dubladas.
Aliás é muito importante que toda a equipe trabalhe com a voz de diafragma, que
é clara e intensa.
A palheta de cores, casou
com perfeição com as tonalidades do cenário, destacando como era de se esperar,
algumas personagens. Judas por exemplo, que é o joio caído entre o trigo...
Jesus, que tocado por Satã, traz um detalhe em vermelho durante todo o
espetáculo.
Preciso elogiar aqueles
atores que interpretam mais de uma personagem ou tipo, em um espetáculo com
tantas complexidades e que muda e adapta-se a cada apresentação, eles acabam
tendo um trabalho cercado de maior tensão e exigência. Ricardo Fenner e Jesmar
Peixoto por exemplo, em questão de uma cena ou duas, vão de José e Tomé ä Nicodemos
e Arimatéia , e brilham no grupo daqueles que pretendem matar Jesus.
Renato Casagrande por
exemplo chega a fazer dois personagens e um tipo e brilha como Pilatos ao lado da
Madalena de Guma. O jogo, a densidade, a triangulação estão ótimas e há uma
energia física que muito aprecio. Guma, claro, pode trabalhar mais as quedas,
as corridas, o tônus.
Cléber Lorenzoni
embrenhou-se pelo mundo da dramaturgia em 2006, quando ao lado de Dulce Jorge,
criou o texto de Esconderijos do Tempo. Mas sempre acrescentou suas insinuações
textuais e adaptações a textos que talvez ao seu olhar precisassem de maior ênfase
dada a criação de mundo que ele propõe. Ao contrário das versões anteriores,
Cléber Lorenzoni começa o texto com Jesus ainda criança e Henrique Arigony me
emociona, tamanha sua leveza e tranquilidade. Não gosto de crianças em cena,
mas preciso elogiar o comprometimento de Anita, Allana, Bibi e Maria Eduarda com
o palco. São a geração do amanhã, “cuidai-os, protegei-os, tenhais paciência com
eles, já fomos todos crianças...
Todos podemos
ser atores, já que arte é a imitação da vida e a vida nos é cara conhecida. Me
toca, a forma como não atores conseguem rapidamente se entregar e portanto
produzir, Marcel Prates é de uma humildade e possibilidade incríveis. Jesmar
Peixoto consegue planar pelas cenas como se há muito tempo fosse um interprete.
Parabéns!
Em alguns momentos
me preocupei devido as distancias que os atores teriam que percorrer, o que acrescentaria
lentidão ao espetáculo, mas atores e não atores se esmeraram e enfrentaram
diversos obstáculos. Parabéns também a adaptação do cortejo fúnebre que se
tornou muito mais fluído.
Foi enfim a
primeira de uma semana extenuante que precisará de calma e paciência. Além de
muito trabalho.
O melhor: A
intensidade na prisão de Cristo, com o jogo entre todos os atores em cena.
Destaque para Stalin Ciotti, Nicolas Miranda, Antonia Serquevittio e Marcel
Prates. O apoio de Marli Guma, ex atriz, que agora colabora com a contrarregragem.
O Pior: Alianças,
anéis, brincos, colares... Atrasos e falta de estrutura oferecida aos atores. (Camarins,
água, iluminação, etc...)
A Paixão de Cristo, O menino
entre o bem e o mal. – Sítio Arqueológico, São Miguel Arcanjo
Aos Anciäos Dulce Jorge, Cleber
Lorenzoni, Fabio Novello, Ricardo Fenner, Renato Casagrande, PARABENS
Clara Devi (**)
Raquel Arigony (***)
Antonia Serquevittio (*)
Marcel Prattes (***)
Jesmar Peixoto (***)
Romeu Waier (**)
Vitoria Ramos (**)
Ellen Faccin (**)
Laura Heger (**)
Laura Hoover (**)
Eliane Alessio (**)
Eduardo Fernandes (*)Pelo atraso
Pedro Henrique (***)
Stalin Ciotti (***)
Carol Guma (**)
Nicolas Miranda (***)
Henrique Lanes (**)
Anita Coelho (***)
Allana Ramos(**)
BibY Prates (**)
Maria Eduarda (***)
Henrique Arigony (***)
Leonardo Jorgelewicz (**)
domingo, 10 de abril de 2022
997 - OS Saltimbancos - Erval Seco (tomo 38)
Rabos, quatros, braços, dados...
E Chico Buarque esteve em
cena duas vezes durante o dia. Seu circo místico deu vida à trilha de dois
espetáculos. O texto Os Saltimbancos,
tem uma essência tão política, que dificilmente se pode negar o que realmente
os quatro amigos inspirados nos cantores de Bremen vieram fazer no palco.
Trabalhadores braçais, domésticas, artistas e soldados, são a essência de um
dos musicais mais montados no Brasil, porém Cléber Lorenzoni usa o enredo para um
objetivo menor. Claro que a nível de mensagem subliminar, não há como o público
não guardar frases, e impressões lá no fundo da mente... “Sou um pobre Pau de
arara...” “Hoje todo mundo canta, como dizem aqueles que não sabem cantar” ”Nós
artistas nascemos livres...”
O objetivo do Máschara,
no entanto, é levar arte ao público, colocar a criança sentada na frente do
palco e oferecer a ela algo novo, algo que ela nunca viu. Bons ou razoáveis
atores, a poucos metros, saltando, cantando, dublando, dançando, expressando-se...
Algo que a russa Natalia Satz já havia proposto em 1918 no Teatro para Crianças
de Moscou e que pipocou pelo mundo em meados do século XX. O objetivo? Preparar
plateias?
O adulto de hoje, que
quase não vai ao teatro, gostou da ideia de oferecer teatro ao filho, ao aluno,
ao sobrinho... Assim ele tira de seus ombros a necessidade de ir a um
espetáculo. A criança irá! Mas há um belo ditado: Se queres alfabetizar uma
criança, comece por sua avó... Ou seja, a criança que vai ao teatro hoje,
poderá influenciar as próximas gerações. A pergunta que fica é: haverá atores
daqui algumas gerações? O teatro florescerá, ou estamos a caminho do fim dessa
arte?
Luzes, tablado, som,
improviso, alguns metros de tecido, e voilà! A arte acontece. Não ouvi
quase nada. Já conheço, mas me coloco no lugar das crianças, que em um momento importante
de alfabetização precisam compreender o que é dito. Ao mesmo tempo e me contrariando,
não dá para negar as impressões visuais, as sensações, o feeling. Um
elenco coeso, formado por Renato Casagrande, Alessandra Souza, Cléber Lorenzoni
e Nicolas Miranda, esse último estreando e com desenvoltura de personagem
maduro. Mérito também da partitura que a personagem já traz de Renato
Casagrande. Mas Nicolas atua a altura dos artistas mais velhos, alguma dublagem
perdida, o que na bagunça de uma sonorização parca, não chega a destoar.
Jogo de cena perfeito.
Alessandra Souza retorna ao palco para nos dar mais um gostinho de sua atuação,
talvez antes de despedir-se totalmente do teatro do Máschara. Bons quatorze
anos de uma vida dedicada ao palco. Cléber Lorenzoni inteiro, e generoso com
colegas e plateia. Abre mão com muita tranquilidade da coreografia que é apenas
artifício para aproximar-se e pegar o público.
Renato Casagrande, comanda
a “festa” e é preciso saber carregar um elenco. Tarefa que o primeiro ator de um
espetáculo precisa assumir com muita generosidade, humildade e entrega. É ele
que dita o ritmo, que guia e apoia as peças do xadrez teatral. Os saltimbancos
é um encanto e me surpreendi vendo a forma como a gata foi ovacionada, ainda
que muitos olhares fossem de confusão, já que as questões de gêneros ainda sejam
grandes tabus, sobretudo em cidades pequenas.
Não vou falar de roteiro
e adaptações, mas seria interessante um longo estudo do tema.
Na contra-regragem,
Laura Heger, Fabio Novello e uma grande equipe de apoio. Tão necessária no
teatro precário e sofrido que se faz no interior. Laura Heger vem se mostrando
uma “grande”, disposta a todas as proposições do mise em scène. Torçamos
que faça da vida do palco, sua profissão por muito tempo. O público merece sua
verdade, sua arte.
Para encerrar, meu
aplauso de admiração, só um grupo de repertório muito organizado, para em uma
semana subir ao palco com as peripécias do Cristo Bíblico, estrear um ator em
um musical infantil, ainda que dublado e readaptar um espetáculo cheio de
estrelas como o Grande Circo Mágico.
Arte
é Vida
A Rainha
Cléber
Lorenzoni
Renato
Casagrande
Alessandra
Souza
Nicolas
Miranda (***)
Laura
Heger (***)
Fabio
Novello
Grande
equipe
P.S:
Ontem o diretor me avisou que eu havia esquecido de mencionar um dos atores de
O Grande Circo Mágico. Parabéns Romeu Waier, é sempre um privilégio ver tua
chama viva em cena.
sábado, 9 de abril de 2022
O Grande Circo Mágico - (tomo 11)
O Grande
Circo Mágico, interpretações bacanas em organização equivocada
Se eu fosse criança, iria embora com o circo... Imagine um lugar de
colorido, alegria, onde cada um é extremamente diferente do outro, mas todos se
ajudam, se divertem e produzem coisas maravilhosas. Atrás da cortina, segredos,
adereços que surgem do nada e logo desaparecem, movimentos, luzes, emoções...
A maior dificuldade
em fazer um bom espetáculo é conseguir levar ao público um show completo e com
ritmo, e quando se trata de circo, é necessário ser preciso, pontual e cuidadoso
com os detalhes. No entanto nesse dia, alguma coisa parecia não estar bem organizada, orquestrada. Aquela organização que vi presente há alguns
dias, na Paixão de Cristo em Planalto, não é a mesma que subiu ao palco de
Erval Seco. A trilha mal executada, a musica sem potência, a falta de ensaios,
artistas entrando no palco e se enroscando nas coxias. A falta de ritmo, em
algumas cenas e o eco obstruindo a compreensão do que os atores falavam. Tudo
conspirando contra o trabalho do artista, que é o objetivo principal das
viagens mambembes do Máschara.
O palco por outro
lado foi coroado com a honesta arte deste elenco corajoso e encheu os olhos de
um público que jamais havia visto algo daquele quilate. Um circo com ares de
teatro, um circo “contemporâneo”, um circo singelo e certamente inesquecível. E
o Máschara sempre disposto a surpreender, nos apresenta números novos em seu picadeiro
improvisado, colocando um mágico no centro da cena. Um mágico com números
pequeno e grandes, truques que encantam e iludem. O número pareceu muito bem
ensaiando, a ponto de as “passarinhas” e o apresentador surpreenderem-se de
forma muito convincente.
Romeu Waier, tem uma
facilidade em unificar as cenas, mas precisa tomar cuidado para não deixar o
texto de apresentação muito simplório. Talvez os palhaços não precisassem
revelar que o dono do circo era careca, tirando a Máschara antes do bagunçado
número da barbearia. Esmeralda, embora lindíssima, deve ensaiar mais a
prestidigitação.
Raquel Arigony e
Cléber Lorenzoni abrem e fecham o espetáculo de forma competente, e Vitoria
Ramos brilha como sempre em sua boneca elástica. Observando a equipe, me pergunto por que Alessandra
Souza e Nicolas Miranda não subiram ao palco como galinha e cachorro,
respectivamente se também estavam na caravana. Caravana essa que embora Cléber
Lorenzoni sempre compare com a
L'Illustre Théâtre do perfeccionista e exigente Molière, me lembre mais
a excursão de Eugenio Barba após sair da Polônia, em busca de um teatro que lhe
permitisse por no palco sua inquietação criativa. Assim nasce o Odin Theatre,
um espaço onde artistas poderiam buscar respostas para seus próprios por quês. Longe
da exuberância glamurosa do primeiro teatro e da quase restrita visão catedrática do segundo teatro, o terceiro
teatro é formado em sua maioria por pessoas que se definem atores, diretores,
técnicos, sem terem tido quaisquer formação teatral “tradicional”.
Esse terceiro teatro
se permite soluções, improvisa e aí desenvolve novos caminhos. Nesse espaço o
que ontem valia, hoje dá espaço a outro olhar, e forma atores com o aval do público,
de maneira mais profunda e intensa. O ator-criador-pensante que ali é forjado,
desenvolve seus próprios métodos através da prática. Claro que caso o aprendiz
decida colocar-se em uma posição de privilegiado, enxergando-se como um artista
completo, que não precisa de teorias, ou de estudo, então estará rapidamente se
disponibilizando a cair para o grande rio dos esquecidos, ou no mínimo daqueles
com os quais ninguém deseja dividir o palco.
Na contramão desse
meu olhar fantasioso, vem a necessidade e astucia do teatro comercial do
produtor/empreendedor Cléber Lorenzoni. Um Comercial que joga para cima do
palco o que há de melhor no teatro do Máschara, um comercial que as vezes peca
em atropelar alguns artistas em detrimento de outros. Um comercial que não tem
muito tempo e espaço para o erro. Mas há é claro um bom equilíbrio, onde vejo
nascer bons talentos.
O melhor: A soma do
talento de Cassiano Gambini no Grande Circo Mágico.
O pior: A desorganização da
equipe do palhacinho e talvez desleixo com um espetáculo que embora não faça
parte da turnê Paixão de Cristo, deva ser tão competente quanto, afinal é
graças à esses tantos “pequenos” espetáculos que se dá a “grande” Paixão de
Cristo.
Clëber Lorenzoni, Renato Casagrande,
Fabio Novello, Laura Heger, Clara Devi, Alessandra Souza, Antonia Serquevittio :
(*)
Vitoria Ramos, Eliani Alessio, Raquel Arigony, Nicolas
Miranda, Eduardo Fernandes: (**)
Cassiano Gambini (***)
Arte é Vida
A Rainha






