segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Incidente no Cena às 7 de novembro

                      Sempre gostei muito de Erico Verissimo e de sua forma de escrever, quando ainda era muito jovem, li O tempo e o vento e fascinei-me.  Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria, forraram meu imaginário de situações que carregaria para sempre comigo. Só bem mais tarde é que voltei meu olhar para O Incidente em Antares, e surpreendi-me com a fantástica crítica aos anos de repressão. Em uma época em que ninguém ousava falar Erico falou e como se não bastasse, pôs sete cadáveres a falarem. E falaram tudo. A historia tem um quê de "zumbilândia", um pouco de humor negro. Cara de tragédia, corpo de drama. Enfim, um prato cheio para o teatro. Des de seu texto, até seu impactante visual. 
                           O começo, confesso, foi meio confuso, o público era recebido com algumas narrativas pré-gravadas e tenho certeza de que muito pouco se aproveitava daquilo. O espetáculo tinha inicio com a atriz Angélica Ertel narrando o dia fatídico em que os mortos levantaram-se de suas tumbas. Angélica Ertel é o tipo de atriz que tem facilidade em subir e descer em sua interpretação. Um dicção e volumes incríveis.  A caracterização de O Incidente é marcante, roupas e acessorios, tudo converge para que a assistência se sinta voltando no tempo. E então vem a marcha. marcha, criativa, assustadora, chocante e engraçada. Os sete mortos  formados por Cléber, Dulce, Gabriel, Tatiane, Luis Fernando, Cristiano e Renato, invadem o palco e suas maquiagens são inenarraveis, mérito do trabalho de união do grupo que no decorrer das temporadas foi aprimorando cada detalhe. Cada personagem morreu de causa diferente, sendo assim é um deleite ir descobrindo aos poucos qual doença ou crivo deu fim de cada um.
                             Cléber Lorenzoni encarna muito bem o truculento Cícero Branco, mas mais para o fim do espetáculo parece perder força. Dulce Jorge sobe pouco ao palco, mas quando sobe é impagável, inteira. Prefiro vê-la em performances dramáticas, pois tem um tipo de comédia muito sua,  comédia clássica. Um tipo de atriz que cria nos detalhes. Gabriel Wink sempre me emociona em Menandro Olinda, talvez por que seu repertório tenha sido constantemente raso. Não por escolha do ator, mas por necessidades da trupe. Talvez a personagem pudesse ter se destacado mais e com silêncios, Menandro Olinda teria chegado mais fundo no público. Penso que o teatro mora nas pausas, no silêncio do encenador. E isso fez falta na cena de Menandro Olinda. Tatiana Quadros é uma atriz que quase não vejo, poderia ter mostrado maior presença. afinal tem uma razoavelmente longa trajetória nos palcos. Sua cena cresceu mesmo com a entrada de Marcele Franco, a cena das duas cresceu muito, mas quem roubou mesmo o espaço foi Marcele Franco. Espontânea, grande, e tocante. As cenas de encontro entre mortos e vivos são pratos cheios que Angélica Ertel e Marcele Franco ambas souberam usar a seu favor. 
                              Luis Fernando também aparece pouco em cena, mas é um ator muito intrigante, bom sem dúvida, mas acho que ainda espero vê-lo em um grande papel que o revele. Cristiano Albuquerque é um ator inexperiente, talvez pelo pouco tempo que dedica ao palco, sua cena é curta, mas preciso destacar o quanto ele permanece intenso, vivo durante o espetáculo inteiro. Renato Casagrande é um jovem ator, que vem se destacando, um agradável orgulho, sua cena era digna de um ator de mérito. No entanto com sua parceira de cena Alessandra Souza, conseguiu fazer muito pouco. O drama do casal Paz não fica claro, se enreda em uma constante gritaria, Rita Paz compõe direitinho a mocinha, mas é marcante que a histeria em ver um homem morto retornar do caixão seja menor que a de ter traído o grupo de amigos. Talvez a direção tenha optado, já que a peça faz uma crítica há época da tortura e do domínio militar. No entanto a propria atriz precisa delimitar seu real objetivo, vem a cena desabafar com o marido ou vem dar-lhe um último Adeus. Alessandra Souza é uma atriz interessante, com bom volume e presença, mas precisa dedicar-se mais às nuances, aos detalhes. 
                              Ricardo Fenner é um ator surpreendente, no dia a dia não se supõe ator, serio, em seu trabalho habitual, quando no palco da espaço há uma criatividade ímpar. Seu coronel Tibério Vacariano é engraçado e lembra perfeitamente os coronéis e políticos tacanhos de uma época que ficarão para sempre em nosso imaginário coletivo.
                                O Incidente é um espetáculo longo, mas não vemos o tempo passar. A trama prende, choca, diverte. Talvez, suponho, alguns possam ter ficado chocados, e até se sentido ofendidos com algumas colocações, mas não é essa a função do teatro, revirar a terra dentro de nós?
                                  A trilha sonora é interessante, algumas faixas estimulam o espectador, mas os atores não podem depender das emoções que a música conduz, e foi o que pareceu já que estava mal administrada. A luz pontua embora não tenha grandes achados. Foi por fim um bom programa para um domingo à noite. Um trabalho clássico do conhecidíssimo  Grupo Máschara.



                                                                       A Rainha
Ficha técnica:
Direção: Cléber Lorenzoni
Elenco:  Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Gabriel Wink, Angélica Ertel, Ricardo Fenner, Luis Fernando lara,                              Renato Casagrande e Alessandra Souza. 
Atores Convidados: Cristiano Albuquerque, Marcele Franco e Tatiane Quadros.
Operador de Som: Gabriela Varone
Operador de Luz: Lucas Padilha
Produção: Ricardo Fenner
Produção Gráfica: Gabriel Wink


Cléber Lorenzoni  +
Dulce Jorge      C
Gabriel Wink    +
Angélica Ertel      C
Luis Fernando lara    +
Ricardo Fenner          C
Alessandra Souza           I
Renato Casagrande           +
Cristiano Albuquerque      +
MArcele Franco            C
Tatiane Quadros              +

Lucas Padilha              +
Gabriela Varone           I