sexta-feira, 24 de junho de 2016

Depoimento da escritora Greice Pozzatto quanto `Sessão Maldita"


Público da 8ª Sessão de Complexo de Elecktra


Douglas Maldaner e Alessandra Souza em Complexo de Elecktra


Complexo de Elecktra - tomo 8 - 738

A CULPA TAMBÉM É DO PÚBLICO

                                 Sempre que assisto um espetáculo, atento-me à seu autor, seja ele dramaturgo ou não. Aquilo que está sendo dito sobre o palco, foi criado por alguém e merece o mesmo respeito que os atores sobre o palco, ou até mais. O Máschara já levou ao palco os grandes clássicos: Molière, Shakespeare, Lorca ou Sófocles. Já adaptou Verissimo, Quintana e Caio Fernando Abreu e agora parte para algo ainda mais complexo. Mas que obra é essa sobre o palco? Ora, para compreender cada autor/dramaturgo, é preciso compreender seu momento histórico, o panorama politico e social de sua época; pois antes de se tornarem clássicos, foram atuais em seu momento e queriam sim falar de sua então realidade.  Cléber Lorenzoni foi alimentar-se de Eurípides e de Bender para compor Complexo de Elecktra, buscou também em O’Neill e Sófocles e em outros tantos pontos para chegar ao produto. Mas o que mais pesa e aparece na atual composição do grupo é sua realidade atual. Ora, depois de vinte e quatro anos, o Máschara já se formou pelos clássicos, já apresentou suas monografias em Esconderijos e O Incidente e agora passeia pelo mundo adulto. Complexo de Elecktra, bem como A Serpente, ou Deu a Louca no Ator, são textos e posteriormente montagens que revelam uma Cia. decidida a chocar, a levar o teatro pelo seu viés mais serio, o de simplesmente fazer teatro. Isto sem querer agradar, ou sem se vender. Algumas Cias., mal  passam do ensino fundamental e médio. Vagueiam por anos naquela percepção de que teatro é colocar pessoas engraçadas sobre o palco e que no momento que o público der gargalhadas e aplaudir em pé, terão chegado ao topo do que seria fazer teatro. Ora, muitos podem ser os caminhos que levam ao espirito teatral, mas que ele nunca seja medíocre.
                        Outro fator que preciso mencionar é a responsabilidade do público. É muito comum ouvirmos em ambiente de pessoas que se proclamam interessadas pelas artes e por assuntos culturais em geral, que em nossa cidade não há apoio a arte, não há oportunidades. Os argumentos aliás, são sempre os mesmos. No entanto conversando com essas pessoas, quando perguntamos se foram ver este ou aquele espetáculo de categoria, que ficou em cartaz por determinado tempo, muitas e muitas vezes a resposta é: “Não; imagine que justamente eu esteva pensando em ir, o tempo foi passando e quando dei pela coisa já não estavam mais levando a peça”. Nessa omissão, nossa preguiça de se resolver ir ao teatro quando esse apresenta um texto digno de atenção, está o segredo de muitos fracassos injustificados, e não podemos deixar de chamar a atenção do público para sua responsabilidade perante o teatro, se é que quer se dar ao luxo de criticar a falta de opções culturais em nossa cidade.
                      O teatro, senhores, é uma arte cara. Não desejo aqui menosprezar nenhuma outra arte, e nem compará-las como mérito ou significação: Tomemos por exemplo, o caso da pintura. Para que tenhamos um quadro, é preciso o talento de um único individuo que terá como despesa de execução as telas, as tintas, os pincéis, etc..., o que tem certa monta mas não alcança cifras astronômicas. Mas o que é o mais importante no caso, uma vez que o pintor acaba de pintar seu quadro, a obra está pronta, e – desculpem dizê-lo tão prosaicamente -, uma vez vendido, o autor terá recebido a paga pelo seu trabalho. Tomemos por outro lado a realidade teatral e vejamos como a realidade da engrenagem muda:
                       A primeira etapa é a criação do texto por um dramatista ou sua adaptação por um razoável escritor. Mesmo com seu trabalho pronto, precisará de atores para leva-lo ao público, instrumentos humanos que dentro de seus respectivos campos, devem ter talentos e ser adestrados em suas respectivas artes, tanto quanto o autor. A peça para ser levada ao público, precisará do aluguel do teatro, dos faxineiros, bilheteiros, técnicos de som e de luz. O pintor que dependia apenas de si mesmo, aqui enquanto artesão do teatro, precisará de um diretor, um cenógrafo, eletricistas, encarregados do guarda-roupa, contra-regras. E tudo isso visto por alto, não inclui custos com produção. Execução de cenários e figurinos, cuja idealização já custará alguma coisa. Agora veja, para pagar todo esse montante, quantas vezes esse espetáculo precisará ser apresentado?
                      A realidade de um ator de teatro, que o público muitas vezes confunde até por maldade, com um boêmio, vadio, preguiçoso que gosta de dormir até tarde e de não trabalhar ou estudar é muito mais complexa do se pode imaginar. Muitas vezes trabalha em outros setores, e ao sair do trabalho, quando todos vão descansar, ele segue para  essa segunda etapa. Começa a ensaiar por volta de 18 horas, come alguma porcaria, por falta de opções e para não gastar o que não se tem, e então dedica-se a repetições e treinos até altas horas. Volta para casa quando a cidade praticamente já está toda silenciada. E isso repete-se por semanas até que o espetáculo estreie. Quando finalmente está pronto para subir ao palco, trabalha-se o da inteiro e quando o público chega, os atores muitas vezes estão exaustos. Após o espetáculo onde os atores se expuseram a extremos, suas verdades, suas dores, suas compreensões da vida humana, o público vai para casa, mas o elenco precisa guardar tudo, deixar tudo limpo para outra noite de espetáculos. E então tudo recomeça no outro dia. Em meio a isso, há ensaios de outros espetáculos, viagens para outras cidades com outros espetáculos em palcos adaptados, muitas vezes com um público descortês. Trabalha-se, trabalha-se muito por muito pouco. E o público muitas vezes abre mão de empregar suas noites testemunhando a apresentação de um espetáculo que pode enriquecer a cada um de nós individualmente, e a nós todos como comunidade, por apresentar, dentro da disciplina de uma arte, uma parcela do comportamento humano, sublinhá-la, iluminá-la, dar-lhe proporção, magnitude, alargando os horizontes de nossa experiência e levando-nos a considerar, ante a nova visão, a nossa própria posição.
                    Teatro pode ser “gostado”, mas muito além do ato de gostar está o ato de pensar.
Em complexo de Elecktra pensa-se muito. O suficiente para gostar...
                     Na ultima noite de “Complexo”, pensei mais em todas essas coisas do que no que realmente deveria ter pensado, mas o ato de simplesmente pensar justifica-se, afinal pensava em como era um privilégio estar ali, sorvendo o pensar que muitas vezes falta a nós que não somos artistas.
                     As intepretações da noite foram interessantíssimas. Alessandra Souza e Evaldo Goulart diminuíram o tom, o que acresceu uma sonoridade melhor ao espetáculo. Algumas cenas como o bife de Ulrica e o embate final estiveram muito afinados, enquanto que a cena de recordação entre Ulrica e Henrique, foi muito prejudicada. O produto teatral, quando alcançado e “comercializado” precisa ser mantido da melhor forma para o público. O momento de criar, descobrir é o ensaio. Não vou ao teatro para ficar a mercê de atores que querem se descobrir pondo em risco cenas nas quais preciso mergulhar e me questionar. Ou então estarei presenciando um ensaio aberto.
                   A canção interpretada por Ulrica na cena de Werner e Ereda não se faz ouvir, por que a musica eletrônica a abafa. A morte do patriarca poderia ser plasticamente construída. Algo saiu do alinhamento na cena, já que Bertold surgiu antes da mãe fazer o que se propunha. A cena de Ulrica com a velha cega é uma que precisa de ensaios para alcançar o ritmo que possui no inicio, aliás, acredito que o espetáculo todo, ainda que muito bom, esteja carecendo de ensaios. Quando se chama o teatro de trabalho é preciso encará-lo como tal.


Alessandra Souza (**)
Renato Casagrande (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Evaldo Goulart (*)
Gabriel Giacomini (*)
Raquel Arigony (*)
Douglas Maldaner (**)


Arte é Vida


                                               A Rainha