terça-feira, 12 de julho de 2016

Resenha crítica do texto: O olho do Ator de Roberto Mallet, transcrito por Fernando Weffort. Por Raquel Arigony Prates



O Mergulho da atriz

“A arte, por estar tão próxima da subjetividade, dos sentimentos, das sensações, do imaginário... por atingir os recônditos mais secretos do ser humano, pode facilmente distanciar-se da objetividade, perde-se nas entrelinhas”.
Enquanto plateia, tudo bem, se nos “distraímos”, se passeamos em devaneios pelos caminhos da subjetividade. Mas enquanto artista - opa! - há que se preocupar em fazer bem feito, não perder-se do objetivo de seu trabalho e ter ferramentas concretas e diversas para executá-lo.
Confesso que tenho uma grande queda pelo abstrato e, às vezes, ouvir ou ler algo que objetiva aquilo que, para mim, é poético - como o teatro - me incomoda um pouco. No entanto, quando esse texto não perde a sensibilidade e ainda vem recheado de argumentos e conteúdos tão válidos, aí esse texto me ganha.
Assim foi com o “O olho do ator”. Saboreei cada palavra, questionei-me, dialoguei... Em alguns momentos foi como olhar-me no espelho e sorrir, por exemplo, logo no inicio quando o autor fala do teatro como contemplação e da construção de um olhar na formação do artista. Construir dá a possibilidade de nunca acabar, estar em constante processo de crescimento.
Por outros momentos, foi impossível não fazer analogia com meus estudos da dança. A primeira alusão ao olhar já me remeteu aos filtros com que vemos o movimento e logo em seguida o autor, de fato, fala em filtro. No método Laban/Bartenieff de análise do movimento e conexões corporais podemos observar o movimento humano sob vários filtros e desenvolver habilidades para observá-lo das formas que não nos são os mais usuais. Observar o gesto inclui o pré movimento (intencionalidade) e o objetivo (finalidade), além do gesto em si. É disso que nos fala Mallet quando cita a teoria das quatro causas de Aristóteles e Stanislavski e sua fala sobre as ações.
Ao ler sobre “colocar-se no lugar do outro” e sobre um “espetáculo generoso”, instantaneamente veio-me à mente Carl Rogers, que fala de empatia, emprestar o ego ao outro. O que me assusta no teatro, muitas vezes, é o ego e a relação entre egos. Ler essas palavras e, também, a palavra amor, trouxe-me um grande conforto. É possível, e faz parte de ser boa atriz, alimentar essa busca em mim.
Durante a leitura também houveram momentos de inquietação, estranheza. Um deles foi quando o autor se referiu ao fato de que o ator não deve se preocupar em sentir, mas em agir. Ah, logo eu, que amo tanto sentir! Essa estranheza durou até seu argumento sobre Otelo, “imagina se o ator sentisse o que Otelo sente”. Compreendi o ponto de vista e concordei em grau, gênero e numero!
Os questionamentos propostos no texto e outros que foram surgindo também acompanharam-me durante toda a leitura: “como atriz, preciso desenvolver que tipo de olhar?” “ qual é nossa matéria de trabalho?”... Qual é meu objetivo como atriz? Quais os objetivos de meus trabalhos?... E por aí vai.
O que ficou mais forte? Objetivamente falando: um grande alerta para não divagar, não generalizar e não ficar cego.
Como artista compreendo a importância de ter “duas sensibilidades”, uma que é mais efêmera, intuitiva, que lê as entrelinhas, percebe o outro (seja ele publico ou colega). Outra mais “matemática”, que utiliza literalmente os cinco sentidos para perceber, analisar e tecer o trabalho da ação teatral/dramática.
Falando em ação dramática, para que essa aconteça, é preciso olhar além dela, é preciso ver o antes, desde a concepção inicial do trabalho, passando pelos processos de construção e criação, pelos detalhes práticos e técnicos para que tudo aconteça (varrer, costurar, som, luz...), pelos colegas à sua volta (quem são, como estão, como “funcionam”), pelo espaço onde vai atuar, pelo publico que ali está... e, aí sim, com toda essa “visão panorâmica”, subir ao palco e fazer seu espetáculo acontecer (momento este que é apenas a ponta do iceberg). É preciso, também, olhar o depois. O que fica quando a luz se apaga, as cortinas se fecham e cessam os aplausos?
Não falo aqui de misturar tudo, embaralhar as funções e as relações. Falo de estar consciente, de estar preenchida de tudo o que envolve aquele momento de estar em cena, de saber o que nos sustenta, como artistas, para estar ali, naquele momento.
Para exercitar esse “olhar panorâmico”, que se vê com os cinco sentidos e mais a intuição, é preciso aproximar-se e distanciar-se, mudar os pontos de vista, estar aberto, munir-se de ferramentas, sejam elas teóricas ou práticas. E nesse processo de afinar o olhar, conhecer fora implica conhecer dentro! É, também, um mergulho de autoconhecimento, de despertar de consciência.
Como atriz posso escolher a profundidade do meu mergulho.
É um ir e vir constante. Vamos ao fundo e voltamos à superfície. E cada vez voltamos transformados.
Refletindo um pouco mais, ouso dizer que o ego fica na superfície e a essência fica nas profundezas. Ficar na superfície pode tornar-nos cEgos. Ir ao fundo pode aproximar-nos do que existe de mais verdadeiro em nós e em nosso trabalho.


“El arte no es para “hacer artistas es para sacudir conciencias”

Grupo Máschara durante debate no festival de Rolante -com Feriadão


Resenha de Renato Casagrande à partir do texto O Olho do Ator de Roberto Mallet

Um pensamento

Quando li pela primeira vez o texto “O olho do ator” confesso que absorvi pouquíssimo, talvez fosse por ter no máximo um ano de carreira teatral, depois peguei nas mãos novamente alguns anos atrás quando participava do módulo III do curso de teatro da ESMATE, mas não lembro muito bem das impressões que tive na época. Mas ler o texto na minha circunstancia atual, um ator com oito anos de carreira, me fez ter um novo olhar para o fazer teatral, não sei ao certo se é melhor ou inferior ao que tinha antes, mas definitivamente é algo diferente e isso me anima.
O texto fala no olhar que devemos ter para com o mundo e suas situações, que não devemos querer as respostas e sim os questionamentos, que não devemos chegar diretamente a conclusão dos atos, mas sim os seus percursos.
Fala também sobre o olhar que queremos passar com nosso trabalho individual (de ator) e também o de grupo (espetáculo). Achei curiosíssimo pensar que nos dias de hoje com tantos assuntos polêmicos ao nosso redor, (...) com tantas polêmicas ainda existem atores com o intuito de mostrar algo que são capazes de fazer, seus “talentos” ou suas “capacidades”, isso é naturalmente normal, e em alguns momentos até apreciável. Mas o que não comporta, é a necessidade de mostrar suas habilidades em espetáculos que poderiam fluir muito bem sem o “momento show de talentos”, e isso é constantemente presente no teatro que vejo hoje e que via há algum tempo.
Alguns dias atrás tive o prazer de assistir a alguns espetáculos em um festival da região, e lá havia um espetáculo no qual a atriz principal cantava razoavelmente bem, e era quase que óbvio que o diretor optou por introduzir cenas musicais no espetáculo para poder aproveitar este dom da vivente. Só que ao mesmo tempo em que ela tinha uma voz relativamente bonita, seus companheiros de cena eram totalmente desafinados e isso de certa forma enfraquecia o espetáculo, somando com a narrativa fraquíssima o espetáculo foi pouco aproveitado e consequentemente arrecadou pouquíssimas indicações e quase nenhuma premiação.
Isso me faz ver que muitas vezes estamos preocupados em mostrar algo diferente e performático (malabarístico) para o público e esquecemos de exercer nossa função como atores/comunicadores.
Para encerrar, o texto fala da generosidade que devemos impor para nosso trabalho, isso é pouco visto. Nos dias de hoje encontramos pelo caminho muitos atores “Egoístas” preocupados com o seu e pouco se importando com o outro. Gostaria de ver mais generosidade em mim e principalmente em meus colegas, talvez o teatro seria mais colorido.




Renato Casagrande
Um ator com tanto a dizer...