segunda-feira, 22 de abril de 2019

844 - Paixão de Cristo -Cruz Alta ano III (tomo IV)

                                                  A Prata da Casa

A pia função de engrandecer a vida de cristo na época da quaresma, vem de longa data, e embora seja uma forma de encher os cofres das companhias teatrais é também uma maneira do artista entrar em conexão com sua platéia e encontrar de forma mais pontual uma maneira de tocá-los mais
profundamente com a arte. 
A interpretação  de temas religiosos remonta do medievo. Naquele período, o enfoque artístico era especificamente religioso e comandado pela classe dominante, quase toda de composição eclesiástica. Sua intenção era transmitir o ideário e a liturgia do cristianismo à massa de camponeses e aldeões iletrados. Pintura, arquitetura, escultura, tapeçaria e até mesmo o teatro eram trunfos doutrinários a serviço da igreja. 
No Brasil do inicio do século XX, as casas de espetáculos do Rio e de outras cidades divulgavam peças com a narração de episódios da Sagrada Escritura que eram encenadas por diversos elencos, acrescidos a figurantes amadores contratados muitas vezes às pressas entre amigos e conhecidos. Anão de circo virava centurião romano, o palhaço deixava o gibão no armário e vestia-se de apóstolo, isso quando não interpretava o próprio Nazareno. Sem saber, talvez, esses atores estavam por questões de necessidades desenvolvendo suas capacidades e tornando-se melhores atores. 
Os pés da Catedral de Cruz Alta foram palco para uma encenação poderosa. Um grande espetáculo que tomou uma grandiosidade, pasmem, maior que a da caminhada até o santuário de Fátima,
ocorrido nos anos anteriores. A partir das 17 horas da tarde o público começou a se aglomerar, e quem estava lá desde cedo ouviu comentários, viu os táxis que se recusavam a sair da rua, viu o cãozinho que passeou pelo palco das cruzes, viu a menina que sentou na escada com a boneca. Ou seja, o teatro, de qualquer forma faz parte tão comum, tão naturalmente da paisagem cruzaltense. O Máschara aproximou uma comunidade inteira da arte cênica. Eis a primeira divida de muitos artistas de outras áreas e de outras localidades que vem à Cruz Alta. O máschara preparou as plateias, deselitizou a arte da encenação.

O Máschara domina totalmente a encenação ao ar livre, possivelmente herança das tournês de Lili Inventa o Mundo (2006) e O Incidente (2005), a rua confere ao teatro as surpresas da intempérie, o risco do novo e desconhecido. Pessoas passando, cães latindo, crianças de bicicleta. Como a celebre frase do menino durante uma encenação do texto  O Mártir do Calvário de Eduardo Garrido em 1901: -Mãe, o cristo é o palhaço! - Pois realmente o ator que interpretava na semana santa o Messias, era o principal palhaço do circo. 
Na ultima sexta a noite, um morador de rua sentou-se em seu camarote ao lado da escada do terceiro palco e ali assistiu comovido a encenação. E foi tão respeitado por platéia e atores, que foi impossível não admirar ainda mais os atores que o tocaram e tentaram incluí-lo na cena. 
Um espetáculo com uma trilha incrível. Sarah Brightman cantando ave maria, a composição do jovem Gabriel Giacomini que não sei se tem nome, mas deveria. Aliás, por que o jovem não compõe para um espetáculo inteiro?
O espetáculo durou pouco mais de uma hora e meia, mas não vimos o tempo passar devido ao virtuosismo do elenco, a agilidade das cenas, o objetivismo dos palcos. Para 2020 tenho apenas uma dica, e não sei se funcionária, sou ótima em criticar e opinar, mas péssima em criar. Talvez os atores devessem ficar parados enquanto alguém se pronuncia, pois como vemos muito de longe, as vezes não temos certeza durante um tempo, de qual personagem está vindo a fala. 
O teatro, a atuação é um misto de estudo, instinto e acaso. Tudo isso chamado de talento e técnica, vontade e jeito. Em um espetáculo com tantas capacidades misturadas, com tantos atores de verdades distintas, surge uma composição belíssima, madura. Pilatos, Madalena, e Judas tem nuances incríveis que nos dão novas percepções de suas existências. Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza, Renato Casagrande, Dulce Jorge, Ricardo Fenner, Fabio Novello, Laura Hoover, e VAgner Nardes nos deram grandes personagens. Redondos, profundos. A dramaturgia desse ano é eficaz, perspicaz e cuidadosa. 
Já aguardo a narrativa de 2020. 
A cena de encontro entre Maria e Jesus ao som da ave maria arrancaram lágrimas até dos mais fortes.
Um jogo perfeito, toques, suspiros. emoção intocável. O tempo conferiu à Dulce Jorge uma maturidade cênica imbatível. 
 Mas hoje vou falar um pouquinho mais de Alessandra Souza. A mulher de magalen. Alessandra Souza foi aluna de Cléber Lorenzoni em 2008, onze anos atras. Já passou por vários sistemas de interpretação e escolas de atuação do Máschara. Estilos diversificados que Lorenzoni tenta trazer para a Cia. Alessandra Souza foi a galinha de Os Saltimbancos (2012), foi Olívia de Olhai os Lírios do Campo (2015) e ainda a Margarida de O santo e a Porca (2012). Foi Ereda em Complexo de Elecktra (2016) e Lígia  em A Serpente (2013) Foi Maria no auto de Natal (2017), a produtora estressada de Deu a louca no ator (2011) e ainda a doce Ana no auto de Natal de 2018. Participou como Mulher Adultera da segunda edição da Paixão de Cristo (2018) e Madalena (2017) (2019). Destacou-se como Bruxa chefe Bruxamentos e Encantarias (2017) e ainda a provocante Serafina em Lendas da Mui Leal Cidade (2018) Atualmente podemos e devemos vê-la como Lady Zuzu em A roupa Nova do Rei em cartaz desde 2017. Alessandra Souza tem uma carreira lindíssima no teatro cruzaltense e deve ser respeitada e aclamada pois fez muito pelo teatro. Alessandra Souza tem um estilo teatral mais voltado para a escola de Stanislavski , método da memória emotiva e certamente ainda vai nos alegrar e surpreender  com muitos papéis incríveis. A Madalena desse ano, trouxe mais dor e força à mulher aos pés da cruz. 
Outras tantas interpretações foram marcantes, algumas jovens como Antonia Serquevittio e Laura Heger evoluíram e muito em cena. Kauane Silva destacou-se e muito em uma criação coletiva entre ela e Cléber Lorenzoni, será que o público percebeu a figura de Santa Rita de Cássia em cena? Uma belíssima escolha estética. As vezes os atores tem certa dificuldade em compreender propostas estéticas, eis um grande exemplo.
Jorge Waier está assim como outros colegas, em seu primeiro grande trabalho, em um espetáculo grande, com uma participação pontual. Merece grandes aplausos, reflexo de sua dedicação nas aulas da ESMATE. 
Enfim, interpretações incríveis, respeito ao público. Conhecimento da arte teatral. Uma dica a todos: Valorizem as aulas da ESMATE, estudem, quem ganha é o público, que se delicía, aprende, desenvolve um olhar crítico.
Uma pena os organizadores deixarem quase tudo nas mãos do elenco que deveria ter investido em mais uns dois contra-regras. Felizmente a direção é muito capacitada e consegue dividir funções e organizar um belíssimo show. 

O melhor: O elenco incrível, versátil e cheio de garra. 
O pior: a falta de estrutura, faixas para conter a platéia e pouco vontade de alguns dos prestadores de serviços.

Preciso super parabenizar Dulce Jorge que brilhou como Maria - Cléber Lorenzoni que conseguiu criar/compor um novo Jesus - Renato Casagrande pelo Judas de Cariot muito visceral e ainda  Vagner Nardes que se portou como um grande ator do Máschara.
Mas dedico (***) a todo o elenco.

Festival de Santa Rosa



Três grandes- Vagner Nardes - Renato Casagrande e Ricardo Fenner