segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Santo e a Porca, tomo II

Mais um cena às 7, senhores me digam onde está a cultura cruzaltense? A Arte, o que acontece no museu Erico Verissimo? Quais são mesmo as casas tombadas? O Festival de folclore? O curso de danças? A biblioteca pública? Cade a arte? Cruz Alta precisa de ajuda e os políticos continuam com suas conjunturas, algumas assustadoras. E algumas pessoas ainda conseguem fazer a diferença sem para isso precisarem de cargos. Esses dias perguntava a um amigo, o que desabará primeiro? O auditório da escola Annes Dias ou o auditório da Casa de Cultura. Vejam bem, não estou aqui fazendo levantes políticos e falando mal dessa ou daquela administração. A decadência vem de anos, e a culpa é de toda a sociedade.
Para quem não conhece a situação, é assim, as cadeiras estão enferrujadas e quando tu te sentas com uma roupa clara e apoia os braços, vai embora com as mangas totalmente sujas. O teto está caindo aos poucos e a qualquer momento uma tábua pode cair na cabeça de um ator. A borda do palco precisa de algo para proteger quem se encosta, pois tem felpas e pode ferir alguém. A barra onde devem ser pendurados os holofotes esta querendo cair e os atores em cena ficam com receio de que durante a apresentação caia uma ripa sobre a platéia. A cortina do palco  não funciona há anos, está suja mofada e em vários lugares meio rasgada. A fiação elétrica corre riscos pois queimam lâmpadas a cada instante. No inverno é necessário preparar-se para o frio intenso e gelo das cadeiras. Em dia de chuva corre-se o risco de o ruido da chuva nos brasilites impedir que o público ouça a voz dos atores. Em dias quentes a sala fica abafada e há de se abrir as portas, mas aí como escurecer para a iluminação?
Não é fácil, e se não fosse o apoio que os meios de comunicação, as inserções da RBS, os comerciais deliciosos da rádio Cruz Alta e as Páginas do Diário Serrano seria muito mais difícil. Se não fossem os empresários que patrocinam todo mês o teatro se acabaria. E falo do teatro intenso, não de um global ou outro que aparece la de vez em quando, ou de uma standap que vem tirar o dinheiro das pessoas sem provocar nada, sem falar nada, sem questionar nada, sem mudar as pessoas.Falo de teatro profundo e intenso. Como por exemplo o espetáculo De Beth Goulart sobre Clarice Lispector. Falo de teatro enquanto obra máxima conspiradora para e edificação de uma sociedade. Para o questionamento. O Teatro é uma trincheira e nossas trincheiras estão abaladas. não é a toa que quando vejo fotos de Cruz Alta antiga que agora estão por todo lado, nunca vejo uma foto do teatro Carlos Gomes.
Ontem a noite participei do espetáculo O Santo e a Porca e por um instante senti-me tão motivado, o público foi tão generoso, tão incrível. Em outubro vamos para o festival de Osório, mas nem um troféu terá o peso maravilhoso do público de nossa cidade nos aplaudindo, nos amando, ou ainda amando nossos personagens. No entanto, pouco depois comecei e pensar em todas as dificuldades, no desespero de montar tudo em dois dias, em talvez seguir o conselho de tantas pessoas e ir embora, se não o fiz foi por ver a incrível Dulce Jorge que começou a fazer teatro há vinte anos, ali cheia de garra, como quando me ensinou a fazer teatro. Construindo uma Caroba rápida, ágil, esperta, que só queria ser o máximo em cena, perfeita. (***)  Gabriel Wink, um parceiro de cena incrível, divertidíssimo, que será inesquecível durante anos (***), Ricardo Fenner que faz tantos sacrifícios (**) que conseguiu criar mais um personagem, diferenciá-lo de seus personagens anteriores. Alessandra Souza que há quatro anos enfrenta milhares de coisas e que apesar de ter algumas dificuldades como atriz, as está vencendo e criou uma Margarida delicada e ao mesmo tempo corajosa e geniosa(***). Renato Casagrande, que veio tão novo para o teatro, que é meu pupilo mais querido, pois a cada dia põe em uso cada coisa que ensino (***). Luis Fernando Lara, (**) que ama tanto a sua maneira o teatro e o Máschara, um ator que apesar de não subir muito ao palco, dedicou-se e abraçou a ideia de O Santo e a Porca.  Por todos esses amores, por todos esses dedicados que enfrentam familiares, questões financeiras e estão ali fazendo junto a nossa historia, por eles não me desanimo e sigo. A graciosa Fernanda Peres, que venceu suas dificuldades e temores e trabalhou com afinco na sonoplastia e derramou lágrimas verdadeiras ao errar, pois sabia da importância do que fazia (**), e ainda Gabriela Oliveira(**) que fez, criou e pintou o sete na iluminação (**) quase merecendo o céu.


"O Teatro é incrivelmente maravilhoso quando encontramos nos nossos o eco de nossos somnhos..."