terça-feira, 23 de junho de 2015

Análise de Olhai os Lírios do Campo estréia

                  Quando parei junto a fila que se formara em frente ao auditório da escola Annes Dias na noite do dia 21, pensei comigo: Não estou no lugar errado! Pois de onde estava eu via o banner da CARAVANA UNICRUZ. Mas então o que havia trazido tanta gente para o teatro? A divulgação maciça por parte da universidade? Além disso o espetáculo a ser visto não seria uma comédia... Talvez então o fato de ser uma obra de Verissimo. Um escritor mundialmente conhecido sendo homenageado através da arte da interpretação, poderia muito bem ter sido o desencadeador de tal corrida ao teatro...  Dúvidas, e nunca me satisfaço se a mente continua cheia de dúvidas. A fila andou... Após pagar tão pouco pelo ingresso... pouco se comparado ao quanto os artistas merecem, muito se comparado ao pouco que algumas  famílias tem para se alimentar. Mais de seiscentas pessoas fizeram sua parte.
                 Sobre o palco um belíssimo facho de luz iluminava um jarro com Lírios, e então começou. O clima proposto era hospitalar. Freira, médicos, enfermeiros. Três praticáveis incluindo uma cama foram usados para lá e para cá auxiliando na agilidade da ação. O público silencioso tardou a compreender o que estava acontecendo, qual a ideia, quais as convenções.
                A narrativa inicia com os já conhecidos Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, ambos fortes, grandes, de coluna viva como o teatro pede. O espetáculo atemporal nos oferece um clima que vai dos anos 20 aos anos 40. Detalhes, muitos detalhes,  típico do trabalho de caracterização da Cia. E então mergulho, eu e provavelmente quase todas as outras seiscentas pessoas. Cenas lindas vão surgindo uma dentro da outra, com uma iluminação  belíssima e uma trilha delicadíssima. As cenas das crianças envolveram e deram um tom de leveza sempre tão presente na obra de Erico. A escolha dos atores que fizeram os pais foi significativa e culminou com o jantar, frio e tenso dos quatro personagens principais do primeiro bloco.  Dona Alzira com a bacia nas mãos naquele quarto mobiliado apenas de uma cama de altas pernas pareceu carregar vários momentos de Erico. E ao pé da cama dos meninos Bruna me lembrou Bibiana, Ana, e Maria Valeria. Um momento muito tocante.
                    Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni triangularam com perfeição. Cléber usando o aplauso do público a seu favor, mostrando assim que o teatro deve sair do palco e ocupar todos os espaços do prédio. E o público percebeu, embarcou, comprou... Renato Casagrande nos dá um Nestinho debochado e intenso. Interessante ver como a adaptação de uma obra depende mais dos artistas envolvidos do que propriamente da ideia inicial do adaptador. Bons atores tornam os personagens tão grandes que ultrapassam a ideia inicial do escritor.
                 Douglas Maldaner e Bruna Malheiros são dois jovens atores com estilos bem distintos de interpretação. Mas é belíssimo ver como ambos rapidamente se entrosaram com a equipe do Máschara. Douglas nos da dois personagens. O primeiro vem para mostrar a clima dentro da casa dos Fontes, o segundo vem para nos mostrar como se tornou a relação entre pai e filho quando Genóca já se tornara adulto. Seu Jango estava bem, pronto para o começo de uma longa caminhada em busca de uma maturidade cênica, o segundo precisa de mais presença e volume. Mas acho que cabe ao artista perceber a confiança que lhe foi depositada com dois papéis já na estreia, aprofundar-se e amadurecer.
                Nessa altura do espetáculo já percebemos que no plano das lembranças tudo que se vê no palco tem tons de verde e branco, possivelmente algo relacionado ao clima hospitalar proposto no inicio.
              O romance iniciado na cena da formatura nos envolve rapidamente, Alessandra Souza nos oferece uma Olivia meninota, que poderia ser  mais misteriosa. A química entre o casal vai crescendo no decorrer do espetáculo. Pena que na cena em que essa relação deveria culminar, a luz prejudicou a ambos. Souza aparece muito mais madura la no final do espetáculo, mas sinto falta de um pouco de expressionismo na figura. Olivia é uma figura que sobressai às páginas do livro e com  que Erico bem poderia ter batizado a obra. O interno que a atriz construiu internamente pode vir para fora. Mas preciso elogiar essa jovem atriz que em A Serpente e agora em Olhai os Lírios do Campo, tem se revelado uma triangular interprete.
            Ricardo Fenner embora há quatorze anos nos palcos, incorpora seu primeiro grande papel dramático, está muito bem. Precisa trabalhar mais os volumes e a postura de andeor para ficar maior no palco. Também aconselharia a rever os figurinos do pai e de Seu Jango, tentar deixa-los com aparência de homens mais pobres.
            O clima do espetáculo vai pesando e o drama se estabelece de forma natural, os circunlóquios do destino são revelados através de marcantes cenas tangenciais. Não conseguimos saber quem são os interpretes dos enfermeiros. Mas cumprem muito bem sua função. Dr. Eugênio está doente!

          A morte simbólica de Olívia, contraste-se com a o casamento de Eugênio e Eunice Cintra. E é difícil a plateia não odiar a mulher que parece interferir no amor tão bonito entre os protagonistas.  Dulce Jorge baixou o volume as vezes. Mas a dicção e o trabalho corporal da personagem estavam incríveis como já se esperava da incrível interprete. A impagável Dulce Jorge é uma atriz intensa, viva, presente e é impossível não me comover vendo sua gana em cena. Prova disso foi a cena do fim da relação entre o casal. Um tour de force para qualquer atriz iniciante.
            Evaldo Goulart provou que para um ator, mesmo um personagem sem nome, ou estar sempre com um figurino que lhe cobre o rosto, não é desculpa para não prender, não interpretar com toda a garra. O jovem ator estava vivo por traz da “máschara”, havia nele um domínio de toda a narrativa. Evaldo foi ator e foi contra-regra, e merecia “parodiando” nossa antiga atriz Angélica Ertel, um céu plus. A cena do tapete andante foi sublime, mas poderia ser mais aproveitada. Palmas também para a festa na casa dos Cintra, o arroz, a agilidade, a iluminação.
       Fernanda Peres, tem a força de uma grande atriz, mas nos deu uma irmã Isolda com vários tons. A impressão é que em cada cena havia uma freira diferente. Era sutil essa diferença, mas para mim que sou plateia há anos, que observo cada gesto, cada inflexão, dava para perceber que falta lapidar essa personagem/tipo.
       As cenas finais precisam de uma revisão, um virtuosismo. Foram lindas, mas um pouco desajeitadas devido a correria de estreia.
      Cléber Lorenzoni nos dá a curva, como era de se esperar, pode vergá-la mais. Mas isso logicamente se dará com a maturidade do espetáculo e com o apoio dos coadjuvantes.  Poderia dizer que lhe foi fácil fazer novamente um papel que vai da infância a maturidade, já que já havia embarcado em outra viagem dessas em Esconderijos do Tempo. Mas só uma mente muito rasa e simplista não perceberia que Eugênio é psicológico, e que Mario é humanista.  Alessandra Souza deve se orgulhar e muito, está sendo colocada no grande grupo de atrizes do Máschara, onde já estão Simone De Dordi, Angelica Ertel, Dulce Jorge, Marcele Franco. Fabio Novello conseguiu fazer um bom trabalho, ainda que com uma iluminação tão restrita. A principiante Barbara Santos preencheu as necessidades na mesa de som. E enfim foi a mágica do Máschara de já estrear com cara de espetáculo pronto!
      Poderia falar aqui em água na bacia, cigarro aceso, dinheiro no peito de Eunice Cintra, mas isso seria rusga desnecessária. O teatro aconteceu, foi sublime. Quem não leu Olhai os Lírios do Campo, o viu sobre o palco. Quem não se emocionou durante, na certa se emocionou no final, com as palavras do diretor. Anos passam, gerações vão e vem. Erico lutou pela literatura, precisou ir embora para ter reconhecimento como escritor/artista. O Máschara luta para não precisar ir embora. A única coisa que precisamos fazer para auxiliar, é sentar na plateia e aproveitar o melhor desse grupo cheio de energia e de ideias loucas.
Parabéns atores loucos!



Cléber Lorenzoni (st. IA) (***)
Dulce Jorge (St. A) (***)
Ricardo Fenner (St. IIIA) (**)
Renato Casagrande (St. II) (***)
Alessandra Souza (St. II) (***)
Fernanda Peres (St. III) (**)
Evaldo Goulart (St. IV) (***)
Fabio Novello (St. IV) (***)
Bruna Malheiros (St. IV)(**)
Douglas Maldaner (St. IV) (**)
Barbara Santos (St.V) (**)



Arte é vida



      

         


O menino Genóca, com suas tristezas e sonhos


A noite do grande espetáculo


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Indicações e Troféus para Atores Coadjuvantes

2015

RICARDO FENNER  por Jezebel/Conde em A Maldição- 1º Festival cidade dos Anjos - 1ª Indicação

2012

Renato Casagrande por Cachorro em Os Saltimbancos no Art In vento - 2ª Indicação

2010

Gabriel Wink como Ágatha, Rafael, Vassili em Maldição no XIº Festival de Itaqui- 2º Troféu

2009

Gabriel Wink por Menandro em O Incidente em XIº DOMPA 3ª Indicação


2008

Renato Casagrande por Mathias em Lili em XVº ERECHIN 1º Indicação

Gabriel Wink por Gouvarinho em Esconderijos em XVº ERECHIN 1º Troféu

Gabriel Wink por Gouvarinho em Esconderijos em 1º FETTEN 1ª Indicação

Gelton Quadros por Malaquias em Lili Xº DOMPA 1º Troféu

2007

Gelton Quadros por Malaquias em Esconderijos XIº FERTAI 1ª Indicação

2006

Rafael Aranha por Gouvarinho em Esconderijos 4º FESTSALTO 1ªIndicação

2003

Luís Lara por Leonardo em Bodas em Xº FERTAI 4ª Indicação

2002

Luís Lara por Bancco em MacBeth em XIIIº FETARGS final 3ª Indicação

Jorge Pittan por Duncan em MacBeth em XIIIº FETARGS final 2º troféu

Alexandre Dill por Macduff em MacBeth em XIIIº FETARGS final 11ª Indicação

Luís Lara por Bancco em MacBeth em XIIIº FETARGS semifinal 2ª Indicação

Luís Lara por Bancco em MacBeth 16º Canela 1ª Indicação

Alexandre Dill por Macduff em MacBeth 16º Canela 5º Troféu

Jorge Pittan por Duncan em MacBeth 9ºFESTVALE 1º Troféu

Alexandre Dill por Bancco em MacBeth 9º Fertai 9º Indicação

2001

Alexandre Dill por Orgon em Tartufo XIIº FETARGS final 4º toféu

Alexandre Dill por Orgon em Tartufo XIIº FETARGS semifinal 7ªIndicação

Alexandre Dill por Orgon em Tartufo 3º Uruguaiana 6ª Indicação

2000

Alexandre Dill por Hêmon em Antígona 1º Festsalto 3º Troféu

Alexandre Dill por Hêmon em Antígona 4º Santiago em cena 4ª Indicação

Alexandre Dill por Hêmon em Antígona 2º Uruguaiana – 2º troféu

Alexandre Dill por Hêmon em Antígona 7º Rolante – 2ª Indicação

1999

Alexandre Dill por Malabarista em O Conto da carrocinha 1º Uruguaiana -1º troféu

Cléber Lorenzoni por Palhacinho em O Conto da Carrocinha 3º Santiago em Cena-4ª indicação

1998

Cléber Lorenzoni por D. Flávia em Dorotéia Vº FERTAI-2º troféu

1997

Cléber Lorenzoni por Fada Morgana em Bulunga o Rei Azul IVº FERTAI-1ºtroféu

1996

João Paulo Perez por Tudo Azul em Bulunga o Rei Azul VIIº FETARGS – 1ºtroféu

Cléber Lorenzoni por Rico em Cordelia Brasil IIIº FERTAI- 1ª indicação

Senhor Poeta ao lado do público


Os Prêmios e Indicações para Melhor Ator


2015

Cléber Lorenzoni como Rosalinda no 1º Festival da Cidade dos Anjos (Santo Angelo) 34ª Indicação

2014

Cléber Lorenzoni como Fred em Feriadão no FESTVALE (Rolante) 33ª Indicação
2012

Cléber Lorenzoni como Ericão - no Art in Vento de Osório 19º Troféu

Cléber Lorenzoni como Gata  no Art in vento de Osório - 31ª Indicação.

2010


Cléber Lorenzoni como Rosalinda - no Art in Vento de Osório 18º Troféu

Gabriel Wink como Ágatha,`Vassili e Rafael no Art in Vento de Osório -1ª Indiação

Cléber Lorenzoni como Rosalinda e Úrsula - 11ºFestival de Itaqui- 29ª Indicação

2008

Cléber Lorenzoni por Sr. Poeta em Lili – 1º FETTEN – 28ª Indicação

Cléber Lorenzoni por Mario em Esconderijos – 1º FETTEN- 17º Troféu

Cléber Lorenzoni por Sr. Poeta em Lili – XVº Erechin – 16º Troféu

Cléber Lorenzoni por Mario em Esconderijos – XVº Erechin – 15º Troféu

Cléber Lorenzoni por Sr. Poeta em Lili – 10º DOMPA – 14º Troféu

Cléber Lorenzoni por Mario em Esconderijos – 10º DOMPA – 13º Troféu

2007

Cléber Lorenzoni por Mario em Esconderijos – 14º FERTAI – 12º Troféu

2006
Cléber Lorenzoni por Mario em Esconderijos – 5º FESTSALTO – 11º Troféu

2003

Cléber Lorenzoni por Noivo em Bodas de Sangue –Xº FERTAI – 20ª Indicação

2002

Cléber Lorenzoni por MacBeth em MacBeth – XIIIº FETARGS – final 10º Troféu

Cléber Lorenzoni por MacBeth em MacBeth – XIIIº FETARGS – 18ª Indicação

Cléber Lorenzoni por MacBeth em MacBeth- 16º CANELA – 9º Troféu

Cléber Lorenzoni por Tartufo em Tartufo- 2º FESTSALTO – 8º Troféu

Cléber Lorenzoni por MacBeth em MacBeth –9º FERTAI – 7º Troféu

2001

Cléber Lorenzoni por Tartufo em Tartufo –XIIº FETARGS final – 6º Troféu

Alexandre Dill por Orgon em Tartufo –VIº Santiago em cena- 1º Troféu

Cléber Lorenzoni por Tartufo em Tartufo – VIº Santiago em cena – 13º Indicação

Cléber Lorenzoni por Tartufo em Tartufo – XIIº FETARGS – semifinal -12º Indicação

2000

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – XIº FETARGS –Final 11ª Indicação

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – Iº FESTSALTO – 10ª Indicação

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – XIº FETARGS –Semifinal 5º Troféu

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – IVº Santiago em cena- 4º Troféu

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – 2º Uruguaiana – 3º Troféu

Cléber Lorenzoni por Creonte em Antígona – 2º Rosário sem Cena- 6ª Indicação

1999

Cléber Lorenzoni por Palhacinho em Carrocinha – 1º Uruguaiana – 2º troféu

Cléber Lorenzoni por Palhacinho em Carrocinha – 9º Guaíba – 4ª Indicação

Cléber Lorenzoni por Palhacinho em Carrocinha – VIºFERTAI - 3ª Indicação

1998

Cléber Lorenzoni por D.Flávia em Dorotéia – IXº FETARGS semifinal 2ª Indicação

1997

Alexandre Dill por Tudo Azul em Bulunga – VIIIº FETARGS semifinal 1ª Indicação

Cléber Lorenzoni por Morgana em Bulunga VIIIº FETARGS semifinal 1ª Troféu

Diulio Penna por Bulunga em Bulunga – 7º Guaíba – 5ª Indicação

Diluio Penna por Andre em Um dia a casa cai – IVº FERTAI – 4ª Indicação

Diulio Penna por Bulunga em Bulunga – IVº FERTAI -1º Troféu

1996

Diulio Penna por Bulunga em Bulunga – VIIº Fetargs semifinal- 2ª Indicação

Diulio Penna por Leônidas em Cordélia Brasil – IIIº FERTAI – 1ª Indicação

1995

Eduardo Gonçalves por Júpiter em O dia em que Júpiter encontrou Saturno – IIº FERTAI – 2ª Indicação

1994

Eduardo Gonçalves por André em Um dia a casa cai-1º FERTAI -1ª Indicação

Coluna no jornal Opinião Pública


Com o troféu de Melhor Espetáculo Juri popular no festival da cidade dos Anjos


domingo, 7 de junho de 2015

Ponto de Vista

Talento, técnica ou o que mais gostei?


Sempre que saio de um festival de teatro, tento encontrar justiça naquilo que vi, pois foi em busca disso que lá estive.
Durante anos falei para atores e público, que o teatro não é para ser gostado ou não. Isso o tornaria muito pequeno, muito simplório. O teatro é para aplacar, chocar, questionar. Nelson Rodrigues já dizia que as boas ações ficavam bem em um jardim de infância, o teatro é o lugar da gangrena.
Atores, atrizes, diretores, contra-regras, técnicos, saem de suas casas e percorrem kilometros em busca de que? Levando em conta a dificuldade em se fazer teatro, levando em conta o amor pela vida no palco, levando em conta a total prostração por essa entrega, só posso pensar que buscamos reconhecimento, luz, e valorização no que se faz. Durante anos, ví grupos se esmerando em alcançar algo que o conhecimento coletivo de vários festivais ia ditando.
Uma grande mestra que muito admiro, uma verdadeira mulher de teatro, por sua luta, garra, conquistas, por tudo isso cabe lhe esse titulo. Disse uma vez: Quem decide os premiados do festival, não somos nós jurados, mas sim uma coisa muito maior, superior a todos nós. Preciso acreditar que "essa coisa maior", é o saber coletivo, o bom senso de todos. Uma percepção cênica que os jurados e demais presentes notam e que é o que faz o todo aceitar, concordar. Se eu for a um festival apenas para mostrar meu trabalho, e esse festival não tiver o caráter ético e serio, se o juri não pensar que está fazendo um serviço ou um desserviço dependendo daquilo que fala, prega ou julga, qual será minha contribuição para o teatro? Para atores de todo o estado que querem melhorar sua obra? 
Uma vez no palco, o que está sendo levado em conta? Minha compreensão do que fiz? O efeito de minha obra sobre o público? A excelência de meu elenco? O profissionalismo de minha trupe? Ou o simples gosto dos julgadores?
Recordo que sempre que estive nessa função, me cobri de culpas e preocupações pela simples imaginação de não ter agido com total sapiência. Estava recebendo para aquilo, estava durante um pequeno período de tempo, com o poder de ditar o que era o certo e o que era o incerto. Atores jovens levariam aquilo em conta por algum tempo em seus novos trabalhos. Em minhas mãos, trabalhos advindos de várias historias diferentes, trabalhos universitário, trabalhos instintivos, trabalhos de pesquisa, improvisos...Por várias vezes preferi trabalhos que perderam, pois me tocavam fundo, mas não os premiei, pois não preenchiam as qualidades  que os ganhadores precisavam ter. Ao mesmo tempo espetáculos com ideologias ou técnicas que não aprecio, eu os galardoei, pois chegavam ao público, os atores atuavam com a primazia esperada. 
No ultimo festival vi muitas coisas, vi atores com domínio corporal incrível, vi cenas tórridas, difíceis de serem executadas, vi atores falando baixo, vi trilhas sonoras absurdamente escolhidas, vi técnica e vi instinto, vi intuição. Lado a lado companhias antigas e jovens. Grandes textos da dramaturgia mundial e carpintarias pequenas, algumas muito amadoras. Vi grandes interpretes, vi aspirantes. Vi talento, vi técnica, vi acidentes... 
Fazer um festival não é fácil, fazer um grande festival é ainda mais difícil. Fazer um festival em que os que não se fizeram presentes sintam vontade de estar na próxima edição, é ainda mais difícil. Pois lida-se com pessoas, seres humanos contraditórios por natureza. Mas não é impossível,  Muitos de nós os presenciaram, com grandes mestres. para citar dois deles: Luis Paulo Vasconcellos e Sandra Dani... Poderia citar vários, mas esses são para mim o Panteão do teatro gaúcho. Agora alguém dirá: Mas qualquer um pode ser jurado! Pois a arte é democrática e o conhecimento não é de poucos. -Qualquer um, se o que estiver sendo levado em conta for o gosto pessoal, se o que é levado em conta é o crescimento justo do todo, a parcimônia e  a tentativa da alusão, nesse caso precisaremos sempre dos melhores. 
Durante muito tempo ausentei-me de festivais, durante toda a década de 90 e a primeira dos anos 2000, adquiri muito em festivais, muito esse que tento passar para os novos atores que o universo nos oferece. SIM essa é a tarefa dos que vem antes de nós, preparar-nos qual anciãos em volta da roda da fogueira. Preciso agora tomar cuidado, não estamos naqueles áureos anos, precisa-se ver bem o que será ensinado ao jovens atores. 
Certamente muitos que lerão essa opinião me criticarão, afinal nesse mundo de rabos presos, onde nossa pequenez é tão visível, ninguém quer se comprometer com ideologias, ou lados do muro, afinal não sabemos qual mão lavará a nossa amanhã. 
Parabéns a tantos tantos tantos que conheci, que o teatro vingue-se por si só e que de forma ou outra o conhecimento nos venha. Que a consciência de cada um não esteja apenas limpa, mas cheia de incertezas. Afinal são as duvidas que nos levam de volta ao palco.



Teatro é vida

A Rainha