segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A pensão de A hora da estrela


A hora da Estrela - (tomo 01)- 80º Cena às 7

                        Profissão é a ação de exercer uma ciência, um oficio ou uma arte. Ao final do espetáculo de domingo a noite, deu para ter uma ideia dos pontos de vista deste diretor que começou sua carreira no Máschara em 1995, há exatos vinte e quatro anos atrás. Cléber Lorenzoni já havia pisado no palco antes disso, dirigido pela diretora Giane Ries. No entanto foi como o Rico de Cordélia Brasil (Ricardo Hoosvelt IIº) que o jovem diretor começou sua carreira. Cléber Lorenzoni tornou-se diretor de espetáculos em 2000 com Antígona (sófocles), em 2005 assumiu a direção com Dulce Jorge e em 2007 assumiu a direção geral do grupo. Em 2013 Cléber Lorenzoni inaugurou a ESMATE- espaço Máschara de Teatro, e em 2018 foi um dos grandes entusiastas da criação do Palacinho do Máschara. 
                                   Cléber Lorenzoni dirigiu inúmeros espetáculos: o hilariante Tartufo (2001), uma comédia poderosa de Molière que arrancou gargalhadas de centenas de pessoas e ainda trouxe grandes prêmios para o Máschara. Em 2005 a adaptação da obra do imortal Erico Verissimo, O Incidente, levou milhares de pessoas ao teatro em todo o estado. Mais de oitenta municípios assistiram as peripécias dos sete mortos de Antares. Ed Mort e A Maldição do Vale Negro ainda abriram espaço para grandes atores e estruturaram um dos maiores grupos do Rio Grande do Sul. Esconderijos do Tempo foi premiado em todos os festivais de teatro em que esteve e mostrou o quanto partituras, conhecimento e técnica são essenciais ao teatro. 
                                      O diretor iniciou em 2013 esse incrível projeto de formar atores, e daí já surgiram grandes interpretes como Clara Devi, Stalin Ciotti, Laura Hoover, Vagner Nardes e Gabriel Giacomini. Na noite do dia primeiro de setembro eu tive o privilégio de ver novos atores despontando e principalmente ver uma direção muito coerente e sensível sobre o palco. A hora da estrela, ultima obra de Clarice Lispector ganha montagem muito íntegra e honesta. 2019 tem sido um ano exaustivo com inúmeras discussões politicas e a arte nunca esteve tão banalizada e desrespeitada, mas Cléber Lorenzoni continua lutando, levando ao público uma mensagem muito importante: "nós não vamos parar de fazer teatro, nós somos o Máschara e nos reinventaremos ano após anos e aqui ficaremos".  Kauane Silva foi escolhida para encabeçar um elenco de atores e não atores, a jovem atriz ainda é uma aprendiz, mas sua primeira protagonista não deixa a desejar em nada. Emoções, energias, ritmo, força, tudo estava presente em pouco mais de uma hora de narrativa. O espetáculo não era realista, Lorenzoni não aprecia esse tipo de espetáculo, é preciso ser simbolista, é preciso passear pelo surrealismo, pelo subconsciente para tocar realmente a platéia. Para criar sua assinatura estética o diretor foi dissecando a obra, reestruturando-a em uma alegoria. A novela da vida humana. Um novela de rádio apresentada por Rodrigo S.M., um alter ego de Lispector. 
                                               Macabéa sofre como sua criadora sofria nos últimos dias de vida, enquanto um câncer a massacrava. Talvez a fragilidade à que se sentia exposta e a frieza com que precisava enfrentar a doença, deram à Macabéa um tratamento fatal, feroz. A alagoana virou estrela, nos últimos minutos, assim como a arte concede ao artista o estrelismo máximo após sua morte. 
                                                   Kauane Silve abraçou Macabéa com unhas e dentes, sofreu com ela, compreendeu-a e certamente morreu um pouco com a personagem. Interpretar é aceitar morrer um pouquinho, afinal parte de nós fica ali, estatelado sobre o palco. Nossa maturidade cênica leva embora um pouco de nossa ingenuidade humana. Macabéa é diferente do dito normal, e por isso parece tão fantástica, até inverossímil; no entanto é quando nos vemos ali, quando percebemos em nós sua fraqueza , que compreendemos a grandeza criada por Clarice. 
                                                     Cléber Lorenzoni revelou através das moças da pensão, de Glória, da senhoria, de seu Raimundo, de Olimpico  e de outros pequenos tipos, a maldade humana. A capacidade do homem em eleger o lobo fraco da matilha e defrauda-lo. Assim tem sido com os negros, os índios, as mulheres, os LGBTSe tantos outros. Macabéa não percebe, mas chega a um ponto tão extremo de anulação, de pressão, que sua única saída só poderia realmente ser a morte, e até mesmo após a morte a maldade se faz presente. O "tipo" de Antonio Longui joga-se sobre o pequeno corpinho de Macabéa e arranca-lhe o que há em sua carteira, aliás o jovem aluno entregou-se no palco com muita energia, ainda que em uma participação pequena. Espero que se esforce sempre para o vermos mais presente em novas montagens da turma.
                                                         Protagonizar um espetáculo não é tarefa fácil. Há o risco de tronar-se antipático e cansativo perante a platéia. Kauane vence esse desafio, comove e até faz rir. Falta-lhe ainda um domínio maior do elenco coadjuvante, algo que certamente irá alcançar com um pouco mais de estudo. Seu elenco de apoio é bastante diversificado. Isso acrescenta ao espetáculo um ritmo próprio, uma energia explosiva. Ana Claudia por exemplo tem potencia vocal muito intensa e embora sua vibração vocal se apresente um tanto monocórdia, o élan, ou a "presença" é muito forte. O tom da pensão é vigoroso, graças às rixas entre as meninas, muito bem incorporadas por Martha Medeiro, Eveline Drescher e Alessandra Souza. A primeira muito engraçada em sua composição, a atriz criou praticamente do nada uma personagem quase fanática, uma figura cheia de códigos e símbolos que muito enriqueceu o espetáculo. Eveline pode ser mais malvada, e Alessandra, embora forte em cena e com presença aplaudível, poderia lapidar melhor sua MAria José.
                                                           Leonir Batista me orgulha muito, teatro não é para crianças ou jovens, teatro é para todos. Leonir compôs com dedicação um papel pequeno mas de indispensável importância à narrativa. Volume e segurança no palco. A complexidade da obra literária transforma-se em drama com a capacidade de Cléber em lidar com o "grande mecanismo", não há sequencia lógica, ou temporalidade. Uma cena vai simplesmente transformando-se em outra. Sem que se diga nada, conseguimos perceber que dias se passaram. Rodrigo S.M. continua presente, narrando a divina comédia, suas partner's são ironicamente assustadores e anunciam na primeira cena o final triste que virá. Quando Macabéa se vê cercada pelas mesmas três jovens dançarinas na pensão e no hospital, percebe-se que elas estão ali como os cavaleiros do apocalipse. Os humores que nos fazem rir em A hora da estrela me lembram muito o desequilíbrio humoral apontado pelos gregos. O popular sanguíneo e o sereno fleumático, eles vão nos revolvendo até grand finale, quando o forte colérico e finalmente o soturno melancólico encerram a cena. A apoteose epilogal, não tão constante quanto os prólogos em espetáculos do Máschara, arrancou lágrimas da assistência. 
                                                        Ricardo Fenner e Cléber Lorenzoni, atores de anos do Máschara, fizeram pequenas pontas, assim como Gabriel Giacomini. Que agradável ver grandes atores dividindo espaço com quem está começando. Para isso servem as montagens da ESMATE. O quadro hospitalar e a ópera são dois momentos sublimes. Ali mais uma vez destacam-se Martha Medeiro e Alessandra Souza corporalmente.  Eliane Alessio quase foi aplaudida em cena aberta, sua veia cômica abriu espaço para que a dor de Macabéa ficasse ainda mais forte. Caracterizações impecáveis, maquiagens pontuais. Rick Lanes apareceu pouco, mas acresceu delicadeza e sensibilidade à cena. Talvez o humanidade das personagens em seu sentido mais simples seja um dos grandes méritos da obra: o pipoqueiro, o metalúrgico, a estenógrafa, a cartomante... Romeu Waier é outro achado da produção, seu tom gutural prejudicou um pouco sua cena, mas não tirou o brilho de sua interpretação. Eis outro ator cômico e com perspicácia de quem nasceu para a arte. 
                                                        Ainda no plano do surreal, o espectro de Merilyn Monroe é um achado perfeito, encarado por Wagner Nardes com coragem e delicadeza. O ator consegue ser feminino com a afetação característica do ícone que incorporou. Renato Casagrande passeou pelo palco como se esperava. Foi narrador, contador, radialista e analista. A personagem de Rodrigo S.M. ainda tem muito a descobrir, pois faz parte das entrelinhas da autora, Casagrande tem que imaginar que interpreta não um radialista, mas a própria Clarice. 
                                                          Maldaner compôs seu melhor trabalho no Máschara até hoje. Sutil, forte, engraçado. Um ator que logo deverá subir de Status. Talvez possa ainda ser mais bruto com Macabéa, mas sem perder essa delicadeza do ator, que torna Olimpico mais fracassado como deve ser.  Lorenzoni dirigiu, coordenou, preparou, ensinou e atuou e pelo que soube há pouco, executou a iluminação do espetáculo. Como consegue fazer tudo?
                                                                Os méritos de A hora da Estrela são vários, parece que nasceu uma estrela de várias pontas, que ainda pode brilhar muito. Li o livro há duas décadas atrás, não li novamente agora queria revê-lo através do estilo Máschara, e aprovei.
                                            
                          O melhor: Além do elenco feminino, a luz tão linda mesmo com tão poucas condições, montada em quase que sua totalidade por Evaldo Golarte e operada por Cléber Lorenzoni. 
                                     O pior: a falta de entrega por parte de alguns membros da equipe, o que quase pôs tudo a perder e as incompetências que colocam em risco um trabalho perfeito.

        Arte é vida
   
                                                                                                 A Rainha

                              Grupo Máschara e sua técnica

                      Kauane Silva- (***)
                      Evaldo Goulart (***)
                      Stalin Ciotti (**)
                      Clara Devi (*)
                      Ricardo Fenner (**)
                      Alessandra Souza (**)
                      Douglas Maldaner (***)
                      Laura Hoover (**)
                      Fabio Novello(**)
                      Gabriel Giacomini (**)

P:S: Um agradecimento especial à contra-regragem de Maria Antonia Silveira Netto, à pedido do diretor Cléber Lorenzoni
                       


                                                                 
                                     
                                                       
                                                       

Equipe reunida na estréia de A Hora da Estrela


Noite de sucesso com a plateia de A hora da Estrela


Macabéa e Tia em A hora da Estrela


Vagner Nardes como Merilyn Monroe