terça-feira, 30 de abril de 2019

845- A Roupa Nova do Rei (tomo 4)

                   Há tempos venho acompanhando as atividades teatrais no interior do estado, principalmente no que elas tem apresentado em seu movimento renovador; ficamos nas mais das vezes, gratamente surpreendido pelo que é realizado, pelo nível atingido por aqueles que realmente se dedicam ao teatro com seriedade, pois, ao lado dos acontecimentos teatrais, temos procurado acompanhar o movimento de formação dos atores, que infelizmente em muitos grupos e companhias continua aquém das necessidades mínimas dos nossos teatros. 
                                 A formação dos atores é preocupação de poucos e mesmo os jovens atores são pouco motivados a procurar o conhecimento e a teoria, o que já devia estar neles no dia em que decidem integrar companhias teatrais. 
                                   Essa falta de atores treinados, de bons professores ou boas escolas preparadas é o que gera a falta de grupos de teatro, sim o estado deveria ter muito mais companhias. Atores interessados em falar, diretores criativos que colocassem seus pontos de vista a serviço da sociedade.
                                   Costumo dizer que se faltam grupos de teatro é por que talvez faltem coisas a ser ditas, talvez os jovens de hoje não tenham ponto de vista a que declarar. No entanto no interior, em cidades, vilarejos, distritos onde nunca houve teatro, onde grupos oriundos de grandes cidades nunca passaram, ali o teatro não tem raízes.
                                    O Máschara me enche de orgulho por que há nele uma busca continua que se vê principalmente na fala de Cléber Lorenzoni. Um correr atrás da ação perfeita, do jogo correto. O Máschara não quer só levar ao público uma boa peça, mas também um bom texto, boas canções, uma proposta estética a altura. Esperança, emoção, deslumbramento. A Roupa nova do Rei é um espetáculo infantil, mas tão bem colocado, tão elegantemente pontual. Trabalho de primeira com um jogo cênico perfeito.
                                    Em cena cinco atores: Cléber Lorenzoni que também assina a dramaturgia, Renato Casagrande, Alessandra Souza, Raquel Arigony e Gabriel Giacomini.  Lorenzoni nos propõe uma farsa cheia de energia, ritmo, densidade. Em cena Renato Casagrande como vilão em uma interpretação forte, sua principal característica é a energia com que entra em cena, o potencial sonoro e o trabalho corporal.
                                         No Máschara a formação se dá pela "tradição", herdam-se muitos papéis, advindos de atores que duraram muitos anos na companhia e se tornaram excelentes no que faziam. Aprende-se muito do oficio "na raça". No século  XIX os principiantes aprendiam e desenvolviam seus talentos nas periferias, fazendo pontas, substituições e finalmente bons papéis. Ora, de certa forma essa é a regra do Máschara, a diferença é que naquele tempo as marcações eram simples: levanta-se, sentar-se, dar três passos a frente, para proferir uma fala diante da caixa do ponto. As personagens correspondiam a tipos convencionais. Em suma, era preciso somente dizer o texto com certa desenvoltura e conhecer alguns truques para "tirar efeitos". Isso era maravilhoso, pois assim os atores aprendiam na observação, no jogo com atores mais velhos, uma prática infalível. No Máschara há um diferencial que é o ESMATE. Ali os atores aprendem os mais diferentes temas, debate-se estuda-se todo tipo de técnicas, autores. Dali surge o jovem Gabriel Giacomini, aluno do espaço Máschara, esforçado, curioso, e que reflete os seis anos de ESMATE em suas cenas. Durante os ultimos ensaios foram das a ele novas coordenadas, e essas foram vistas em cena. Ele contracena com Cléber Lorenzoni com uma sinergia incrível. Ambos transitam um pela esfera do outro. Quando se vê um jovem como ele, com a tridimensionalidade que alcançou, não há como não se emocionar. O poder do teatro...
                                           No âmbito feminino, duas forças bem específicas: Alessandra Souza e Raquel Arigony, a primeira mais buscadora da técnica perfeita, regida por regras ancestrais do fazer teatral. A segunda não menos voltada para a ancestralidade, mas instintiva, antropofágica. Ambas esparramam-se pelo palco cada uma com sua verdade. Raquel tem a seu favor uma compreensão corporal tão intensa, que a personagem chega até nós muito mais por sensações do que por convenções do velho teatro. Souza triangula com um corporal muito intenso, posturas da commedia dell art. O que me preocupa é um certo virtuosismo que parece aquém do espetáculo, uma preocupação em estar em cena e não em ser em cena.
                                                Cléber Lorenzoni tem um estilo muito interessante de dirigir e conceber. Seu texto é construído em câmara, com improvisações e testes sobre os atores. Não há narrativa advinda de libretos que o detenham. Não há papéis pequenos, não há número de falas, há intensidade cênica. Um ator de Cléber Lorenzoni é valorizado como parte de um todo e em todo esse todo reflete-se sua atuação.
                                                 A iluminação que havia no espetáculo era pouco perceptível, quase uma geral branca. A operação do som é feita de forma perigosa, quase colcoa em risco com volumes exacerbados e ausências inexplicáveis. A trilha sonora, o cenário, os figurinos e a maquiagem nos dão a grandiosidade detalhista da pesquisa sobre o tema: Fantasia, fábula, contos, palácios, medievo... Enfim um espetáculo infantil delicioso que todas as crianças deveriam assistir.

Cléber Lorenzoi (**)
Renato Casagrande (**)
Alessandra Souza (**)
Gabriel Giacomini (***)
Raquel Arigony (**)
Fabio Novello (*)
Stalin Ciotti (*)
Clara Devi(***)
Laura Hoover (**)
Kauane Silva (**)
Evaldo Goulart (***)

                               Arte é vida


                                               A Rainha
                                              

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Renato Casagrande -Judas em Paixão de Cristo


Jesus sendo tentado pelos demônios


Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni em cena em As Balzaquianas com a poderosa luz de Renato Casagrande


Debate do espetáculo As Balzaquianas em Santa Rosa/RS


Troféu de melhor espetáculo infantil


FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO


Raquel Arigony e Cléber Lorenzoni - A roupa Nova do Rei - Festival CENA VIVA


Alunos da ESMATE turma Adulto em exercício de construção - Augusto Boal


Dulce Jorge intensa e visceral em cena em As Balzaquianas


Momento de descontração no CENA VIVA


Cléber Lorenzoni como a complexa Adelaide Fontana no festival Cena Viva


Pose dos alunos da ESMATE em mais aulas da turma adulta


Turma da esmate BABY com os livros da escritora Leonir Batista


Espetáculo Infantil A roupa no rei no festival de santa rosa


Um close na aula da ESMATE- Turma adulta


segunda-feira, 22 de abril de 2019

844 - Paixão de Cristo -Cruz Alta ano III (tomo IV)

                                                  A Prata da Casa

A pia função de engrandecer a vida de cristo na época da quaresma, vem de longa data, e embora seja uma forma de encher os cofres das companhias teatrais é também uma maneira do artista entrar em conexão com sua platéia e encontrar de forma mais pontual uma maneira de tocá-los mais
profundamente com a arte. 
A interpretação  de temas religiosos remonta do medievo. Naquele período, o enfoque artístico era especificamente religioso e comandado pela classe dominante, quase toda de composição eclesiástica. Sua intenção era transmitir o ideário e a liturgia do cristianismo à massa de camponeses e aldeões iletrados. Pintura, arquitetura, escultura, tapeçaria e até mesmo o teatro eram trunfos doutrinários a serviço da igreja. 
No Brasil do inicio do século XX, as casas de espetáculos do Rio e de outras cidades divulgavam peças com a narração de episódios da Sagrada Escritura que eram encenadas por diversos elencos, acrescidos a figurantes amadores contratados muitas vezes às pressas entre amigos e conhecidos. Anão de circo virava centurião romano, o palhaço deixava o gibão no armário e vestia-se de apóstolo, isso quando não interpretava o próprio Nazareno. Sem saber, talvez, esses atores estavam por questões de necessidades desenvolvendo suas capacidades e tornando-se melhores atores. 
Os pés da Catedral de Cruz Alta foram palco para uma encenação poderosa. Um grande espetáculo que tomou uma grandiosidade, pasmem, maior que a da caminhada até o santuário de Fátima,
ocorrido nos anos anteriores. A partir das 17 horas da tarde o público começou a se aglomerar, e quem estava lá desde cedo ouviu comentários, viu os táxis que se recusavam a sair da rua, viu o cãozinho que passeou pelo palco das cruzes, viu a menina que sentou na escada com a boneca. Ou seja, o teatro, de qualquer forma faz parte tão comum, tão naturalmente da paisagem cruzaltense. O Máschara aproximou uma comunidade inteira da arte cênica. Eis a primeira divida de muitos artistas de outras áreas e de outras localidades que vem à Cruz Alta. O máschara preparou as plateias, deselitizou a arte da encenação.

O Máschara domina totalmente a encenação ao ar livre, possivelmente herança das tournês de Lili Inventa o Mundo (2006) e O Incidente (2005), a rua confere ao teatro as surpresas da intempérie, o risco do novo e desconhecido. Pessoas passando, cães latindo, crianças de bicicleta. Como a celebre frase do menino durante uma encenação do texto  O Mártir do Calvário de Eduardo Garrido em 1901: -Mãe, o cristo é o palhaço! - Pois realmente o ator que interpretava na semana santa o Messias, era o principal palhaço do circo. 
Na ultima sexta a noite, um morador de rua sentou-se em seu camarote ao lado da escada do terceiro palco e ali assistiu comovido a encenação. E foi tão respeitado por platéia e atores, que foi impossível não admirar ainda mais os atores que o tocaram e tentaram incluí-lo na cena. 
Um espetáculo com uma trilha incrível. Sarah Brightman cantando ave maria, a composição do jovem Gabriel Giacomini que não sei se tem nome, mas deveria. Aliás, por que o jovem não compõe para um espetáculo inteiro?
O espetáculo durou pouco mais de uma hora e meia, mas não vimos o tempo passar devido ao virtuosismo do elenco, a agilidade das cenas, o objetivismo dos palcos. Para 2020 tenho apenas uma dica, e não sei se funcionária, sou ótima em criticar e opinar, mas péssima em criar. Talvez os atores devessem ficar parados enquanto alguém se pronuncia, pois como vemos muito de longe, as vezes não temos certeza durante um tempo, de qual personagem está vindo a fala. 
O teatro, a atuação é um misto de estudo, instinto e acaso. Tudo isso chamado de talento e técnica, vontade e jeito. Em um espetáculo com tantas capacidades misturadas, com tantos atores de verdades distintas, surge uma composição belíssima, madura. Pilatos, Madalena, e Judas tem nuances incríveis que nos dão novas percepções de suas existências. Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza, Renato Casagrande, Dulce Jorge, Ricardo Fenner, Fabio Novello, Laura Hoover, e VAgner Nardes nos deram grandes personagens. Redondos, profundos. A dramaturgia desse ano é eficaz, perspicaz e cuidadosa. 
Já aguardo a narrativa de 2020. 
A cena de encontro entre Maria e Jesus ao som da ave maria arrancaram lágrimas até dos mais fortes.
Um jogo perfeito, toques, suspiros. emoção intocável. O tempo conferiu à Dulce Jorge uma maturidade cênica imbatível. 
 Mas hoje vou falar um pouquinho mais de Alessandra Souza. A mulher de magalen. Alessandra Souza foi aluna de Cléber Lorenzoni em 2008, onze anos atras. Já passou por vários sistemas de interpretação e escolas de atuação do Máschara. Estilos diversificados que Lorenzoni tenta trazer para a Cia. Alessandra Souza foi a galinha de Os Saltimbancos (2012), foi Olívia de Olhai os Lírios do Campo (2015) e ainda a Margarida de O santo e a Porca (2012). Foi Ereda em Complexo de Elecktra (2016) e Lígia  em A Serpente (2013) Foi Maria no auto de Natal (2017), a produtora estressada de Deu a louca no ator (2011) e ainda a doce Ana no auto de Natal de 2018. Participou como Mulher Adultera da segunda edição da Paixão de Cristo (2018) e Madalena (2017) (2019). Destacou-se como Bruxa chefe Bruxamentos e Encantarias (2017) e ainda a provocante Serafina em Lendas da Mui Leal Cidade (2018) Atualmente podemos e devemos vê-la como Lady Zuzu em A roupa Nova do Rei em cartaz desde 2017. Alessandra Souza tem uma carreira lindíssima no teatro cruzaltense e deve ser respeitada e aclamada pois fez muito pelo teatro. Alessandra Souza tem um estilo teatral mais voltado para a escola de Stanislavski , método da memória emotiva e certamente ainda vai nos alegrar e surpreender  com muitos papéis incríveis. A Madalena desse ano, trouxe mais dor e força à mulher aos pés da cruz. 
Outras tantas interpretações foram marcantes, algumas jovens como Antonia Serquevittio e Laura Heger evoluíram e muito em cena. Kauane Silva destacou-se e muito em uma criação coletiva entre ela e Cléber Lorenzoni, será que o público percebeu a figura de Santa Rita de Cássia em cena? Uma belíssima escolha estética. As vezes os atores tem certa dificuldade em compreender propostas estéticas, eis um grande exemplo.
Jorge Waier está assim como outros colegas, em seu primeiro grande trabalho, em um espetáculo grande, com uma participação pontual. Merece grandes aplausos, reflexo de sua dedicação nas aulas da ESMATE. 
Enfim, interpretações incríveis, respeito ao público. Conhecimento da arte teatral. Uma dica a todos: Valorizem as aulas da ESMATE, estudem, quem ganha é o público, que se delicía, aprende, desenvolve um olhar crítico.
Uma pena os organizadores deixarem quase tudo nas mãos do elenco que deveria ter investido em mais uns dois contra-regras. Felizmente a direção é muito capacitada e consegue dividir funções e organizar um belíssimo show. 

O melhor: O elenco incrível, versátil e cheio de garra. 
O pior: a falta de estrutura, faixas para conter a platéia e pouco vontade de alguns dos prestadores de serviços.

Preciso super parabenizar Dulce Jorge que brilhou como Maria - Cléber Lorenzoni que conseguiu criar/compor um novo Jesus - Renato Casagrande pelo Judas de Cariot muito visceral e ainda  Vagner Nardes que se portou como um grande ator do Máschara.
Mas dedico (***) a todo o elenco.

Festival de Santa Rosa



Três grandes- Vagner Nardes - Renato Casagrande e Ricardo Fenner


domingo, 21 de abril de 2019

No dia do espetáculo


Divulgando o dia "D"


Jesus sendo testado pelos demônios

Em cena os atores Gabriel Giacomini, Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande

Momentos de emoção com Alcides Cossettin, Rick Artemii e Romeu Waier


Equipe de 2019 - terceira edição do espetáculo: Paixão de Cristo - Cruz Alta/RSelenc


A descida da cruz



Crucificação em Salo do Jacuí, cenários lindissimos


A equipe se preparando para iniciar os trabalhos - Salto do Jacuí/RS


sábado, 20 de abril de 2019

843- Paixão de Cristo - Salto do Jacuí - tomo (III)

                        Muito do que se vê em cena é reflexo do que emana da platéia para o palco. A energia que o público envia para os atores, um misto de sua curiosidade, admiração e interesse na historia contada. De qualquer forma, imaginar que tudo o que acontece durante um espetáculo é graças ou culpa do talento dos atores, é na verdade um pouco de ignorância e ingenuidade. 
                        A equipe técnica, delimita e impõe o clima do espetáculo em 30%, o público em 40% e finalmente o trabalho do ator fica com outros 30%. Soma-se aí ainda o ambiente e a intempérie.  Sobre o palco, o teatro carrega toda a arte. O que me faz perguntar se a arte-cênica não é a aproximadora de todas as artes, já que uma representação teatral é uma estrutura composta por elementos que pertencem a todas as outras artes: Poesia, arquitetura, musica, dança, artes plásticas, oratória, moda, pintura, etc. Cada elemento traz consigo para o palco uma gama de signos e um grande número desses signos se perde, e há ainda os signos que se transformam em outros signos. 
                         Essa polissemia da arte teatral faz com que uma mesma cena possa ser compreendida diferentemente por espectadores diferentes. Por exemplo, representa-se uma cena de despedida, onde o diálogo é acompanhado por uma música. O espectador que seja músico dará uma importância preponderante à musica, mas para o espectador mais sensível à dicção prevalecerá o elemento declamatório. Esta polissemia da arte teatral que a distingue das outras artes, permite que espectadores com gostos diferentes e com exigências estéticas diferentes compreendam a mesma peça. 
                         A capela erguida no inicio do século passado, deu ao espetáculo o tom perfeito para impulsionar clima das cenas. Fiquei de pé oferecendo meu lugar a uma senhora uns dez anos mais velha que eu. Passei parte do espetáculo cuidando suas expressões. Sempre fui curiosa o que me confere uma capacidade de quase compreender o que se passa na mente das pessoas ao meu redor. Analiso suas reações, seus micro-gestos. Não sirvo para o palco, disso tenho certeza, mas sou observadora avida das posturas humanas. Logo de inicio percebi na senhorinha a curiosidade latente de quem procura compreender o que irá acontecer. Uma placa enorme a impediu de ver em toda a sua plenitude a cena de Maria com Jesus e Madalena. Eu me espichei o suficiente para ver a riqueza de detalhes com a qual Souza e Jorge tentaram melhorar sua cena. Ambas atrizes de anos. Que discretamente adentraram suas cenas com sutileza e vivacidade. La Jorge é a Maria perfeita, e embora em alguns poucos momentos tenha se atrapalhado na dublagem, concedeu ao espetáculo uma expressão corporal lindíssima. Coluna, níveis de deslocamento, equilíbrio de luxo, enfim tudo o que orgulharia o mestre Meyerhold. As cenas que se estenderam pelo palco da direita culminaram com o martírio do cristo, tão, tão triste que a senhorinha de nome Altiva (que vim a descobrir depois), não se conteve e lhe foi alcançado uma garrafinha d'água. Essa possibilidade catarziana foi de extrema importância para que o público não esqueça jamais de tão celebre apresentação. Mas também para revelar que havia algo estranho acontecendo. Eu mesma demorei para perceber os sinais. Mas eles estavam ali. O espetáculo havia sido prejudicado e muito por uma equipe técnica que de toda forma estruturou completamente equivoca a mise en scene. Sombras exageradas dignas de um expressionismo alemão; público muito distante dos atores; tilha sonora extremamente baixa; luzes que não foram acesas. Não sei por que Lorenzoni contratou a equipe de som e luz, mas é necessário conversar com eles. Rever posturas e equilibrar arestas. 
                       
 Parabéns ao diretor seus atores são muito bem preparados. Com tantas mudanças de níveis, de cenários naturais, ainda assim eles conseguem fazer um grande trabalho. 
                          Dona Altiva levantou-se em pé durante o texto da ressurreição e com as mãos unidas e cabeça baixa, parecia rezar. Foi tocada. Tocada por toda a força de um auto religioso. De uma "Paixão" no sentido teatral medieval da palavra. 
                           Eu voltei para Cruz Alta exausta. Triste por tudo o que a equipe de som e luz e os organizadores do evento promoveram durante o espetáculo, mas muito orgulhosa pelo profissionalismo e energia do Máschara.  
                              Vi grandes interpretações, vi alguns poucos equívocos, mas vi arte!
                               Nos apóstolos o destaque foi para Gabriel Giacomini que se coloca na cena com toda a postura de um grande ator. Um jovem de tantos talentos Douglas Maldaner as vezes parece preocupado mas vem melhorando a cada apresentação. 
                               Stalin Ciotti da um banho e para quem não viu, interpreta quatro personagens. Talento e instinto.
                              Ricardo Fnner amadureceu e muito bem como praticamente todos os atores do Máschara. Com o apoio de Vagner Nardes, a cena dos velhos do templo tem um enorme poder critico/politico. Em 2020 espero ver Nardes em outro grande papel.
                              A noite foi das mulheres, Lorenzoni me disse que Laura Hoover estava abatida durante o dia. Não pareceu-me. Ao contrário, estava ainda melhor que nos dias anteriores. Laura Heger buscando a bacia e quebrando e ainda a capacidade de Antonia Serquevittio de ir crescendo em cena a cada dia me encheram de admiração.
                                 
Alessandra Souza (*) muito capaz, mas pode ter ainda mais noção de equipe. Brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Dulce Jorge (***) orgânica e muito intensa, uma dama do palco
Renato Casagrande (*) Menos é mais, status um deve liderar com humildade, brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Douglas Maldaner (*) Um pouco mais de concentração, brigas nos bastidores são péssimos exemplos.
Stalin Ciotti (**) Ótimo ator, mas é necessário ensaiar tudo antes de cenas complexas para ter domínio junto a cenários e adereços.
Laura Hoover (***) Perfeita
Clara Devi ótima como sempre. Sua capacidade de ajudar os colegas merece (***)
Kauane Silva (***) Destaca-se muito na cena do templo
Cléber Lorenzoni (*) Estava magnifico, mas precisa aprender a não deixar os problema técnicos interferirem negativamente em suas cenas.
Gabriel Giacomini (***) O garoto dos talentos.
Ricardo Fenner (**) Maturidade cênica perfeita, pena ter deixado a porta do templo aberta, de onde eu  estava enxergava mochilas e bolsas.
Fabio Novello (**) Bom Pilatos, vem crescendo a cada apresentação.
Evaldo Goulart (***) Três papéis, muita energia, muita entrega.

Artistas Convidados:
 Antonia Serquevittio - Maria Antonia Silveira  Netto - Eliane Alessio - Laura Heger - Ellen Faccin (pela contra-regragem) (***)

Jesmar Peixoto - Antonio Longui  - Nicholas Miranda - Romeu Waier - Rick Artemii - Vagner Nardes - Gabriel Barbosa - Felipe Padilha (ser mais atento) (**)

Gabriela Fischer - Respeitar sempre os colegas e professores (*)

                                     Arte é Vida
                     
                                                                      A Rainha
                             

Momentos de Emoção em Paixão de Cristo


Elenco de A Paixão de Cristo em Ijuí


Momentos elencados no Jornal da Manhã após repercussão de espetáculo



Chegando em mais uma cidade



Equipe do Máschara chegando a Salto do Jacuí/RS


quinta-feira, 18 de abril de 2019

842- Paixão de Cristo - Ano III (tomo II)

             chofer. O assunto em voga, era grenal e eu não tinha como esquivar-me a perguntas tais: -Qual seu time? -Grêmio ganhou mas Inter já havia ganho... etc... -Enquanto a outra falava eu pensava no quanto o ser humano se organiza em torno de ações humanas de grupo. No quanto precisamos de vida em sociedade com assuntos que nos ligam. Afinal se não fosse assim, como nos perceberíamos, como nos reconheceríamos enquanto conjunto humano. Há milênios o homem percebeu que não bastava unir-se para acasalamento ou para aquecer-se à noite. Era preciso mais. Era preciso rituais, mesmo a conversa a volta da fogueira para ouvir historias dos antepassados, era uma maneira de nos organizar socialmente. Liderar, cativar, sensibilizar, exemplificar... 
 Enquanto retornava a Cruz Alta, de carona com uma amiga, ouvia comentários sobre o futebol, não estava muito interessada, já que saía de uma apresentação teatral e carregava em mim um misto grande de emoções que merecia silêncio e reflexão. Mas como disse, estava de carona, precisava devolver a gentileza em forma de "papo" e atenção para com minha
                    Duas horas antes, no interlúdio do espetáculo, o hino nacional ecoou pelo ginásio. Um belíssimo ritual, que deve ser respeitado. Um ritual patriótico, que estica seus braços sobre todos que vivem em solo brasileiro. E ainda que alguns torçam o nariz, ou recusem-se veemente a respeitá-lo. Ele nos torneia quanto ao enorme grupo humano a que pertencemos. 
                      Ora o teatro é um ritual. Um ritual que nos recorda quem somos, e de onde viemos. Um ritual que serve para educar-nos, ao menos foi esse o seu princípio ainda na Grécia. Reverenciar os Deuses, elevar o heroísmo, apontar os erros, valorizar a vida. A igreja católica sabia disso e após a queda do Império Romano, usou dos princípios teatrais para controlar a vida dos cidadãos. Os textos encenados pelos membros clericais após as missas ou procissões, tinham como temas as passagens bíblicas, os milagres, os mistérios, os sermões, os autos sacramentais, as biografias de santos e os dramas litúrgicos. Muitos deles eram apresentados em latim. Na época o teocentrismo era o conceito chave, ou seja, Deus era o centro do mundo, ele que regia todo o universo. O homem tornou-se no mundo atual, o centro do mundo. Tudo emana do homem e para o homem. Nossos heróis são rapidamente substituídos, os erros são agora questionáveis, as vezes justificáveis. Mas por que então essa historia continua sendo evocada? Contada? 
                        Por que o principio ritual do humano, sua vontade de evocar a vida ao redor da fogueira nunca irá morrer. Silenciosamente na noite de ontem os pais com filhos no colo repetiam o ato humano de dois mil anos. No palco ancestrais de todos nós eram relembrados e reverenciados, na necessidade humana de se reconhecer, de se espelhar, de contar-se repetidamente como forma de perseverar a espécie. 
                         Foi uma noite extremamente emotiva. Fiquei orgulhosa de poder dizer: Eu sou da mesma cidade desses atores! Como não se orgulhar com tantas técnicas, com tantas sutilezas, nuances, imagens. Cléber Lorenzoni faz de seus atores gato e sapato, em prol do melhor. Tanto é que já saio de casa pensando:  o que farão de novidade hoje esses tresloucados?
                            O teatro era de arena. Bem diferente do formato apresentado em Ijuí. E muito mais interessante. O público posicionou-se em escala social, revelando mesmo no espaço teatral as diferenças de classes. Acentuadas pela postura imposta pela estrutura social e econômica. Nas cadeiras do ginásio a elite, silenciosa, engomada. Nas arquibancadas o povo, dividido entre a cantina e as redes sociais em seus aparelhos celulares. 
                              Logo na recepção o criativo ator Stalin Ciotti em um papel que lhe parece servir qual luva(***). Logo de inicio a atriz Dulce Jorge(***), tão cheia de vigor, usando muita coluna, e planos físicos. A atriz que interpretou tantos papéis marcantes em sua longa carreira teatral, só nos podia dar uma Maria com essa expressividade ímpar. Uma pequena rusga em sua belíssima atuação foi o equívoco em relação ao lado em que seu filho Jesus surgia na cena. No entanto a força com que preencheu o pé do madeiro quase ofuscou o restante do elenco. 
                               
   Logo uma galeira de atrizes talentosíssimas marchou pela cena. Kauane Silva  (**)com sua expressividade efusiva. Clara Devi(***) tão visceral no piso gelado da quadra, seduzindo a todos ainda que sem uma única palavra. Laura Hoover (**), Alessandra Souza (**) e Eliani Alessio (**) compõe além de lindas, personagens repleta de nuances, conferindo ao espetáculo um apuro impecável. Mesmo as coadjuvantes com participações menores estão muito bem ensaiadas e preparadas. Maria Antonia(***) muito convincente e ainda ajudando a todos assim como Clara Devi, Laura Heger(***) e Antonia Serquevitio(***), aliás Antonia tem se destacado muito como uma garota de teatro. Essa pimentinha é fogo e joga muito bem com os colegas de cena. O formato com que Cléber organizou logisticamente o espetáculo, acabou por encarcerar adereços em lados opostos aos quais atores estavam. Mas ainda que Clara Devi não tenha vindo com seu manto original em uma das cenas. Ou o próprio Cléber tenha entrado na ressurreição envolto no santo manto, nada disso tolheu a beleza de um espetáculo tão detalhista. Pedras, vasos, cajados, copos, adereços que levam a assinatura de Fábio Novello e Renato Casagrande. Implico apenas com a bacia de alumínio nas mãos de Evaldo Goulart. Feia e muito atual.
                                  No âmbito masculino Vagner Nardes pareceu um tanto atrapalhado com seu figurino de Anaz, mas tirou de letra com sua capacidade de gigante(**), Fabio Novello (**) esteve melhor do que em Ijui, algumas vezes pareceu um pouco perdido, mas a cena de Pilatos compõe-se muito por mérito de seu jogo hoje muito perfeito com Stalin Ciotti e Ricardo Fenner(**). Ricardo Fenner, Fabio Novello e Douglas Maldaner(**) atuam bem, cada um a sua maneira, mas seria bom concentrar-se um pouquinho mais. Respirar, relaxar. Douglas Maldaner como o primeiro homem, o escolhido para cuidar de MAria em sua velhice, triangula muito bem com o messias, mas na cena final não deve dar as costas para o palco, uma dica, estátuas tem apenas um "foco", seus olhos também são estátuas. 
                                    Os ladrões nas cruzes estão bem Nicholas Miranda(**) pode ser um pouquinho mais expressivo como Gestas. Na dança está muito bem ao lado dos outros três baixo-demônios. Evaldo Goulart(***) é motivo de orgulho. Com percepção, jogo, ritmo. Interessado, e principalmente disposto a ajudar em prol do todo. Os seguidores do pescador estão muito parelhos em interpretação. Antonio Longhi pode colocar um pouquinho mais de energia nas cenas. Jesmar Peixoto (**) e Rick que não sei ao certo se assina Lanes ou Artemii(**) estão irretocáveis, Barrabás tem crescido e muito. A direção poderia inclusive dar-lhe algumas falas. Romeu (**) esse nome Shakesperiano promete, tem uma presença cênica muito interessante, está aprendendo, e isso é maravilhoso, não compreendo muito bem algumas palavras de seu texto, deve sempre estar atento a melhorar isso, mas de toda forma seu corpo tem muita força na cena da mulher adultera. Gabriel Giacomini (**) está muito bem, pode trabalhar mais o corporal em seu demônio, com mais altos e baixos. Como Pedro ele parece um jovem aprendiz do monstro Renato Casagrande(**), cujo maior mérito, embora brilhante em cena, seja colocar a banda na rua e ainda ser extremamente físico em Judas. Felipe Padilha(**) e Gabriela Fischer(**) são crianças maravilhosas. Ele pode ser mais atento aos sinais e ela é uma princesa que deve ser acolhida e ensinada sempre pelos maiores. É uma futura atriz!
                                   Agora meu maior elogio de hoje precisa ser para aquele rapazinho que atua como o primeiro soldado Romano, Gabriel Barbosa(***). Não é do Máschara, mas devia ser, sua força, seu olhar, sua concentração e ainda seu crescimento nessa ultima encenação foram espetaculares. No quesito técnico, praticamente tudo saiu a contento. Fumaça bem colocada, luzes bem afinadas e trilha impecavelmente administrada. Palamas a Elen Faccin que vem se destacando (***)
                                        Cléber Lorenzoni, não sei se os colegas perceberam, conseguiu fazer um novo Jesus, diferente e mais frágil. Talvez por isso mais cênico, melhora a cada apresentação. Mas como ele diz: Não faz mais que obrigação!! Maluco!!

                                         O melhor- As dublagens melhorando a cada dia e a atuação equilibrada do elenco.
                                               O pior- Talvez o calção preto que Jesus usava por baixo de sua fralda.



                                        Arte é vida, não é aplauso, não é dinheiro, não é especulação. Arte é vida, que corre nas veias...


                                                      A rainha