sexta-feira, 27 de março de 2015

|Apresentação 685 - Esconderijos do Tempo 82

...Havia um ator, não muito conhecido, não muito reconhecido, ganhava pouco, mas amava o que fazia. Sua ambição era ser perfeito, cada vez que acabava uma apresentação, já começava a pensar na próxima, nos novos desafios. Para ele, em primeiro lugar vinha sempre o público, e tinha que ser assim, pois era para o público que fazia. Alguns atores dizem que fazem teatro para si mesmos, mas ai devem fazer em uma sala fechada! O Teatro é para o outro e por isso é um exercício tão humano. Tão digno. Para fazer seu teatro passava por vários sacrifícios e assim sempre foi, é e será. Antes de cada apresentação fazia uma prece, para si, para os colegas atores e para o público. Era pragmático e mítico. Doía-se por dentro quando algo dava errado, doía-se por dentro quando percebia que o público não compreendia o espetáculo apresentado, e então chorava. Chorava por si próprio, pelo público e pelo teatro. As vezes se apresentava em grandes teatros, as vezes em lonas, as vezes na rua, mas sempre se emocionava quando estava em lugares pequenos, lugares que nada tinham a ver com o teatro, pois aí tinha certeza de sua missão, de levar a arte, de tocar as pessoas. Ele convivia com todo tipo de artista, era amigo de vários atores e dividia o palco com atores e não atores. Constantemente se indignava, questionava-se, admirava-se com os atores todos. Com atores que não liam, com atores que não cuidavam ou trabalhavam a voz, com atores preguiçosos, com atores que não sentiam a presença do público quando estavam no palco. Esse ator idealizou um grupo, uma Cia.. Sua intenção era desenvolver o talento dos atores a sua volta, criar, debater, aprender, e envolver o público. Sua intenção era um grupo onde todos se apoiassem e se admirassem uns com os outros. Um Grupo onde todos fossem engajados, onde todos pudessem opinar, e mostrar sua criatividade...


Vilões e Mocinhos

               O teatro tem suas regras, têm suas personagens maravilhosas, seus heróis e suas megeras, suas mocinhas e seus vilões. E são estes que nos movem, pois são eles que causam todos os conflitos. Mesmo nas novelas e filmes, os coadjuvantes têm muitas funções, divertir, informar, ajudar a conduzir a trama. Mas cabe aos vilões e mocinhos o jugo de causar os transtornos ou trazer de volta a mansidão. É durante seus incríveis surtos que se para constrangido sem saber ao certo o que fazer. São eles que têm o poder de mudar ou não o percurso da historia. O teatro não se resume aqueles sessenta minutos sob os holofotes, o teatro começa bem antes e termina muito depois que a ultima pessoa sai do templo de Baco. Ah! E como não mencionar os servos enfadonhos e ridículos dos vilões, seus capachos, que ficam ali, ao lado lambendo-lhe os pés, mesmo que seus mestres estejam equivocados. Existe também um bobo, que faz piada de tudo, talvez para acalmar os ânimos, ou por que não tem capacidade para compreender? Duvído, o palhaço da corte costuma ser muito sagaz, mas sabe que precisa abster-se de certos posicionamentos se quiser que o espetáculo  continue. Há os sádicos, essas criaturas malévolas que se alimentam da desgraça. Voiers que se divertem, que até jogam felpas nas batalhas e depois apenas vêem a estrutura desmoronar, essas estranhas criaturas se alimentam sempre dos restos. E contentam-se com isso. Nesses espetáculos complexos, assomam-se os virtuosos amigos dos mocinhos, que embora gritem frases heróicas, sabem ser dissimulados. Afinal, na hora da vitória deverão cair méritos para todos os lados.
         Mas definitivamente o que mais gosto de observar é a postura dos vilões, criaturas complexas, cheias de desejos e vontades, provavelmente vindas de famílias onde mimos não faltaram. Os vilões espalham suas maldades a todos, e nunca se vêem errados. Claro, para eles suas verdades são justas e cheias de certezas. Mas como conseguem ver as mocinhas indefesas, os lacaios ridículos, as vítimas familaires, desesperadas e não se tocarem com isso? De que foram feitos os corações dos vilões? De pedra? O que lhes terá acontecido? Algo de muito ruim na adolescência? O que os fez perdem os sentidos do princípio? Os valores da moral? Pobres criaturas, merecedores de toda nossa pena, afinal, como será seu fim? Vazio? Com os sapatinhos dançantes da malvada madrasta de Cinderela? Ou ainda envelhecendo para sempre como a de Branca de Neve? Ou sendo morto no meio da batalha como Ricardo III, ou esfaqueado como Iago? Penalizaivos dessas pobres criaturas.
           Mas enfim, deve ser toda essa confusão de sentimentos que faz das vilãs e dos vilões, criaturas tão admiradas... Sua ambição desmedida, seu egoísmo desmedido, sua inveja desmedida. E o que me conforta é que vilões vem e vão, passam rápido ao esquecimento para logo surgirem outros.


Trecho extraído de   terça-feira, 31 de agosto de 2010 Esconderijos do Tempo no 35º Cena às 7

Esconderijos do Tempo reuniu novamente Fabio Novello e Grupo Máschara para mais uma apresentação em Ijuí. No palco ainda os velhos atores conhecidos do público. Dulce Jorge (St.IIA) Alessandra Souza (St.II) Renato Casagrande (St.II) Cléber Lorenzoni (IA) e Fernanda Peres (St.II). A noite foi emocionante, para o público pelo belíssimo espetáculo que presenciou e também para os atores, pelas situações adversas que testaram a coragem e o talento de cada um. Eu sentada entre a assistência, senti uma energia estranha desde que iluminou-se o palco já com seu cenário exposto. Um temor que pairou desde sempre em Esconderijos, aconteceu deixando todos atônitos. O lampiãozinho de esquina não ascendeu-se. Equipe técnica, atores em cena e provavelmente equipe por trás das cortinas entraram em pânico, mas pouco havia a se fazer. O interessante é questionar-se. O lampião era assim tão importante? O público percebeu que algo estranho acontecera? Ou o que realmente segura uma platéia é a postura de um ator, seu elan? Lorenzoni aguentou firme, sem transparecer a preocupação, mas parecia estar tentando solucionar a situação, percebeu-se sua respiração mudando quando finalmente a lâmpada decidiu permanecer acessa. As cenas seguiram no seu melhor, provavelmente pelo prazer em ver a casa lotada, e embora deva elogiar muito o ator, não posso esquecer de mencionar a calça "não remangada". Detalhe marcante da concepção do espetáculo(+). Renato Casagrande fez um ótimo trabalho e como sempre auxiliou em tudo o que foi possível. Um ótimo ator que em um maior papel pode orgulhar muito mais(+). Alessandra Souza esteve bem como de costume, e surpreendeu na musa, mas confundi-me um pouco com a caracterização da atriz. Souza tem que tomar cuidado, pois pende seu vigor ora para uma personagem, ora para outra.(C). Fábio Novello merecia logicamente estar entre os melhores da noite por toda a sua dedicação, pelo esforço em deixar o cenário lindo, por sua apresentação marcante, claro que com necessidade de um pouquinho mais de força no "soneto".  No entanto o final cronometrado do espetáculo foi balançado negativamente pela demora do interprete de Gouvarinho e de Fernanda Peres. Outra atriz que apesar de poucos ensaios e de pouco frequentar os ensaios da Cia. presenteou o público com uma cena contundente e divertidíssima. Ambos (+). Dulce Jorge, como de costume entrou jogando firme, emocionou, disse o texto com uma clareza e sentimentos ímpares. Merece galardões por sua capacidade de sempre estar perfeita em Dona Glorinha(C). 

Evaldo Goulart a cada dia cresce mais. E como típico de sua juventude, as vezes evolui mais, as vezes regride um pouco, então volta a ascender. Um bom ator/técnico, deve ser humilde e auto crítico(+). Ricardo Fenner se saiu muito bem, mas ainda pode se tornar um iluminador melhor, se esse for seu interesse logicamente. A luz foi bem manipulada, mas pode receber mais "sentimento". (+).
            Bruna Malheiros e Manoelli Machado trabalharam esforçadamente e devem, se querem ser grandes atrizes, ou ainda, mais importante, "mulheres de teatro" sugar tudo o que possam, pensar sempre em ser perfeitas. O teatro não exige menos. Ambas se saíram muito bem, mas pela prestatividade certamente Bruna destacou-se(C). Manoelli continua enchendo os olhos como a grande promessa do Máschara para 2015(+).















Arte é vida.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Helena e Adelaide Fontana em As Balzaquianas


A Família da gente, são só lembranças que cabem em uma caixinha...

sábado, 7 de março de 2015

As Balzaquianas em Vacaria/RS 684

Novos começos...


                     Algumas cidades têm em seus princípios oferecer arte a sua população, compreendem que a arte liberta, prepara, questiona, evolui! Outras cidades oferecem um show musical, as vezes da mais medíocre bandinha, onde as pessoas bebem, bebem e depois entregam-se as mais instintivas fornicações, acrescentando a suas mentes, pura e simplesmente o "nada". Vacaria no nordeste do Rio Grande do Sul, tem se destacado como uma cidade que mais e mais vem aproximando a arte teatral do público. O resultado certamente será percebido futuramente.
                    O Grupo Máschara foi convidado a participar desse movimento e pela terceira vez esteve em Vacaria, levando na mala um de seus mais jovens e audaciosos trabalhos, o espetáculo As Balzaquianas. Uma produção que segue a linhagem das demais: clareza no atendimento, capricho nos detalhes,  respeito ao público e, consequentemente sucesso. As Balzaquianas (2011), anteriormente levada ao palco na interpretação de Cléber Lorenzoni (status I) e Angelica Ertel (status II), recebe na cena a atriz Dulce Jorge (Status A), que preenche com brilhantismo a lacuna deixada pela atriz substituída. Substituições sempre foram tema de apreensão, afinal as comparações, impostas por colegas e pelo público pressionam a produtividade do interprete em substituição. Há também a preocupação em executar um trabalho próximo ao que o antecede e ainda assim colocar suas próprias impressões de interprete na personagem. Dulce Jorge acrescenta à Helena, uma organicidade e vigor provenientes de sua maturidade de atriz, que vai somar-se à partituração composta por Angelica Ertel. Não estou aqui dizendo que essa ou aquela é melhor ou inferior à outra. Estou dizendo que cada uma tem suas próprias qualidades. O público aprovou e riu muito das gags e devaneios propostos pela atriz. Aliás a integração entre os dois atores foi tão intensa que a assistência nem percebeu quando os atores estavam fazendo o pré-ensaiado ou improvisando. Dulce Jorge mostrou o porque de seu titulo, a impagável, tímida atriz que se desdobra em cena com as armas que tem, tomando a todos para si, resultando em aplausos certeiros. 
                           O vestido da interprete de helena abriu-se na cena, o que causou uma certa tensão na equipe e no público, mas não prejudicou a mise em scène. Foram poucos ensaios e é importante mencionar que o teatro acontece no ensaio, é lá que se criam coisas, que se rompe cadeias, que se somam idéias, lá é o lugar de quem está começando, é o lugar de todo ator. No dia da apresentação, somam-se novos objetivos, soma-se a triangulação do público e as novas idéias que dai brotam. Sim por que a platéia é viva e muitas vezes, principalmente em comédias, é ela quem dita o clima e o ritmo do espetáculo. 
                                  Cléber Lorenzoni repetiu a vivacidade e o domínio cênico de Adelaide Fontana, poderia estar mais concentrado em cena, mas ao mesmo tempo foi visível a forma como conseguiu acertar a curva no momento certo e um elogio que preciso dar, um mérito do ator, que na verdade é obrigação de todo ator, mas que deve servir de exemplo aos colegas. A percepção espacial, sua compreensão cênica de luz e sonoridades, compreensão do espaço físico do colega e de seu lugar no todo. Cléber Lorenzoni, Evaldo Goulart e Manoeli Machado estiveram conectados durante todo o espetáculo e só não fizeram mais por que lhes fugia das mãos. 
                                     A luz resultada de um esforço inumano de quase bater boca com a empresa de iluminação e ainda escalar paredes de seis metros de altura, foi melhor do que se esperava. Renato Casagrande conseguiu criar climas muito interessantes em situações onde pessoas mais esquentadas teriam apenas cruzado os braços e se negado a trabalhar. O espetáculo foi prejudicado, não há como não mencionar a penumbra excessiva no proscênio. Tanto que os atores precisaram ficar encurralados no centro do palco.  A trilha executada por Alessandra Souza cumpriu a função embora a musica que o público devesse ouvir ao começar o espetáculo fosse The Summer Wind, o que não aconteceu, equívocos de correria de estréia. Já que depois de dois anos, As Balzaquianas parecia estar em noite de estreia.
                                    Noite de estréia também para Larissa Marques, Bárbara Santos e Manoeli Machado. Todas se esforçaram muito e devem ter percebido o quanto as caravanas do Máschara exigem esforço e muito trabalho.  Manoeli Machado sofreu junto atrás das coxias quando alguma coisa saia do controle. Encheu também os olhos o quanto a jovem se desdobrou, correu de um lado para o outro tentando fazer as coisas antes que lhe fosse pedido, um exemplo de profissionalismo.
                                        Evaldo Goulart tem estado muito mais inteiro nos acontecimentos da Cia. o que é esperado de um ator Status 4. Ricardo Fenner como produtor pode se envolver mais, produção é algo difícil mas necessária no grupo.  
                                         As Balzaquianas cumpriu o objetivo do Grupo, uma noite de sucesso que certamente frutificará em mais tournês do grupo por aquela cidade.


Cléber Lorenzoni (**)
Dulce Jorge (***)
Alessandra Souza (**)
Renato Casagrande (**)
Ricardo Fenner (**)
Evaldo Goulart (**)
Manoeli Machado (***)
Bárbara Santos (**)
Larissa marques (**)