QUINTANARES
Existe uma lenda muito antiga, de um pássaro, de plumagem azulada, que
durante a vida, não canta, não solta som algum. Um dia, percebendo que está se
aproximando o fim de sua vida, ele procura um galho seco, algo que se assemelhe
a uma lança. Ao encontrar o galho, ele se joga de asas abertas cravando a ponta
em seu pequeno peitinho, e ali, debatendo-se em um derradeiro adeus, ele canta
com toda a sua força, soltando o som mais lindo que já se ouviu. Esse som, ecoa
e chega até os ouvidos do criador. Logo depois, exausto, ele se deixa morrer.
Quintanares, nasce de
um amor, absoluto e intenso que aprendi a ter pelas letras de Quintana. Ao
vislumbrar meus corajosos artistas da COARTE e antropofagiar suas historias
sobre o poeta do Alegrete, comecei a descobrir uma fábula. A fábula de um bebê
pássaro, que nasceu pronto para voar. Um menino solitário, que também poderia
ser um peixe, pois cresceu dentro de um aquário. Solitário, fechado, tímido e
sonhador. Manuel Bandeira declarou em 1966, em seu poema Quintanares, que Mario
não cantava, Mario Quintanava... Ou seja, o lirismo sempre esteve pairando em
torno desse menino. O grupo COARTE, é um
grupo de artistas seletos, todos com histórias e realidades que perpassam a
dança, o tradicionalismo, as artes plásticas, as artes cênicas, a literatura e
muito mais. Assim, despertar ali uma dramaturgia e uma cenicidade, não foram
tarefas difíceis. Difícil é compactar tantas impressões, tantos olhares de Quintana
em pouco mais de quarenta minutos. “Não queremos que as pessoas saiam do
espetáculo satisfeitas, queremos que elas saiam dali, com vontade de adquirir
um livro, com vontade de ler, de compreender a poesia”. A poesia diz muito
sobre nós, ela pode dizer muito sobre nossos silêncios, sobre nossas
complexidades internas. Quintana é para mim, um mago, e possui uma frase para
cada situação. Basta devorá-lo!
Dia 30, o menino
pássaro irá nascer, mas ele precisa ganhar o mundo. Suas malinhas estão prontas
para viajar, para excursionar por palcos. Juntamente com histórias, vai o
esforço de uma equipe dedicada que quer encontrar um sentido dentro de sua
vontade de teatrar. Não me sinto diretor, me sinto um revelador de talentos, um
“garimpeiro” que procura pedras preciosas. No elenco feminino, quatro forças
cheias de vida: Rosi, Fabi, Andri e Lully. Cada uma com um tempo de teatro
diferente, cada uma com uma busca especial, intensa. No núcleo masculino, nosso
querido Paulo Amaral. Impossível não pensar nas voltas que a vida dá para levar
as pessoas ao palco, para unir histórias em prol da arte. E ainda Maico, uma
grande revelação. Todos eles dispostos, humildes, curiosos, ousados e dispostos... Somam-se a eles, colegas de todas as idades, colando, criando, recortando, pensando, treinando, opinando e vislumbrando, uma família inteira chamada COARTE. O que mais é preciso?
Lembrar que tudo isso
é proposto, pelas linhas tortuosas que as três Parkas, filhas da Deusa Têmis,
tramam meticulosamente. O teatro é forte, intenso, ciumento, possessivo e
viciante. Ele é necessário, pois une pessoas, em cima e na frente do palco. Ele
quebra barreiras, vence preconceitos e salva vidas. Ele provoca tremores nos
alicerces das sociedades e isso é transformação, evolução e amadurecimento. Dia
30, seremos todos nós meninos, seremos crianças novamente. Seremos uma grande
passarada buscando o verão que aquece as asas das andorinhas. Seremos partículas
do tecido da arte cênica, contribuindo da nossa forma, por um mundo melhor
através daquilo que nos disponibilizamos a fazer: ARTE.
Cléber Lorenzoni
