quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Eliane Aléssio e Romeu Waier - Visceralidade em A hora da estrela


Leonir Batista, entrega e teatro


Lá no túnel do amor... A hora da estrela


Turma nove da ESMATE - Despedida da aluna Eveline Drescher


Véchoros -Teatro Independente

...por Cléber Lorenzoni



                                    Como ator de teatro há mais de duas décadas, tento me debruçar sobre todo o tipo de arte-cênica. O teatro é vivo, mutável, técnicas, estéticas, linguagens, tudo vai mudando para se adaptar a realidade do tempo atual. Eu devo, sempre que posso, exercer minha função primeira de agente teatral, que é refletir a arte, pensar o teatro, promover a discussão, instigar a análise critica sobre a criação cênica. Caso contrário o teatro pode tornar-se apenas uma forma de de exibição que motivada pelo crescente despreparo e desinformação do público, que a cada dia parece mais desinteressado, e menos capaz de analisar a arte. 
                                     Será que nós pensamos a arte? Será que nós queremos pensar a arte, assim como devíamos pensar e questionar a religião, a politica e etc...
                                     Véchoros é um espetáculo delicado, recheado de signos, que conta "um dia" na vida de dois palhaços. Não se sabe de onde vem, ou para onde vão, assim como a vida. Eles apenas estão. A premissa é bastante simples, tudo o que um fizer será destruído ou alavancado pelo outro. À quase todo momento, percebe-se que um dos personagens parece dominar a cena, quando um gesto, ou uma réplica silenciosa do outro retira-lhe a atenção e consequentemente o poder.  Essa relação equidistante , com posturas paralelas, avança rumo a um desfecho que poderia ser sublime, porém parece morno. Um espetáculo de atores e que talvez por isso seja difícil. Não sei quanto tempo de teatro há em Guilherme Orzechoski, ele é esforçado, intenso, vivaz, mas para alcançar o time do histrião ao seu lado vai precisar de mais prática frente a frente com o público, o que certamente virá com o tempo. Ele tem um lindo físico cênico, com certa técnica circense imagino. Há no jovem um encantamento pelo palco, pelo colega de cena, ema entrega muito agradável, que nos toca a todo instante, porém a palhaçaria carrega um segredo muito lindo, "é na dor que vive a graça" e essa graça deve tornar-se técnica.  No roteiro de Véchoros, há altos e baixos, quadros que se perdem, precisam ser encerrados antes de se transformar em outros quadros. Por exemplo as bolinhas que saem dos calçados de um dos palhaços podiam render muito mais, mas elas param para dar espaço a algo previamente escolhido que é o momento de malabares. A cena da luta de vassouras é outro exemplo, ele está gessada, é é muito criativa. 
                             O quadro da marionete gigante é lindíssimo, mas não conectou nesse dia, parecia confuso, embolado. Já o havia visto em outras montagens, assim como algumas outras micro-cenas, o que é natural, as gags de palhaço embora sejam um terreno vasto, sempre se cruzam por terem em comum a singeleza da criação humana. 
                                   A trilha é bem escolhida, mas precisa de mais sutileza, a iluminação anulou os membros superiores de Orzechoski quando ele subiu na perna de pau. O cenário é poderoso, muito bem equilibrado e centralizado, os tons escolhidos casam perfeitamente com figurinos e adereços. 
                                    Véchoros é o tipo de teatro que eu admiro, pesquisado, verdadeiro, comedido. Talvez o fato de ser dirigido por um dos atores, torne-o tarefa perigosa. Fábio Novello domina a arte do clown, mas estar em cena e ainda ter domínio do todo ao seu redor é desgastante e pode, apenas "pode", colocar em risco todo o trabalho. 
                                      O final foi emocionante mas deve ser mais ensaiado para evitar a banalização, ou seja, ainda pode ser mais triste. O pai que parte, o palhaço que fica órfão no palco, é uma mensagem muito forte. Pode ser ali o ápice de Véchoros. Achei o espetáculo muito bonito, instigante e comprometido, precisa é claro, de mais e mais ensaio, até ficar no fio da navalha.
                                      Uma pena algumas professoras serem despreparadas e ficarem tirando fotos com flash, triste e deseducado. Um espetáculo como véchoros precisa de silêncio por parte da assistência.
                                         Vida longa à Véchoros, vida longa ao colega lutador, Fábio Novello.