quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Alessandra Souza e Cléber Lorenzoni em O Castelo Encantado


A Casa de Bernarda Alba - Texto teatral


A CASA DE BERNARDA ALBA
FEDERICO GARCIA LORCA
A CASA DE BERNARDA ALBA
DRAMA DE MULHERES EM POVOADOS DA ESPANHA
(1936)
PERSONAGENS
BERNARDA (60 anos)
MARIA JOSEFA (mãe de Bernarda, 80 anos)
ANGÚSTIAS (filha de Bernarda, 39 anos)
MADALENA (filha de Bernarda, 30 anos)
AMÉLIA (filha de Bernarda, 27 anos)
MARTÍRIO (filha de Bernarda, 24 anos)
ADELA (filha de Bernarda, 20 anos)
LA PONCIA (criada, 60 anos)
CRIADA (50 anos)
PRUDÊNCIA (50 anos)
MENDIGA
1 ª MULHER
2 ª MULHER
3 ª MULHER
4 ª MULHER
MOÇA
MULHERES DE LUTO

domingo, 26 de agosto de 2018

819- Lendas da Mui Leal Cidade - tomo 4

A carpintaria teatral...






                 O teatro é dividido em setores, cada setor precisa cumprir sua função com exímia perfeição para que o produto final, ou seja o espetáculo teatral alcance o sucesso almejado. De todas as artes, o teatro é talvez, a mais estreitamente condicionada pelo momento cultural que a produz. E quanto mais válida, mais condicionada e mais expressiva dos fatores condicionantes. Todo dramatista que procurou alcançar ideais literários arbitrários e escrever fora de seu tempo foi irressarcivelmente condenado ao esquecimento: todos os grandes nomes do teatro universal são, acima de tudo, produtos exatos do momento em que viveram. As grandes obras que sobrevivem através dos séculos adquiriram contemporaneidade diacrônica por meio de uma riqueza nascida do profundo conhecimento que o autor teve dos homens de sua época.
                  Cléber Lorenzoni não é dramaturgo, mas está no caminho, escrevendo textos e adaptações incríveis ao lado de colegas da área. Bulunga o Rei Azul (1997) O Incidente (2005) Esconderijos do Tempo (2006) Lili Inventa o Mundo (2006) O Castelo Encantado (2005) Olhai os Lírios do Campo (2015). Isso sem falar nos textos escritos na ESMATE. A dramaturgia é uma arte ímpar, que pode estar a serviço do encenador, ou não. Lorenzoni escreve seus próprios textos pensando na linguagem humana e cultural do momento em que vive, da função semiótica, filosófica e psicológica que o teatro carrega. 
                 Lendas da Mui Leal Cidade agradou principalmente pela linguagem regionalista, uma apelo tão atual quando levada em conta a época de sua encenação, o aniversário do município, tema de suas tramas centrais. 
                    Um texto teatral precisa ter em suma um bom protagonista e logicamente com bom antagonismo. Precisa ter uma trama principal sem muitos circunlóquios, que também não menospreze a capacidade cognitiva do público. Um bom texto precisa ter bons personagens coadjuvantes. Um bom tema a ser debatido (mensagem), não deve ter barrigas, partes dispensáveis. Deve ter revelações, cartas na manga. Surpresas. Deverá ter após ou anterior a cenas de alto teor dramático, momentos cômicos, para equilibrar as emoções do público e alcançar um maior número de expectadores na platéia. 
                       Depois dessa fase vem os atores, a serviço do olhar do diretor. O Ator é uma massa de modelar, e deve submeter-se a ideia que o diretor tem para todo o espetáculo. Os atores são chamados não apenas por seu talento, mas por seu perfil, um feeling que o diretor parece enxergar, que irá casar perfeitamente com a proposta da personagem. O trabalho do ator está em esforçar-se em compreender a proposta de seu diretor, o que o diretor quer dizer com determinada ideia, onde ele quer chegar, como ele quer tocar a platéia. Em Lendas por exemplo, a função de cada ator, era ler as lendas, as suas várias versões e adaptar-se ao texto do diretor, a versão que Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande queriam contar. Até por que existem centenas de formas de se contar uma mesma historia. E cada artista vai ter a sua única. Atores não são diretores, não são cabeleireiros, não são cenógrafos, nãos são nada que não lhes tenha sido proposto. São Atores. 
                      Após o trabalho do ator é que vem as escolhas de figurinos, os cenários, a iluminação, a trilha. E ainda que hajam respectivamente, figurinista, cenógrafo, iluminador ou compositor, ainda assim, é a decisão do diretor que fala mais alto. E a propósito, que figurino mais lindo. Assinado por Renato Casagrande, a palheta de cores, o tom envelhecido. Um arrojo.
                          O trabalho de ator não tem fim, e por isso é o mais saboroso, o ator pode degustar sua personagem. Eduarda Jobim por exemplo, poderia questionar-se: Como sua mãe morreu? O que sentia por Carolina? Como ela se sentia ao sair com o pai naquela manhã? O que Carolina a ensinara? Isso credenciaria a atriz novas criações, sutilezas, detalhes únicos próprios da atriz que mostraria assim seu talento. 
                         O ator Ricardo Fenner, que interpretava o Pe. Antonio, não o Sépe, pois esse era missionário que viveu muito antes de onde a historia se passa. O padre de Ricardo Fenner esteve muito bem em cena, mas pode aprofundar mais a personagem, como se porta um padre, um homem que vai de casa em casa, como é seu jeito de falar, possivelmente ele estudou na Alemanha, Itália ou Espanha. Nesse caso poderia ter um sotaque. 
                                A atriz Clara Devi foi atrás de muitas coisas e me agradou muito vê-la no palco, assim como deve ter agradado e muito seus diretores. Sotaque, olhares, jogo, energia, domínio do espaço, compreensão da cena. O que lhe falta, é trabalhar a dicção. 
                              Dulce Jorge acrescenta a cena uma presença de atriz madura, uma força que o público aceita e admira. Adorei a cena de Dona Isaura com a família, mas senti falta de um jogo, jogo que nasce de improvisações, de ensaios, de comunicação na hora de criar um espetáculo. 
                               Stalin Ciotti conseguiu se fazer ouvir na ultima apresentação com força e energia, o público precisa ouvir os atores. Laura Hoover também pareceu aprender a lição e faço juz que os dois compreendam que nós, publico vamos ao teatro para ouvi-los. De nada adianta expressões, gestos, emoções ou partituras se não os ouvimos. 
                                  No grupo das lavadeiras o ultimo dia revelou ainda mais a carga cômica de Maria Antonia Silveira Netto. O jogo cênico de Alessandra SOuza e Cléber Lorenzoni foi gostoso de se perceber e envolveu a todos. Até mesmo o aluno Nicholas Miranda esteve muito inteiro na cena. Satlin Ciotti no proscênio pareceu trancar uma réplica, perdendo uma piada ótima que aparecera no domingo. 
                             As crianças cumpriram muito bem sua cena, e no grupo das protagonistas Lavínia Antonelli, se continuar na ESMATE, deve aperfeiçoar a comunicação com o público. A índia de Kauane Silva é marcante e forte em seu olhar, mas pode ser menos econômica nas próximas personagens. 
                              A apresentação esteve muito nas mãos de Cléber Lorenzoni que encontrou também uma veia cômica em João Fernandes trazendo graça à cena e calma aos colegas de cena, sem perder o cerne da personagem. 

                             Sem dúvida uma das melhores cenas foi a das carolas, criativa e extremamente expressionista em um espetáculo que passeia por várias linguagens. Ah como o teatro é divino, com a viagem que nos propõe. Eu chorei, chorei no domingo, na quinta, na sexta pela manhã e na sexta a tarde que soube de crianças que entregaram o dinheiro a professora e não foram assistir. Chorei ao ver que professoras, que deveriam dar exemplo, não quiseram pagar seu ingresso. Chorei quando percebi que o céu escuro da manhã abriu-se para que o espetáculo acontecesse. Chorei de orgulho, de pena, de esperança;

                           Obrigado alunos da ESMATE por tantas emoções. 
                             Obrigado Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande por lutarem tanto pela continuidade do teatro em Cruz Alta. 
                                                                     
                                                                        

        A Rainha
                             
                     Aplausos a interpretação de Cléber Lorenzoni, coerente, divertida e emocionante. Parabéns à Nicolas Miranda que esteve tão inteiro em cena. Parabéns à Maria Antonia Silveira Neto pela coragem em aceitar o humor. Parabéns a Renato Casagrande pelo lindo figurino.







                    

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O Professor Cléber Lorenzoni, os alunos e o público de Lendas da Mui Leal CIdade


As Beatas da Mui Leal Cidade


817/818 - Lendas da Mui Leal Cidade - Tomo 2/3

Por que um espetáculo estudantil consegue marcar tanto?

                   Vendo as crianças cruzando os corredores da Casa de Cultura, observando os alunos alegres, afoitos por entrar no auditório, com seu ingresso em mãos. Por um pequenino instante, acreditei em um mundo melhor, ou ao menos em uma cidade melhor. Cresci em uma Cruz Alta da década de sessenta, quando havia cinco palcos de teatro em Cruz Alta. Assisti Édipo, de Eurípides, no palco do clube Internacional. Presenciei a passagem de Bibi Ferreira por nossa cidade. Tempos áureos. Tempos passados, a vida passa muito rapidamente. Ou como diz meu poeta preferido, Quintana: Nós passamos por ele... Mas o fato é que o teatro é arte efêmera. Esquecível. O que fica são as mensagens, as idéias que um espetáculo teatral nos propõe. Boas idéias ficam guardadas em nossas profundezas. O resto passa. A não ser é claro, os grandes monstros do palco. Esses também são inesquecíveis. Mas uma geração ou duas, esse é o máximo que se mantém um vulto dos palcos.
                           Por isso é tão importante que os jovens alunos do professor Cléber, aprendam desde já, que o teatro é uma arte de suma importância. Que o teatro nos muda e muda as plateias, levanta questionamentos, nos descobre. A existência humana é cheia de nuances, de efervescências. O teatro elenca o homem do passado e nos faz vermos de onde viemos. Lendas da mui leal cidade passeia pela nossa ancestralidade. Nos faz rir e nos surpreende pelas situações que  nos propõe. Nos choca as vezes, nos emociona. A mulher submissa, a escrava, a ignorância, a ingenuidade das pessoas de uma época não tão distante assim. 
                          Lendas é um espetáculo regionalista, e o regionalista é o universal. Compreenda seu quintal, e conhecerás o mundo! Não tente estudar ou desvendar ciências, povos distantes. Desvende a si mesmo. Desvende, compreenda os que o cercam. O regionalismo nos toca com uma delicadeza ímpar. Prova disso foi como as crianças na platéia foram tocadas e mantiveram-se atentas. Um espetáculo assim merece ser apresentado mais vezes. Ser visto por todos os público, porém a direção deve se ater a alguns cuidados. Por exemplo: A atriz Alessandra Souza bem como a interprete de Helena, precisam tomar cuidado com o "vosmecê" e o "você". O figurino final das duas crianças, (meninas), está equivocado. O vovô que retorna, está no presente, as meninas porém, estão no passado. A Carolina de Clara Devi, está muito bem na cena, mas precisa estar atenta a sua dicção. Duas cenas do espetáculo concorrem a minhas preferidas. A casa de Dona Isaura e A casa do Coronel João Rodrigues. A primeira precisa de mais tensão. O Cura na segunda apresentação do dia entrou cedo demais no palco, e para completar ficou praticamente em silencio, o que impediu que Casagrande e Dulce percebessem-no. A cena é muito pontual. Não pode ter erros. Na segunda cena Jacy nos toca e profetiza algo com a forma que Cléber constrói a cena. Mas senti falta de mais luz.
                             A iluminação de um espetáculo não é simplesmente um montão de luzes coloridas que acendem e apagam, ela precisa me dizer algo. Em vários momentos a luz de Lendas me diz muito pouco. 
                            As lavadeiras continuam incríveis, Medeiro e Coracini nos conquistam logo de cara, mas a cena não pode se arrastar. É preciso ritmo! Aó é minha personagem preferida, assustadora, poderosa, mítica qual esfinge. Não sei quem a interpreta, mas pode ser mais expressionista, mais contorcida, mais visceral. 
                            Assistindo Lendas, recordo-me muito de O Tempo e o Vento, A Casa das Sete Mulheres, A escrava Isaura, Sinhá Moça  e outras tantas obras televisivas, mas Lendas é teatro. Bom teatro. A cena da lagoa que dança durante o parto com a entrada de Anahy, é puro teatro, é poesia. 
                               O espetáculo passa de forma ágil e nem percebemos os quase 75 minutos de sua duração. Stalin Ciotti se fez ouvir na ultima apresentação do dia, em um esforço muito digno. Gabriel Giacomini por outro lado ainda pode trabalhar mais sua técnica vocal. 
                               Lendas tem romance, tem drama, tem sustos, tem humor. Cada ator é responsável por alguma dessas emoções na narrativa. A cena de Joca e Cecília pode e deve ter ainda mais emoção. Para encerrar, pois dentro de poucas horas devo novamente assistir Lendas da Mui Leal Cidade, e para uma senhora de suas mais de seis dezenas de vida, uma noite bem dormida é condição indispensável para a concentração e bom aproveitamento da cena teatral. Possivelmente todos estão bastante cansados, mas os atores devem respirar fundo e se colocar perante seu público cheios de energia e vigor. 
                             No momento em que a cruz foi desvelada, lágrimas me cortaram as faces, Cruz Alta foi o lugar que escolhi para viver e me alegra jovens tão corajosos e valentes homenagearem-na com tanta força. 

                                 Meu aplauso À Renato Casagrande que consegue coordenar sabiamente e criativamente a cena das crianças. Aplausos a Eduarda Tolentino e Laura Coracini que vem a cada apresentação crescendo mais e conquistando espaços. PArabéns à Marta Medeiro que consegue compreender perfeitamente a proposta do espetáculo.

                                 Arte é vida.
                                                                             A Rainha


Douglas Maldaner ***
Renato Casagrande ***
Laura Hoover **
Stalin Ciotti **
Kauane Silve **
                            

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Historia de assustação


As lavadeiras do Pouso da Cruz Alta


Laura Hoover  -  Martha Medeiro -  Eduarda  Tolentino   - Laura Coracini  -  Alessandra Souza   Maria Antonia Silveira Netto  e  Ellen Faccin

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O estabelecimento de Serafina - Lendas da Mui leal Cidade


O Olhar sensível de Alexandre Giaomini

-Vai me bater meu pai?

816 - Lendas da Mui Leal Cidade (Tomo 1)

Lendas da MINHA mui Leal Cidade....


                                               Depois de preparar-me uma semana inteira para uma esperada estréia da ESMATE (assisti Bruxamentos e Encantarias, e aguardava ansiosa por outro sucesso), foi com tristeza que vi a intempérie produzir seus efeitos típicos do inverno e atrapalhar, mas jamais tirar o brilho de uma sagrada noite de teatro. Ao lado de duas amigas pus-me em marcha em direção a antiga capoeira, hoje a imperial Justino Martins. Cléber Lorenzoni estava no foyer do teatro, recebendo a platéia de forma muito gentil e carinhosa. Fiquei receosa, em 2017 senti sua falta no palco, mais uma vez não estaria ele sobre o palco? Ele é um homem de teatro, lá é seu lugar.
                                       Após uma espera tolerável, enquanto via amigos do teatro, a porta finalmente descerrou-se dando espaço a uma cena aberta com várias imagens interessantes e muito imaginativas.                  
                                              O clima estava estabelecido, figurino cuidadoso, talvez as crianças com o vovô não devessem estar congelados, aquele quadro poderia ser uma lembrança do passado. Fiquei muito surpresa com o tempo que todos suportaram. Aos poucos a imagem foi se desfazendo e mergulhamos em uma trama muito bem costurada. 
                                             No palco crianças e jovens, o que as vezes me preocupa, principalmente por dois erros básicos que costumam acontecer, típicos do teatro infantil mas que se presta mencionar aqui até pelo número de crianças no palco e na platéia. Ambos os erros costumam se originar no desconhecimento da natureza do teatro como arte independente e legítima, bem como de suas características essenciais. Abandonando o caminho do teatro, os que erram  descambam para dois campos opostos: o da suposta pedagogia e o da exacerbação emocional gratuita, ambas esquecidas de que o teatro é uma experiência artística, estética, uma experiência independente, autônoma, ligada ao que é definível especificamente como uma ação dramática. Que o teatro educa não há dúvida - ou melhor dizendo, pode educar - , mas educa por seus próprios meios, pelo aprimoramento de conceitos estéticos, pela ampliação da experiencia de conhecimento humano, e nunca pela lição de moral impingida, soletrada e empurrada goela abaixo a qualquer preço.
                                         Não vi no entanto em Lendas... nenhum desses erros que me incomodam e perturbam, vi ao contrário um apelo louvável ao apreço pela cidade de Cruz Alta e e pela historia do povo gaúcho, o espetáculo não se aprofunda em temas específicos regionalistas, mas com bom humor trata da honra, das bravuras, e por que não dizer das idiossincrasias do povo do sul. 
                                          A trama localiza-se na Cruz Alta do século dezoito, escravos, índios, e até uma governanta passeiam pelas terras demarcadas pelo padre Antonio Sépe. Representado aliás de alguma forma no espetáculo pelo ator Ricardo Fenner. Pouco se guarda dessa época em livros de historia, mas a direção do espetáculo assinada por Casagrande e Lorenzoni vai nos dando um panorama transitável com facilidade. Do estabelecimento de Serafina, até o casarão de Dona Isaura ou a fazenda conceição. Tudo estava ali, e agora quando as professoras ou crianças contarem as lendas de Cruz Alta, ficará mais fácil imaginar a dor da chinoca que tem seu filho jogado nas águas da lagoa do cemitério. Sim,  pasmemo-nos, havia uma lago no meio de Cruz Alta. 
                                            Diverti-me muito com os três momentos cômicos do espetáculo, muito bem colocados pela carpintaria dramatúrgica exatamente onde deveriam estar. As lavadeiras faceiras, os tropeiros patolas, e as carolas viperinas. A Serafina de Alessandra Souza repleta de energia conduz o primeiro grupo e a discussão ferina e mordaz nos dá o tempo exato das jovens casadoiras do passado. Martha Medeiro e Elen Faccin são os dois grandes destaques com desenvoltura e ritmo. Aliás ambas tem se destacado muito na ESMATE de 2018. A figura de Helena é linda na cena como a lavadeira encrenqueira. E Catharina arrancou gargalhadas da platéia com suas gags. Eduarda embora mais silenciosa, esteve muito concentrada e peitou Serafina com muita força. No ramo dos alunos aprecio muito a figura de Laura Hoover,  Em uma mesma semana a atriz nos presente-ou com duas personagens muito distintas em suas composições. A jovem interprete é muito talentosa e instintiva. Nas duas vezes em que saiu carregada, senti eu e minhas amigas, vontade de protegê-la da ruindade do pai carrasco. Em mundo de homens, onde pouco ou nada a mulher era  possibilitada de reagir, Lívia domina a cena com sua força.  O que falta à todas as meninas, com exceção das duas atrizes do Máschara na cena, é a capacidade de triangular, esperando o tempo da platéia para reagir as piadas, mas isso certamente virá com tempo e prática. 
                                               O elenco masculino tem bons acertos. Stalin Ciotti tenta nos dar um mocinho, que soaria melhor caso o ator parecesse mais bruto, mais rustico como um tropeiro. Douglas Maldaner também passa longe da figura do homem macho do século dezenove. Mais brutalidade, mais agressividade, dariam aos homens um contraponto. Mulheres do século dezenove entregavam-se a homens suados, fedendo a esterco, com mãos ásperas e barbas espetantes. Cléber Lorenzoni tentou compensar essa ausência percebida pelo diretor nos dando um coronel jovial e rufião, o que foi bem pontuado pela Carolina sisuda de Clara Devi. Essa jovem já havia preenchido o palco de forma positiva em Bruxamentos, e aqui torna a fazer um bom trabalho que poucas atrizes com seu tempo de teatro seriam capazes. Os rapazes ainda precisam se esforçar na cena das costureiras, seus rostos es~toa cobertos por véus, e se sua dicção não melhorar, mal compreenderemos a cena.
                                           Aliás preciso a pedidos, elogiar Clara Devi e Kau Silva por seu trabalho na rotunda, por sua percepção de grupo e por sua dedicação com o todo. O Máschara precisa de nais pessoas assim. 
                                       A plástica do espetáculo é soberba, a palheta de cores, gelatinas/costumes, maquiagens foram muito bem escolhidas, implico apenas com o vestido de LArissa e com a roupa das índias. É preciso sujar mais, mais e mais, é preciso parecer sujo, velho, puído, descascado e antigo.                                  
                                            Nikolas Miranda, Laura Heger e Felipe Padilha cumprem decididamente suas funções. NiKolas ainda tem quatro apresentações para construir muito e fazer descobertas, essa é a função do teatro. Pesquisar-se e dar ao público cada vez mais o seu melhor. LAura tem uma presença muito bonita, pode falar mais alto como os outros mencionados. mas é muito agradável ver sua entrega, dedicação, concentração. 
                                          A interprete de Cecília é bastante jovem, deve amadurecer mais no palco, no entanto a forma desinibida e a inflexão correta dos verbos é digna de aplauso. Pode nas próximas apresentações interpretar coim mais calma e dor a despedida de Joca. As crianças, levando-se em conta suas idade, se saíram muito bem, mérito de como são acolhidas, tratadas e ouvidas na ESMATE. Yasmim e Alana contracenam com Elen de igual para igual. A cena ao lado o vovô de Renato Casagrande foi divertidíssima e todos os mais velhos da platéia devem ter se sentindo um pouco no corpo do vovô, conversar com crianças na era da internet não é tarefa fácil. Ainda no elenco mirim, a pequena Jacy foi de uma doçura inesquecível, uma fidalga do antigo pouso da Cruz Alta. Contracenando com Cléber Lorenzoni com muita serenidade e calma como se fosse atriz há muito tempo. 
                                               Dulce Jorge e Ricardo Fenner, baluartes do Máschara deram vida a dona Isaura, e ao cura Antônio Sepe, muito bem caracterizados e em cenas pontuais, ambos foram essenciais para grandes cenas de emoção. Ricardo apenas precisa se controlar mais na cena de Lívia. A cena precisa de muita introspecção para funcionar com maestria. A cena da tortura da o tom exato de uma época tão sem leis em um povoado no meio do nada. Gabriel Giacomini pode erguer mais o tom e Felipe Padilha esteve ótimo como a boa alminha que vem salvar o padre. 
                                             Dulce Jorge acerta o tom da mulher de cabeça baixa, treinada desde a tenra idade para ser submissa. Pode ainda ao lado do colega de cena subir mais a tensão para que fiquemos com ainda mais pena dessa mãe, cujo mundo desmorona aos pés. 
                                                Kau Silva saiu da freira de Olhai os Lírios do Campo e sonorizou além de dar vida à misteriosa Anahí.  A sensibilidade de sua operação de som, a capacidade de observação de percepção indica uma pessoa cheia de vigor para a vida da "gente de teatro". 
                                                 A curva dramática pode ser mais inclinada e talvez o retorno de Jacy possa ser melhor trabalhado. O texto final tão lido extraído de Eclesiástes, precisa e deve ser bem assimilado pelos atores. 
                                                 O apelo regionalista, bairrista no epílogo me fez pensar em Erico, e ví uma das companheiras de teatro chorando na poltrona ao lado. Lorenzoni mais uma  vez emocionou e teatro precisa, já que concorre com tanta coisa, filmes, internet, novelas, cinema, acertar sempre, prender. Fui presa, arrebatada. 
                                                 Não era a historia de Cruz Alta, mas era a historia popular herança da ancestralidade de nossa cidade. Era um quase um conto de fadas, com princesas, mocinhos, feras perigosas, bem aos moldes das novelas de cavalaria. A Lagoa do cemitério tomou forma nas mãos das atrizes e Anahý tomou forma sagrada enquanto acordava todos os seres da floresta. Atrás das cortinas ouviam-se ruídos provenientes de faunos e musas da floresta.
                                                   Foi sem dúvida noite de sucesso, mais um espetáculo para ficar na memória dos Cruzaltenses e para termos orgulho do máschara. Obrigado a essas crianças que deram a essa velha, orgulho e a certeza de que ainda haverá teatro em Cruz Alta e de Cruz Alta por muito tempo.
                          

                                   Inesquecível- O trabalho de percução de toda a equipe que era enviado para a platéia. 
                                       Esquecível- O fato de um grupo tão grande, não ter a quem confiar a iluminação do espetáculo a ponto do diretor somar além das funções de maquiador, costureiro, cabeleireiro, porteiro, bilheteiro, relações públicas, ator, a função de iluminador. 


                                                   A Rainha 
      

                          Teatro é arte, arte é vida.

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Espetáculo: Lendas da Mui Leal Cidade
Direção Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Adaptação: Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
Divulgação: Cléber Lorenzoni, Ricardo Fenner, e Renato Casagrande
Produção: Cléber Lorenzoni e Ricardo Fenner
MAterial de Divulgação: Renato Casagrande
Assessoria: Alessandra Souza
Iluminação - CLéber Lorenzoni
Trilha Sonora; Renato Casagrande
Operação de Som- Kauane Silva
Elenco:  
               Vovô Menelau- Renato Casagrande  (***) - ainda pode melhorar a cena do estancieiro
               Lívia-Laura Hoover   (***)  -  Esteve ótima, mas pode estar melhor nas próximas pois descobriu muitas coisas durante a apresentação.
               Cecília- Lavínia Antonely
               Jacý- Maria Eduarda Jobim
               Anahy- Kauane Silva   (***) Brilhante 
               João Eulaio- Stalin Ciotti   (*)  Ouvir a direção e não tentar se auto dirigir.
               Joca Ramiris - Douglas Maldaner (**) bem na cena, mas pode lembrar de trabalhar em equipe e não cuidar apenas do próprio umbigo, use como exemplo Kauane Silva e Clara Devi
               João Rodrigues - Cléber Lorenzoni
               Serafina  - Alessandra Souza
                Padre Antonio Sepe - Ricardo Fenner
                Amélia - Martha Medeiro
                Anita - Elen Faccin - 
                Catarina - Maria Antonia Silveira Neto
                Helena - Laura Coracini
               Isabel- Maria Eduarda Tolentino
                Carolina  - Clara Devi
                Delegado Zé Eleotério - Gabriel Giacomini (***) salvando cenas e criando ótimos improvisos
                Francisca - Larissa Oryane Soares
                Sexta Feira - Laura Heger
              Índias - Laura Heger, Larissa Oryane Soares, Maria Antonia Silveira Netto, Alessandr Souza
                 Estancieiro - Renato Casagrande 
                 Fátima - Yasmim S. Ribeiro
                 Abgayl - Alana Ramos
                 Expectro e menino - Felipe PAdilha
                 Atriz Convidada - Dulce Jorge
                
  

Nominata de análise das apresentações 813/814/815

Renato Casagrande (**)(***)(**)
Laura Hoover (***)(*)(**)
Douglas Maldaner (    ) (**)(**)
Evaldo Goulart (    ) (**)(***)
Kauane Silva (**)(**)(***)
Gabriel Giacomini (  )(**)(**)
Stalin Ciotti (**)(*)(**)

              * Os membros anciãos (mais de dez anos no máschara)  não terão mais aqui sua classificação de céu e inferno.


                                   

                                                
                                              
                                            
                                                   
                                                 
       

domingo, 19 de agosto de 2018

Ensaio Geral, Lendas da Mui Leal Cidade


Elenco com amigas do público


No Diário Serrano dos 197 anos da Cruz Alta


Grupo Máschara sendo noticiado por mais uma estréia


ensaios de Lendas da Mui Leal Cidade


Cléber Lorenzoni ao lado de organizados e participantes do FIT - Festival de teatro de Itaqui


Ensaio De Lendas da Mui Leal Cidade


Para recordar... As obras no Palacinho do Máschara





sábado, 18 de agosto de 2018

815 - Olhai os Lírios do Campo -(tomo 8)

Recomeços

Olhai os Lírios do Campo, são tão lindos, singelos e simples, e o Rei Salomão, em todo o seu poder e riqueza, não poderia igualar-se a eles em beleza...

Mais uma noite de repescagem, o Máschara volta à Olhai Os Lírios do Campo (2015) do romancista Erico Verissimo. Bem verdade que o texto, ou sua versão seja de Cléber Lorenzoni, apenas o mote inicial permanece como de Erico. Em Olhai os Lírios, há uma equipe bastante versátil que reverbera em boas atuações. 
Ainda que com texto melodramático, um gênero já um tanto ultrapassado, Cléber Lorenzoni consegue dar vida a um espetáculo pulsante, ritmado e criativo. 
Já falei da estrutura e da forma em outras análises, por tanto vou me ater aqui à capacidade de construção e adaptação espacial do grupo. Algumas companhias chegam em cidades do interior, mesmo em Cruz Alta, jogam seus trabalhos sobre o palco sem preocupar-se com o conforto da platéia, sem preocupar-se com a moldura do palco, com sua própria iluminação e a forma como isso chegará ao olhar do público. 
É como se alguém fosse fazer um piquenique dentro de uma latrina sem ao menos lavá-la antes. 
O Máschara tem essa capacidade de rapidamente solucionar reveses, de rapidamente tornar o espaço propício à cena.
O palco do centro cultural de Fortaleza dos Valos pareceu tão grande e capaz para Olhai os Lírios. 
Alguns aquéns foram percebidos como o cigarro virado, o conta gotas que quase foi engolido por Angelo Fontes, a cena do tapete que já foi muito melhor orquestrada. Ainda assim o drama emocionou e prendeu a platéia que ali estava. 
Até mesmo a iluminação tão básica prestou-se ao espetáculo de forma funcional e singela. Méritos claro de Cléber e Fábio Novello. 
O importante nessas ocasiões seria as pessoas perceberem que esses são os momentos de aprender, de observar, de levar para a prática as descobertas dos atores e técnicos mais velhos. Assim se adquire bagagem. 
Nessa mesma noite, estreou como atriz do Máschara Kauane Silva. E embora ainda principiante a jovem, mesmo com poucos ensaios consegue chegar longe, mesmo confundindo Seixas com Eugênio.
Mais importante que o simples talento, o importante para fazer teatro, para se dizer artista, é saber olhar ao redor, trabalhar em equipe, estar disposta, correr para auxiliar os colegas que precisam. 
Isso tudo Kauane tem de sobra e vem sendo motivo de assunto e admiração entre os mais antigos da Cia. Quando se pensa em começar uma carreira é preciso pensar onde se quer chegar, que tipo de atriz se quer ser. Atores talentosos mas egoístas, atores criativos mas preguiçosos, são rapidamente esquecidos. Quem fica é quem é sincero e devotado ao palco. Teatro é um sacerdócio. 
Renato Casagrande tornou-se um grande técnico  e como se dizia na era gloriosa de Sarah Bernhardt, o mordomo do teatro. Conseguir vestir a todos, ter noção de tudo a seu redor e ainda estar bem em cena é mérito incalculável. Ao mesmo tempo é preciso ter humildade, saber que tudo são escolhas e que ninguém deve ser culpado por sua exaustão. O ser humano é em seu íntimo pouco agradecido, e sabe aproveitar-se dos outros. Não espere compreensão ou agradecimento. Espere apenas o respeito do público, seu amor e a dignidade que só é dada aos grandes, pelos grandes.
Alessandra Souza é uma atriz dedicada, mas sempre aconselho a jovens atores que se perguntem como querem ser lembrados. Como aquele que faz sua parte, ou aquele que faz o que realmente deve ser feito. Para ser uma grande atriz é preciso ter um olhar... um olhar... um olhar... 
A curva do espetáculo acontece e embora a atriz Dulce Jorge não estivesse em um de seus melhores dias, sua técnica a mantém intensa na cena. As emoções da dobradinha Cléber e Alessandra funciona muito bem. Seus volumes, dicção, emoção e principalmente jogo é vivaz e nos prende.  Ricardo Fenner conseguiu preencher bem a ausência da mãe, embora eu pense que seja uma perda para o espetáculo não termos a figura de Dona Alzira para compor o quadro familiar.
Enfim, foi uma noite de grandes prazeres, muito jogo e principalmente alegria de ver teatro bem feito.

O melhor- a estreia de Kauane Silva bastante razoável ainda que praticamente sem ensaios e a desenvoltura do ator Evaldo Goulart como contra-regra.
o pior - pessoas mexendo em suas mídias tranquilamente enquanto todos correm de um lado para o outro nos bastidores.

Com o público infantil de Fortaleza dos Valos/RS


Cléber Lorenzoni, Douglas Maldaner, Fabio Novello e Evaldo Goulart em O Castelo Encantado


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

814 -O Castelo Encantado ( Tomo -134 )


                     Sempre que vou ao teatro para assistir um espetáculo infantil, fico receosa de que talvez esta ou aquela companhia tenham se equivocado e construído um espetáculo direcionado as crianças que exclua os adultos. Eu fui uma criança do meio do século passado. Sem televisão em casa, apenas as famílias mais ricas da cidade podiam se dar ao luxo de ter um aparelho televisivo. Brincava na rua com outras crianças, peteca, rolimã e pique-esconde eram comuns e estavam presentes sempre. Gostávamos de sentar e entre uma cinco marias e outra, cantarolávamos canções, nos imaginávamos como as grandes cantoras estampadas na revista grande hotel. Líamos muito, mas o apelo era de que ler era estudo e não laser como hoje em dia ele é apregoado. Amava ler, mas não tínhamos também acesso a muitos livros. O que posso dizer, é  que mantive em mim, viva a chama da infância, o espirito infantil, a vontade de querer buscar, de conhecer o novo, sem julgamentos, sem preconceitos...
                    O cerne do problema do mundo atual está no julgamento. A infância, mesmo que cada vez mais curta, sendo esmagada pela adolescência, continua como sempre: desprovida de capacidade de julgar. A criança descobre, não julga. Ela experimenta, sente, vive. O adolescente de dez anos de hoje também não julga: ele forma grupo. O que mais me anima, me interessa nos espetáculos infantis do Máschara, é que eles tem tramas fáceis, mas que não subestimam as crianças. A criança é criança, e quer conhecer o mundo, quer descobrir. Nós adultos rotulamos coisas, queremos colocar as coisas em seus supostos lugares.  A crianças conseguem aceitar criaturas com caudas, chifres em coelhos, super-heróis em aviões miniaturas, etc. As crianças querem descobrir. Ah! E descobrir é tão bom, conhecer, aprender, experimentar.
               Conforme as personagens de Erico Verissimo vão aparecendo, nós vamos nos deleitando e divertindo com a sal capacidade inventiva e a criatividade dos atores do Máschara que dão vida, não à cópias, mas a interpretações apaixonantes.
             Rosa Maria me pareceu mais adulta, mais madura que em apresentações anteriores, mas também menos chatinha. O que é ótimo para a personagem. As vezes os atores querem se parecer com crianças e eu sei que a criança original da historia é um bebê, no entanto para o público são outras as percepções necessárias nessa obra.
           Renato Casagrande e Alessandra Souza tentaram conquistar a plateia com a quebra da quarta parede obrigando a criança a falar o tempo todo como se estivéssemos em um programa de auditório, por Deus! O teatro é para se assistir quietinho, concentrado!
         Por sorte, aconselhados por alguém na coxia, ambos, bons atores que são, contornaram suas intenções. O problema é que o espetáculo ficou com dois desenhos. Primeiro espontâneo e quase interativo e depois redondo e fechado.
        Cléber Lorenzoni se divide em muitas figuras e arranca muito riso em quase todas. O ator tem a plateia na mão quebrando a quarta parede em apenas três momentos.  Deve apenas se dedicar mais aos bonequinhos assessores de Capitão Tormenta que quase foram desnecessários ao espetáculo.
       Fábio Novello aparece pouco, parece muito tranquilo e seu Dono do Circo, mas pode nos dar mais, assim como Douglas Maldaner. Na proposta da direção do espetáculo e com o talento dos atores, o espetáculo podia muito bem ser apresentado com cinco atores ao invés de sete. Se há sete atores é por que o diretor quis dar chances e espaços para mais atores. Estes devem portanto fazer por merecer.
           Evaldo Goulart possui muito talento e comunicação com os colegas e público. Uma pena que dedique tão pouco tempo ao palco. Devemos todos aprofundar os dons que a natureza nos oferece. Douglas Maldaner faz tudo direitinho, mas também não nos diz a que veio. Por que merece estar no palco?
           Um trabalho antigo, com doze anos de estrada, maduro, coerente.
           Gabriel Giacomini continua muito bem na cena, mas já o vi muito mais vivo.
         Foi enfim, uma tarde brilhante e a iluminação, e a composição do cenário correspondem a um exímio trabalho de equipe.

                 O melhor – A maturidade cênica de Cléber, Alessandra Souza e Renato Casagrande.
                   O pior: A necessidade em aprender que o público infantil não precisa ser excitado o tempo todo, que as crianças devem ainda muito cedo, aprender a ver teatro em silêncio e concentração.


                    Arte é vida  

                                              A Rainha 

Kauane Silva, Atriz do Máschara como Soror Isolda em Olhai os Lírios do Campo


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

813- Esconderijos do Tempo (tomo 87)


                      O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.  (Plínio Marcos)
                            Mario Quintana embora um grande poeta, não reside tanto nos palcos como grandes dramaturgos : Nelson Rodrigues , Caio Fernando Abreu Suassuna ou tantos outros. No meu entender  as palavras de Quintana nasceram para o palco, para estar no centro do picadeiro teatral, onde se fala, debate ou filosofa sobre a vida. Teatro e Literatura são duas artes muito diferentes. Enquanto a segunda tem signos próprios (as palavras e suas articulações em frases e em textos), a primeira é feita de tornar seus os signos que são dos outros, amarrando-os em uma estrutura em que um ator interprete um personagem (ou figura) diante de alguém. Foi o que Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge fizeram em 2006, ano do centenário de Mario Quintana. Uniram as frases irônicas, perspicazes e por que não dizer explosivas de Quintana, resultando um espetáculo introspectivo e principalmente, recheado de poesia.

                Onde Quintana estiver, certamente deve se orgulhar profundamente por uma Cia. de teatro que valoriza seu texto, sua historia, seu olhar sobre o mundo. O texto é pronunciado de forma bonita, cada palavra é sentida, bem colocada. A intertextualidade logo toma conta e vamos mergulhando em nossas próprias existências, recordando coisas de uma forma tão natural e ao mesmo tempo tão dolorosa. Embora haja muito humor, um olhar repleto da felicidade “quintanares”, há também uma nostalgia e uma coragem de falar de assuntos que não falamos mais, assuntos que nos desconfortam, que nesse mundo atual somos forçados a jogar para baixo do tapete. 
                        Esconderijos do Tempo, completa doze anos de palco, em sua cena dezesseis atores já brilharam, como aquelas seis personagens que exalam tantas emoções. A direção de Cléber Lorenzoni promoveu um espetáculo maduro e inesquecível. Um espetáculo que deve retornar sempre, de onde platéia e público devem saciar a necessidade de arte e reflexão. 
                          A noite do dia 13 de agosto foi uma noite nobre, com presenças politicas, lideranças, e artistas nas fileiras do teatro de Arroio dos Ratos, e lá estava o Máschara, com o espetáculo que tantos troféus ganhou nos festivais, tantos aplausos que o credenciaram para agora ser respeitado por outros colegas da classe. 
                               Foi noite de estreia para a atriz Laura Hoover, que vem se destacando a cada dia. Noite de trabalho em equipe, de correria. Noite também de erros, afinal atores não são máquinas. Ainda assim, deve-se buscar sempre o melhor trabalho já que se dizem profissionais. Um espetáculo como Esconderijos do Tempo não se dar ao luxo de interpretações mornas, de cenário repleto de desleixo, de iluminação ineficaz, trilha mal operada... Trata-se de um espetáculo digno de muita entrega, já que seu elenco e técnicos fazem parte de um dos grupos mais expressivos do estado.
                              No panteão de atrizes, Dulce Jorge, Laura Hoover e Alessandra Souza cumpriram muito bem suas funções. Talvez Dulce Jorge não precisasse começar a cena tão triste, talvez  Souza devesse parecer  mais menina em sua Lili, e talvez Hoover pudesse estar mais relaxada. Por outro lado todas estiveram plenas. Senhorita Hoover preencheu o palco e orgulhou certamente todos os colegas. Assumira uma tarefa difícil, possivelmente sofre comparações, mas compôs uma perfeita partner ao professor e colega de cena Lorenzoni.
                                No hemisfério masculino as interpretações não deixaram a desejar, mas alguns problemas merecem ser detectados. A maquiagem do senhor Gouvarinho não ficou muito coerente com a limpeza do espetáculo, que é tão cuidados quanto uma pintura. A interpretação de Fabio Novello poderia ser mais divertida, mais relaxada. Quanto à Renato Casagrande, sua intensidade preenche muito bem o palco, houve no entanto uma mudança de inflexões que mudou para mim a sonoridade do ato final, nada que prejudicasse a coerência do pré-epílogo. 
                                 Cléber Lorenzoni mais uma vez emocionou a todos com aquele que infelizmente considero seu melhor personagem. Infelizmente por que esse titulo credencia um peso de cobrança em qualquer outro trabalho do ator. Como se seu Mario fosse um monstro de quem devesse correr.
                               Mas a maior crítica que preciso fazer enquanto amante de um lindo espetáculo e de um grupo de pessoas tão dedicadas, tem a ver com o diretor. Cléber Lorenzoni precisa parar de ser ator amigo e ser mais diretor. Dividir personagens sem levar em conta amizades ou pena de ser verdadeiro com algumas pessoas. Os atores por outro lado deve e precisam ser mais maduros e compreender que ou são todos coleguinhas que fazem pecinhas e não querem ser magoados, ou são atores e técnicos que não querem se expor negativamente em suas funções. 
                           Chega de respostas como eu sei, eu sei, ou eu sabia, eu sabia... É necessário aprender a trabalhar em equipe e aprender suas dificuldades, Ter auto crítica e não pensar que fazer teatro é prestar favores. A iluminação de Esconderijos deixou muito a desejar, quem é o iluminador da Cia.? Cada um faz um pouco? Quem criou? Quem montou? Quem executou? Mario deveria ter morrido durante o espetáculo pois houve uma brusca queda de luz no lampião. Ainda que com imagens lindas, os técnicos precisam ser sensíveis em botões. A trilha sonora do espetáculo foi executada categoricamente, em alguns momentos equivocaram-se volumes. 
                               O que é o teatro? Emprego? Passatempo? Um acaso? Nossas ações sobre o palco podem ser feitas de qualquer jeito? Não é necessário sermos perfeitos? 
                            Claro nesse mundo maravilhoso não é preciso ser o melhor profissional, aliás nesse mundo incrível há troféus até o quinto lugar, e ninguém é cobrado. É um mundo sem competições, é o verdadeiro paraíso na terra. E por que cobrar pelos espetáculos? Eles podem ser doados, oferecidos de graça, entradas francas. Assim não haverá problemas e poderão todos os atores ousar e errar e errar e errar... 
                            Há no Máschara uma hierarquia criada não sei por quem, mas se ela fosse levada sempre em conta, o trabalho não correria tantos riscos. 
                         Saí do prédio teatral triste, não pelas palavras no palco, mas com pena do diretor que precisa se dividir em tantos para que tudo aconteça. Amo o ator que em cena tem noção de tudo o que o cerca. Mas tenho pena do ator que em cena não pode relaxar e exercer plenamente sua função já que é amargamente prejudicado pela falta de exatidão ao seu redor. 

Inesquecível: A estreia de laura Hoover e a maturidade e leveza que a Atriz Alessandra Souza conseguiu depositar na musa.
Esquecível: A piscada de luz e o Blak out na cena do senhor Gouvarinho.

Um conselho à direção: Se Fábio Novello fizesse a luz, e Alessandra Souza não interpretasse dois papeis, o espetáculo alcançaria muito mais junto a platéia. 


                                A Rainha