quarta-feira, 22 de junho de 2016

Matéria no Diário Serrano de 21/06/2016


Divulgando o trabalho premiado no Diario Serrano de 21-6-2016


Sessão Maldita - tomo 7 - 739

A vida no teatro


"Se não puder interpretar me suicido"

                  A vida dedicada ao palco é algo quase que uma realidade inconcebível, em um passado razoavelmente distante, ouvíamos falar de grandes atores, de Cias. que moravam no teatro, ou ainda que viviam em carroças indo de um lugar ao outro, levando suas peças em baús. Ao chegar em determinadas cidades, faziam peças nas ruas, nas praças e a noite em teatros.  Assim foi por exemplo a vida de Molière, que durante muitos anos percorreu a França com seu teatro mambembe. Para quem gostaria de conhecer de perto essa realidade basta assistir o filme Marquise (1997). Aliás a vida de Molière foi tão dedicada ao palco, que mesmo sua morte foi em cena, sob altos risos da platéia.
                    Quando vou à Complexo de Elecktra, tenho essa sensação. Ali, no prédio da Andrade neves, no coração de Cruz Alta, onde acontecem as oficinas da ESMATE e ensaios do Grupo Teatral Máschara e agora esse espetáculo, há algo mais. Quando adentras ao prédio, percebes que ali é solo sagrado, templo da arte, aquele espaço foi abençoado por Dionísio. Há um clima misterioso, um respirar diferente.  Claro, não é qualquer um que percebe esse ar diferente, é preciso ter alma sensível.    
                         Complexo de Elecktra começa com um clima sinistro, a trilha sonora vai tomando o espaço e  não se sabe ao certo de onde está vindo, eu arriscaria "terceiro piso", mas não tenho certeza.  Os cenários são vários, e o mais desconcertante é a despensa da casa, embora, a equipe ainda possa buscar mais, aprofundar mais o clima tétrico do espaço. As cenas interpretadas no sótão e no jardim de inverno da casa dos átridas, possui uma iluminação bastante instigante, as sombras projetadas criam um clima desafiador a nossos olhos. Por outro lado, há espaços em que a preocupação com a luz ficou um pouco descuidada. 
                        Tive o prazer de assistir ao espetáculo com atores descalços e posteriormente com costumes nos pés. Fiquei em dúvida, afinal qual é o conceito?
                            Outro ponto a ser pensado é a impostação vocal. Em Complexo de Elecktra grita-se muito. Por que se estão todos praticamente no colo da platéia? Alessandra Souza tende a confundir ritmo com aceleração. Conceda pausas aos colegas. Serão úteis para sua interpretação também. Cabe aqui a já conhecida frase do diretor :" O teatro está nos silêncios". 
                         Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza e Renato Casagrande continuam ótimos em cena. Principalmente o jogo dos dois últimos com o intérprete de Ulrica. 
                             Evaldo Goulart tem um olhar muito intenso, vívido em cena e pode extrair ainda mais desse poder persuasivo que possui. Raquel Arigony pode ousar mais, ser mais assustadora. Possui uma figura muito interessante, mas parece ficar distante da platéia. 
                                Complexo de Elecktra é um trabalho para criar, para pesquisar. Complexo é uma oportunidade enorme para os atores se conhecerem, se descobrirem, principalmente por que a direção do espetáculo é generosa o suficiente para permitir a busca e a criação. Para Artaud, o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de formas que refazem o ato criador, formas capazes de dirigir ou derivar forças.   Que o teatro seja para os atores do Máschara tudo, qualquer coisa, menos passa tempo. 
                             Parabéns a escolha das tranças erguidas em Alessandra Souza e a entrada de Ulrica na banheira. Teatro precisa ser verdadeiro, não pode depender de meias verdades, muito menos de amornar a sopa.  Quanto à sujeira proposta por Douglas Maldaner e Raquel Arigony, acredito que ou se embarre o corpo, ou então abra mão do recurso. Nada de meias verdades... Ao mesmo tempo esse barro precisa  ser pensado em forma de não sujar os cenários ou público. Para encerrar parabenizo as duas cenas finais, nas quais a visceralidade de Alessandra Souza e as emoções de Cléber Lorenzoni e Evaldo Goualrt emocionam a platéia. 
 

       Arte é vida


                                     A Rainha



Alessandra Souza (***)
Renato Casagrande (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Evaldo Goulart (**)
Douglas Maldaner (**)
Gabriel Giacomini (**)
Raquel Arigony (**)

                             

Texto As Criadas de Jean Genet

As Criadas
(Jean Genet - Tradução de Pontes De Paula Lima)

Personagens
Claire
Solange
Madame


(O quarto de Madame. Móveis Luiz XV. Rendas. Ao fundo, uma janela aberta, que dá
para a fachada de um prédio em frente. À direita, o eleito. À esquerda, uma porta e
uma cômoda. Flores em profusão. É noite)
CLAIRE - (De pé, de combinação, voltando as costas para a penteadeira. Seu gesto, o
braço estendido, é o tom serão de um trágico exasperado) E essas luvas! Essas luvas
eternas! Já te repeti suficientemente que as deixasses na cozinha. É com isso, por certo,
que esperas seduzir o leiteiro. Não, não, não mintas, é inútil. Pendure-as por cima da
pia. Quando compreenderás que este quarto não pode ser enxovalhado. Tudo, mas tudo
o que vem da cozinha é escarro! Sai! E leva os teus escarros! Mas para! (Durante esta
tirada, Solange brincava com um par de luvas de borracha, observando suas mãos
enluvadas; ora em buquê, ora em leque) Nada de cerimônia, faz teu bichinho. E
principalmente não te apresses, temos tempo. Sai! (Solange, de repente, muda de
atitude e sai com humildade segurando na ponta dos dedos as luvas de borracha.

Família Fontes - Cléber Lorenzoni - Raquel Arigony - Ricardo Fenner e Renato Casagrande


Platéia da VII noite de Complexo de Elecktra