terça-feira, 31 de agosto de 2010

Diário de Bordo XV - Esconderijos do Tempo no 35º Cena às 7



Vilões e Mocinhos

               O teatro tem suas regras, têm suas personagens maravilhosas, seus heróis e suas megeras, suas mocinhas e seus vilões. E são estes que nos movem, pois são eles que causam todos os conflitos. Mesmo nas novelas e filmes, os coadjuvantes têm muitas funções, divertir, informar, ajudar a conduzir a trama. Mas cabe aos vilões e mocinhos o jugo de causar os transtornos ou trazer de volta a mansidão. É durante seus incríveis surtos que se para constrangido sem saber ao certo o que fazer. São eles que têm o poder de mudar ou não o percurso da historia. O teatro não se resume aqueles sessenta minutos sob os holofotes, o teatro começa bem antes e termina muito depois que a ultima pessoa sai do templo de Baco. Ah! E como não mencionar os servos enfadonhos e ridículos dos vilões, seus capachos, que ficam ali, ao lado lambendo-lhe os pés, mesmo que seus mestres estejam equivocados. Existe também um bobo, que faz piada de tudo, talvez para acalmar os ânimos, ou por que não tem capacidade para compreender? Duvído, o palhaço da corte costuma ser muito sagaz, mas sabe que precisa abster-se de certos posicionamentos se quiser que o espetáculo  continue. Há os sádicos, essas criaturas malévolas que se alimentam da desgraça. Voiers que se divertem, que até jogam felpas nas batalhas e depois apenas vêem a estrutura desmoronar, essas estranhas criaturas se alimentam sempre dos restos. E contentam-se com isso. Nesses espetáculos complexos, assomam-se os virtuosos amigos dos mocinhos, que embora gritem frases heróicas, sabem ser dissimulados. Afinal, na hora da vitória deverão cair méritos para todos os lados.
         Mas definitivamente o que mais gosto de observar é a postura dos vilões, criaturas complexas, cheias de desejos e vontades, provavelmente vindas de famílias onde mimos não faltaram. Os vilões espalham suas maldades a todos, e nunca se vêem errados. Claro, para eles suas verdades são justas e cheias de certezas. Mas como conseguem ver as mocinhas indefesas, os lacaios ridículos, as vítimas familaires, desesperadas e não se tocarem com isso? De que foram feitos os corações dos vilões? De pedra? O que lhes terá acontecido? Algo de muito ruim na adolescência? O que os fez perdem os sentidos do princípio? Os valores da moral? Pobres criaturas, merecedores de toda nossa pena, afinal, como será seu fim? Vazio? Com os sapatinhos dançantes da malvada madrasta de Cinderela? Ou ainda envelhecendo para sempre como a de Branca de Neve? Ou sendo morto no meio da batalha como Ricardo III, ou esfaqueado como Iago? Penalizaivos dessas pobres criaturas.
           Mas enfim, deve ser toda essa confusão de sentimentos que faz das vilãs e dos vilões, criaturas tão admiradas... Sua ambição desmedida, seu egoísmo desmedido, sua inveja desmedida. E o que me conforta é que vilões vem e vão, passam rápido ao esquecimento para logo surgirem outros.
            Na noite de ontem felizmente vi mais mocinhos, ou seriam lobos disfarçados de cordeirinhos? Não sei, mas me emocionaram. Cada encontro cênico me rendia emoção ao coração. A Musa de Roberta Corrêa tão elegante, emotiva, sincera... O elenco principal recheado de emoções, Mario mais vivo do que nunca. Perfeito jogo com Gouvarinho, as Glorinhas inteiras, Dulce Jorge com o peso certo. Renato Casagrande precisa tomar cuidado com a monocórdia dos seus textos e aprender a diferenciar tipos de personagens. Alessandra Souza é uma atriz nova, talvez por isso ainda lhe falte o domínio total do drama, das emoções. As vezes falta, as vezes ultrapassa. Mas de todo modo foi uma de suas melhores investidas. Novas reações, novas inter-relações, como eu já disse, espetáculo novo! Como é gostoso ouvir um texto bem pronunciado, sem frases acidentadas ou verbos se esbarrando. Angélica Ertel esteve com o tom de comédia quase no ponto assim como Gabriel Wink, que ergueu o drama impedindo-o de ficar tão melancólico.
           Um sucesso, de alguém que soube durante os últimos dias encontrar o clima certo de que a apresentação precisava. Não sei se obra de mocinhos ou vilões. Resta-me assistir ao próximo espetáculo e saber qual o fim de cada um desses maravilhosos anti-heróis. 

domingo, 29 de agosto de 2010

Diário de Bordo- Lili Inventa o Mundo em Progresso, duas seções

Grandes Esperanças
              Se o Deus cristão escreve certo por linhas tortas, que diremos de Baco (ou Dionísio), entorpecido do melhor vinho do Olímpo? Deve fazer grandes rabíscos, sair da linha constantemente enquanto nós, pobres mortais tentanos compreender e nos adecuar aqui embaixo. 
               Em Progresso, a auxência de uma atriz, levou o Máschara a readaptar o espetáculo Lili Inventa o Mundo. E o que conquistaram? Um degrau a mais na carreira de Alessandra Souza, que soube interpretar a Fada Mascarada com louvor. Tudo tomou um anova leitura, ao invés de seis atores tinhamos cinco, mas o jogo era impecável. Na primeira tinhamos microfones prejudicando de certa forma o trabalho corporal da trupe. Contudo na segunda encenação, já sem microfones, a conexão atores-público foi radiante. Aliás é importante para Alessandra Souza e Renato Casagrande, aprenderem a melhor se portar quando da necessidade de microfones no espetáculo.
                 Uma professora fez a gentileza de quase dormir durante o espetáculo, claro que não teve culpa, devia estar cansada, e os atores em cena souberam demonstrar sua insatisfação com a situação. Ora, os professores devem estar alí em prol da arte, como fomentadores, incentivando as crianças e não tão pouco dispostos como alguns dos presentes. Mas a arte é assim, tem momentos, tem caminhos, as vezes envolve, as vezes distancía. A arte é por demais complexa.
                   Lili Inventa o Mundo é um espetáculo de 2006, mas ainda comove, não perde a essencia, suas poesias chegam vivas nas crianças em forma de encenação. Mesmo os adultos se deixam tocar por elas e captam a idéia de que devemos manter sempre uma crianças em nossos corações.
                   Cléber Lorenzoni estava vivo, como não o vía há tempos, provavelmente impolgado pelo desafio da troca de elenco. Angélica Ertel e Gabriel Wink também transmitiam virtuosidade cênica. Enfim, vigor de um espetáculo infantil apresentado em um espaço todo adaptado, mérito do Grupo Máschara, um dos melhores do estado sem dúvida.


                                                             A Rainha
               



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Diário de Bordo- A Maldição do Vale Negro em Soledade

O Paradoxo da falta de estrutura.

Quando os governantes decidem fazer benfeitoriasnem seus governos construíndo espaços culturais, não se preocupam em pedir auxilio à artistas ou pessoas capacitadas que no mínimo compreendem as necessidades da arte-cênica. Conclusão: O que é oferecido são ótimos espaços para conferências e palestras, nunca teatros.
Aliás há um caso marcante sobre a inauguração do famoso TBC, Teatro Brasileiro de Comédias, fundado no Rio de Janeiro na década de 40. Na ocasião a imortal atriz Cacilda Becker, foi convidada para brindar o novo teatro com uma garrafa de champagne a ser quebrada no palco do novo espaço. No entanto a atriz foi surpreendida com uma coluna de alicerce no centro do palco. Intrigada, foi naquela coluna que Cacilda quebrou a garrafa e os atores do TBC passaram o resto dos anos fazendo espetáculos a se adaptar aquela coluna...
Enfim espaços sem urdimento, coxias, rotundas, cortinas, iluminação e pasmem, até sem sonorização, são oferecidos para que artistas que vem de longe façam seu trabalho. E os organizadores de tais eventos não tolerariam menos que o melhor. O que ocorre? Diretores extressados, atores nervosos e técnicos a beira de um ataque histérico. 
Claro que o público quer ver a interpretação, no entanto o teatro contemporâneo nos chega munido de grande recurso técnico, show de luzes, cabos de aço, alçapões... E como pedir a um diretor que extirpe membros de seu espetáculo convertendo-o em algo inferior ao que concebeu.
Domingo em Soledade, via-se o transtorno do diretor desesperado tentando ofertar seu melhor. No palco, luzes pares, canhões de Lead. Blecautes sem dimmer. Um inferno dantesco. Felizmente o elenco estava afiado e o público viu o melhor do Máschara. Um arrojo. Aliás os soledadenses já assistiram O Incidente, Esconderijos do Tempo, Ed Mort e agora o universo de Rosalinda, Maurício, e Agatha. 
Os ciganos roubaram novamente a cena com o jogo impecável de Ricardo Fenner e Gabriel Wink. À Angélica Ertel coube a sonoplastia e a iluminação, que fez com exatidão e sensibilidade.
O aplauso foi caloroso, e o Máschara sem dúvida lógo voltará àquelas paragens.


A Rainha