sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Lili Inventa o Mundo e Feriadão

                                                                 

                              A maravilha infantil

                                Quando assisto um espetáculo infantil tento sempre me pôr no lugar das crianças, claro que é impossível ver o mundo, senti-lo como as crianças o sentem, afinal a vida nos trás um olhar diferente sobre a existência. Por outro lado acredito que os artistas tem dentro de si, um olhar mais continuo de sua infância, conseguem manter por mais tempo a percepção infantil da existência, pois vivem no mundo dos sonhos, onde a realidade que os cerca é diferente da realidade simples do mundo real. Pois bem, ao olhar para o palco nas duas apresentações últimas do Máschara, Feriadão e Lili Inventa o Mundo respectivamente, tentei ver, encontrar, as crianças dentro daqueles atores que ali estavam. Os dois espetáculos tem muito em comum, embora com tramas diferentes, um fala da mobilidade das pessoas, o outro fala da poesia, ambos são extremamente sensoriais... Tocam pela magia infantil, pelo desejo absurdo e incontestável de se permanecer no mundo infantil... Os personagens de Lili Inventa o Mundo poderiam ser bregas, bobos, mas nos comovem por sua ingênua verdade, pela sua exacerbada docilidade. Em Feriadão mal da para imaginar as idades das crianças, comecei imaginando-as com doze ou onze e então me percebi imaginando-as com quatro, cinco, e depois desisti de tentar contestar suas idades, ora, tinham idade de crianças, mentes de crianças, aquela gostosa presença sensível que nós adultos queríamos muito manter. E os atores do Máschara são exímios em chegar lá, no fundo, na curva da infância, aquela época boa em que beijávamos nossos pais com mais afeto, sem vergonha ou medo. Na platéia das duas peças, os adultos patinavam juntos, brincavam, prestavam oferenda a sua própria época meninota, dando boas risadas e se emocionando. 
                              Fiz a partir daí um paralelo com a dita infância artística de cada um desses atores. Cléber Lorenzoni e seu primeiro trabalho também infantil-Bulunga o rei azul...mais  tarde em O Conto da Carrocinha, e lá já via seu olhar meigo e dócil sobre o mundo das crianças. Recordei de Angélica Ertel, muito fofa em sua primeira participação em Esconderijos do tempo, como a menina Lili. Pequenina, sorridente, em sua nascedoura carreira de atriz, enchendo de orgulho seu papai e sua mamãe. Gabriel Wink como Luisinho, começando pelo espetáculo Feriadão, quando ainda carregava toda a timidez de jovem ator. Renato Casagrande, nas primeiras aulas do núcleo, vestido de índio, entrando de cabeça no mundo do faz de conta e finalmente Alessandra Souza, quando estreou como uma das crianças de Ed Mort... Bons tempos, quando o amor, a ansia por subir no palco era maior que tudo. Havia alí uma gana, uma extrema doação. Um acreditar maravilhoso que descia do palco e me enchia os olhos. Por que as coisas vão perdendo a graça? Por que as coisas vão ficando tão monótonas? Por que a vida vai nos empurrando para a realidade e que bom que vocês atores lutam por nos presentear com o contrário!
                               Feriadão prendeu as crianças e professores da escola Annes Dias, e Lili Inventa o Mundo atentou as crianças que estavam na feira agropecuária de Cruz Alta. Cléber Lorenzoni tem portanto uma assinatura muito marcante em seus trabalhos, com o teatro infantil não poderia ser diferente, se sabe exatamente o que o diretor quer dizer. E isso vem ainda da época de O Conto da Carrocinha. Aliás engraçado no final de O Feriadão as crianças não gritarem em uníssono "Pra sempre crianças".
                                    A sonoplastia de Feriadão teve alguns probleminhas e a voz de Cléber Lorenzoni sempre se destaca, enfim, os outros atores do trabalho deveriam cantar com maior energia, para igualar seu tom, ao do intérprete de Frédi. Em Lili Inventa o Mundo, poderia haver mais jogo de Alessandra Souza para com os colegas de cena e Gabriel Wink precisa visivelmente de mais ensaios para não perder-se nos diálogos. Finalmente, dois espetáculos ótimos que todos deviam assistir, pois nos lembram constantemente a alegria e o prazer de sermos crianças.





                                                                                A Rainha



Lili Inventa O Mundo
 Gabriel Wink - Alessandra Souza e Renato Casagrande - I
Cléber Lorenzoni  - +
Angélica Ertel - C
O Feriadão
Gabriel Wink - Alessandra Souza -  Cléber Lorenzoni  - Angélica Ertel -  RenatoCasagrande +