terça-feira, 8 de setembro de 2026

Texto para ser lido sob os refletores VII

                 Uma Ideia

                Venho trabalhando há algum tempo em uma tese: o teatro nos define! Não apenas como profissão, mas como uma maneira de existir, de olhar e de pensar o mundo. Podemos ser funcionários de um banco, entregadores, professores, comerciantes. Podemos mudar de emprego, de profissão, de caminho. Aquilo que fazemos pode mudar. Mas o teatro, quando é verdadeiro, quando atravessa de fato aquilo que somos, não termina quando acaba o espetáculo. Uma vez ator. Uma vez atriz. De verdade. Você seguirá sendo assim por todo o sempre. Porque o teatro passa a fazer parte da maneira como enxergamos as pessoas, as relações, a sociedade, as contradições, a beleza e também aquilo que nos incomoda. O teatro modifica o olhar. E depois que o olhar muda, não há como voltar a enxergar da mesma maneira.

                E o que levamos ao público? Ideias. Teatro não é simplesmente falar alto. Não é apenas saber projetar a voz, não ficar de costas para a plateia ou decorar corretamente um texto. Isso pode fazer parte do ofício, mas não é o teatro. Teatro é um conjunto de ideias que ganha corpo através dos atores, da cena, da luz, do espaço, do figurino, do som, do silêncio. É uma ideia sobre alguma coisa que queremos dizer. Algo que queremos discutir, transformar, melhorar. Algo que queremos provocar. Queremos que as pessoas pensem. E para isso precisamos transformar ideias em estética, porque o teatro não explica o mundo apenas com palavras: ele cria imagens, sensações, conflitos e possibilidades.

                 Nossa função, enquanto fazemos teatro, é preparar os atores para isso. Criar desafios. Tirar o ator do lugar confortável. Transformar seu olhar. Fazer com que ele perceba aquilo que antes não percebia. E, através dele, transformar também o olhar do público. Criar possibilidades críticas e estéticas. Fazer com que cada espetáculo seja, de alguma maneira, uma pergunta lançada à plateia.

                 Por isso, a cada ano, enquanto diretor, proponho espetáculos novos, projetos diferentes e, muitas vezes, difíceis. Não faço isso apenas para montar mais uma peça. Para ficar mais conhecido, ou para tentar ganhar troféus...  Faço porque acredito que o ator precisa crescer. Precisa descobrir seus limites, ultrapassá-los, experimentar, errar, tentar novamente e encontrar novas possibilidades para sua própria carreira. O palco também é uma escola. E algumas das melhores aulas são aquelas que nos obrigam a fazer aquilo que ainda não sabemos fazer. Mas precisamos sair da nossa dita zona de conforto. Temos a obrigação de crescer, para ser exemplo aos que virão depois de nós.

               A ideia é simples: quero que meus colegas de teatro sejam respeitados. Que sejam admirados. Que suas carreiras sejam reconhecidas não por discursos, mas pelo trabalho que constroem ao longo do tempo. Que quando alguém veja o nome daquele ator, daquela atriz, daquele profissional, saiba que ali existe uma trajetória, uma pesquisa, uma dedicação, uma identidade.

               Ninguém será bom em tudo. E nem precisa ser, mas é preciso, para ser uma pessoa de teatro, conhecer um pouco de tudo. Experimentar. Observar. Descobrir-se. Saber onde estão suas potencialidades e, principalmente, onde estão suas fragilidades. Porque é justamente nelas que muitas vezes encontramos aquilo que ainda podemos nos tornar.

              Para mim o teatro é isso. Uma ideia que toma corpo. E se queremos crescer, se queremos fazer carreira, se queremos ser verdadeiramente pessoas de teatro, existe uma palavra da qual não podemos fugir: Desafio.