segunda-feira, 29 de julho de 2019

Teatro também é união familiar...

O Palacinho do Máscara foi palco do churrasco em homenagem a chegada da pequena Aurora, a princesa prestes a nascer é fruto de um dos tantos amores que brotam no teatro. Os papais Douglas Maldaner e Antônia Serquevittio, conheceram-se nos ensaios de A Paixão de Cristo, aos poucos constroem sua família em meio à sua trajetória na arte. Teatro é vida, teatro é esperança, teatro é acontecimento familiar..

Renato Casagrande , talentoso ator Status I do Máschara


Não basta se maquiar, é preciso interpretar

Clara Devi como a fada Primavera

sábado, 20 de julho de 2019

Grupo Máschara e Barbara Moraes do Sesc de Cruz Alta


849/850- Tem chorume no quintal- (tomos 2 e 3)

Boa Vista do Incra

Tem chorume e tem talento...

                        Não da para dizer que Tem Chorume no quintal é a primeira peça escrita por Cléber Lorenzoni. Esse jovem dramaturgo, tem em sua carreira várias adaptações, o texto de Esconderijos do Tempo, pois embora tenha sido composto a partir de versos e poemas de Mario Quintana, foi Cléber quem trabalhou toda a carpintaria cênica. Com o texto de A roupa Nova do Rei, Lorenzoni chega ainda mais longe, afinal há apenas um argumento, ainda assim o texto alcança grande aceitação. Mas é em Chorume no quintal que o dramaturgo se laureia. O espetáculo foi todo escrito a partir do método. O autor tem um bom argumento, um conflito firme, cartas na manga e uma protagonista com objetivos muito bem descritos. As cenas são bem escritas, com equilíbrio nas potências que compõe a trama. Ele é educativo sem ser catequese. Há figuras peculiares, vilões e mocinhos, há revelações, hombridade. A análise ativa é muito bem trabalhada com: Ação Inicial, fundamental, principal e final. O Tema, o Universo e Linha Transversal da Ação estão em seus lugares, e finalmente a Principal circunstancia dada é bem explicada.
                             Existem várias formas de se construir um espetáculo. Pode ser através de um texto que surge da mente do dramaturgo. A partir de improvisações sobre temas quaisquer. Ou ainda adaptando um texto do qual a equipe apodera-se.
                         Boa Vista do Incra não é uma cidade acostumada a arte do teatro. Infelizmente distante dos grandes centros, ela é uma daquelas cidades que têm teatro em pequeninas doses, em situações muito especificas, o que acontece comumente  em cidades pequenas. Datas festivas, natal, dia das mães, páscoa, etc... O teatro não pode ser tido unicamente como função educativa, isso o resumiria a uma necessidade escolar e visão muito restrita. Quando o teatro visita durante muito tempo uma mesma comunidade ensinando que isso ou aquilo é errado, ditando regras, ele pode até ser muito eficaz... No entanto corre o risco de cair em meio à pequenez do regramento religioso, ou a mera propagação de saberes didáticos, quando sabemos que ele é algo muito maior, que precisa despertar o adormecido, precisa ousar mudar formulas pré-estabelecidas, precisa no alcançar cordas para sairmos dos abismos da estagnação ou da acomodação. Deve ainda acompanhar as mudanças apontadas pelo cidadão livre que sobre o palco gerarão debate e proliferarão ideias.
                                  O elenco é coeso, sem muito estrelismo, atores bons fazendo sua parte bem feita, atores jovens aprendendo o metier, as cenas estão prontas, não há nenhum tour de forc, sobrando realmente apenas a pouca vontade do público de ir ao teatro. Essa sim é uma luta muitas vezes perdida. Mas o elenco do espetáculo exerce muito bem sua função e certamente a plateia não saiu do teatro com nenhum receio dessa arte.
                                         No camarins nervosismo, no palco volumes bons, embora a protagonista deva preocupar-se com sua dicção, sua prosódia engalfinha-se nos entregando apenas parte de suas palavras. Ao público sentado no fim do auditório cabe apenas tentar adivinhar oque foi dito, pela PROTAGONISTA. A direção do Máschara já deu a CLara Devi duas protagonistas.Será que a atriz já se perguntou por que? A suavidade, a delicadeza, a expressividade de Clara Devi são maravilhosas, mas a atriz precisa compreender que em um espetáculo narrativo, o texto é de caráter importantíssimo para a plateia. A frasqueira que se abre, o chapéu, que era como um troféu para o vovô e que fica caído no palco. Aliás, os chapéus parecem não parar na cabeça da atriz, ela começa com um chapeuzinho vermelho, mas logo vai para o chão. O chapéu do avô termina no chão e o boné da empresa criada pela família termina sempre nas mãos da atriz.
                                         Com duas plateias distintas, uma formada em sua  maioria por crianças  e outra de público adolescente, Cléber Lorenzoni pôde mudar os tons de sua Vilã, Madame Rafaella. O ator adentra o palco cheio de irreverencia e charme, no primeiro tomo um tanto mais tímido é verdade, mas no segundo se esparramando. A fluidez com que passeia na caricatura torna Rafaela atraente para crianças e adultos. Alessandra Souza e Renato Casagrande dividem-se entre os anciãos do espetáculo, as personagens que trazem a sabedoria. Cléber optou pelo cômico e ambos os atores respondem a altura. Casagrande  com muito domínio de palco auxilia Clara Devi, consegue dar ritmo às cenas e triangular com o público. Alessandra está muito madura no palco. Senhora de si, consegue dar o tom necessário sem muito exagero.
                                             Stalin Ciotti é muito sutil em sua composição. Sua graça está nas pequenas coisas. Seu Júnior tem uma mudança bem grande durante o espetáculo e ele consegue ser coerente, embora na segunda apresentação da pequena turnê tenha  perdido um pouco o tom da personagem. VAgner Nardes e Evaldo Goulart carregam personagens difíceis. Evaldo atua bem como fiscal de meio ambiente, mas ainda pode estudar muito a personagem, realmente nos convencer de que é um homem que estudou para cuidar do bem estar da fauna e flora. Algumas vezes o ator parece inseguro em cena. Talvez por necessidade de mais estudo ou técnica. Vagner Nardes, não é um ator do Máschara, faz parte do projeto como ator convidado, ainda assim é muito profissional na forma serie com que se dedica. O Ator  parece ter criado muito nos ensaios. Seu jogo com o colega de cena mais maduro é bastante vivaz. Gosto de sua forma de criar no palco, seu ritmo e sua capacidade de improviso.
                                         Os figurinos assinados por Lorenzoni e Casagrande consegue sutilmente alcançar uma meta linguagem, ainda que dependendo do olhar, pareçam bastante realistas. Há na trilha por outro lado, duas linguagens muito distintas. A paródia buscada no Abba é explicativa e eficaz, mas choca-se com a poesia presente nos outros três momentos musicais em que menciona-se borboletas e onças. Não é um problema mas confunde a convenção que o espetáculo parece querer estabelecer.
                                             Tem chorume no quintal é um daqueles espetáculos que queremos assistir várias vezes. Simples, funcional e com grandes interpretações.


                                          Que o jogo continue e seja honesto.


Cléber Lorenzoni (***) (**)
Renato Casagrande (**)(***)
Alessandra Souza (***)(**)
Clara Devi (**)(*)
Stalin Ciotti (***) ( *)
Vagner Nardes (**)(**)
Evaldo Goulart (**)(*)
Kauane Silva (**)(**)
Laura Hoover (**)(**)

                                                                      Arte é Vida
                             
                                                                                     A Rainha

terça-feira, 9 de julho de 2019

espetáculo 2019


Espetáculo adulto sobre crises de gerações


Texto da Professora Elizabeth Vescia de Azambuja sobre Complexo de Electra

COMPLEXO DE ELEKTRA


O espetáculo foi realizado no Palacinho da General Osório, em diagonal à Igreja Metodista, que pertence aos descendentes da família da Sra. Dulce Amado Silva, onde é a sede do Grupo Máschara. Neste casarão, o grupo instalou sua escola de teatro e, de forma muito criativa, soube organizar, nas dependências do mesmo, o seu acervo, onde consta, inclusive, uma galeria com fotos de seus ex-integrantes.

Um público de 20 pessoas assistiu à peça que foi encenada em um pequeno espaço, mesmo assim, os ambientes disponíveis foram muito bem aproveitados pelos atores. Na cena final, os espectadores foram convidados a passar para outro compartimento do casarão, onde aconteceu a cena derradeira e fatídica do matricídio, com a morte violenta de uma das protagonistas, como é próprio da tragédia grega!!!

O desempenho dos integrantes do grupo foi fantástico e o alto nível de dramaticidade que as tragédias exigem, foi plenamente alcançado pelo elenco, que não deixa nada a desejar comparado a grandes artistas, pois conseguiu proporcionar ao público presente, momentos de suspense e profunda emoção. O teatro tem essa função de promover uma verdadeira catarse que permite a revitalização e o alívio de nossas tensões cotidianas!

Parabéns ao Grupo, do qual nos orgulhamos, como cruz-altenses, pois apesar de todo o talento, optou por permanecer em nosso meio! Quem ganhou foi nossa cidade, fomos nós, pois o Máschara, além de nos possibilitar uma forma mágica de entretenimento, nos oportuniza um enriquecimento cultural!

segunda-feira, 1 de julho de 2019

848-Complexo de Elecktra - (tomo 17)

O fim do Matriarcado

             Em tempos de empoderamento e de mudanças no comportamento entre homens e mulheres, Complexo de Elecktra nos traz grandes reflexões sobre as escolhas perversas e suas motivações masculinas e femininas. Úlrica e Ereda, mãe e filha presas em um lugar fictício no meio do nada, dividem as posses de um matriarcado. Ambas são passionais e dependem de homens fracos para alcançarem seus propósitos.
                        Mãe e filha se assemelham e muito, fica claro, mas Úlrica nos enfatiza com sua fala ao final da quinta cena: "-Um dia minha filha, um dia tu vais perceber que somos iguais." Ambas mostram-se carentes e frágeis, frustradas afetivamente. Parece-nos que a mãe tira do poder o pai das crianças e coloca em seu lugar o pobre Bertold, covarde e aproveitador. É a mãe quem decide, quem escolhe seu parceiro, quem levanta e destrói reis. Úlrica reina nessas terras, até que Ereda em idade adulta ao vingar-se pela morte do pai, assume o poder. Mas quem irá comandar? Quem estará a frente? Outro homem? Ereda quer para o poder outro homem, Henrique, por que possivelmente se sinta fraca, o poder que estas mulheres tão explosivas elencam é o dos homens. Não se julgam fortes o suficiente. Bender parece manter viva em seu texto a ideia ancestral de que o homem deve comandar, ainda que quem decida por trás, nas sombras, seja a mulher. Úlrica e Ereda não seriam capazes sozinhas. Mas por que não? Eu vou para casa com essa duvida, por que esse matriarcado precisa de homens. Em determinadas culturas o homem é usado como um zangão, fecundador das fêmeas. Mas aí chegamos ao grande estimulador desse texto. Ulrica não precisa ser fecundada. Precisa ter prazer. Duas mulheres iguais mas separadas pelos objetivos. Ulrica quer o prazer, quer o homem ainda que fraco, mas que a aquece. Ela é o homem, Bertold é a mulher no sentido mais semântico da palavra. Ulrica é uma mulher que define seu futuro, longe das regras impostas pela vida em sociedade. Mas seus planos dão errado, em partes pelo simples prisma de que Ereda não pode concordar com a destruição do pai. O mais interessante é que no mundo ocidental, durante centenas de anos, vemos a mulher suprimir seus desejos, ao homem é permitido livremente exprimir sua pulsante sexualidade, e para levantar ainda mais a questão, o diretor coloca um homem para pronunciar o texto de libertação, a catarse de Úlrica. Para nós enquanto público, isso pode ter várias leituras, prefiro a que me passa a ideia que todos somos iguais, mas é impossível não pensar: É preciso ser um homem por traz da personagem para Ulrica assumir que sente desejo, paixão.
                      Werner, aqui interpretado por Douglas Maldaner traz para Ereda o opção do prazer, ele a deseja, a toca, no entanto Ereda não o quer. Ereda desejava o pai, dentro de sua psicopatia, e agora deseja vingar-se. Não aparece nela vontade de sucumbir ao sexo ao lado de Henrique. Ao contrário, diria que Ereda está fechada, seca talvez, embora haja nela a vontade de plantar, de germinar os campos que outrora foram do pai. 
                       É fortemente visível ver as duas trocas, Henrique trocando a anulação cega à religião pela coragem de enfrentar a vida. Enquanto Úlrica opta pelo desejo, abrindo mão da vida em paz com a família. No outro núcelo, Ereda troca a vida familiar que teria com Werner, pelo enfrentamento. Ereda e Henrique estão conectados. Unidos. São frutos de escolhas do pai, Agamenon na tragédia original. Atená exigiu o sacrifício de Ifigênia, o pai curvou-se aos deuses e preferiu o sangue entre as mãos. Henrique e Ereda não tem como escapar disso. 
                       Para nos lembrar que falamos de oráculos e deuses, Dulce Jorge vem à cena e consegue dar o tom perfeito do mistico. Somos todos feitos de mitos, de crenças. Estamos ligados à terra por forças indizíveis, por ciclos que se renovam a cada dia. A velha entra na casa pedindo moedas como costuma pedir na porta do culto, onde mais pessoas se reúnem em prece à pedir auxilio aos deuses. Úlrica não foi ao culto, está em falta com seu altar sagrado, mas os Deuses vem até ela, lembrar-lhe que um ciclo está se encerrando. 
                        O Henrique de Renato Casagrande ainda se humilha para a mãe em uma cena sublime e emotiva em que a química dos dois atores fica muito explicita. Renato Casagrande assim como Alessandra Souza tornaram-se dois grandes atores, filhos específicos da cartilha de Cléber Lorenzoni. 
                        Fabio Novello como tio Bertold se coloca perfeitamente na postura de homem fraco, dominado. Acredito que ainda pode encontrar caminhos na cena em que luta com Úlrica. Um pouco mais de duvida, de revolta, de força contrária e a cena ficaria incrível. 
                        Gabriel Giacomini também alcança maturidade em sua construção. Me admira a capacidade de compreender e valorizar um personagem que tem apenas uma cena, isso denota a compreensão de seu ofício. No entanto é na operação da trilha sonora que sua responsabilidade e dedicação mais honra o trabalho.
                        Complexo de Elecktra é  teatro, teatro à frente. Um teatro expressivo, reflexivo. Ali certamente nossa mente se torna livre. Elecktra do máschara provoca um transe, nos propõe a profundidade da psicanalise das personagens, e um expressionismo que ressurge mais vivo. Isso fica claro na força dos enfrentamentos, na energia, na gana com que se tocam as personagens, na exposição do corpo, na visceralidade do texto.
                          Para cumprir totalmente sua função, só falta maturidade, dedicação por parte de alguns e compreensão da importância do que estão fazendo.

                       Arte é Vida

                                         A Rainha

O melhor: o trabalho conjunto e maduro que encontro em outras grandes produções como Esconderijos do Tempo, A Roupa Nova do Rei e As Balzaquianas.
O pior: A imaturidade que aparece as vezes nos bastidores.

Momentos de descontração - Complexo de Elecktra


Cleusa Daronco, uma das amigas do Máschara, presente em Complexo de Elecktra


Monstrinhos queridos da ESMATE


Cléber Lorenzoni - em bife de Úlrica