sábado, 20 de julho de 2019

Grupo Máschara e Barbara Moraes do Sesc de Cruz Alta


849/850- Tem chorume no quintal- (tomos 2 e 3)

Boa Vista do Incra

Tem chorume e tem talento...

                        Não da para dizer que Tem Chorume no quintal é a primeira peça escrita por Cléber Lorenzoni. Esse jovem dramaturgo, tem em sua carreira várias adaptações, o texto de Esconderijos do Tempo, pois embora tenha sido composto a partir de versos e poemas de Mario Quintana, foi Cléber quem trabalhou toda a carpintaria cênica. Com o texto de A roupa Nova do Rei, Lorenzoni chega ainda mais longe, afinal há apenas um argumento, ainda assim o texto alcança grande aceitação. Mas é em Chorume no quintal que o dramaturgo se laureia. O espetáculo foi todo escrito a partir do método. O autor tem um bom argumento, um conflito firme, cartas na manga e uma protagonista com objetivos muito bem descritos. As cenas são bem escritas, com equilíbrio nas potências que compõe a trama. Ele é educativo sem ser catequese. Há figuras peculiares, vilões e mocinhos, há revelações, hombridade. A análise ativa é muito bem trabalhada com: Ação Inicial, fundamental, principal e final. O Tema, o Universo e Linha Transversal da Ação estão em seus lugares, e finalmente a Principal circunstancia dada é bem explicada.
                             Existem várias formas de se construir um espetáculo. Pode ser através de um texto que surge da mente do dramaturgo. A partir de improvisações sobre temas quaisquer. Ou ainda adaptando um texto do qual a equipe apodera-se.
                         Boa Vista do Incra não é uma cidade acostumada a arte do teatro. Infelizmente distante dos grandes centros, ela é uma daquelas cidades que têm teatro em pequeninas doses, em situações muito especificas, o que acontece comumente  em cidades pequenas. Datas festivas, natal, dia das mães, páscoa, etc... O teatro não pode ser tido unicamente como função educativa, isso o resumiria a uma necessidade escolar e visão muito restrita. Quando o teatro visita durante muito tempo uma mesma comunidade ensinando que isso ou aquilo é errado, ditando regras, ele pode até ser muito eficaz... No entanto corre o risco de cair em meio à pequenez do regramento religioso, ou a mera propagação de saberes didáticos, quando sabemos que ele é algo muito maior, que precisa despertar o adormecido, precisa ousar mudar formulas pré-estabelecidas, precisa no alcançar cordas para sairmos dos abismos da estagnação ou da acomodação. Deve ainda acompanhar as mudanças apontadas pelo cidadão livre que sobre o palco gerarão debate e proliferarão ideias.
                                  O elenco é coeso, sem muito estrelismo, atores bons fazendo sua parte bem feita, atores jovens aprendendo o metier, as cenas estão prontas, não há nenhum tour de forc, sobrando realmente apenas a pouca vontade do público de ir ao teatro. Essa sim é uma luta muitas vezes perdida. Mas o elenco do espetáculo exerce muito bem sua função e certamente a plateia não saiu do teatro com nenhum receio dessa arte.
                                         No camarins nervosismo, no palco volumes bons, embora a protagonista deva preocupar-se com sua dicção, sua prosódia engalfinha-se nos entregando apenas parte de suas palavras. Ao público sentado no fim do auditório cabe apenas tentar adivinhar oque foi dito, pela PROTAGONISTA. A direção do Máschara já deu a CLara Devi duas protagonistas.Será que a atriz já se perguntou por que? A suavidade, a delicadeza, a expressividade de Clara Devi são maravilhosas, mas a atriz precisa compreender que em um espetáculo narrativo, o texto é de caráter importantíssimo para a plateia. A frasqueira que se abre, o chapéu, que era como um troféu para o vovô e que fica caído no palco. Aliás, os chapéus parecem não parar na cabeça da atriz, ela começa com um chapeuzinho vermelho, mas logo vai para o chão. O chapéu do avô termina no chão e o boné da empresa criada pela família termina sempre nas mãos da atriz.
                                         Com duas plateias distintas, uma formada em sua  maioria por crianças  e outra de público adolescente, Cléber Lorenzoni pôde mudar os tons de sua Vilã, Madame Rafaella. O ator adentra o palco cheio de irreverencia e charme, no primeiro tomo um tanto mais tímido é verdade, mas no segundo se esparramando. A fluidez com que passeia na caricatura torna Rafaela atraente para crianças e adultos. Alessandra Souza e Renato Casagrande dividem-se entre os anciãos do espetáculo, as personagens que trazem a sabedoria. Cléber optou pelo cômico e ambos os atores respondem a altura. Casagrande  com muito domínio de palco auxilia Clara Devi, consegue dar ritmo às cenas e triangular com o público. Alessandra está muito madura no palco. Senhora de si, consegue dar o tom necessário sem muito exagero.
                                             Stalin Ciotti é muito sutil em sua composição. Sua graça está nas pequenas coisas. Seu Júnior tem uma mudança bem grande durante o espetáculo e ele consegue ser coerente, embora na segunda apresentação da pequena turnê tenha  perdido um pouco o tom da personagem. VAgner Nardes e Evaldo Goulart carregam personagens difíceis. Evaldo atua bem como fiscal de meio ambiente, mas ainda pode estudar muito a personagem, realmente nos convencer de que é um homem que estudou para cuidar do bem estar da fauna e flora. Algumas vezes o ator parece inseguro em cena. Talvez por necessidade de mais estudo ou técnica. Vagner Nardes, não é um ator do Máschara, faz parte do projeto como ator convidado, ainda assim é muito profissional na forma serie com que se dedica. O Ator  parece ter criado muito nos ensaios. Seu jogo com o colega de cena mais maduro é bastante vivaz. Gosto de sua forma de criar no palco, seu ritmo e sua capacidade de improviso.
                                         Os figurinos assinados por Lorenzoni e Casagrande consegue sutilmente alcançar uma meta linguagem, ainda que dependendo do olhar, pareçam bastante realistas. Há na trilha por outro lado, duas linguagens muito distintas. A paródia buscada no Abba é explicativa e eficaz, mas choca-se com a poesia presente nos outros três momentos musicais em que menciona-se borboletas e onças. Não é um problema mas confunde a convenção que o espetáculo parece querer estabelecer.
                                             Tem chorume no quintal é um daqueles espetáculos que queremos assistir várias vezes. Simples, funcional e com grandes interpretações.


                                          Que o jogo continue e seja honesto.


Cléber Lorenzoni (***) (**)
Renato Casagrande (**)(***)
Alessandra Souza (***)(**)
Clara Devi (**)(*)
Stalin Ciotti (***) ( *)
Vagner Nardes (**)(**)
Evaldo Goulart (**)(*)
Kauane Silva (**)(**)
Laura Hoover (**)(**)

                                                                      Arte é Vida
                             
                                                                                     A Rainha