terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Público infantil do Máschara em Bento Gonçalves

Com o público infantil

Teatro 24 horas por dia

Leitura dramática I -Texto Essa propriedade está condenada - Texto para dois atores

De Tennesse Williams
Tradução de Domingos Oliveira
Distribuído através do site www.oficinadeteatro.com Para uso comercial, pedimos a gentileza de entrar em contato com o autor ou representante!
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(Nos trilhos do trem nos arredores de uma pequena cidade do Mississipi. O céu está branco como o leito. É de manhã e de vez em quando um corvo grasna. A menina Willie avança, equilibrando-se no trilho, os braços abertos. Numa mão uma banana, na outra uma boneca loura e destruída. Tem treze anos e uma inocência a despeito da aparência. O garoto Tom, um pouco mais velho, olha ela. Usa calças curtas, suéter, traz uma pipa com uma bonita cauda).

TOM: Oi. Como é seu nome?
WILLIE: Não fale comigo antes de eu cair. Segure minha boneca manca – faz favor.
TOM (pegando num salto): Faço.
WILLIE: Eu não quero – que ela quebre quando – eu cair! E acho que não vou – agüentar – muito mais – você não acha?
TOM: Não sei...
WILLIE: Estou quase caindo.
(Tom vai ajudá-la).
WILLIE: Não, não toca em mim! Se ajudar não vale. Tem de ser sozinho. Meu Deus, eu estou tremendo hoje! Não sei o que me botou nervosa! Ta vendo o reservatório d`água lá atrás?
TOM: Han?
WILLIE: Foi lá que subi no trilho! É o mais longe que eu já consegui, vir sem cair nenhuma vez. Quer dizer, se eu conseguir chegar lá no poste de telefone! Ah! Lá vou eu! (Cai).
TOM: Machucou?
WILLIE: Ralei o joelho, só. Ainda bem que eu não estou com minhas meias de seda, ainda bem.
TOM (sentado): Cospe no joelho. É bom, não inflama.
WILLIE: Tá. (faz).
TOM: Os bichos todos fazem isso. Eles sempre lambem as feridas.
WILLIE: Eu sei. Acho que o principal foi minha pulseira, é. Caiu um dos diamantes. Onde é que será que está?
TOM: Não vai ser fácil achar não, no meio desse cascalho todo.
WILLIE: Mas deve dar, ele brilha muito.
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TOM: Mas não era verdadeiro, era?
WILLIE (rindo): Como é que você sabe?
TOM (encabulado): Imaginei (refazendo-se.) Porque se fosse você não ficava aí andando em cima dos trilhos com sua boneca velha e meia banana...
WILLIE: Eu não teria tanta certeza. Pode ser que eu seja excêntrica ou qualquer coisa assim, nunca se sabe. Como é seu nome?
TOM: Tom
WILLIE: O meu é Willie. Nós dois temos nome de homem.
TOM (rindo): E como é que foi isso?
WILLIE: Meus pais estavam esperando um garoto, eu acho. Garota eles já tinham. Alva é o nome dela. Minha irmã. Por que você não está no colégio?
TOM: Achei que ia ventar e que eu ia poder levantar meu papagaio.
WILLIE: Por que é que você achou que ia ventar?
TOM: Porque o céu está branco.
WILLIE: E isso é sinal de vento?
TOM: Claro!
WILLIE: Eu sei que é. E está branco mesmo. Parece que foi tudo varrido com uma vassoura, não parece?
TOM: Parece mesmo.
WILLIE: Branquinho como uma folha de papel.
TOM: Hum, hum.
WILLIE: Mas não tem vento.
TOM: Não tem não.
WILLIE: Tem sim, bebê, mas está alto demais pra gente sentir. Alto, alto, varrendo tudo, lá no sótão do céu.
TOM: Hum, hum. E você, não está no colégio?
WILLIE: Eu não, eu larguei. Já faz dois anos que eu larguei.

TOM: Em que ano você estava?
WILLIE: Quinto.
TOM: Miss Preston.
WILLIE: Ela mesma. Ela sempre dizia que minhas mãos estavam sujas, até que expliquei que era cinza de trem, de tanto eu cair dos trilhos...
TOM: Ela é fogo.
WILLIE: Fogo o que, ela é seca assim porque não casou. Provavelmente ninguém quis, coitada. Então ela teve de ficar sendo a professora da quinta até morrer. Eu detestava era Álgebra, nunca consegui entender pra que servia aquele x...
TOM: Andar nos trilhos não ensina ninguém.
WILLIE: Nem empinar pipa. E sabe o que mais...
TOM: O que?
WILLIE:...uma menina não precisa muita coisa. Precisa saber conviver na sociedade, isso sim. Minha irmã alva me ensinou tudo. Os homens da ferroviária adoravam ela.
TOM: Os engenheiros de trens?
WILLIE: Engenheiros, maquinistas, os caras da fornalha... Ela era o que a gente pode chamar de “Atração Principal”. Linda? Jesus, ela parecia uma artista de cinema.
TOM: Sua irmã?
WILLIE: Um deles, da ferroviária, toda viagem trazia pra ela uma caixa de bombom em forma de coração com um laço vermelho em cima, toda viagem. Não é maravilhoso?
TOM: É. (um corvo canta).
WILLIE: Sabe onde Alva está agora?
TOM: Em Menfis?
WILLIE: Não!
TOM: Nova Orleans?
WILLIE: Não. Terceira chance.
TOM: São Luís?

WILLIE: Você nunca vai adivinhar.
TOM: Onde?
WILLIE: Última morada, cemitério, túmulo, tumba, buraco...Não entende inglês não?
TOM: Entendo! Desculpe.
WILLIE: Não tem de que. Você não sabe nem da metade, meu camaradinha. Nós passamos uns grandes tempos naquele casarão amarelo.
TOM: Foi, é?
WILLIE: Tinha música o tempo todo, música de verdade, gente, tocando.
TOM: Que instrumentos?
WILLIE: Piano, guitarra havaiana. E tinha vitrola também, quando eles cansavam. Todo mundo tocava alguma coisa. Agora não. Agora aquilo lá está quieto. Horrivelmente quieto. Você não houve nem som quando passa por lá, ouve?
TOM: Não. Está vazio lá agora, não está?
WILLIE: Quase. E pregaram uma placa enorme na fachada.
TOM: Dizendo o que?
WILLIE: Esta propriedade está condenada. Só que eu continuo morando lá.
TOM: Sozinha?
WILLIE: Hum, hum.
TOM: Mas o que aconteceu. Por que todo mundo foi embora?
WILLIE: Mamãe fugiu com um homem que freiava o trem das oito. Depois disso foi tudo pro brejo. (um trem apita longe.) Ouve isso? Esse é o apito do Expresso do Sul. A coisa mais veloz que corre entre São Luís, Menfis e Orleans. Meu pai bebia muito. Era um bêbado mesmo.
TOM: Quedê ele agora?
WILLIE: Sei lá, desapareceu. Acho que qualquer dia eu devia dar parte à polícia, eles lá tem uma seção de desaparecidos. Sei porque ele deu parte quando mamãe desapareceu. Aí ficou eu e Alva. Até os pulmões de Alva ficarem doentes. Você vai ao cinema? Viu Greta Garbo na “Dama das Camélias?” Passou aqui no ano passado na primavera. Ela tinha a mesma coisa que Alva teve. Doença do pulmão.
TOM: É?


WILLIE: Só que com ela, a Greta Garbo, foi mais bonito. Você sabe como é no cinema, violinos tocando. E montes e montes de flores brancas e os namorados todos voltando pra ver ela morrer.
TOM: Eu não vi.
WILLIE: Os de Alva sumiram todos, não apareceu um.
TOM: Foi, é?
WILLIE: Como ratos que abandonam um navio naufragando! Assim é que ela falava. Perguntava: quede o Alberto? Quede o Clemente? Mas não tinha ninguém por perto. “Onde é que está o Johnson”, ela me perguntou. O Johnson era o Superintendente do Almoxarifado da Ferroviária, o cara mais importante que já tinha ido lá em casa. “Ele não trabalha mais aqui. Foi transferido de cidade, eu dizia. Mas deixou lembranças”. Mas ela sabia que eu estava mentindo. “Assim é que eles me pagam”, ela dizia: “Ratos!” Fugiram todos, menos o Sidney.
TOM: Quem era o Sidney?
WILLIE: Aquele das caixas de bombom.
TOM: Ah.
WILLIE: Mas Alva não ligou nunca pro Sidney. Ela dizia que os dentes dele não eram bons.
TOM: Ah.
WILLIE: Não foi uma morte como nos filmes, ah, não foi não. Não teve violinos. Não teve nem vitrola! Ela pediu, mas o hospital não deixou, era contra os regulamentos. Gostava muito de cantar.
TOM: Alva?
WILLIE: Sabia todas as letras. A favorita dela era assim: (canta.)
Você é minha estrela única
No meu céu azul
E você vive brilhando
Só pra mim!
Só que eu desafino, eu sou horrorosa, quando eu cantava Alva me mandava calar a boca. Mas ela não, ela cantava abessa, a noite toda. Essas roupas eram dela. Herdei. Tudo de Alva agora é meu. Menos o colar de bolinhas de ouro puro.
TOM: Aconteceu o que com ele?
WILLIE: O colar? Ela nunca tirou.
TOM: Ah!

WILLIE: E eu herdei também todos os namorados dela. Alberto, Clemente e até o superintendente do almoxarifado. No início eles sumiram todos. Acho que ficaram com medo de ter de pagar alguma despesa, ou coisa assim. Mas, de uns tempos para cá voltaram. Igual andorinhas. Me levaram para sair a noite. Agora eu sou popular: vou a todas as festas da ferroviária. Olha aqui!
TOM: O quê?
WILLIE: Como eu danço bem. Eu sei mexer minhas cadeiras (E mexe.)
TOM (num rasgo de coragem): Frank Waters disse que...
WILLIE: O que ele disse?
TOM: Você sabe.
WILLIE: Sei o que?
TOM: Que você levou ele pra dentro de sua casa...e dançou pra ele sem roupa.
WILLIE: Ah, isso. Minha boneca maluca está precisando lavar a cabeça. Eu fico com medo de lavar, com medo que a cabeleira descole, que a cabeça tá meio rachada, você viu. Os miolos dela devem ter saído todos. Ela anda completamente boboca depois que rachou. Anda dizendo e fazendo coisas horrorosas. Preciso colar ela.
TOM: Por que você não faz a mesma coisa comigo?
WILLIE: Colar tua cabeça?
TOM: Mesma coisa que você fez com Frank Waters.
WILLIE: Porque naquele dia eu estava me sentindo muito sozinha e hoje não estou. E você pode dizer isso pro Frank Waters, se você quiser. Diz a ele que eu herdei todos os namorados de minha irmã. Agora eu saio com homens adultos, homens que tem empregos importantes. O céu está mesmo branco. Como uma folha de papel.
No quinto ano Miss. Preston dava pra gente folhas de papel em branco e deixava desenhar o que a gente quisesse. Eu desenhei meu pai bebendo numa garrafa. Ela achou bom e falou: “Olha aqui. Um retrato de Carlitos com o chapéu do lado da cabeça”. Aí eu disse: “Não é Carlitos, é meu pai, e não é chapéu, é uma garrafa”. Todo mundo riu muito.
TOM: E Miss. Preston.
WILLIE: Ninguém consegue fazer uma professora rir. E você metas idéias na cabeça – quando passar pela casa amarela grite que se eu estiver apareço na porta, você é um bom menino. Quer dizer, não sei quanto tempo eu vou morar lá: a propriedade está condenada, apesar de não ter nada errado com ela. Um cara do governo ficou rondando anteontem. Eu reconheci logo, pelo tipo de chapéu.
TOM: E você fez o que? www.oficinadeteatro.com
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WILLIE: Me escondi, ele foi embora. Você dá um recado a Frank Waters que eu mandar?
TOM: Dou.
WILLIE: Diz a ele que eu fui dançar no Cassino Lagoa Azul. E que cheguei em casa bêbada, de manhã! Que lá teve música com todo tipo de instrumentos, até trombone e trompetes. E guitarras havaianas. E que eles tocaram até música de Alva.
TOM: Está bem. Eu digo.
WILLIE: E agora eu vou voltar.
TOM: Pra onde, Willie?
WILLIE: Pro tanque d´agua, começar tudo de novo. Vai ver qualquer dia eu quebro um recorde. Alva uma vez quebrou um, numa maratona de Danda em Meville. É atravessando a linha do trem. Alabama. E diz ao Frank que agora eu não tenho mais tempo pra garotos da idade dele.
TOM: Eu estou aqui pensando...
WILLIE: O quê?
TOM: Se tudo isso é verdade mesmo ou se você está inventando um bocado.
WILLIE: Não estou inventando nada não, seu bobo. Nem contei tudo. Eu podia provar, mas não vale a pena. Tchau. (E vai equilibrando-se nos trilhos.).
(Luzes se apagam...)