sábado, 6 de abril de 2013

Texto da peça "O Cavalinho Azul" de Maria Clara Machado




“O CAVALINHO AZUL” foi levado, pela primeira vez, pelo TABLADO, no Rio de Janeiro, em maio de 1960, com cenário de Anna Letycia; música de Reginaldo de Carvalho; figurinos de Kalma Murtinho; bichos de Marie Louise e Dirceu Nery; luz de Fernando Pamplona; assistente de direção, Heloisa Guimarães; piano, Martha Rosman; baixo, Livolsi Bartolomeo; flauta, Carlos Guimarães; maquiagem de Fredy Amaral; execução de cenário, Wagner dos Santos; eletricistas, Anthero de Oliveira e Diaci de Alencar; direção de Maria Clara Machado. Personagens: Cesar Tozzi, Caire Isabella, José de Freitas, Anna Maria Magnus, Carlos Augusto Nem, Delson de Almeida, Anthero de Oliveira, Yan Michaslki, Luiz de Affonseca, Ivan Junqueira, Celina Whately, Diaci de Alencar, Núvio Pereira, Geisa Virgílio, Lejzor Bronz, Afonso Veiga, Reynaldo Pereira, Virginia Valli e Paulo Mathias da Costa.

O CAVALINHO AZUL
1 ato e 9 cenas
Música de Reginaldo de Carvalho
PERSONAGENS


João, de Deus
Vicente, o menino
O  pai
A mãe
O  pangaré
O palhaço
O  músico gordo
O  músico alto
O  músico baixo
A menina
O  1.º homem
O  2.º homem
O 3.º homem
A lavadeira
O  vendedor
Os três soldados
Velha-que-viu
O  cowboy
Os três elefantes
Os quatro cavalos

Os personagens dos três elefantes podem ser os mesmos dos três soldados. Os quatro cavalos podem ser os soldados, o 1.º e o 2.º homem.


CENÁRIO

O palco vazio com fundo azulado. Os elementos das várias cenas vão sendo colocados à medida que a ação se desenrola.

1. ª  cena: Sugestão de uma casa.
2. ª  cena: O mesmo.
3. ª  cena: Cena vazia.
4. ª  cena: Sugestão de arquibancada de circo. 3 cadeiras.
5. ª  cena: O mesmo.
6. ª  cena: Cena vazia.
7. ª  cena: Sugestão de uma cidade: um coreto.
8. ª  cena: O curral do cowboy.
9. ª  cena: Cena vazia.
1.a CENA
(Ao abrir-se o pano, vê-se apenas o palco vazio. Enquanto se ouve a música n.0n.º 1A, 1B, um velho de longas barbas, maltrapilho e vagabundo, simpático e bonachão se dirige em direção à platéia segurando um tamborete.)
VELHO
Eu me chamo João de Deus. Sou vagabundo. Estou aqui para contar a história do menino Vicente e de seu cavalo. Um dia perdi a tesoura de cortar barba e tive que deixar crescer esta barba. No princípio não gostava; sujava muito quando eu comia, mas agora gosto; quando faz frio cubro-me assim, (Mostra.) e minha barba serve de cobertor. Também aprendi a comer com minha barba: faço assim. (Mostra.) Gosto dela também por causa do Vicente, que me achou parecido com o Padre Eterno. Isto quer dizer que minha barba se parece com a barba de Deus. Por isso cuido dela. Barba de Deus é coisa séria. Vou contar como e que esta história começou. Aqui (Pela esquerda entram o pai e a mãe carregando a casa.) morava Vicente com seu pai e sua mãe, nesta casinha. (O pai e a mãe colocam a casa e o banquinho e desaparecem.) E ali vem ele — nem me viu ainda — com seu cavalo. Vou deixar esta história contar-se por si mesma, enquanto vou ajudando aqui, ao lado. (O velho senta-se no tamborete, fora da cena, perto da cortina, na semi-obscuridade, enquanto a luz cresce dentro do palco, onde se vê um menino pobre puxando uma enorme corda que prende ao pescoço de um feio pangaré, sujo, magro, com cara infeliz. O menino, em êxtase, procura convencer o cavalo. (Dois atores em pé, um fazendo a cabeça com uma máscara e o outro fazendo de traseiro.)
VICENTE
Se você der mais uma voltinha, só mais uma vol­tinha, meu cavalinho, eu prometo levar você lá numa campina toda verdinha de tanto capim verde. Vamos, vamos, meu cavalinho azul! (O cavalo se levanta com grande esforço e começa a trotar em volta do menino.) Vamos, meu cavalinho azul! Upa! Upa! Upa! (O cavalo, cansado, começa a se arrastar.)
VICENTE
(Zangado.) Assim você não poderá trabalhar no circo! Não pode. Veja como eu faço. Como aquele grande cavalo branco lá do circo da cidade. Buuuuuuuu, assim, levantando as patas e depois me levando na garupa como a bailarina Lili, toda verde de tão bonita, e o domador Rogério de boné dourado e calças vermelhas... Upa! Upa! Upa! Vamos, vamos! (O cavalo está exausto.) Bem, por hoje, chega. Amanhã treinaremos mais. Você está cada vez melhor e mais bonito.
MÃE
(De dentro.) Vicente!
VICENTE
O que é, mamãe?
MÃE
(Saindo com uma trouxa de roupas para lavar.)
Venha estudar, menino. Está quase na hora da escola.
VICENTE
Já vou, mamãe. Deixe eu conversar mais um pouquinho só com meu cavalinho azul.
MÃE
Que cavalinho azul, que nada! Um pangaré velho que não presta mais nem para puxar a carroça de teu pai (Saindo com a trouxa.) Cavalinho azul!... Azul!
VICENTE
(Baixo, para o cavalo.) Não liga não, meu ca­valinho. (Para a platéia.) Mamãe chama meu cava­linho de sujo e velho porque ela pensa que ele é sujo e velho, porque mamãe é gente grande e gente grande tem que lavar roupa, fica cansada e maltrata o cava­linho, sem querer. Como é que ela pode saber a cor do meu cavalo se nem vê ele direito de tanto cozinhar, arrumar e lavar roupa? Também ele anda um pouco sujo hoje, mas é porque a água do nosso rio está quase seca, não lava mais direito, (Para o cavalo.) mas amanhã vou também te levar num rio muito grande, muito branco de tão limpo, que passa perto da campina verde. Lá você tomará um banho e vamos para o circo. Quem não estiver muito limpo e lindo também não pode entrar no circo, está ouvindo?
PAI
(Chegando com o balde.) Vicente, olha a ração do Mimoso. E chega de fazê-lo rodar. Ele está muito magro, precisa descansar.
VICENTE
Vou levar ele, papai, para a grande campina ver­de e vou dar um banho nele no rio de água branca.
PAI
(Bem humorado.) Onde é que existe esta campina, menino? Tudo está seco, isto sim. Seco e esturricado. Onde é que tem um rio grande e branco?
VICENTE
Aquele lá longe.
PAI
Longe, onde?
VICENTE
Ora, papai, lá longe, do outro lado daquele morro mais longe.
PAI
Lá longe é a cidade.
VICENTE
Onde está o circo, não é?
PAI
É. Vá estudar, menino.
VICENTE
Vou buscar meu livro e venho estudar aqui, tá bem? (Entra por trás da casa.)
PAI
(Depois de misturar a comida do cavalo.) Toma, pangaré, come isto para não morrer de fome. (O pangaré enfia a cara no balde. O pai sai e volta o me­nino.)
VICENTE
Você sabe o que é uma ilha? É uma quantidade de terra cercada de água por todos os lados... Um istmo (Diz baixinho, como procurando decorar.) Um istmo... é... Sabe, cavalinho, nós vamos lá... nós vamos na ilha cercada de água por todos os lados, cercada de istmos... de cabos, de tudo. Depois vamos ao promontório. Depois, eu monto em você e saímos correndo atrás das capitanias hereditárias... Vai ser ótimo!
MÃE
(De dentro.) Vicente, venha estudar cá dentro. Sozinho, longe deste cavalo.
VICENTE
Estou indo. (Entra gritando.) Vamos para as capitanias hereditárias! Eu e meu cavalinho azul...
PAI
(Chegando e ouvindo as últimas palavras do filho.) Mulher! venha cá. (A mãe chega.) Mulher, te­mos que vender o pangaré. (O cavalo levanta a cara do balde, assustado.)
MÃE
(Preocupada.) Vender? Por quê?
PAI
Este pangaré não serve mais para nada. Já vendi a carroça. Este cavalo só serve para comer mais dinheiro. Se for vendido, posso apurar uns cobres e com eles comprar umas galinhas e começar uma criação.
MÃE
E o menino?
PAI
O menino esquece. Arranja outro brinquedo.
MÃE
Esquece não. Ele só pensa nisto.
PAI
Está ficando doido; melhor é levar o cavalo logo. (Põe o chapéu, pega o cavalo pela corda.) Vou à cidade vendê-lo. Pro menino trago um brinquedo. Adeus mulher. (Sai.)
MÃE
Por que você não vende a vaquinha?
PAI
(Parando e voltando-se.) A vaquinha dá leite.
MÃE
Mas o cavalo dá alegria ao menino.
PAI
Mas não dá dinheiro. O menino se acostuma. (O pai sai puxando o pangaré. No proscênio ele se encontra com o velho João de Deus e pára.)
VELHO
Bom dia.
PAI
Quem é o senhor?
VELHO
Sou João de Deus.
PAI
O que é que está fazendo aqui?
VELHO
Estou vendo tudo.
PAI
Para quê?
VELHO
Para contar aos outros, (Para a platéia.) eles.
PAI
(Depois de olhar para a platéia.) Vai contar na certa que sou um pai muito ruim porque vou vender o pangaré!
VELHO
O senhor tem que vender mesmo?
PAI
Depois quem vai arranjar dinheiro para o me­nino comer? É muito fácil ter pena do pangaré, mas de mim ninguém tem. Adeus. (Sai muito zangado.)
VELHO
O pai ficou muito zangado e partiu para a feira, onde vendeu o cavalo. Pensamos que o menino ia ficar muito triste. Alguns dias se passaram, e vejam o nosso Vicente sentadinho na porta, com sua bola, presente do pai. (Escurece no velho e clareia na cena.)
2.ª CENA
Vicente, sentado na soleira da porta, de vez em quando dá uma espiadela para fora. (Ouve-se a música n.º 3A.)
VICENTE
Mamãe!
(Aparecendo.) Que é, menino?
VICENTE
Que horas que ele volta?
MÃE
Quem?
VICENTE
O meu cavalinho azul.
MÃE
Acho que ele volta... amanhã. Venha para dentro, Vicente. Nem almoçou direito. Assim sem comer você não pode ficar.
VICENTE
Estou esperando.
MÃE
(Com muito jeito.) Acho, meu filhinho, que seu cavalo não volta mais. Seu pai trouxe esta bola para você brincar com ela. Você não acha bonita esta bola?
VICENTE
Acho. Por isso que eu quero mostrar ela ao meu cavalo.
MÃE
(Exasperada.) Seu cavalo foi vendido.
VICENTE
Eu sei, mamãe, não precisa gritar. Papai me disse. Mas depois ele volta.
MÃE
Mas agora ele tem outro dono.
VICENTE
(Rindo.) Outro dono. Ah! ah! ah! Como é possível isto, mamãe? Dono a gente só tem um. Ele volta.
MÃE
Volta não.
VICENTE
Volta sim. Volta porque estou esperando ele para irmos ao circo.
MÃE
(Entrando na casa.) Ah, menino. Assim não é possível.
VICENTE
(Música n.º 3B)
(Sozinho.) Estou achando é que meu cavalinho perdeu o caminho. (Suspirando forte.) Ele é tão distraído! Preciso ir atrás dele. Mamãe disse que este mundo está cheio de perigos. Não posso mais deixar meu amigo perdido por aí. Talvez ele tenha ido para as Antilhas Holandesas ou então para a ilha de Brocoió cercada de água por todos os lados, ou algum istmo ou cabo... sei lá, todos estes perigos... e se ele foi para a serra da Mantiqueira? Coitadinho! Adeus meu pai, adeus minha mãe, me esperem que eu volto com ele. Adeus. (O menino sai pelo proscênio em direção oposta ao lugar onde está o velho e a música continua até o encontro com o velho.)
3.ª CENA
(O velho entra na cena e tira a casa. Vicente  torna a aparecer na cena nua, enquanto o velho o aguarda.)
VELHO
Sozinho, menino, neste caminho?
VICENTE
Quem é o senhor?
VELHO
(Meio surdo.) O quê?
VICENTE
Quem é o senhor?
VELHO
João de Deus.
VICENTE
(Espantadíssimo.) O senhor é... o Deus?
VELHO
(Depois de uma pausa, gozador, topando a confusão.) Sou.
VICENTE
Do catecismo?
VELHO
Ih! ih!, hi... sou.
VICENTE
Bem que eu estou vendo tanta barba. Deus no duro? Padre Eterno?
(Pausa.)
VELHO
No duro.
VICENTE
Aquele que está em toda a parte?
VELHO
Aquele mesmo.
VICENTE
Então. Senhor Deus, quer fazer o favor de olhar onde está o meu cavalinho azul?
VELHO
O quê?
VICENTE
Pois o senhor não vê tudo?
VELHO
Vejo. Claro que sim...
VICENTE
Cabos, ilhas, istmos, serra da Mantiqueira, e  tudo? e idéia na cabeça e tudo?
VELHO
E tudo.
VICENTE
Então cadê ele?
VELHO
Ele?
VICENTE
O cavalo. Não viu? O meu?
VELHO
Não vi.
VICENTE
Mas você não vê tudo?
VELHO
Ah! vi sim. Muito lindo seu cavalo.
VICENTE
Azul!
VELHO
Com cauda azul, muito grande...
VICENTE
Não, a cauda é branca, áó Deus, você esqueceu?
VELHO
Esqueci não. Fico cansado de ver tudo ao mesmo tempo...
VICENTE
Deve cansar mesmo ver tudo ao mesmo tempo. Não tem dor de cabeça? Eu não. Não sou como o senhor. Coitado! Só vejo poucas coisas e meu cava­linho.
VELHO
Então vamos achá-lo.
VICENTE
O senhor vem comigo?
VELHO
Não posso, menino. Se vou procurar seu cavalo, quem é que vai vigiar o mundo?
VICENTE
O senhor não pode deixar algum santo fazer isso por uns dias?
VELHO
Não posso.
VICENTE
Então, adeus.
VELHO
Espera, menino. Onde é que você vai?
VICENTE
Vou indo por aí ver se acho ele.
VELHO
Quando você precisar de mim, é só chamar que estou ali sentado naquele banquinho.
VICENTE
É dali que o senhor vigia o mundo?
VELHO
É.
VICENTE
Ahn! Então, adeus! (Desaparece do lado oposto.)
4.ª CENA
VELHO
Foi assim que conheci Vicente. Uns achavam que ele era um menino mentiroso porque inventava coisas; via cavalos azuis, circos enormes, campinas verdes; achava que um vagabundo como eu era Deus, imaginem vocês.
Outros achavam que ele era louquinho. Cá para mim, acho que ele nem era mentiroso, nem louco. Apenas via as coisas diferentes e acreditava mesmo no que via. Só sei que ele andou pelo mundo atrás de seu cavalo. Será que encontrou? Vamos ver por onde ele anda agora. Depois de muito caminhar chegou primeiro a um circo numa cidade pequena perto da cidade dele. (O velho puxa a pequena arquibancada.) Os donos deste circo são aqueles três músicos que vêm ali (O velho volta ao tamborete. Os músicos entram com suas cadeiras, solenemente. Um gordo e alto, o segundo alto e magro, e o terceiro, baixinho. O gordo leva um violino, o alto leva um piano, e o baixinho, um contrabaixo, que vão buscar fora de cena depois de colocarem as cadeiras no fundo da cena. Estes instrumentos são feitos de madeira compensada, bem leves para serem carregados e a música é tocada nos bastidores enquanto os músicos de cena apenas pretendem que tocam como em instrumentos de brinquedo. O gordo abre a portinhola de seu violino que só tem a utilidade de guardar dinheiro, e retira uma flauta. Os três co­meçam a tocar a música n.º 5A, enquanto chega a meninazinha que cumprimenta os velhos e senta na arquibancada. Os velhos usam fraque e cartola, barbas postiças e pedaços de cabelos saindo das cartolas.)
VELHO
Estes velhos alugaram um palhaço para fazer graça enquanto eles tocavam e ganhavam dinheiro.
(Tambor forte para a chegada do palhaço.)
PALHAÇO
Caro público! Boa tarde, bom dia e boa noite! Este é o nosso grande circo americano! Boa tarde, bom dia e boa noite! Os melhores (Acentuando.) trapezistas do mundo vão voar por este teto! Cinco elefantes vermelhos, domesticados, educados, amestrados, vão cantar! Cantar, caro público, cantar com voz de elefantes! Um cachorro chamado Doly vai tocar violino... Tocar violino, caro público, com pata de cachorro... Um gato vai cantar... Um gato cantor, caro públicos com voz de barítono... Uma foca bailarina e uma bailarina gente vão dançar ao mesmo tempo, ao mesmo tempo, caro público, em cima de cinco cavalos... cinco cavalos, caro público... Um homem que engole fogo e cospe gelo, cospe gelo, caro público. (Ouve-se um tambor forte. Segue-se grande silêncio.)
PALHAÇO
Tudo por cinco cruzeiros!
(O palhaço passa pela arquibancada esperando quem pague, enquanto os músicos terminam a valsi­nha. A menina se levanta e tira de uma bolsinha cinco cruzeiros, que entrega ao palhaço; este leva o dinheiro para o gordo, que abre a portinhola de seu violino e guarda o dinheiro.)
E, para começar, o grande palhaço, o mais engraçado do mundo, vai fazer um número de corda bamba. Este palhaço sou eu e aqui está a corda bamba.
(O palhaço estica no chão uma corda, abre um guarda-chuva mirim e começa a fingir que se equilibra no clássico número. Os músicos acompanham o número. A menina bate palmas.)
PALHAÇO
Muito obrigado! Muito obrigado, caro público! E agora o grande palhaço do grande... (Neste mo­mento entra Vicente; o palhaço faz uma pausa para olhá-lo, depois do grande circo ameri­cano vai fazer o número de contorcionismo. (Vicente, entusiasmado, começa a bater palmas. O palhaço fica nervoso com tanto entusiasmo e desanda a fazer uma série de números e evoluções, sempre com Vicente e a menina batendo palmas, até que, exausto, se senta no chão.)
VICENTE
(Aproximando-se.) Grande palhaço do grande circo americano, quer fazer o favor de me dizer se o meu cavalo azul está aqui?
PALHAÇO
O quê? Um cavalo azul? Nunca vi. (Põe-se de pé. Os músicos também.)
VICENTE
Com um rabo enorme, branco!
PALHAÇO
Isto existe? Um cavalo azul?
VICENTE
O meu. É lindo. Dança, canta e voa.
PALHAÇO
(Correndo para os músicos.) Cavalo azul... Cavalo azul... Deve ser mentira... Deixa de bobagem, menino. Não vê que estou trabalhando? Não atrapalhe meu número contando coisas (meio em dúvida) que não existem... Sai daí. (Num canto, desconfiado.) Cavalo azul!
(Vicente sobe na arquibancada, os músicos tocam um acorde esquisito, o palhaço presta atenção e corre para Vicente.)
PALHAÇO
Se quiser assistir, tem que pagar.
VICENTE
Mas eu não tenho dinheiro.
MENINA
Eu pago para ele. (A menina tira o dinheiro e dá ao palhaço; este leva-o ao músico gordo, que o guarda dentro do violino.)
VICENTE
Obrigado, menininha.
PALHAÇO
Agora podem bater palmas. Acabei meu número de contorcionismo. (Vicente e a menina batem palmas.)
PALHAÇO
(Trocando de casaca e pondo uniforme de domador.)
Atenção. Agora o grande circo americano vai apresentar o número dos três elefantes que vieram especialmente da África para o nosso circo.
(Entram três elefantes muito cansados que dançam muito sem graça uma valsa tocada pelos músicos (10). Depois, os elefantes vão-se embora e os meninos batem palmas.)
PALHAÇO
E por hoje é só, caro público.
MENINA
Mas o senhor disse que ia ter uma porção de coisas mais!
PALHAÇO
Eu disse?
MENINA
Disse sim. Cachorro que toca violino. Trapezistas no ar, e a dançarina Lili? E a ­foca? Cadê?
PALHAÇO
(Cortando.) Ah! é verdade... mas isto tudo vai ser amanhã... Amanhã, caro público. Imaginem que a dançarina Lili (Confidencial.) está com dor de barriga... e o trapezista... o trapezista... (Entusiasmando-se.) caro público, torceu o pé... o cachorro que toca violino foi despedido porque... porque mor­deu o rabo do gato cantor... e o gato cantor foi para o hospital... mas amanhã... caro público... amanhã por cinco cruzeiros teremos tudo isto... Boa tarde... bom dia... boa noite... (Vai saindo enquanto fala. A música recomeça: 5A.)
(Vicente acompanha a música com o corpo. A me­nina observa-o.)
MENINA
Ele é azul mesmo?
VICENTE
O quê?
(Os músicos param de tocar e põem ouvidos.)
MENINA
(Repetindo.) Ele é azul mesmo?
VICENTE
Tão azul que nem sei!
MENINA
Eu gostaria tanto de procurar um cavalo azul!
VICENTE
Você quer vir comigo?
MENINA
Não posso.
VICENTE
Por quê?
MENINA
Paguei cinco cruzeiros e estou esperando acontecer  alguma coisa bonita aqui no circo.
VICENTE
E não acontece nada?
MENINA
Todos os dias é a mesma coisa. O palhaço dá cambalhotas e os três elefantes dançam. Já dei todas as minhas notas de cinco e ainda não vi o cachorro tocar violino.
VICENTE
Vai ver que é mentira do palhaço.
MENINA
Será?
VICENTE
Vamos buscar o cavalinho. É melhor procurar nós dois do que sozinho. Vai ser lindo!
MENINA
Tenho que pagar cinco cruzeiros?
VICENTE
Não. Você pode vir de graça.
MENINA
Então, vamos.
VICENTE
Para que lado você quer ir primeiro? No Pacífico ou no Índico?
MENINA
Tenho um tio que mora no Ceará. Vamos lá primeiro?
VICENTE
Capital Fortaleza?
MENINA
É.
VICENTE
Fortaleza é um nome lindo. Então vamos lá primeiro.
(Saem. Clareia sobre o tamborete onde está o velho João de Deus.)
VELHO
Enquanto Vicente saía com a menina, os três velhos músicos que na verdade são três bandidos disfarçados, (Os velhos tiram a barba e fazem cara de bandido.) estes bandidos que fingiam que eram músicos, obrigavam o palhaço a trabalhar de graça, não davam comida aos elefantes dançarinos, roubavam tudo que viam, quando ouviram a história do cavalinho azul ficaram loucos para roubá-lo do menino.
(Penumbra sobre o velho.)
BAIXINHO
Você ouviu? Ele tem um cavalo azul.
GORDO
Se conseguirmos este cavalo para o circo, ganha­remos tanto dinheiro que ficaremos milionários... Todo mundo vai querer ver esta maravilha.
ALTO
Vamos pegar o menino.
BAIXINHO
Chame o palhaço.
(O Alto sai e volta com o palhaço.)
BAIXINHO
Você ouviu o menino, palhaço?
PALHAÇO
Ele tem um cavalo azul.
ALTO
Com um rabo enorme, branco.
BAIXINHO
E sabe dançar.
OS QUATRO
E voar.
(Os três velhos se entreolham, vestem as barbas e se precipitam para fora de cena, trazendo em seguida Vicente e a menina um pouco atrás. Vicente está assustado. Os três estão querendo adular o menino.)
BAIXINHO
Palhaço, vai buscar pipocas para ele. (Palhaço sai.)
ALTO
Sente-se aqui, menino.
GORDO
E você aqui, menina. (Os dois meninos sentam-se nas duas cadeiras oferecidas pelos músicos.)
(O palhaço volta com as pipocas. Os quatro olham para os meninos comerem as pipocas.)
BAIXINHO
Faz uma graça, para o menino rir, palhaço.
(O palhaço faz umas caretas, mas o menino não ri. Só os três músicos dão gargalhadas estrondosas para impressionar o menino, que finalmente começa a rir. A menina está um pouco assustada.)
BAIXINHO
(Quando todos param de rir de repente.) É verdade mesmo, menino?
VICENTE
É.
OS TRÊS
Azul?
VICENTE
Azul.
ALTO
Como o céu?
VICENTE
Não.
GORDO
Como o mar?
VICENTE
Não.
OS TRÊS
Oh!
BAIXINHO
Como os olhos do palhaço?
VICENTE
Não.
ALTO
Então como é êle?
VICENTE
(Música n.º 13)
(Enleado.) Às vezes ele fica como o céu, depois, quando vem a tarde, ele fica um pouco como os olhos do palhaço, mas à noite é sempre como o mar à noite.
OS QUATRO
É lindo! Sen-sa-ci-o-nal.
VICENTE
É. (Cessa a música.)
BAIXINHO
(Rapidamente.) Por quanto você quer vender?
VICENTE
Não quero vender nunca. Meu pai já vendeu, mas vou buscá-lo.
MENINA
Não vende não!...
BAIXINHO
(Chamando os outros para confabularem num canto.) Venham cá. Fica aí, palhaço, fazendo mais graça para ele.
(Enquanto os três músicos bandidos confabulam, o palhaço tenta continuar as graças.)
VICENTE
Não precisa disso não, palhaço. Você já deve estar cansado.
BAIXINHO
(Voltando-se para Vicente.) Ele come muito, seu cavalo?
VICENTE
Só milho e capim, às vezes um pouco de nuvem que desmancha.
BAIXINHO
(Como para si mesmo.) Nuvem desmanchada é chuva. É barato. (Para Vicente.) E por onde anda ele?
VICENTE
Aí pelo mundo... Na serra da Mantiqueira, no Ceará ou... (Os três se aproximam.)
OS TRÊS
Ou...
VICENTE
Nas Capitanias Hereditárias.
OS TRÊS
! ! ! !
VICENTE
É. Um dia ele fugiu de casa e foi correr o mundo; agora tenho que ir atrás dele, senão ele é capaz de se perder aí por estes perigos que existem nos promontórios e istmos da terra. (Começa a sair com a menina.)
GORDO
Você vai por que estrada?
VICENTE
Pela estrada do Ceará. Adeus, velhos. Na volta passo por aqui montado nele.
(Sai com a menina.)
5.ª CENA
BAIXINHO
Precisamos deste cavalo.
GORDO
Vamos matar o menino.
ALTO
Não adianta matar o menino sem termos primeiro o cavalo.
BAIXINHO
É de um cavalo assim que estamos precisando. Um cavalo milagroso, que nos dará dinheiro sem precisarmos trabalhar.
ALTO
Ele come pouco milho.
GORDO
E capim.
BAIXINHO
Nós lhe daremos só capim. O milho está caro.
OS DOIS
Só capim.
BAIXINHO
Escutem aqui, amigos. Iremos atrás do menino. Quando ele achar o cavalo, matamos o menino e tra­zemos, o cavalo.
ALTO
Que grande idéia, Baixinho!
BAIXINHO
(Chamando.) Palhaço! Tira este circo dai. Vamos viajar.
(O palhaço tira as arquibancadas. Os velhos saem com seus instrumentos. João de Deus tira as cadeiras e fala do meio da cena.)
6.ª  CENA
VELHO
Vicente, sempre acompanhado pela menina, começou sua busca pela estrada. Foi primeiro até o Ceará. E o cavalinho não estava nem em Fortaleza nem em Cabrobó, nem em lugar nenhum. Foi a Pernambuco, ao Amazonas, andou perto do rio Negro e do Tocantins. E nada. Depois voltou para o sul. Os dois meninos viajavam de dia e dormiam à noite. Mas não sabiam do perigo que vinha atrás deles. Os três velhos, fingindo que eram músicos de verdade, para não serem vistos, andavam durante a noite e dormiam de dia. Os velhos, cada vez mais gulosos, só pensavam no dinheiro que o cavalo azul ia dar-lhes. (Volta para o tamborete.)
(A cena da viagem dos meninos perseguidos pelos músicos é feita com mudanças de luz e de música. Enquanto toca a música número 1.4A - BC - passam o menino e a menina. A cena escurece para sugerir noite, mudando também a música para o número 14AB e passam os três músicos com ares de perseguição. Os meninos tornam a passar e torna a clarear em cena. Os meninos estão visivelmente cansados. Voltam a passar os velhos também cansados e finalmente tornam os meninos que se dirigem a João de Deus no proscênio. Cessa a música.)
MENINA
Já andamos muito, Vicente. Vamos descansar um pouco.
VICENTE
Vamos. Também estou muito cansado. Ei, Sr. Deus! Este meu cavalo está me dando tanto trabalho!... (Os dois sentam-se perto do velho e dormem.)
VELHO
Tão cansados, coitadinhos. (O velho sussurra uma canção de ninar enquanto escurece sobre eles e os velhos entram em cena com sua música e param também para descansar. Cessa a música.)
ALTO
(Sentando-se perto de seu piano.) Quanto você acha que ele vale, hem Baixinho?
BAIXINHO
(Abrindo a portinhola do contrabaixo e tirando uma banana.) Milhares de notas de cinco cruzeiros.
ALTO
Ficaremos ricos e não precisaremos mais trabalhar. (Abre seu piano e tira também uma banana, dando outra para o Gordo. Eles comem a banana.)
BAIXINHO
Vamos embora que está amanhecendo. Não podemos perder a pista do menino.
OS DOIS
Não podemos perder a pista do cavalo azul.
(Saem.)
7.ª CENA
VELHO
Enquanto dormem um pouquinho, vou preparar a cidade aonde eles vão chegar. (O velho puxa o coreto para o meio da cena. Os meninos se levantam, espreguiçam e entram na cidade enquanto o velho volta ao tamborete.)
VICENTE
Vem ali um homem. (Aparece um homem bem vestido. Cessa a música.) Homem, será que o senhor viu um cavalo azul passando por aqui?
HOMEM
Um, o quê?
VICENTE
Um cavalo azul.
HOMEM
Você está doido? Isto aqui é uma cidade. Não existe destas coisas por aqui. (Quer sair.)
VICENTE
(Puxando-o.)  Existe sim, o meu. Quer saber como ele é?
HOMEM
Tenho mais o que fazer do que ouvir histórias de cavalos azuis. Já estou atrasado cinco minutos. Não posso chegar atrasado.
(Vem vindo outro homem.)
VICENTE
O senhor viu?
2.º HOMEM
Meu relógio estava atrasado três minutos. Não posso perder a hora. (Sai.)
(Vem vindo o 3.º homem.)
VICENTE
Será que o senhor viu?
3.º HOMEM
Não vi nada. (Desaparece.)
VICENTE
(Vem vindo a lavadeira.)
E a senhora viu?
LAVADEIRA
Não adianta perguntar, que não vi nada. Se vejo alguma coisa, não posso lavar toda roupa. (Sai.)
VICENTE
E os senhores?
(Vêm vindo três soldadinhos.)
TRÊS SOLDADINHOS MARCHANDO
(Cantando em cadência.) Não temos tempo a perder... Não temos tempo a perder... Não temos tempo a perder... (Saem.)
(Surge o vendedor.)
VENDEDOR
Quem quer comprar?... Quem quer comprar?... Quem quer comprar?...
(A menina sai atrás do vendedor. A cidade, num ritmo mais acelerado, torna a voltar e todos, sem perceberem Vicente, passam de um lado para o outro, sempre dizendo suas frases apressadas.)
VICENTE
(Gritando acima de todas as vozes.) Quem viu meu cavalo azul? Quem viu meu cavalo azul? (Toda a cidade desaparece, ouve-se então a voz da Velha-Que-Viu.)
VELHA-QUE-VIU
Eu vi... eu vi. (Entra em cena, vestida de uma maneira estranhamente fora de moda, como estas loucas que usam chapéu, xale e bolsa e que, em outras épocas, foram elegantes.)
VICENTE
(Precipitando-se para ela.) Viu? Azul?
VELHA-QUE-VIU
Todo azul com enormes asas para voar na terra.
VICENTE
É. É.
VELHA-QUE-VIU
E com grandes barbatanas para nadar no mar...
VICENTE
(Achando que a velha está exagerando.) Bem, isto...

VELHA-QUE-VIU
(Contando.) E dois olhos de fogo, numa cabeça tão linda... tão linda...
VICENTE
(Não se contendo.) Ela viu... Ela viu!... (Para a velha.) Espera, vou chamar minha amiga. (Sai de cena.) Menina... menina... ela viu...
(Enquanto Vicente procura a menina, chegam os três velhos e raptam a velha.)
GORDO
Ela viu. É nossa. (Desaparecem com a velha, que não reage.)
VICENTE
(Voltando com a menina.) Onde está a Velha-que-viu? para onde foi a Velha-que-viu? Desapareceu! Velha! Velha!
MENINA
(Sentando-se na escada do coreto muito desanimada.) Vicente, não adianta mais a gente procurar... já andamos tanto... tanto!
VICENTE
Já estamos quase encontrando. A velha viu. Ela vai nos dizer para onde ele foi... Onde? Onde está você, meu cavalinho? Bem perto?
VENDEDOR
(Chegando.) Quem quer comprar?... Quem quer comprar...
MENINA
(Desanimada.) O senhor tem um cavalinho azul?
VENDEDOR
Azul, vermelho, amarelo... da cor que o freguês quiser.
VICENTE
De verdade?
VENDEDOR
De papelão.
MENINA
Quanto custa?
VENDEDOR
Cinco cruzeiros. (Tira um cavalinho de massa azul.)
VICENTE
Será que o senhor não viu um de verdade?
MENINA
Este mesmo serve, Vicente. Vamos embora. Estou com medo.
VENDEDOR
Por que é que você não procura no curral do Cowboy?
VICENTE
Lá tem cavalos?
VENDEDOR
Muitos. (Sai.) Quem quer comprar? Quem quer comprar?

VICENTE

Então vamos lá, meninazinha?
MENINA
Quero ir para casa, Vicente. Este mesmo serve.
VICENTE
É a última vez que procuramos, está bem?
MENINA
Promete?
VICENTE
Depois você pode voltar.
MENINA
E você?
VICENTE
Só volto quando encontrar meu cavalinho. Coitado. Tão sozinho.
MENINA
Então, vamos. (Os dois saem. A menina puxando o   cavalo de papelão.)
VICENTE
(Saindo.) Pena que a Velha-que-viu tenha sumido. (Voltam os três músicos carregando a velha.)
BAIXINHO
Agora pode falar, velha.
ALTO
E depressa, que não temos tempo a perder. (A velha fica quieta e entra no coreto cantarolando.) Fala, velha. Onde é que está o cavalo? Você viu?
VELHA-QUE-VIU
(Calmamente.)
O vento é verde, a chuva é branca, e lá vem o menino cavalgando no cavalo azul...
OS TRÊS
É ele. Onde? (Amedrontados, eles saem de cena e tornam a voltar com os instrumentos de onde tiram armas.)
VELHA-QUE-VIU
Cavalgando na nuvem...
OS TRÊS
(Olhando e apontando armas para as nuvens.) Nas nuvens? Deve ser um monstro!
GORDO
Um dragão!

BAIXINHO
Um dragão
ALTO
Um dragãozão!
VELHA-QUE-VIU
(Agora bem rápido.) Lá vem o menino cavalgando no cavalo azul... Cavalgando, na nuvem que é preta e grita: ai! ai! ai! Quero cair, quero molhar... quero virar rio, pro cavalo beber... (A velha começa a passear pela cena seguida pelos velhos estupefatos.)
Pacatá, pacatá... pacatá...
BAIXINHO
Ela é doida!
VELHA-QUE-VIU
Quero cair.
Quero molhar.
Virar um rio.
Pacatá, pacatá, pacatá.
Um rio virar
Pro cavalo beber...
ah! ah! ah!
BAIXINHO
Pára com isto, velha (Segura a velha.) Quer matar de susto três pobres velhos que sofrem do coração? hem? Onde é que você viu o cavalo azul, hem? Diz logo, velha, senão eu te mato.
VELHA
Me larga, velho horroroso... (A velha se desprende e sai correndo com os velhos atrás numa cor­rida bastante ridícula. A velha escapole e some.)
ALTO
Depressa, Gordo. Lá vem gente. Ninguém deve saber que estamos aqui.
(Os três mais do que depressa tomam seus instrumentos, guardam as armas, entram no coreto e começam a tocar uma valsinha lenta. Música n.º 5AB. Pela frente e por trás dos velhos passam os habitantes da cidade que nós já conhecemos. Ninguém repara nos velhos. Todos saem. Menos o vendedor.)
VENDEDOR
Quem quer comprar...
GORDO
Psiu! Seu vendedor!
VENDEDOR
Quer comprar, senhor?
BAIXINHO
Queria saber se o senhor não viu um menino com uma menina.
VENDEDOR
Ora, senhor, eu vejo tantos todos os dias.
BAIXINHO
Mas este é diferente. Ele anda atrás de um cavalo azul.
VENDEDOR
Ah! Aquele? Vi sim. A menina até me comprou um brinquedo.
ALTO
Para onde foram eles?
VENDEDOR
Acho que foram até o curral do Cowboy. Lá está cheio de cavalos. Pode ser que ele encontre o dele lá.
BAIXINHO
Curral do Cowboy onde é?
VENDEDOR
No fim desta estrada que começa ali. Quem são os senhores? Parentes do menino?

BAIXINHO

Tios dele. E donos de um circo lá no sul. Obrigado pela informação. Vamos, pessoal. Precisamos encontrar nosso sobrinhozinho.
OS DOIS
Nosso sobrinhozinho.
(Os velhos saem com a música n.º 14B.)
VENDEDOR
Quem quer comprar...
(O vendedor sai e o velho tira o coreto.)
8. ª CENA
VELHO
O caminho para o curral do Cowboy era muito comprido. Vicente e a meninazinha começaram a andar pela estrada mas se perderam no caminho.
(Enquanto o velho fala no proscênio, os meninos passam com a música n.º 1B)
... e foram para longe do curral. (Cessa a música.) Mas os velhos, que são bandidos muito espertos, vão chegar primeiro ao curral. Neste lugar o cowboy criava cavalos para vender aos circos. Eram portanto cavalos ensinados. (Entram os quatro cavalinhos brancos. Os atores que vestem a cabeça dos cavalinhos brancos entram de lado, levando uma única peça de cenário que esconde o corpo e as pernas dos atores e representa o curral). De noite os bandidos chegaram. Estava muito escuro. (Escurece em cena enquanto surgem os três bandidos com lanternas e começam a procura, iluminando a cara de cada cavalo que levanta o focinho à medida que é iluminado.)
BAIXINHO
Este é branco (Os outros respondem sempre: é branco.) Este também é branco. Este também é branco. Este também é branco.
OS DOIS
Tudo branco.
OS TRÊS
Onde está o azul?
ALTO
Só se está trancado. Vamos esperar o dia chegar e perguntar ao vaqueiro.
GORDO
Por que não procurar logo?
ALTO
Se o vaqueiro desconfia pode mandar nos prender.
GORDO
Por que não pedimos a ele para nos vender ?
BAIXINHO
Você é cretino, Gordo? Acha que alguém vai querer vender um cavalo que voa, que canta e que é azul?
ALTO
Temos é que roubar.
GORDO
Vamos logo, então.
ALTO
Vê se o dia está nascendo?
GORDO
(Olhando.) Já. (Clareia em cena, os cavalos relincham e levantam a cabeça. Os bandidos se escondem. Chega o Cowboy com seu grande chapéu.)
COWBOY
Que barulho é este? Se é ladrão de cavalo, atenção! que eu atiro. (Puxa os revólveres.) Não há ninguém aí? (O Cowboy corre a cena até que ouve o barulho de um dos instrumentos, e muito desconfiado aponta os revólveres. Os três músicos, apavorados, imediatamente saem do esconderijo segurando os instrumentos.)
BAIXINHO
Somos três pobres músicos pedindo esmola.
COWBOY
Músicos, aqui no curral? Isto está me cheirando a mentira.
ALTO
Somos músicos, sim.
GORDO
Sim, somos músicos.
BAIXINHO
Ouça, senhor Cowboy. (Começam a tocar a música n.º 5B.)
COWBOY
(Interrompendo.) Vocês não vieram roubar meus cavalos? (Os três começam a rir nervosamente).
BAIXINHO
Que bobagem!
ALTO
Que bobagem!
GORDO
Que bobagem!
BAIXINHO
Vamos continuar a tocar para ele. (Os três põem-se a tocar a música - 5A, enquanto o Cowboy passeia desconfiado. Enquanto tocam, chegam Vicente e a menina.)
VIcENTE
Olha quem está aqui. O circo! Os nossos amigos do circo. Os músicos! (Os três bandidos param de tocar e ficam estatelados.) Queridos músicos, como é que vocês vieram parar aqui? (Os três se entreolham e olham para o Cowboy).
BAIXINHO
Andando.
ALTO
Andando.
GORDO
Andando.
VICENTE
Para que vocês estão aqui?
BAIXINHO
Viemos tocar música para este Cowboy. (Música 5A).
ALTO E BAIXINHO
Viemos (Confirmando.)
COWBOY
Acho que eles são ladrões de cavalos.
VICENTE
São não, seu Cowboy. Eles são músicos do maior circo do mundo. Como vai o palhaço?
GORDO
Vai bem.
ALTO
Vai bem.
BAIXINHO
Vai bem.
VICENTE
Com licença. Quero falar agora com o Cowboy, porque (Falando confidencialmente.) o meu cavalinho azul está aqui. Com licença. (Vicente leva o Cowboy para um canto e começa a conversar. Os músicos querem ouvir a conversa.)
Ouve-se apenas o Cowboy dizer alto:
COWBOY
Azul? Sim, claro, venha comigo. (Os três saem de cena.)
BAIXINHO
(Para os músicos.) Vocês não ouviram? (Os três abrem as portinholas dos instrumentos e tiram os revólveres.) Agora o cavalo está no papo. (Vem vindo o Cowboy com os meninos.) Mãos ao alto!
ALTO
Mãos ao alto!
BAIXINHO
Mãos ao alto!
GORDO
Passem já para cá o cavalo azul. (Os cavalos brancos, assustados, fogem em disparada. O Cowboy levanta a mão. Vicente e a menina olham sem compreenderem o que está se passando.)
GORDO
Mãos ao alto, menino!
ALTO
Mãos ao alto, menina!
(Todos estão de mãos erguidas.)
COWBOY
Ladrão de cavalos. Bem que eu desconfiava...
BAIXINHO
Passem logo o cavalo azul, se não querem levar tiros na barriga.
VICENTE
Mas ele não está aqui, seu músico.
BAIXINHO
Não me faça de bobo, sim, menino? Já estou cansado de ouvir mentiras. Pensa que não ouvi o Cowboy dizer que o azul estava aqui?
VICENTE
Mas não é o meu, seu Baixinho. O meu não é igual àquele.
BAIXINHO
Seu Cowboy, não tenho tempo a perder. O cavalo ou a vida.
COWBOY
(Vendo que não pode fazer nada contra tanta arma apontada.) Hip! Hip! Hip! Azul! Azul! (Todos aguardam ansiosos a chegada do cavalo.)
BAIXINHO
Vamos, por que ele não aparece?
COWBOY
Hip Hip! Hip! Azul! (Surge um dos cavalos brancos, muito tímido.)
GORDO
Mas este não é azul!
OS TRÊS
É branco.
COWBOY
O nome dele é Azul, porque tem olho azul.
BAIXINHO
(Para Vicente.) É este o seu?
VICENTE
(Rindo.) Não O meu é todo azul e grande!
ALTO
(Meio alucinado.) E sabe cantar
GORDO
(Idem.) E voar!
BAIXINHO
(Realista.) E vai dar muito dinheiro ao Baixinho aqui... Vamos, (Gritando.) quero seu cavalo azul, está ouvindo? (Sacode o menino, enquanto o Cowboy e a menina saem disfarçadamente.) Quero o seu cavalo para o meu circo, compreende? Agora, neste minutinho.
VICENTE
Mas eu estou procurando o meu cavalo, e depois vou levá-lo ao circo. Fica calmo, seu músico, não é preciso isso aí. (Revólver.) O senhor é músico mesmo, ou é bandido?
BAIXINHO
Bandido... e músico.
VICENTE
Mais bandido do que músico... ou mais músico  do que bandido?
BAIXINHO
Quase que só bandido.
VICENTE
Vocês três?
OS TRÊS
Nós três.
(Os três tiram as barbas e fazem caras de bandidos.)
VICENTE
Que caras feias, meu santo Deus. Vocês roubam pianos, violões, violoncelos, violinos, violas e vitrolas?
ALTO
Nós roubamos tudo.
BAIXINHO
Chega de conversa, amarrem o menino. Enquanto ele não nos der seu cavalo azul, não será solto. (O Alto e o Gordo amarram o menino.) Vamos, agora trate de descobrir o seu cavalo.
VICENTE
Amarrado ninguém pode procurar nada. Se vocês fazem o favor de me desamarrar.
BAIXINHO
Vai é morrer, porque estou desconfiado que este negócio todo é uma mentira.
ALTO
Nos fez andar meses e meses atrás dele
GORDO
Estou cansado de procurar.
BAIXINHO
Menino que faz bandido ficar cansado e não acha cavalo azul, deve morrer.
OS DOIS
Morrer.
VICENTE
Mas, se eu morrer, quem vai procurar meu cavalinho?
BAIXINHO
Não interessa.
ALTO
Não interessa.
GORDO
Não interessa.
(Ouve-se de fora a voz do Cowboy, que em seguida aparece armado.)
COWBOY
Mãos ao alto! (Os três largam tudo e ficam de mãos para o alto.) Músicos de meia tigela! Ladrões de cavalos! Já, já, para a polícia, andem!...
BAIXINHO
(Fingindo.) Deixe ao menos levar nossos instrumentos, Sr. Cowboy. Assim, quando estivermos na prisão sozinhos, nossa música distrairá...
COWBOY
Está bem. Mas andem logo. (Os músicos fingem que vão pegar os instrumentos e saem correndo com o Cowboy atrás.) Parem, seus bandidos, que eu atiro mesmo... (Sai atrás dos bandidos. A menina se apressa em desamarrar o menino.)
MENINA
Vicente, meu amigo, vamos embora? para nossa casa? Minha mãe e meu pai devem estar muito aflitos procurando.
VICENTE
Estou com muitas saudades lá de casa, também.
MENINA
Então vamos.
VICENTE
Preciso primeiro achar ele. Depois eu volto. Você vai na frente, está bem? A gente pede ao Sr. Deus para te levar. O senhor leva? (Dirigindo-se ao velho.)
VELHo
(Sem se mexer.) Levo, sim, Vicente, Eu levo a meninazinha para a casa dela.
VICENTE
Eu sabia, Sr. Deus. (Para a menina.) Diga a papai e a mamãe que estou quase achando o meu cavalinho. Diga a mamãe para preparar uma cama bem macia para mim. Estou cansado de tanto dormir no chão duro. Diga a papai para preparar capim verde para o cavalinho. Diga ao palhaço que os músicos são bandidos e quando eu chegar vamos fazer um circo só para nós. Me esperem todos na entrada da cidade que vou chegar como um doido galopando no meu cavalo...
MENINA
Adeus, Vicente, e volta logo. Cuidado com os perigos. (Sai.)
VICENTE
(Enquanto a menina dá a mão ao velho, saindo em seguida pelo proscênio.)
Diga a mamãe para botar vestido novo para a minha chegada e fazer doce de coco e canja de galinha para eu comer... Adeus. (Enquanto a menina sai, puxando seu cavalinho de papelão, ouve-se a música n.º 1B (só flauta-contrabaixo.) Ao mesmo tempo, o cavalinho branco de olho azul sai, levando seu curral. Vicente fica sozinho, olhando sair o cavalo de papelão.) Agora vou à serra da Mantiqueira. (Maroto.) Acho que você está é lá, meu cavalinho! (Vicente sai de cena. Cessa a música.)
(Pela cena aparecem os três bandidos fugindo do Cowboy, que vem logo atrás com a música n.º 14B. Voltam os três músicos em mãos ao alto com o cowboy atrás. Desaparecem.)
(Música n.º 3B)
VELHO
Como vocês viram, os três músicos foram presos, a menina levei para a casa dela. Todos na cidade estão esperando Vicente voltar. Ele continuou correndo mundo. (Na cena surge Vicente todo esfarrapado, sem um pé de sapato, comendo um pedaço de pão — o ator ou atriz que faz o Vicente deve trocar de roupa para esta cena.) Quando estava muito cansado, vinha deitar aqui perto de mim. (Vicente deita-se perto de João de Deus.) E foi assim que um dia... Vejam vocês.
(No palco uma luz azulada e estranha começa a clarear a cena. Vicente se apruma e aproxima-se do meio do palco, atento. Ele está quase em silhueta. Tudo está azulado e escuro. A música n.º 30 A.B.C. num crescendo, acompanhada pelo galopar de um cavalo, anuncia a aproximação do cavalinho azul, que surge do fundo da cena imponente e todo azul, com cauda branca. Este cavalo representa o mesmo pangaré do início da peça agora transfigurado. Vicente, imóvel, observa.)
VICENTE
(Como se estivesse fazendo a coisa mais natural do mundo, sem absolutamente encarar a aparição do seu cavalinho como coisa impossível, pega a corda que, como na primeira cena, caía do pescoço do cavalo e co­meça a fazer com ele as mesmas evoluções). Upa! Upa! meu cavalinho. Vamos já para casa, meu cavalinho! Papai, mamãe, a menina, o palhaço, estão todos nos esperando na entrada da cidade! Todos esperam nossa volta! Upa! Upa! Upa! Para casa, meu cavalinho. A galope! Para casa!

(O cavalo dá várias galopadas em torno do menino, enquanto a música cresce, a luz se acende e se apaga em vários tons de cores, e o pano se fecha).



FIM

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