quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Os mortos de Antares na Expo São Luiz


Os atores Renato Casagrande e Alessandra Souza em cena em O Castelo Encantado


Elenco de O Incidente em 2017

Renato Casagrande, Fábio Novello, Cléber Lorenzoni, 
Raquel Arigony, Dulce Jorge, Alessandra Souza, Stalin Ciotti, Gabriel Giacomini

Amigos do Máschara em dia de Cena às 7


O Santo e a Porca 778 (tomo 12)


Quiprocós, Gargalhadas e Armações  


Já assisti quatro montagens diferentes de O Santo e a Porca, bem como outras encenações desse espetáculo. A trama é simples, uma criada, Caroba, organiza um mirabolante prêmio para salvar da opressão os enamorados Dodó e Margarida. Do outro lado, entre os opressores, está o avarento Eurico Árabe, que durante uma vida inteira enfiou tudo o que juntou dentro e uma porca/cobre, percebendo ainda que tarde, a inutilidade de seu gesto. 
Dulce Jorge cria uma Caroba irrepreensível, astuta, divertida. Cléber Lorenzoni adentra o palco sempre com muita energia, preenchendo as cenas com uma força que sai do palco e prende nossa atenção.Ambos são os altos cômicos. Trazem consigo a herança do teatro medieval e ainda das comedias gregas de Menandro. A farsa, (absurdo tratado com naturalidade) perpassa a narrativa, culminando em cenas como a troca de roupa ou o sonambulismo do patriarca. 
Eurico, velho, ranzinza, briguento, orgulhoso. Carrega dentro de si o arquétipo de Pantaleão. Caroba é a Colombina, ou outra criada da Commedia del Arte. Saltos, gestos grandiosos, sussurros e tombos recheiam a montagem de Cléber Lorenzoni como o bom espetáculo que é, e ao final a catarse se estabelece sobre o palco e na platéia. 
Para Cléber Lorenzoni guiar o elenco parece fácil, já que é o diretor do espetáculo, mas me incomodou o número de pauladas e bofetadas que o ator distribuiu, gosto de sentir gosto do verdadeiro, mas  não me aprecia ver o elenco sendo machucado.  Dulce Jorge esteve brilhante, intensa, viva, ágil, apenas em alguns poucos momentos baixou o volume, mas sua presença e ritmo mantiveram suas cenas. 
Nos baixo cômicos, quem se destaca é Ricardo Fenner como Eudoro Vicente, embora o ator não tenha mais se dedicado tanto a vida no palco,  sua noção espacial vem aumentando e seu tom conquista a audiência. Na "commedia dell art" seria o Doutor, homem rico, sem sorte com as mulheres que tenta parecer o que não é. Ricardo Fenner possui uma dificuldade fonética que o atrapalha em cena quando o espaço cênico é muito grande. Claro, o ator já evoluiu muito nesse quesito e encontra alguns macetes. Quando acontece a dobradinha Fenner x Lorenzoni em cena, todos saímos ganhando, isso por que Ricardo consegue se pôr em uma divertida posição de escada, o que é uma ótima qualidade de atores coadjuvantes.
Ainda nos baixo cômicos, como a pobre irmã repreendida, o Ator Evaldo Goulart alcança boa repercussão junto a platéia. Em alguns momentos é apelativo, e isso, a julgar pelo texto de Suassuna acaba sendo um ponto negativo. No entanto sobre o palco sua interpretação é coerente e arranca frouxos de risos. Benona é a "Madame" da Comédia Dell Arte, como tal. se acha superior e é extremamente ambiciosa. Em algumas cenas seu interprete perde o time, mas o mais importante, consegue fazermos esquecer o fato de um ator estar interpretando um papel feminino e nos convence de sua submissa existência.
Os inamorati são Alessandra Souza e Renato Casagrande, ambos não estão ali com a função de serem cômicos, mas conseguem arrancar boas gargalhadas a partir da adaptação que o grupo fez no texto. Ambos passeiam pelo palco com o domínio de grandes atores. Aliás as contemporaneidade que o diretor consegue com a figura de seu dodó, traz ao texto uma frescor maravilhoso.
Por que estou falando da Commedia Dell Arte? Por que é incrível perceber que uma forma de fazer teatro, desenvolvida por volta de quinhentos anos, ainda está presente nas comédias. O que prova que certamente os comediantes dell art da época não criaram algo, mas revelaram algo que sempre transitou pela humanidade. O teatro tem como sua maior função tirar os mantos de sobre as peculiaridades da existência.  Os "animais" que somos, merecem uma deliciosa observação. Somos cheios de duvidas, suposições, rompantes. O teatro nos reflete ora da melhor, ora da pior forma.
A iluminação de O Santo e a Porca, deixou a desejar. Perpassa pelo espetáculo momentos do dia e da noite. Há jantares, passeios obscuros e conversas ao pé do ouvido. A luz pode e deve nos auxiliar nessa compreensão visual e embora se diga que comédia se faça na luz, a boa comédia se faz com a luz coerente!
A curva dramática mais uma vez conseguiu se estabelecer. Não é necessário que o público de risadas o tempo inteiro, é importante contar uma historia e para isso em alguns momentos haverá um fluxo menor de piadas. Foi uma das apresentações em que as confusões de Caroba e as tentativas de alcançar os objetivos de cada personagem, mais claras ficaram. Mérito da equipe da direção.

Para Lembrar - O árduo trabalho do Máschara em levar os jovens para o teatro, desenvolvendo e descobrindo talentos.
Para Esquecer - As dificuldades em se fazer teatro, lutando para se conseguir o minimo de estrutura para ter luz adequada no Cena às 7.

Ficha Técnica
Texto-Adaptação da obra homônima de Ariano Suassuna
Direção: Cléber Lorenzoni (**)
Elenco: Cléber Lorenzoni
Dulce Jorge (***)
Renato Casagrande (**)
Ricardo Fenner (**)
Alessandra Souza (**)
Evaldo Goulart (**)
Sonoplastia: Cléber Lorenzoni
Execução: Gabriel Giacomini (**)
Iluminação: Fabio Novello (*)
Auxilio Técnico: Stalin Ciotti (**)
Equipe de Palco: Stalin Ciotti, Douglas Maldaner. Vagner Nardes e Antonia Serquevittio
Camareiros: Renato Casagrande e Laura Hoover (**)
Portaria: Raquel Prates (**)
Produção: Grupo Máschara