domingo, 25 de abril de 2010

Diário de Bordo IX - Esconderijos do Tempo em Ijuí

Mas veio um vento de desesperança...

                             O que pode o ator sobre o palco durante um espetáculo? Alguém dirá, pode tudo, se for bom ator, terá domínio da cena, terá gana e vigor; sua voz potente se estenderá até a ultima fileira do teatro, seu trabalho corporal será polivalente; Sua compreensão do texto será verdadeira, será senhor do ato. Mas que pode um ator em cena, se tudo ao seu redor é caos?

                             Se os técnicos não estiverem afinados, se o foco marcado não iluminar seu rosto e ele tiver que correr pelo palco em “busca da luz”, se o som for alto o suficiente para abafar sua potente mas “humana” voz, ou se o som for tão imperceptível ou mudo que sua dança pelo palco terá a graça de uma ópera bufa. Ou ainda, se o colega de cena não trouxer o jogo; se os adereços não tiverem sido dispostos corretamente pelo cenário, ou ainda se sua composição visual for aleatória à personagem. Mas e se na platéia houver mais da metade de cadeiras vazias, se ele não tiver no que se apegar, se ele olhar ao redor e seus colegas não compreenderem sua dor humana ou seu desespero na cena que cai, e se ele olhar para o técnicos e eles não se conectarem dando-lhe alento, ou ainda se ele der sua melhor entonação, sua melhor inflexão de voz, e o público devolver-lhe na triangulação apenas o silêncio apático? Que fará então o ator. Atuar é ciência e é matemática, é emoção e é técnica, é tantas coisas que aquela pobre criaturinha no centro do palco quase enlouquece e dentro de seu peito e mente, enquanto a platéia vê “uma” emoção, percorrem milhares.

                           E em um instante a “moral” da apresentação ficou muito clara... Era desafiá-los. Baco, ao lado de Thalía e Melpômene, ria-se no Olímpo, esperando seu melhor.

                           Esconderijos do Tempo é um espetáculo de 2006, já ouve três Glorinhas, três anjos, três mortes, três Gouvarinhos e quatro Lilis, apenas Mario e Dona Glorinha se mantém. Lá no princípio havia um objetivo artístico, hoje há outros tantos. E me pergunto se algum deles ainda é o mesmo de 2006? Uma obra de arte advém de um momento de inspiração, de algo que um diretor ou uma companhia quer dizer em dado momento, mas as pessoas mudam, as platéias mudam, a vida muda, e por tanto os objetivos mudam, a forma de querer propagá-los muda. Por isso um artista se sente incomodado quando vê uma antiga obra sua sendo exposta, pois aquilo passou, aquela mensagem tem agora outro sentido, e ainda, em mãos erradas uma mensagem pode ser destrutiva. Sendo assim, o objetivo inicial devia ser revisto e buscado, afinal bons espetáculos podem ficar em cartaz por anos. Mas caso ele vá sendo adaptado a pessoas, a platéias, e épocas, ele perderá sua identidade, será como uma pintura que é constantemente repincelada, até que vira uma confusão de idéias. Nisso Dulce Jorge está de parabéns, há nela uma percepção total de sua função, de sua participação dentro de um espetáculo. Gosto de atores voluntariosos, criativos, mas quando um ator torna-se por demais palpiteiro em um espetáculo, é hora de seu diretor chamar-lhe a atenção, atores são atores, não são diretores.


                                                        A Rainha.





Gabriel Wink sendo galardoado em Itaqui por sua atuação em A Maldição do Vale Negro















Gabriel Wink recebendo troféu das mãos de Antonio Carlos Brunet ( o Dunga )