sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Calçadão de Cruz Alta


O castelo encantado-Teatro de rua 672 -tomo 87

Esse é o meu grupo...                                                                                   Por Cléber Lorenzoni

   hoje não quis esperar por críticas da rainha, quis eu mesmo dar meu ponto de vista sobre os últimos acontecimentos. Será que as pessoas percebem o que vem acontecendo? Será que nesse ano de eleições as pessoas estão olhando para nossa realidade, será que as pessoas estão vendo que as coisas estão complicadas, será que alguém pretende fazer algo? A hecatombe que está prestes a acontecer, enquanto você se deixa levar por conversas e promessas politicas, nossas crianças, nossos adolescentes estão expostos a todo o tipo de bobagens, de incertezas, de descuidados. Como vai nossa educação? Como vai nossa preocupação com o futuro?
   Não sei, o que sei é que o Máschara vem há anos lutando com o que melhor sabe fazer, arte. Mais que simplesmente montar bons espetáculos, o Máschara tenta tocar as pessoas, emocioná-las, tirá-las de sua zona de conforto. Atraí-las para algo que as inspire. 
   Nas ultimas semanas o máschara esteve nas ruas de Cruz Alta com intervenções, esteve apresentando-se perante alunos da UNICRUZ e ainda levou um espetáculo infantil à rua, na intenção de "sacudir" as pessoas.
    Ao menos foi isso que eu, Cléber Lorenzoni, pretendi em cada uma dessas iniciativas. Certamente o que consegui foi muito pouco, mas se uma pessoa, uma única alma, viu a arte com outros olhos, ou se emocionou, ou se divertiu; Já terei cumprido minha intenção. 
     Nessa semana dei também algumas entrevistas, todas com a tentativa profunda de abrir os olhos de quem acompanhá-las e talvez melhorar o futuro de quem escolher fazer arte no interior assim como eu. Na UNICRUZ me senti muito respeitado por alunos, não eu, mas minha profissão, meu trabalho, minha colega atriz Alessandra Souza, que tanto esmerou-se para fazer algo bonito e digno. Como estátua viva no calçadão dois alguns dias atrás, percebi que para alguns aquilo nada mais era do que um transloucado ímpeto de um excêntrico. Para outros, algo bonito, emocionante. A sequência de ações terminou com a apresentação de O Castelo Encantado, com o ator Evaldo Goulart, de quem me orgulho muito, pois começou sua curta carreira em uma cidade muito pequena, e apesar de muitas dificuldades e ainda que tão jovem, parece contrariar felizmente todas as superficialidades típicas dos jovens atuais. Ainda o colega de vida e de palco, Renato Casagrande, que dedica-se para me auxiliar em todas as iniciativas malucas. Um jovem com seis anos de palco que rapidamente vem alcançado uma maturidade cênica capaz de fazer coisas incríveis. E Alessandra Souza, uma atriz muito dedicada que busca a cada instante vencer seus próprios limites.
        Em cena, no meio do calçadão, me senti desprotegido, frágil, quase que incapaz. Não tinha em meu socorro as coxias acolhedoras, camarim, a rotunda para onde fugir. Não havia a engrenagem teatral. Havia meu três colegas que nas ultimas semanas me ajudaram a solucionar, a "arredondar" um espetáculo tão versátil, tão vivo e tão mutável. Poucos pararam para nos ver, alguns passavam rápidos, fugiam talvez. O novo assusta. Em cena, cada colega usou suas cartas trazidas nas mangas, e a meu ver seria difícil criticar algo que é novo para o Máschara, tomar assim de assalto a rua, atrair a atenção de uma platéia tão pouco acostumada ao teatro. 
            Não sei até onde iremos, não sei por quanto tempo ainda o Máschara aguentará. Mas me orgulho de estar em cena com jovens tão esforçados e corajosos.

sábado, 16 de agosto de 2014

Vem aí, O Castelo Encantado


Lili Inventa o Mundo 101-Nova Bassano 669

Outra vez a peça de palhacinhos...

                   O que mais irrita é essa patifaria que pareça ser proposital para com os artistas de teatro. Essa eterna sensação de ter que estar sempre explicando nossa profissão, explicando como organizar um palco, explicando as necessidades lógicas e mínimas para se por um espetáculo sobre o palco. Por favor não coloque um espetáculo concebido para palco italiano, no chão, ele no mínimo perderá 30% do seu efeito. Não tente colocar mais de duzentas pessoas assistindo um espetáculo muito longo e com muitos atores em um palco com menos de 10 metros quadrados. Não organize um espetáculo para a noite sem pensar em uma  iluminação. Não coloque um ator para se apresentar se ele tem que competir com barraquinhas de comida, bancas de livros ou musicas provindas de outros ambientes. Por favor organize uma sala com banheiros para que o ator não tenha que largar seus figurinos sagrados no chão. Por favor, um banheiro, o ator não pode atravessar pela platéia e queimar toda surpresa do espetáculo. Água por favor. Uma sala limpa por gentileza. Que os sonorizadores compreendam que a estrela não são eles e sim o artista, ou então o ator terá que adequar-se a pouca vontade de sonorizadores cheios de má vontade. Não coloque crianças para ver espetáculos pensados para os adultos. Não insulte os adultos oferecendo-lhes espetáculos para alunos do maternal. E por favor não nos peça para apresentar um espetáculo de mais de 30 minutos de graça. 
                       Estou usando esse espaço para dar esse grito, para pedir socorro a todos aqueles que amam o teatro, isso nada tem a ver com Nova Bassano e ao mesmo tempo tem a ver com todos os não iniciados. O teatro é a arte mais linda do mundo, pois acontece ao vivo, e envolve a assistência. Mas tem necessidades básicas para que aconteça. O mérito dos atores do Máschara é baterem o pé até conseguirem deixar as coisas como devem ser para o teatro. Na ultima ocasião um sonorizador reclamava de ter que tirar uma caixa de som do lugar três horas antes da apresentação. Dizendo que o tempo seria muito curto e o cansaço extenuante. Ora quantas vezes os atores do Máschara com tempo curto, antes do espetáculo carregaram dezenas de cadeiras, colocaram tapumes em janelas para escurecer o ambiente, carregaram goleiras. O teatro, a arte em nosso país de terceiro mundo exige sacrifícios de todos. Do varredor do palco ao ator. Todos artesãos da arte cênica. O grande mérito do Máschara é realmente "fazer" seu teatro, prova disso é o Cena às 7.
                   Há poucos dias uma menina muito humildemente perguntou-me. "como é o teatro do Máschara". Fiquei em dúvida a que ela se referia. Enfim, filigranas.
                             Em Nova Bassano, Fabio Novello, Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza e Ricardo Fenner quebraram cabeça para erguer o mundo de Lili Inventa o Mundo. Não sei Mario Quintana aprovaria essa visão máschara de sua personagem infantil mais querida, e nem me importo; me importa se a historia contada conseguiu estabelecer uma ponte entre a proposta de Mario Quintana e o que havia no palco. 
                               Cléber Lorenzoni, Fernanda Peres, Renato Casagrande, Alessandra Souza e Evaldo Goullart adentram a cena com um visual muito atraente para as crianças. Meio poluído por certo ângulo, ao mesmo tempo muito coeso com o que propõe. Alessandra Souza fazia dois papéis bastante distintos, mas perece que lhe falta uma certa "cara de pau", um permitir-se ridicularizar-se em cena. O Cômico nasce daquilo que mais preservamos, daquilo que muitas vezes temos vergonha de revelarmos. Por exemplo, um sujeito que já é engraçado no dia a dia, que quase sempre está contando piadas, dificilmente será engraçado quando em um palco. Pois sua comicidade já é sua máscara, no palco as mascaras caem, e aí vai-se a graça desse criatura. Os atores quase sempre são tímidos, inseguros, e usam como máscara a elegância, a presença eloquente, etc. Quando vão fazer humor, ele só será brilhante se permitirem que suas mascaras caiam. Alessandra Souza tem muito receio de derrubar sua mascara. Renato Casagrande carrega nos ombros o peso positivo de ser o segundo ator do Máschara, espera-se dele muito e as vezes, como todo ator ele se atrapalha. Seu domínio da platéia beirou o fracasso, essa linha tênue entre quebrar a quarta parede e perder o jogo, depende muito de quem está conosco em cena. Fernanda Peres ainda não te domínio sobre a platéia, por isso é importante cautela.  Cléber Lorenzoni e Evaldo Goullart jogam muito bem, embora o mérito da "compreensão do outro" esteja em Lorenzoni, Evaldo improvisa muito, mas quase sempre de forma empírica. E a pergunta é, e no dia em que o instinto falha? O ator deve ter a técnica na manga. 
                                           Fernanda peres anda muito ansiosa em cena, e as vezes precisa confiar mais no colegas em cena, ao mesmo tempo precisa permitir quando há necessidade de extirpar trechos de sua cena. O teatro depende do ambiente, do dia, do clima, da platéia, há dias em que uma cena torna-se barriga no ato. Quanto ao interprete de Malaquias é importante mencionar que sua técnica vocal é quase nula, há em seu falsete um risco para suas cordas vocais mal aquecidas. Aquele escape de som que afina o final das frases pode causar um calo nas cordas vocais ou fissuras. é preciso tomar cuidado.
                                        Onde está o climax de Lili Inventa o Mundo? A Rainha das Rainhas? A catarse da Fada mascarada? Ou a transformação de Mathias? Ou ainda o "Pra sempre crianças"! 
                                          Os atores pareciam cansados, Lili passou sem ritmo, e isso aparecia em pequeninos detalhes. A trilha estava confusa, havia resvalos de sonoridades. 
                                           Apesar disso tudo as crianças levaram para casa uma linda mensagem, cabe ao ator querer ser melhor, querer crescer a cada apresentação, criar desafios. 
                                            Cléber Lorenzoni(**)  Alessandra Souza (**) Fernanda Peres (*) Renato Casagrande (**) Evaldo Goullart (**) Fabio Novello (**)




A Rainha
            

Tornando-se Rosalinda


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A volta do detetive Ed Mort... Nova Bassano/668


                         O que mais gosto em Ed Mort, espetáculo do Grupo Máschara, é ver em cena representantes de todas as gerações de atores do Máschara. Atualmente são sete atores em cena, e aí temos Dulce Jorge a fundadora da Cia., temos Cléber Lorenzoni da geração de 96, Ricardo Fenner do inicio dos anos 2000, Alessandra Souza e Renato Casagrande da turma de 2008. Fernanda Peres de 2011 e ainda Evaldo Goullart de 2012. Isso é muito interessante de ver, pois nos mostra a versatilidade desse elenco e a forma como o teatro acontece entre eles. O jogo é visível. As cenas do espetáculo dão chance a todos os atores de mostrarem seu talento. Uma comédia simples, fácil, que se baseia em estereótipos, e que tem grande receptividade por parte do público.
                                   O Máschara se destaca sempre pela capacidade de adaptar-se a espaços e ainda de conseguir adaptar os espaços ao teatro. O nosso detetive brasileiro é uma obra que partiu das mãos de Luis Fernando Verissimo, ganhou adaptação através de Maikel Teixeira e tomou o palco pelo Máschara em 2008.
                                  A narrativa divide-se em vilões: Rubenci-Ricardo Fenner, Bibi-Fernanda Peres, o receptor de esmeraldas-Renato Casagrande, e a "carrasca" interpretada por Alessandra Souza. E Mocinhos, Éd Mort-Cléber Lorenzoni, Baby-Dulce Jorge, Mãe Soraya-Renato Casagrande, Delegado-Renato Casagrande e as crianças- Alessandra Souza e Evaldo Goullart. Antes de qualquer análise é importante questionar-se se a historia é bem contada. Ela é, embora as vezes a dicção de alguns personagens se confunda. Os textos também são dados algumas vezes por sobre o riso da platéia. Principalmente em Ricardo e Renato. Fernanda Peres e Dulce Jorge, tem ambas grande domínio da cena, no entanto a primeira pode mergulhar ainda com mais verdade pelo mundo da vilania. Havia nessa encenação um certo atrapalhamento, Cléber Lorenzoni saiu de cena em determinado momento e voltou sem aparente motivo, e Alessandra perde algumas piadas. É preciso sempre procurar, destrinchar as piadas obscuras do texto. Renato Casagrande precisa tomar mais cuidado com sua caracterização, o figurino caiu atrapalhando profundamente sua interpretação.
                                       Não consegui ver de onde estava, o operador de som, mas atrasou todas as musicas, prejudicando os tempos. Enfim, o ritmo do espetáculo estava todo confuso, somente quando Cléber Lorenzoni adotou o disfarce de Edna, a peça pareceu tomar ritmo. Ricardo Fenner cortou alguns textos importantes e a energia não estava presente em todas as colunas. Não entendi também sua cena congelado na parede la no fundo e muito menos o que o fez descongelar. Para completar a falta de cenário empobrecia uma peça que já vi tão técnica em outras oportunidades. A trilha é elegante, mas as letras das musicas em inglês destoam em certas cenas. Os altos cômicos do espetáculo estavam fragilizados e os baixos cômicos pareciam perdidos.
                                      O público gostou, divertiu-se e pode sim aproveitar o texto de Luis Fernando Verissimo, mas é importante sempre pensar que o público na maioria das vezes, aplaude com a mesma energia o que é bom e o que é ruim. Ed Mort precisa de ensaios, precisa de treino e repetições. O que o salva é a união do grupo que se percebe da platéia.


A Rainha


Dulce Jorge (***)
Alessandra Souza (*)
Renato Casagrande (**)
Evaldo Goullart (*)
Cléber Lorenzoni (**)
Ricardo Fenner (**)
Fernanda Peres (**)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Glorinha e Mario em uma praça qualquer...


Esconderijos do Tempo 80- Nova Bassano /667

...E eu que atuei em uma caixinha de sapatos...

                Quando me informaram que os espetáculos do Grupo Máschara em Nova Bassano, seriam apresentados no Ginásio da Escola 15 de Novembro, fiquei no mínimo curiosa, iriam encarar o desafio de apresentar Esconderijos do Tempo no chão? Em uma quadra, como nos idos de 2006? Ou será que Ed Mort, um espetáculo com sete atores em cena, iria ser apresentado em um palco com pouco mais de quatro por seis. Uma caixa de sapatos. Ironias quintanas à parte, caso Esconderijos fosse apresentado no chão, sem cenário ou  sem iluminação, promoveria sim o "acontecimento teatral", envolveria provavelmente o público com trama tão eloquente. No entanto, o espetáculo concebido por Cléber Lorenzoni, não mais estaria ali. É preciso saber compreender o que é concepção, o que alguns chamam de perfumaria, mas que dentro do entendimento da semiótica teatral, forma com um todo o "Espetáculo". Ora, a platéia não irá ter a mesma compreensão da proposta sem levar em conta todas as esferas do trabalho. A luz, o conjunto de cores, escuro-claro. As músicas, o cenário, a limpeza, ou sujeira organizada. Enfim o visual do trabalho, a forma como ele é colocado para nós (público) traz uma mensagem silenciosa, que certamente no chão do ginásio, sem cenário, logicamente não traria o mesmo efeito.
                        Os atores adentraram o palco às 20 hs e 14 min, para uma assistência de mais de trezentas pessoas. O espetáculo ficou mais condensado, não havia muito espaço e por tanto a narrativa acelerou-se um pouco, sem perder ainda assim seu mote. Cléber Lorenzoni I. começou repleto de energia, com a empostação que o ator deve ter, coluna rija, músculos das costas tencionados, ao mesmo tempo com a silhueta alongada para a partitura do Mario jovem. Optaram por não usar os microfones auriculares, o que quase foi um risco. O rosto do intérprete ficou excessivamente pálido, o que destoa um pouco do cuidado plástico. La Peres falou um pouco baixo, carece de mais técnica, força na caixa. Ambos triangulam muito bem juntos, e a cena vai crescendo visivelmente, o que atrapalha um pouco é a ansiedade de Fernanda C que não respeita a fala da platéia. O texto precisa ir em direção a quarta parede e voltar como resposta, seja em forma de silêncio, ou em forma de riso, ou em forma de vaia. Mas o ator no palco precisa dar esse tempo. Por outro lado preciso dizer que me orgulho em perceber que nasceu a terceira Glorinha. Tivemos a Glorinha lirica de Daiane Albuquerque (St.III 2002/2006), e a Glorinha vigorosa de Angelica Ertel (St.II 2006/2012), Agora parece ter surgido uma Glorinha tresloucada que combina muito com a juventude que a cena pede, com a cena de brincadeira poética que o espetáculo propõe. Atrizes diferentes, Glorinhas diferentes, o que é ótimo.
                           Souza também está inteira em Lili, e embora corra atrás de uma "Musa" que se eternize, há ainda uma falta de apuro nos detalhes. Por exemplo quando Lorenzoni ergue a mão ao som de Jivago e acena para a morte em resposta ao aceno recebido, Alessandra + já desviou o olhar para o lampião e o jogo não acontece. E precisa acontecer, é quando o menino percebe que a morte o acompanhará pela vida inteira, é quando ele aceita a dor da existência em sua vida e destaca-se de todas as outras pessoas. Alessandra Souza precisa aprender a ter menos controle sobre as ações, é daí que nasce a "alma" em cena.
                               Quase no meio do espetáculo, desprende-se do céu uma intensa queda d'águas, o teto de zinco do ginásio rapidamente respondeu com poluição sonora tal que praticamente ceifou o som vindo do palco. "Benzadeus não tivemos queda de luz". Eis um velho ditado das tias que cruzavam os corredores fazendo ranger as tábuas das casas velhas que Mario tanto apreciava. Cléber Lorenzoni e Fabio Novello  + simplesmente quebraram definitivamente a quarta parede e chegaram a trazer objetos de fora de cena para o palco, dois microfones de mão. O interessante foi a calma e a simplicidade que a ação foi feita, de uma forma tão cautelosa que não atrapalhou em nada o andamento. Logicamente não é o tipo de ação positiva para um espetáculo tão formal e não digo que tenha sido um gesto correto, enquanto público me incomodou ver as personagens se descolarem da pintura (cenário) e virem ao vale dos mortais buscar dois apetrechos que não combinavam em nada com a plástica. Mas foi no mínimo corajoso permitir-se solucionar algo.
                                Fabio Novello pega o público pela comicidade, mérito seu e da cena. As vezes precisa tomar mais cuidado com a formalidade da marca, ela triangula legal pelo palco e deve estar a serviço do ator. A marca propõe distancias, proximidades, aconchegos e separações que auxiliam na semiótica da informação. O soneto foi muito prejudicado pela chuva, e falta o ator encontrar o paradoxo do rápido/lento naquele momento. Existe uma linha de narrativa que vai se esticando até que na ultima frase do soneto a platéia não mais recorda a primeira. Aí precisa ser revisto. Casagrande + e Jorge optaram por torcer o nariz para o microfone. Ok, escolha corajosa, mas perigosa em meio a intempérie. Casagrande segue um pouco viciado na fórmula. Existe aí um paradoxo obscuro, o ator tem talento para muito, mas a personagem exige pouco. Ou não? na cena em que Malaquias traz a bengala, poderia nos deixar claro qual sua emoção para com o velho homem a sua frente. Dulce Jorge + é uma atriz para grandes papéis, para Tchekhov ou Ibsen, a cena final de Esconderijos do Tempo quase sempre é prejudicada ou pelo aceleramento que a direção propõe ou pela necessidade de vencer o tempo quase sempre curto em feiras de livros.
                                  Não foi das melhores encenações do espetáculo e a sonoplastia de Evaldo Goullart +, embora muito bem operada, trabalhou contra o elenco já que não havia retorno. Um interessante tópico. Os sonorizadores em eventos no interior, sempre tão empafiósos  com sua sabedoria de garagem, dizendo o que pode ou não ser feito aos meros mortais seres que os cercam, quase sempre estragam os eventos que estão inseridos. Promovem verdadeiras poluições sonoras, achando que decibéis altíssimos são exemplo de profissionalismo. A volta dos palcos uma infinidade de caixas sonoras, e no palco nem um único retorno para o artista. Nada sabem de som para teatro, nada sabem de luz para teatro. Se dizem sim profissionais... Ora, para mim e para muitos, ouso dizer, profissionalismo não é saber tudo sobre sua área, mas ser humilde para aprender as necessidades dos artistas que fazem uso de sua maquinaría.

Vida longa ao teatro...


                                     Arte é vida, teatro é alma.



A Rainha             
                      

terça-feira, 5 de agosto de 2014

UNICRUZ


O Incidente 666- Tomo 77 /Salão nobre Unicruz

Os Mortos estão de volta. Mas por pouco tempo...

                        O mais prazeroso no teatro é ver um ator entrar para ganhar, pisar no palco com uma pitada de arrogância e prepotência. O teatro é também a arte da oratória, o ato de impor-se. Não é possível que o ator tenha medo da assistência, ou que se coloque na humilde postura de inferior. O ator deve sentir-se um pouco semideus, ele está sendo um outro, ele está saindo de sua realidade e se colocando em uma realidade subjetiva, não ocorrida, mas existente em um universo paralelo ao seu. Isto é, quando o ator esta em cena, interpretando o individuo x, ele olha para dentro de si e as lembranças do passado que vê não são as suas, mas as desse ser aqui chamado de "x". Ora, esse processo de dar espaço dentro de  seu existir, para um outro existir, é um processo de generosidade e  técnica.
                    O Incidente do Grupo Máschara não mais é um espetáculo, tem ares de performance. E aí cabe muito bem. Os sete atores estão a serviço de uma homenagem póstuma ao escritor Erico Verissimo, o público está mais interessado no visual do que na historia. O intelecto da obra chega menos do que se propõe. Não por culpa dos atores, mas pela forma como se propõe. Na obra literária os mortos aparecem depois de mais de cem páginas de leitura. O ambiente é preparado. Quando eu me deparo com eles, já estou tão interessado na corrupção daquela cidade que é na verdade um microcosmo do país da época, que os mortos passam a ter um outro efeito. Em O Incidente da Cia. Máschara, os sete mortos tomam força de personagens de um túmulo do terror. As pessoas da região, tão pouco acostumadas ao teatro, estão mais interessadas em rir das escatologias propostas e fotografar o visual marcante do que prestar atenção nas chocantes frases pronunciadas pelo elenco.
                      Cléber Lorenzoni reúne há duras penas o elenco de mortos entre sua trupe para poder manter acessa a chama tão bela de um espetáculo que já completa quase dez anos. Em cada apresentação praticamente um novo ator embarca nesse carrinho de trem fantasma. O ator da vez é Fabio Novello, que vem para dar vida à João Paz, o jovem revolucionário, que sofreu torturas inumanas durante uma semana e que foi jogado em um caixote com o ombro fora do lugar e com o rosto desfigurado. Fabio Novello faz dentro de seu pouco conhecimento da obra o suficiente para preencher o palco. Para essa pequena performance foi o suficiente, a ultima frase de seu texto conseguiu chegar bem próxima do público. Tocar-lhes as ventas, acredito que é exatamente aí que Novello deve aprofundar-se, o que lhe será útil em muitos outros trabalhos. Cuidando sempre para sua impostação não se gessar demasiado. Souza e Casagrande, as duas torres*, não alcançaram o desejado, suas interpretações ficaram aquéns, a primeira se enrolou e essa enrolação apareceu para fora do palco. A emoção foi prejudicada e o olho quase fechado não deixou a dor chegar na platéia. O Incidente é um realismo fantástico, que emprega um pouco de teatro do absurdo, interpretações expressionistas, etc... Alessandra Souza é uma atriz dedicada mas que tem como principal dificuldade a necessidade da repetição, precisa de continuidade no trabalho para manter a perfeição. 
                       Casagrande propõem-se sempre, esforça-se, mas Menandro Olinda é um homem velho, introspectivo, prostrado, frágil. Muitas características que o jovem ator ainda está forjando. Seu bife tem uma leveza de quem não passou realmente por tantas dores como a personagem, como alcançá-las? 
                           Ricardo Fenner compõe visualmente algo legal, mas Barcelona é "anarquista, atirador de bombas e subversivo", Dona Quitéria o está ofendendo com verdades. E essas verdades deveriam estar presentes, mas em cena o que vemos é algo muito próximo do Conde de Belmont e do vilão Rubenci. É preciso para sentir mais prazer no teatro, virar-se pelo avesso. Dentro de nós, há vários! Claro que a triangulação entre Barcelona e as outras personagens ocorreu, mas a perfeição deve sempre ser buscada. 
                            Chegamos à Albuquerque e Ertel. Ele longe do teatro há quase um ano. Ela longe de O Incidente há dois anos. Ainda assim, pelos mistérios que rondam o palco, foram os que mais produziram algo de encantador aos olhos. Dona Quitéria estava completamente viva, ainda que morta. Contam as observadoras línguas, que Albuquerque no camarim aprumou-se sozinho sem pedir auxílio. Que não ensaiou uma única vez e que preencheu o palco solidamente. 
                              Lorenzoni aficou aquém de seu anterior mergulho pelo universo de doutor Cícero, devia estar lá em seu lugar, em professor Menandro Olinda. Logicamente Cléber Lorenzoni triangula muito bem com a platéia e com o restante do elenco. mas a falta de ensaios da PERFORMANCE também o prejudicou. 
                            A trilha foi operada a contento e o mise en scene ocorreu. Graças aos deuses.


Angélica Ertel (***)
Cléber Lorenzoni (**)
Alessandra Souza (*)
Ricardo Fenner (*)
Renato Casagrande (*)
Fabio Novello (**)
Cristiano Albuquerque (***)
Evaldo Goullart (**)





                            A Rainha
                            
                       

Fabio Novello e Cristiano Albuquerque em O Incidente