sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Serpente tomo 01

   
Prezados Integrantes do Grupo Máschara

As realizações pessoais são abrilhantadas quando a arte sempre está presente. Em tudo o que fazemos existe uma pitada de cultura e arte. Basta possuir a sensibilidade de percebê-las. Gostaríamos que o povo brasileiro percebesse mais o quanto o sentimento artístico é benéfico para nossas vidas. Fotografar o espetáculo do Grupo Máschara foi uma experiência ímpar, de aprendizado e aumento na percepção artística. Parabéns às pessoas privilegiadas com o "Cena às Sete". E dizem que a vida é feita de lembranças e escolhas: agradeço por escolher e lembrar sempre deste grupo teatral.

Gentileza e fotos de Alexandre Giacomini



                 Neste ultimo fim de semana, mais precisamente no domingo, dia 23 de junho, estreou o mais novo trunfo do Máschara, A Serpente de Nelson Rodrigues, ultimo texto do autor, escrita em 1978 mas tão atual e contemporâneo quanto Aristófanes ou qualquer outro besteirol de sucesso. E isso porque trata dos instintos humanos arraigados há muito tempo. Nelson é não só nosso clássico dramaturgo, como também o autor mais montado do país e ainda o que mais causa furor. Sofre grande preconceito por parte dos mais moralistas e conservadores, mas chega fácil a compreensão humana. 
        O diretor Cléber Lorenzoni optou por uma arena para contar essa conhecida historia, levando assim o público para dentro do apartamento das irmãs Ligia e Guida. A Serpente de Cruz Alta, passou por longas dificuldades para subir ao palco, Tatiana Quadros foi na verdade a terceira interprete a abraçar o papel da paradoxal irmã e mesmo grávida de quase quatro meses, topou passar pelos vicerais traumas da personagem. O ventre desenvolvido não serviu de empecilho para as fortes cenas, as discussões, os violentos embates entre as quatro personagens. 
          A produção do cena às 7 foi incrível, algo novo, algo que surpreendeu quem estava presente. A principal função do Máschara, que é sempre ousar, pesquisar a arte, os estilos e as linguagens, foi muito bem cumprida. O público era recebido na portaria pelo elenco, vestidos de noivos, brindando com taças de espumante. Na arena, uma cama, uma janela e um banco. Tudo em preto, branco e vermelho. 
            A trilha é de muito bom gosto, forte, tangos e outros sons equivalentes. Batidas buscadas na obra de Ênnio Morricone. A luz muito bem operada por Roberta Corrêa. E os figurinos extremamente simbólicos.
            A voz dos atores é alta e clara, Alessandra Souza finalmente conquista seu espaço de atriz. Dialoga a altura com os colegas e com a platéia a altura do proposto. É agradável ver a postura dos atores, altivos, bem colocados. O ritmo é intenso e os climas se estabelecem de forma orgânica. Tatiana Quadros não participava de uma montagem desde 2008 em Ed Mort. E jamais a haviamos visto em uma personagem tão forte, tão intensa, tão entregue. Vai desabando aos poucos, dando credibilidade a sua interpretação. Renato Casagrande faz um Décio como nunca havia visto, com busca interna como gosto de ver. Nas montagens todas de A Serpente que tive o privilégio de assistir, os Paulos e os Décios são sempre seres brutos e ponto. Mas as Montagens do Máschara sempre preocupam-se em buscar coisas novas nas personagens. Sendo assim Décio e Paulo são muito mais humanos, e seus dramas não passam desapercebidos, pelo contrário, aprofundam o clima controverso dentro do apartamento. Percebe-se a dificil decisão de Paulo em jogar a esposa. 
             O público não foi grande, lástima, o teatro não é prato principal na mesa do Cruzaltense, ao contrário, vem em ultimo lugar. Outros já haveriam desistido, mas o Máschara continua ali, enfrentando leões, passando sufocos para manter o teatro. Até quando?
                   Durante o espetáculo pendia meus pontos de vista, quem era a serpente? O público a minha volta dividiu-se, e eu particularmente não gostei do final. Ligia de véu encarando o público como se tudo fosse um plano diabólico. Vivemos durante muito tempo sob a égide da igreja, e ela nos insufla a buscarmos sempre o "bem" e o "mal". Por isso acho que esse espetáculo é um passo maduro do Máschara, o grupo nos deixa a disposição o direito de escolher ao lado de quem queremos ficar, sem forçar. As vezes a linguagem se torna um tanto novelística, talvez seja necessário rever algumas intonações. O espetáculo conclui-se no ápice a difícil cena da janela é concluída com perfeição.

Alessandra Souza (**)
Tatiana Quadros (**)
Renato Casagrande (**)
Cléber lorenzoni (**)
Evaldo Goulart (**)
Ricardo Fenner (**)
Fernanda Peres (**)
Roberta Corrêa (***)

Arte é vida                A Rainha