sábado, 19 de junho de 2010

Em uma conversa teatral, o diretor Cléber Lorenzoni busca o olhar artístico de seus atores. Dulce Jorge, Angelica Ertel, Gabriel Wink, Alessandra Souza e Renato Casagrande divergem, opinam, perdem-se e encontram-se em devaneios teatrais gostosos para quem ama o palco.

-Ouvindo vocês da para perceber claramente seu amor pelo que fazem. Mas como foi seu primeiro contato com o teatro? O que mudou? E essa mudança foi substancialmente visível?
RENATO-Não sei ao certo, antes de  conhecer o Grupo Máschara eu não era ligado de nenhuma forma com o teatro, não sabia que em  Cruz Alta havia um grupo de teatro.
ANGÉLICA- Um dia a cinco anos eu cheguei à Casa de Cultura levada pela minha mãe para me iniciar na arte teatral. O que iria me esperar dali em diante eu não sabia. A cada dia, a cada ensaio, novas descobertas, novas dúvidas, novos questionamentos, que ao longo do processo foram substituídos por ideologias e devaneios teatrais. Hoje, atravessados esses anos, relembro o passado analisando a evolução artística e no fim percebo: virei uma atriz.
ALESSANDRA- Ah, foi com o teatro que descobri quem sou de verdade, aprendi a conviver melhor com as pessoas, pude ser quem eu quis, pude despertar minha criança interior, meu lado sensível e outros lados também.
DULCE- No momento em que descobri o teatro e o descobri em minha vida, pela primeira vez, percebi que eu seria útil em algo e, ao contrário do que pensava, tinha uma verdadeira vocação, sabia o que quera. Tinha me "encontrado".
GABRIEL-O prazer do palco é superior a tudo o que conheço...
RENATO-Senti que o teatro sería meu "lar", e que também seria o meu "refúgio".
DULCE-Eu finalmente senti que fazia parte da existência.
GABRIEL-Tenho algo dentro de mim que precisa de teatro, que quer falar, se mostrar, mas não é um simples exibicionismo, é uma "gana".
-Ta mas esse inicio foi difícil...?
RENATO-Quando fui ao núcleo pela primeira vez estava envergonhado, não sabia por que...Agora  vejo que larguei amigos e familia pelo teatro.
ANGÉLICA-Por causa do teatro abandonei as ideologias familiares, abandonei almoços de domingo, jogos da seleção nas copas do mundo, missas nos domingos de manhã, chimarrão as tardes de domingo, jogos de futebol com o pai, fazer as unhas no sábado com a mãe, jogar computador com o irmão, etc. Desisti de ter uma vida comum, mas tudo isso em prol de uma movimentação muito maior, a arte teatral.
-E agora não da para viver sem?
RENATO- Se um dia o teatro sair de mim serei uma pessoa vazia, terei que trabalhar em outro lugar, fazendo algo que não gosto e não quero. Da mesma forma que uma flor que murcha ao ficar sem água, eu murcho quando fico sem meu teatro!
ALESSANDRA-Quando fico muito tempo sem o palco, quase enlouqueço...
ANGÉLICA-Por muitas vezes pensei em desistir, em ir contra o teatro, devido aos diversos problemas enfrentados a cada dia. O quanto morremos mais rápido do que os que não fazem...
GABRIEL-Pois é, embora, o teatro seja por demais complexo. Mexe com nossas emoções, redesperta aquilo que estava guardado, ou então nos faz esquecer aquilo que estava guardado, ou então nos faz esquecer aquilo que não queríamos. Então algumas coisas acabam se tornando mais importantes do que as coisas realmente importantes teatralmente... E aí tudo se complica.
-E como vocês vêem a relação com o público, o teatro ainda é tão pouco vislumbrado aqui no interior, não é? O que vocês diriam ao público?
RENATO-O público só ouve quando quer...
GABRIEL-A cada dia diria algo diferente, afinal a cada dia sentimos algo diferente.
ALESSANDRA-Só vão ao teatro se estiverem afim, e prestem atenção nos dramas e nas histórias mais complexas, pois elas os farão pensar e ampliar um pouco seus conhecimentos.
DULCE-Filhos da Puta! Isso é o que eu diria... E  diria também: Isso que vocês estão vendo e pensando, na sua mediocridade, que não é trabalho, que não dá trabalho, é muito mais do que vocês fariam durante uma vida inteira!
-Mas também não da pra generalizar...

DULCE-A sim e enfim, só mesmo o próprio artista, para compreender aquilo que faz!
GABRIEL-Não sei se preciso dizer algo ao público, que bom que ele está ali disposto a me ouvir a me assistir, me dar atenção e pra mim basta.
RENATO-A gente usa frases internas em cena, tipo quando estou no espetáculo infantil estou dizendo um montão de coisas. As crianças receberam a minha mensagem, algumas irão usar, outras nem tentarão.
-Vocês viajam por todo o estado com seus espetáculos,  principalmente com Lili Inventa o Mundo, que é um espetáculo infantil. Como é a relação com as crianças?
GABRIEL-Adoro o teatro infantil, me sinto livre para criar, para brincar com os colegas de cena, (mas tudo na medida, é claro), acho que um ator só é um ator quando trata um espetáculo infantil com a mesma seriedade que encararia uma tragédia grega.
RENATO-Fazer teatro é o prazer completo. E em espetáculos infantis é olhar os olhos curiosos de uma criança; vê-las imitando partituras, ações ocorridas no espetáculo; enfim um montão de coisas, o sorriso no rostinho delas...
ALESSANDRA-O rostinho delas atento a espera de mais uma emoção...
DULCE-O teatro infantil é a semeadura para um futuro mais culturalizado...
-Dulce, você não participa muito de espetáculos infantis, certo?
DULCE-Aprecio VER um espetáculo infantil, ver as crianças encantadas, envolvidas. Mas por algum motivo, que não sei qual é, não consigo me ver participando confortávelmente de um espetáculo infantil.
-E da para levar numa boa a relação com a familia? Fernanda Montenegro diz que artista tem que ficar com artista... Será que é assim mesmo? Como é a relação de seus familiares com sua arte?
DULCE-No meu caso é de apoio com um pouco de ignorância.
ANGÉLICA-A família, pai, mãe e irmão são o meu porto seguro, sem eles não teria condições de fazer teatro da maneira que faço, viajando para fazer minha faculdade. Se eles não me apoiassem e me dessem o suporte financeiro, não poderia fazer isso. Por isso sou completamente agradecida, e toda a vez que nos apresentamos em um Cena às Sete, são para eles que dedico meu trabalho. Mas como disse, o teatro vem acima de tudo, é o meu amor, amante e amigo, é o meu mundo, meu meio, meu anseio. Família e teatro, ambos não se entendem, mas um dia chegarão a um acordo e verão que estou certa ao escolher o teatro.
ALESSANDRA- A minha familia me da problema, ai eu fujo para o teatro...
RENATO-Neurose, neurose, neurose... refúgio, tristeza, felicidade, sucesso, Para a familia seis horas do meu dia, para o teatro 24!
GABRIEL-Acho que o que tem mais forte dentro de uma família e também no teatro é a dependência mútua, um depende do outro.
-Essa ja é a receita para o bom teatro?

GABRIEL-Pois é, cada um tem uma determinada função. Para que as coisas corram bem, é preciso harmonia, admiração entre seus envolvidos. "Todo devem sentar a mesa na hora do almoço".
-E quando é um trabalho solitário?
RENATO-Para mim um ator sozinho no palco é egoísmo...
ALESSANDRA- ...é com colegas dispostos a criar que aprendemos a atuar, a ter presença, tendo uma concorrência exigimos mais de nós mesmos, não relaxamos, pois sempre precisamos superar nossos próprios limites.
-Angélica, você fez recentemente um monólogo, Delírios de Amores e Cigarros, no Máschara vocês montam peças com grandes elencos. É muito diferente?
ANGÉLICA-Quando fiz o meu monólogo, já que nele estava sozinha em cena, antes de começar a peça, chamei nas coxias o meu diretor teatral e pedi que ele me abençoasse, para me passar sua energia que há cinco anos, me é concedida. Ao término do mesmo, o público aplaudiu com veemência, valorizando ainda mais a minha “arte exposta”. Agradeci à parte técnica que na noite anterior passou montando a minha luz. Agradeci à orientadora e aos colegas que me acompanharam por um ano. A arte não se faz sozinha, ela pode ser individual, cada um tem seu potencial artístico, seu talento, suas técnicas, mas o coletivo torna-se a base da arte, afinal necessitamos de pessoas nos assistindo, de pessoas trabalhando em pról do nosso trabalho.
GABRIEL-Ta mas teatro com quem sabe o que é teatro, com quem sente o teatro, teatro com quem sabe o que esta fazendo...
DULCE-Acompanhado como sinônimo de cumplicidade, de ideais em comum. Que não seja em meio a um grupo de pessoas que olham em direções bem diferentes.
RENATO-Tem que ter a triângulação perfeita, ator-atriz-público. Jogo cênico! Atores que não são íntimos correm o perigo de não ter jogo. De não "ocupar o mesmo espaço".
-Então o teatro é quase uma vida paralela, com sucessos, perdas ganhos e desilusões. Sem arrependimentos? Onde querem chegar? O objetivo máximo?
ALESSANDRA- Talvez pela lógica, um dia eu acabe casando, tendo que largar o teatro e cuidar da minha familia, pelo menos é o que todas as pessoas fazem. Mas eu vivo fujindo  disso, quero um dia viver do teatro, para o teatro. Um sonho...
RENATO-Quero levar teatro ao maior número de pessoas possíveis. Quero ensinar e aprender com elas... Quero que elas aprendam a "ler", "ouvir" e "ver"...
ANGÉLCA-Eu não sei aonde quero chegar, mas sei como quero chegar. Quero chegar à velhice com o fogo da juventude, quero ter na bagagem grandes personagens, que estes tenham me dado o ensinamento que não poderia ter na vida real, quero ser atriz, diretora e professora de teatro. Quero passar os dias discutindo textos, fazendo leituras dramáticas, comentando aprendizados, descobrindo ideologias teatrais, buscando novas formas de expressões artísticas, me desafiando. Quero viver da arte e para a arte.
DULCE-Tem dias que a gente perde o fio da meada, perde aquela esperança... Tem dias que fazer teatro representa a anulação da auto-extima. A sensação de ser inferior ao mundo que me cerca. Mas ai recordo lá do começo, de quando descobri que era muito mais do que imaginava. E as penas são menores do que a realização de estar no palco.
GABRIEL-Eu amo isso tudo, das alegrias e tristezas que o teatro trás consigo, do olhar do colega de cena, dos desafios de cada apresentação, a melhor coisa do teatro é o espantar da monotonia, o descobrir algo novo a cada dia. Não sei onde quero chegar, o teatro é que sabe.
ALESSANDRA-"A vida não é para ser apenas vivida, ela precisa ser sonhada"...
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Dulce Jorge - fundadora do grupo Máschara, diretora de teatro e atriz há 18 anos.
Renato Casagrande- Ator há dois anos, provindo do núcleo de teatro.
Gabriel Wink- Ator há quatro anos, professor de teatro para crianças.
Angélica Ertel- Acadêmica de Artes-Cênicas. Atriz há quatro anos.
Alessandra Souza-Atriz há três anos provinda do núcleo de teatro.