sexta-feira, 30 de março de 2012

Esconderijos em Osório - 27 de março de 2012

A sombra por trás da personagem...

           Ontem ao assistir novamente Esconderijos do Tempo, fiquei me perguntando qual a fórmula para um espetáculo dramático emocionar tanto a plateia. Assisti a montagem da “vida e obra” de Mario Quintana mais de cinquenta vezes e sempre derramo lágrimas. Tanto pela historia quanto pelas vidas, sombras e vultos que acompanham a historia dessa montagem. Um historia que se confunde com a historia do Máschara, uma Cia. que há mais de duas décadas parece disposta a “morrer pelo teatro”. Para que bons espetáculos, é necessário também bons produtores, bons organizadores, amantes do teatro que se disponham a fazer a burocracia da arte acontecer. E isso se deu em Osório graças ao querido Adriano Lima.
                  Afinal, o que é o teatro? É um trabalho como outro qualquer onde alguns tem mais capacidade e outros menos? Não sei, me encho de dúvidas a cada dia. Ontem enquanto olhava para o palco me perguntava até que ponto atores, não só os do espetáculo em questão, mas todos, tem algo de imortais, de semideuses... Afinal fazem coisas incríveis, brincam com nossas emoções e nos levam a lugares inimagináveis.
                      Esconderijos do tempo também poderia ser chamado de “A paixão de Mario Quintana” pois o que vemos é a subida do calvário em direção a expiação total por amar a vida, a existência. E tal caminhada tem presentes, figuras perfeitas de um auto cristão. Anjo, espectro da morte que tráz a luz e no final a tira, e ainda uma quase nossa senhora vestida de azul ao pés a cabeça como em qualquer quadro sacro. O elenco perfeito, uníssono, é encabeçado por Cléber Lorenzoni que nos presenteia com toda a profunda realidade de que o fim de todos é igual, simples e extremamente humano. Ao erguer-se a luz somos embalados pela linda "Se esta rua fosse minha"... entoada pelo próprio elenco. Cléber Lorenzoni, Gabriel Wink, e Angelica Ertel interpretam três crianças e mais tarde Mario e dois amigos respectivamente. Angelica Ertel esteve maravilhosa, brilhante eu diria, com carisma, energia e vivacidade. Gabriel Wink dosou perfeitamente entre comédia e drama, pena ter sido prejudicado pela má operação de luz em sua cena. Alessandra Souza está se transformando em uma atriz de primeiro time no Máschara, intensa, dramática e cheia de luz... 
                 Renato Casagrande não parece ter se encontrado em seu "Anjo", parece desconfortável, e tal desconforto as vezes chega ao público. Tatiana Quadros aparece esporadicamente, mas sempre tão sagaz em sua atuação. Por fim, a impagável Dulce Jorge que brilhantemente compõe a Dona Glorinha com detalhe e versatilidade, de uma atriz que não tem medo de aprofundar-se nos sulcos da velhice. 
                    Foi sem dúvida uma noite inesquecível para o público de Osório, que já é amante do teatro e das artes a longa data. A iluminação de Luis Fernando Lara foi simples e básica demais, devido as poucas opções técnicas do local, e também pela má conexão com os atores em cena. A sonoplastia de Ricardo Fenner carecia de um pouco mais de sutilidade. 

                     Enfim, teatro como sempre, novo a cada inserção, e nas mãos do máschara, disposto a arrancar emoções até dos mais descrédulos!


                                                                                             A Rainha
Angelica Ertel, Dulce Jorge, Gabriel Wink ***
Cléber Lorenzoni, Alessandra Souza, Tatiana Quadros, Renato Casagrande **
Luis Fernando Lara, Ricardo Fenner *



                          
                          

quarta-feira, 21 de março de 2012

Os Saltimbancos

Continua dando a louca...

                                         É muito comum ouvirmos em ambiente de pessoas que se proclamam interessadas pelas artes e por assuntos culturais em geral, críticas dizendo que em nossa cidade não há opções, que não há nada para fazer, e até fomentado a leitura, a musica etc... Mas o que choca é perceber que essas mesmas pessoas são as primeiras a dizer: -Poxa, não tive oportunidade para ir assistir ao espetáculo de vocês. - Ou ainda - Eu vi que tem espetáculo nos domingo...-Tipo, já há espetáculos nos domingos há seis anos!
                                   O teatro senhores, é uma arte cara. Não desejamos aqui menosprezar nenhuma outra arte, e nem compará-las como mérito ou significação, o que é tão gratuito quanto insensato. Mas tomemos por exemplo a questão da pintura. Para que tenhamos um quadro é preciso talento de um único individuo, o pintor; é o adestramento desse mesmo individuo que terá como suas despesas de execução a tela, as tintas, pincéis, etc..., o que tem certa monta, mas que não atinge cifras astronômicas. Mas, o que é mais importante no caso, uma vez que o pintor acaba de pintar seu quadro, a obra está pronta, e -desculpem dizê-lo tão prosaicamente -, uma vez vendido, o autor terá recebido a paga de seu trabalho (não entremos no caso do bem ou mal, no momento), sendo que na pior das hipóteses, duas pessoas serão pagas desse preço. O pintor e o marchand de tableaux. Tomemos por outro lado o teatro, e vejamos como toda a engrenagem muda.
                       A primeira etapa da criação de um espetáculo teatral, é lógico, é a criação do texto por um dramatista. A contribuição do autor está pronta. Mas então o ator teatral depende agora não de instrumento que maneja ele mesmo, para poder colocar a obra diante do público, mas de instrumentos humanos. A peça é tomada por uma Cia. teatral para ser apresentada. É preciso pagar o aluguel do teatro para que o espetáculo seja apresentado, os bilheteiros, os encarregados de limpeza e todos os outros servidores do espaço. Mas na parte na qual o pintor teria de levar em conta somente o seu talento e tempo, a companhia teatral tem de ter, via de regra: um diretor, um cenógrafo, um elenco de atores que varia em número; o pessoal do palco, isto é, eletricistas, maquinistas, encarregados de guarda-roupa, contra-regras. E tudo isso está assim, visto por alto, e não inclui os custos  de produção, isto é, a execução dos cenários e figurinos, cuja idealização já custara alguma coisa por si. Material de cena, manutenção de guarda-roupa, sem contar com publicidade.  
                          A produção de um espetáculo teatral é questão de várias centenas de reais. 
                          O teatro é o reflexo de uma sociedade,  sociedade sem escritores, poetas, músicos e atores não tem muito a dizer e se não tem o que dizer é por que está resumida em si mesma sem refletir os aspectos sociais. Então nossos filhos no palco são a consciência inteira de uma comunidade de que algo precisa ser debatido, dito, refletido. É obrigação nossa tomarmos conhecimento do que é dito no palco. A sua entrada individual estará sempre fazendo falta na bilheteria de um espetáculo de categoria, para que ele continue emocionando, questionando, divertindo. Já é tempo de parar de pensar que o teatro é uma brincadeira improvisada da qual fazem parte boêmios que não dão para mias nada e gostam de acordar tarde, ou que a escolha da carreira de ator é justificativa prévia para uma carreira de moral duvidosa. Teatro é trabalho, muito trabalho, é uma vida sacrificada. E nem todos os atores estão preocupados em ir para a televisão, por que a televisão nada tem haver com o teatro, apenas o fato de que ambas fazem uso do trabalho de um ator!
                          Domingo à noite muitas pessoas se surpreenderam com o texto tão bem pronunciado pelos atores do Máschara e escrito pelo ator Antonio Fagundes. Primeiramente por que ele parecia nos jogar em confronto a nossa postura as vezes equivocada dentro de um teatro. Ao mesmo tempo se percebia a devotada paixão expressada no texto para com a platéia e o teatro. Era um espetáculo educativo, agradável. Cheio de trunfos. Um deles e que mais me tocou, é o fato de que não é necessária uma única piada apelativa para arrancar a graça do público. E em tempos de Zorras e palhaçadas, isto é um grande mérito.
                       O cenário é belíssimo e embora o texto já seja conhecido, a direção deu toda uma repaginada adequando aquela verdade à verdade da nossa cidade.
                             No palco Cléber Lorenzoni, senhor total de cena, com desenvoltura e credibilidade, depois de 16 anos de palco, isso se compreende perfeitamente. Alessandra Souza muito mais madura, inteira. Renato Casagrande e Ricardo Fenner em ótimas interpretações. Gabriel Wink repleto de humor, com a velha e perspicaz fórmula do riso e da lágrima. Dulce Jorge versátil em sua criação como evangélica.
                                  Enfim um espetáculo para ser revisto sempre, um espetáculo que honra o ator e homenageia o público. Trilha sonora simples mas muito bem executada por Luis Fernando Lara e Iluminação adequada, as vezes levemente adiantada, guiada por Lucas Padilha.
                                     Impossível não aplaudir em pé todo o elenco.


À todo o elenco ***
À direção ***
À Equipe técnica - Luz *
                             Som **
À Produção ***                                                                        


                                                                                                                      A rainha