quarta-feira, 21 de março de 2012

Os Saltimbancos

Continua dando a louca...

                                         É muito comum ouvirmos em ambiente de pessoas que se proclamam interessadas pelas artes e por assuntos culturais em geral, críticas dizendo que em nossa cidade não há opções, que não há nada para fazer, e até fomentado a leitura, a musica etc... Mas o que choca é perceber que essas mesmas pessoas são as primeiras a dizer: -Poxa, não tive oportunidade para ir assistir ao espetáculo de vocês. - Ou ainda - Eu vi que tem espetáculo nos domingo...-Tipo, já há espetáculos nos domingos há seis anos!
                                   O teatro senhores, é uma arte cara. Não desejamos aqui menosprezar nenhuma outra arte, e nem compará-las como mérito ou significação, o que é tão gratuito quanto insensato. Mas tomemos por exemplo a questão da pintura. Para que tenhamos um quadro é preciso talento de um único individuo, o pintor; é o adestramento desse mesmo individuo que terá como suas despesas de execução a tela, as tintas, pincéis, etc..., o que tem certa monta, mas que não atinge cifras astronômicas. Mas, o que é mais importante no caso, uma vez que o pintor acaba de pintar seu quadro, a obra está pronta, e -desculpem dizê-lo tão prosaicamente -, uma vez vendido, o autor terá recebido a paga de seu trabalho (não entremos no caso do bem ou mal, no momento), sendo que na pior das hipóteses, duas pessoas serão pagas desse preço. O pintor e o marchand de tableaux. Tomemos por outro lado o teatro, e vejamos como toda a engrenagem muda.
                       A primeira etapa da criação de um espetáculo teatral, é lógico, é a criação do texto por um dramatista. A contribuição do autor está pronta. Mas então o ator teatral depende agora não de instrumento que maneja ele mesmo, para poder colocar a obra diante do público, mas de instrumentos humanos. A peça é tomada por uma Cia. teatral para ser apresentada. É preciso pagar o aluguel do teatro para que o espetáculo seja apresentado, os bilheteiros, os encarregados de limpeza e todos os outros servidores do espaço. Mas na parte na qual o pintor teria de levar em conta somente o seu talento e tempo, a companhia teatral tem de ter, via de regra: um diretor, um cenógrafo, um elenco de atores que varia em número; o pessoal do palco, isto é, eletricistas, maquinistas, encarregados de guarda-roupa, contra-regras. E tudo isso está assim, visto por alto, e não inclui os custos  de produção, isto é, a execução dos cenários e figurinos, cuja idealização já custara alguma coisa por si. Material de cena, manutenção de guarda-roupa, sem contar com publicidade.  
                          A produção de um espetáculo teatral é questão de várias centenas de reais. 
                          O teatro é o reflexo de uma sociedade,  sociedade sem escritores, poetas, músicos e atores não tem muito a dizer e se não tem o que dizer é por que está resumida em si mesma sem refletir os aspectos sociais. Então nossos filhos no palco são a consciência inteira de uma comunidade de que algo precisa ser debatido, dito, refletido. É obrigação nossa tomarmos conhecimento do que é dito no palco. A sua entrada individual estará sempre fazendo falta na bilheteria de um espetáculo de categoria, para que ele continue emocionando, questionando, divertindo. Já é tempo de parar de pensar que o teatro é uma brincadeira improvisada da qual fazem parte boêmios que não dão para mias nada e gostam de acordar tarde, ou que a escolha da carreira de ator é justificativa prévia para uma carreira de moral duvidosa. Teatro é trabalho, muito trabalho, é uma vida sacrificada. E nem todos os atores estão preocupados em ir para a televisão, por que a televisão nada tem haver com o teatro, apenas o fato de que ambas fazem uso do trabalho de um ator!
                          Domingo à noite muitas pessoas se surpreenderam com o texto tão bem pronunciado pelos atores do Máschara e escrito pelo ator Antonio Fagundes. Primeiramente por que ele parecia nos jogar em confronto a nossa postura as vezes equivocada dentro de um teatro. Ao mesmo tempo se percebia a devotada paixão expressada no texto para com a platéia e o teatro. Era um espetáculo educativo, agradável. Cheio de trunfos. Um deles e que mais me tocou, é o fato de que não é necessária uma única piada apelativa para arrancar a graça do público. E em tempos de Zorras e palhaçadas, isto é um grande mérito.
                       O cenário é belíssimo e embora o texto já seja conhecido, a direção deu toda uma repaginada adequando aquela verdade à verdade da nossa cidade.
                             No palco Cléber Lorenzoni, senhor total de cena, com desenvoltura e credibilidade, depois de 16 anos de palco, isso se compreende perfeitamente. Alessandra Souza muito mais madura, inteira. Renato Casagrande e Ricardo Fenner em ótimas interpretações. Gabriel Wink repleto de humor, com a velha e perspicaz fórmula do riso e da lágrima. Dulce Jorge versátil em sua criação como evangélica.
                                  Enfim um espetáculo para ser revisto sempre, um espetáculo que honra o ator e homenageia o público. Trilha sonora simples mas muito bem executada por Luis Fernando Lara e Iluminação adequada, as vezes levemente adiantada, guiada por Lucas Padilha.
                                     Impossível não aplaudir em pé todo o elenco.


À todo o elenco ***
À direção ***
À Equipe técnica - Luz *
                             Som **
À Produção ***                                                                        


                                                                                                                      A rainha