quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Cléber Lorenzoni e Vagner NArdes em Tem CHorume no Quintal

Crédito da foto: Mauricio Mendes

Renato Casagrande, melhor ator coadjuvante no festival Cena Viva


Tem chorume no quintal na capa do Diario Serrano


857/858-Tem chorume no quintal - (tomo 06/07)

         Ouvi dizer que muitos estão interessados em me conhecer pessoalmente. Não queiram conhecer a mim, queiram sim ouvir minhas ideias. As pessoas preocupam-se muito com aparências, com sentimentos, com sensações e muito pouco com ideias, com reflexões. Sou apenas uma senhora que ama teatro, que reverencia a arte. Uma senhora aposentada que quando jovem não teve coragem de fazer teatro, de mergulhar em seus sonhos, que foi deixando para depois movida talvez pelos áureos anos setenta e oitenta. Hoje olho os jovens, os românticos, os desiludidos, os velhos, os desempregados, os ricos e me pergunto onde residem nossos erros, por que tudo parece tão adverso, por que sofre-se tanto, por que reclama-se tanto se temos tanto a nossa disposição. Por que as escolas estão tão defasadas, por que lemos tão pouco, por que estamos cada dia mais violentos. Não será por que preocupa-se mais com o sentir do que com o pensar?
            Algumas pessoas sentiram-se frustradas quando o ator Marcus Caruso, quando ele revelou ao fim do seu monólogo, (o primeiro no qual se arriscou em sua carreira), que Philippe Dussaert não existia. Philippe era apenas um signo, um simbolo da hipocrisia. Um signo para denunciar a ilusão das aparências. Mas o público em sua maioria não quer pensar. Pensar dói, pensar custa, pensar na maioria das vezes revela, e quando revela, talvez não sejamos fortes o suficiente para enfrentar a conclusão do pensar. Caruso foi doce comigo, recebeu-me cedo no camarim, como quem recebe uma amiga em sua casa. Não tiramos fotos, na minha idade considero fotografias e espelhos invenções malignas. Mas deu um caloroso abraço a essa amiga que o assistiu em O vento do mar aberto, interpretando o malicioso "Rafa". Os anos passam depressa, e é muito gostoso ver seus ídolos amadurecendo, crescendo. 
           Hoje em dia quando vejo algum jovem ator, torço por ele, torço para ter forças para lutar, para enfrentar as dificuldades da profissão. Ser ator é gritar: "Sim eu posso ser o que eu quiser." Hoje pela manhã eu assisti "Chorume no quintal" com respeito pelos atores da Cia. Máschara. Que tanto se esforçam, que tanta garra tem. Que levaram ao palco um espetáculo tão lindo e que tão pouco foram respeitados e valorizados. Uma professora me disse que não pagaria o ingresso do espetáculo por que sempre colocava moedas na caixinha do calçadão. Ao que lhe respondi: Logo não mais terá onde colocar sua moedinha, afinal se esse grupo não é respeitado ou valorizado, não durará muito! -Mas sei que durará, foram vinte e sete anos. Um grupo que nasceu para permanecer. O Máschara é muito mais do que um grupo de teatro, é um espaço de luta, de aprendizagem, de reflexão. O Palacinho na esquina da Barão é como o sobrado do Terra Cambará, último reduto dos republicanos de Santa Fé. Ele pulsa, como diria José Lírio (o liroca), há algo de extremamente humano naquele casarão. Um marco. O velho e o novo. A arte que emana dali. 
           Dali surgiu Tem chorume no quintal. Das loucuras mentais do diretor Cléber Lorenzoni, das complexidades contraditórias de Alessandra Souza, das rabugentices de Renato Casagrande. Alí formou-se um grande diretor, exigente, profissional, genial. Dali surge uma atriz esforçada, surpreendente, intensa. Deli brota um artista sensível, multiforme, incansável. Por ali passam jovens que querem expressar-se, que tem sangue quente correndo nas veias. Clara Devi que mal contem-se dentro de si, tamanha sua fome de palco; Evaldo Goulart, espontâneo, indomável; Vagner Nardes, talentoso, observador, intenso; Stalin Ciotti, detalhista, perspicaz, reflexivo. Na ESMATE forja-se pontos de vista, ideias, ideologias. Os atores no palco hoje pela manhã e a tarde, contrastavam-se de forma equilibrada. Uns com mais garra, outros com mais conhecimento, mas todos unidos pelo objetivo de fazer dar certo. De tocar a platéia. As crianças que chegaram já conhecendo o Máschara, essa potencia de nome poderoso, foram para casa satisfeitas. Levaram mais do que vieram buscar, sejam os ensinamentos do diretor no interlúdio do diretor, seja nos diálogos lúdicos do seu Zeca, nos ensinamentos de Alice e LAércio, nos gracejos de Cremosina e Junior, ou nas colocações maldosas que não devem ser seguidas, de Office e MAdame Rafaela. 
              Parece que os atores do Máschara passaram anos estudando, para hoje nos dar esse agradável espetáculo. Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande e Alessandra Souza estão prontos. Nada a declarar. É sem duvida a melhor criação de Alessandra Souza. Renato Casagrande está em sua maturidade, senhor da cena. Cléber Lorenzoni faz uma vilã forte, divertida, maquiavélica, engraçada. O fato de ser praticamente uma drag na cena,  faz um grande serviço a comunidade gay, ainda que sem levantar bandeiras lgbt, ora, as crianças das escolas apaixonam-se por madame Rafaela, e muitos jovens gays descobrem através do teatro que não há problema algum em ser gay, ouser drag, ou ser travesti, o problema é sim o caráter, esse sim é o erro de MAdame Rafela, não se ela é colorida, afeminada ou seja o que for. 
             O espetáculo da manhã foi emocionante, divertido, repleto de ritmo. A encenação da tarde foi mais lenta, parecia desconcertada. Alessandra Souza entrou na cena sem óculos, eu percebi por que já havia visto nas duas seções do dia anterior que a personagem usava óculos vermelho. Porém quando LAércio entrou com o óculos, pareceu que Cremosina desconcentrou-se inteira. O cachorrinho sobre o muro foi divertidíssimo, não me recordo o nome dele, mas seu salto nos últimos instantes pareceu fechar com chave de ouro. Clara Devi brilhou lindamente, ainda pode render muito mais, crescer mais, aprender mais. Mas me orgulha muito vê-la na cena. Foi um dia de altos e baixos como qualquer espetáculo. Público pequeno em comparação ao de Lendas da Mui Leal Cidade em 2018. Uma pena, os jovens saem perdendo. Mas não sei até que ponto os educadores pensam sobre isso. 
              Algumas piadas as vezes precisam ser mais cuidadosas, sem apelação. Os técnicos precisam estar atentos, receber o público com motivação. O fato de haver um compromisso após o espetáculo não deve desconcentrar os atores. Tudo isso esse brilhante elenco já sabe, mas as vezes parece esquecer.


Arte é Vida
   
                                 A   Rainha
             
Alessandra Souza (***)(*)
Cléber Lorenzoni (***)(*)
Renato Casagrande (**)(**)
Stalin Ciotti (**)(**)
Clara Devi (***)(**)
Evaldo Goulart (***)(**)
Vagner NArdes (***)(**)
Kauane Silva (***)(**)
Laura Hoover (*)

                    

Comercial A hora da ESTRELA


O ator Renato Casagrande como Seu Zeca

Crédito da foto: Maurício Mendes

Cléber Lorenzoni introduzindo o espetáculo




Renato Casagrande e Clara Devi em Tem chorume no quintal


Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni na rádio cidade com a repórter Muriel Braatz


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Elenco ao lado da.diretora.Dulce Jorge


Com o público de Tem chorume no quintal


Momento de descontração minutos antes de entrar em cena


855/856-Tem chorume no quintal (tomos 04/05)

A importância da figura do diretor


             Quando grandes clássicos do teatro subiram ao palco, durante séculos e séculos, o encenador resumia-se a explicar as rubricas. Dividia o elenco à direita ou à esquerda do palco. O encenador não tinha o intuito de criar algo, mas de organizar algo à contento do dramaturgo. O encenador podia ser as vezes um funcionário do teatro, um assessor do dramaturgo. O Teatro teve durante muitos anos a função de colocar sobre o palco a ideia escrita por um dramaturgo, uma ideia ligada ao momento, á época em que a historia foi escrita. Olhava-se para o palco com a intenção de conseguir interpretar os grandes papeis, reprisar as historias escritas pelos grandes homens de teatro.
             Finalmente o raiar do século XIX concedeu ao mundo ocidental a possibilidade de perceber o texto teatral como algo atemporal, algo que precisa de conexão com o momento. Por exemplo, eu não quero ver um Otello  na Veneza medieva, quero ver um homem negro que se apaixona por uma jovem mulher e que sofre com seu ciúme doentio, quero ver uma ideia inédita, que me faça refletir minha vida atual, ou a vida do mundo ao meu redor. O Hamlet de Shakespeare é um jovem que tem seu pai morto por um tio ambicioso, pouco ou nada me importa a riqueza da Dinamarca de um ou dois séculos atras, mas me importa o drama, o conflito, o que isso pode me provocar. Surge daí, a figura do diretor, um homem que vai contar uma historia. Uma historia nova e atual. A historia sobre o palco está sendo contada sob a batuta do diretor. Ele é o maestro de uma trama, de uma ideia. 
            Tem chorume no quintal é uma obra fechada, escrita por um dramaturgo/diretor. Se ela for dirigida por outro diretor, terá figurinos de outras cores, terá marcas diferentes, outros cenários. As cenas tangencias serão outras, as cenas pulsarão em outro momento, e principalmente a ideia final da obra artística me tocará em outros cearas. 
            Cléber Lorenzoni coloca no palco três atores do primeiro escalão do Máschara em um processo matemático muito inteligente. 1,1-2, 2,3,3-1,3-1-2. No segundo escalão temos Evaldo Goulart, que não brilha em uma grande criação como na estreia de O Hipocondríaco, mas que cumpre bem seu papel. Logo depois o terceiro escalão onde está protagonista, uma escolha ousada. Ali também encontram-se Stalin Ciotti e Vagner Nardes. Ciotti é desses atores com quem vale a pena trabalhar. Em questão de minutos ele te da uma partitura, uma construção. Vagner tem garra em cena, precisa claro de muita técnica ainda, mas equilibra-se perfeitamente com o restante da equipe. Seu jogo é ótimo, as vezes pode ter mais personalidade, mas isso virá aos poucos. Ciotti é uma ótima escolha para o menino Júnior, na segunda apresentação esteve muito vigoroso, mas ainda pode chegar em algum lugar em comum com Clara Devi, são um casal romântico. 
                   Clara Devi deve buscar a calma, intercalar ou preencher silêncios com presença física. Clara Devi detém o papel mais importante sobre o palco, no entanto Alice ainda não se apropriou do espetáculo. Torçamos que isso aconteça no restante da temporada. 
                        O prologo novo acrescentou graça e frescor ao espetáculo e a expressividade suave de La Devi convence e muito. Pode-se aproveitar mais as pausas, os tempo, as densidades. Sentir os anciãos com suas técnicas. O que cada um tem para acrescentar. Cléber Lorenzoni com seu poder atrativo de Leopardo, Renato Casagrande com sua grandiosidade de urso, Alessandra Souza com seu olhar clínico de coruja. Todos repletos de sons, gestos, forças, historias pelas quais os atores jovens devem ansiar. Correr atrás. Há nessa continuidade cíclica o mesmo processo pelo qual escoteiros ou ainda o menino Mogli passou.
                          A quarta apresentação de "Chorume" é madura e orgulha os atores pela dignidade com que se fala de algo educativo sem parecer enfadonho. Aliás a cena de Dona Cremosina pode ser mais balanceada por informações técnicas que Clara Devi e Evaldo Goulart podem buscar, como fonte de pesquisa e de crescimento. 
                          Alessandra Souza foi muito bem na apresentação da manhã, mas precisa cuidar para não atuar apenas para o público. Falta jogo com os atores jovens da cena. Dominar uma cena é processo difícil e maravilhoso, mas não pode ser prejudicado por atuações orgulhosas ou egoístas. Alessandra Souza arrancou gargalhadas do público, uma grande! 
                          Renato Casagrande adquire à cada papel, maior sabedoria, maturidade cênica. Atua em outro patamar, o patamar dos grandes atores do Máschara. Mas precisa ter muito cuidado com suas improvisações. Para mim que passei anos vendo Cléber Lorenzoni encerrar os espetáculos e falar coma platéia, é muito digno ver outro ator ocupar esse mesmo espaço sem egos inflamados, ou invejas egocêntricas. 
                            A contra-regragem de Kauane Silva e Laura Hoover foi bem executada e deve ser sempre, como qualquer outra contra-regragem, ambiciosa, artística e profissional. Os contra-regras são tão importantes quanto os atores. Saber o que são gelatinas, pontos de luz, espaços do palco, botões, extensões. Montar coxias, erguer escadas, organizar adereços... 
                              Vamos ao teatro, aprender, debater, inspirar...
                               Teatro é arte pura, arte é vida...

                                           O melhor: A maturidade com que se compreende a não necessidade de todo o elenco do Máschara em dia de espetáculo.
                                                O pior: A ausência de gente de teatro em dia de teatro!

                                                       A Rainha


Cléber Lorenzoni (***)(**)
Renato Casagrande (***)(**)
Alessandra Souza (***)(**)
Stalin Ciotti (**)(***)
VAgner NArdes(**)(**)
Clara Devi (*)(**)
Evaldo Goulart (**)(**)
Kauane Silva (***)(**)
Laura Hoover (**)(**)
                         
                        
             
              

Pode especial com o público de Tem chorume no quintal