terça-feira, 17 de outubro de 2017

Com as turmas do colégio Santissima


A Roupa Nova do Rei 786 (tomo 1)

                              No domingo voltei a ser criança, embora, como diz Lili de Lili Inventa o Mundo, "seremos para sempre crianças". Ou ainda: Basta desejar e os olhos fechar, como em O Castelo Encantado. Mas o Máschara teve ainda outro mérito, fazer boa comédia, sem apelação alguma, para famílias inteiras se divertirem. Meus netos não moram em minha cidade, mas quando os visito costumo ir com eles ao teatro. As vezes eles riem muito e eu apenas observo devido a linguagem muito bobinha de alguns trabalhos que subestimam a criança. Em outros eu me entrego as gargalhadas enquanto eles observam sem compreender muito bem. Mas não há nada como os ricos momentos desopilantes, em que as duas gerações tão distintas se entregam juntas.
                                 A recepção ficou a cargo de Evaldo Goulart que de forma graciosa recebeu a plateia e deu o clima. Logo que me acomodei, a trilha medieval, o cenário, a luz, me conduziram para o passado. Castelos, reis, côrtes, tramas famosas começaram a povoar minha mente. Isso tudo claro unido a imagem do cartaz que espalha-se pelas redes sociais. Ou seja, a imagem que se vai compondo prepara a platéia para algo. O Máschara sabe muito bem nos preparar. 
                        A trama de Hans Cristian Andersem iniciou com atores de duas gerações bem distintas, mas me orgulhei vendo o jovem Gabriel Giacomini abrir a cena. Parece que o futuro do teatro está em boas mãos. O arauto do Rei foi se esparramando pelo palco em uma primeira cena que confesso ser um tanto longa, mas que sublinhou bem o que nos esperava. Giacomini carrega consigo a percepção de um ator maduro, precisa é claro, investir em técnica vocal e corpo. Ao mesmo tempo triangula com Cléber Lorenzoni como poucos. 
                           A primeira cena nos dá o tom do reizinho de Cléber Lorenzoni, mandão, vaidoso, intenso, mimado. Mas ao mesmo tempo muitíssimo divertido. Como ator d velha guarda que é, Cléber Lorenzoni usou suas cartas cena após cena e foi tirando piadas e gags novas qual mágico tira coelhos de uma cartola. Alessandra Souza é outra atriz de longa data, conhecida do público por suas Olívia e Margarida. A atriz acrescenta muita força a cena, talvez a direção pudesse especificar melhor sua ideia, compreendemos pela semiótica que trata-se de um jogo de cartas, um jogo onde cada personagem representa um naipe. Suponho que Lady Zuzu seria o curinga. No entanto isso poderia ser melhor sublinhado.
                            Ora, Lady Zuzu faz as vezes do povo de Fan Fin Fon, por isso mesmo poderia investir em seu trabalho corporal, sendo mais explosiva, ágil, espoleta, aproximar-se do público.                                                                       Meus querido moradores,
desta tão bela cidade, 
peço a atenção de todos, 
com a mais pura humildade,
 para mostrar os sintomas,
 da doença que é a vaidade.
                               Talvez um aventalzinho, ou algo do tipo ajudasse as crianças a compreenderem ainda mais a função de lady zuzu, relacionada a diferença de classes. Alessandra Souza pode se divertir mais, transcender, dizer ao mundo através de seus personagens o porquê de fazer teatro. Tearo tem que ser prazeroso, bom, saudável. 
                                   A vilania trazida por Maluc e Mulec, vem como uma alegoria perfeita, com ouro e copas, dinheiro e amor, falsetas e confusões. Um prato cheio para a farsa tão conhecida pelos espetáculos do Máschara. 
                                    Renato Casagrande é perfeito em seu vilão, um dos grandes do Máschara. Até por isso ocupa o papel do antagonista. Apenas aconselharia uma pequena troca em seus confusos nomes. "Mulec"- moleque, é o sujeito marginal, que apronta, que tem sempre um "jeitinho" para resolver as situações. "Maluc" - maluco, o bufo, o desajeitado, o clown branco. Esse pequeno detalhe  tornaria ainda mais brilhante a construção das figuras. 
                                Raquel Arigony surpreende com uma composição intensa, viva, redonda. Repleta de texto interno, a atriz fala com o corpo, "e que corpo", uma construção invejável que prende as crianças e da muito do tom do espetáculo. A proposta de ambos nos aponta ao cinema de O gordo e o magro, ou ainda o desenho pink e cérebro. A direção do espetáculo como sempre, acertou profundamente na escolha de elenco. Cada ator casou perfeitamente com o papel que lhe coube. O roteiro é simples, rápido, agrade, prende. Não me agrada a trilha, que é equivocada em alguns pontos e de operação bruta em outros.´
                                        A roupa nova do rei é diferente de todos os outros espetáculos infantis do Máschara. Abocanha uma nova fase do público. É como se a Cia. dissesse, crianças agora vocês estão grandinhas, chega de Lili e Rosa Maria, venham ver o Reizinho Mandão. Politica, relações familiares, sexualidade; Tudo está envolvido no roteiro da obra e saímos do teatro satisfeitos. Aliás não dá vontade de sair. As cenas vão se sobrepondo graciosamente. A vilania precisa, as confusões, os desmandos. 
                                  A cena da montagem do tear é tão fraca quanto este, mas as cenas anterior e posterior são obras primas da criatividade do Máschara. O trono movido por Messiê Flabeuir. O banquinho mínimo de onde o grande vilão berra seu plano. A corneta incontrolável e a sabedoria de Maluc (Raquel Arigony), vão colorindo o espetáculo pericialmente. 
                                          Em meu tempo de menina, brincávamos no jardim, corríamos, fazíamos pequenas molecagens. No fim do dia mamãe aparecia, chamava-nos para jantar, nos repreendia como  rainha do lar que era, e então nos punha na cama com beijos na testa. Esse é o fim poderoso de A roupa nova. A sabedoria da grande mãe traz a pesada cortina da noite.  Tudo era uma brincadeira de crianças, o que fica claro no agradecimento e Raquel Arigony termina mimando nosso pequeno principezinho que esperemos, ainda crescerá e se tornará um grande rei. 
                                          O calabouço, o closet real, os brigadeiros, os fios de ouro, o desfile real, o fim do mundo. Tudo estava a distancia de poucos metros. Nada é melhor do que ir ao teatro, do que deixar-se tocar pela arte. Saí do teatro tocada, emocionada com tanto talento, tanta qualidade e esforço. 
                       

Para encerrar lembro-lhes que os atores de Status IV e III devem falar mais alto, a iluminação embora não tenha nos dado  grandes surpresas, foi tocante e eficaz. Laura Hoover está cada dia levantando mais comentários pela qualidade de sua dedicação. Stalin Ciotti é comprometido e esforçado, querer aprender é a melhor qualidade de uma ator. Os jovens não devem esquecer que dia de Cena às 7, ou de trabalho, não é dia de festa ou passeio. Todos estão de parabéns, mas esse é só um começo. A roupa Nova do Rei estará por muito tempo entre nós!

A roupa Nova do Rei
Direção - Cléber Lorenzoni
Consultoria - Dulce Jorge
Elenco- Cléber Lorenzoni
Renato Casagrande
Raquel Arigony
Gabriel Giacomini
Alessandra Souza

Iluminação: Fabio Novello
Trilha Sonora- Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande
Operação- Stalin Ciotti
Figurinos: Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande 
Camareira- Laura Hoover
Contra-Regragem- Vagner NArdes e Clara Devi



Cléber Lorenzoni, Renato Casagrande, Laura Hoover, Raquel Arigony (***)
Stalin Ciotti, Alessandra Souza, Gabriel Giacomini, Evaldo Goulart, Fabio Novello, Clara Devi, Vagner Vargas, Douglas Maldaner (**)


             
                                         
                                       
        






Uma carreira repleta de sucessos

31-A Roupa Nova do Rei - 2017 Direção Cléber Lorenzoni
30-A Paixão de Cristo - 2017 - Direção Cléber Lorenzoni - adaptação do conto de Hans Cristian Andersem
29-(ESQUETE) Empresa do Futuro -2016 - Direção Coletiva -Texto Ricardo Fenner
28- Complexo de Elecktra - 2016 Direção de Cléber Lorenzoni
27-Zah-Zuuu - 2015- Direção e interpretação Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande
26-Olhai os Lírios do Campo 2015 Direção Cléber Lorenzoni
25-A Serpente - 2013 Direção Cléber Lorenzoni
24-O Santo e a Porca - 2012 Direção Cléber Lorenzoni Texto de Ariano Suassuna
23-Os Saltimbancos - 2012 Direção Cléber Lorenzoni Texto de Chico Buarque
22-Deu a Louca no Ator - 2011 Direção Cléber Lorenzoni Texto de Antonio Fagundes
21-As Balzaquianas - 2011  Direção Cléber Lorenzoni e Angelica Hertel
20-A Maldição do Vale Negro -2009 Direção Cléber Lorenzoni Texto Caio Fernando Abreu
19-Ed Mort - 2008 Direção Cléber Lorenzoni Texto Luis Fernando Verissimo
18-Um Inimigo do Povo 2007 Direção Cléber Lorenzoni Texto Ibsen
17-Romeu e Julieta 2006 Direção Cleber Lorenzoni Texto Shakespeare
16-Lili Inventa o Mundo Direção Cléber Lorenzoni Texto Adaptação da obra infantil de Mario Quintana
15- Esconderijos do Tempo 2006 Direção Cléber Lorenzoni Texto Adaptação da Obra de Mário Quintana
14-O Castelo Encantado 2005 Direção Cléber Lorenzoni Texto Adaptação das obras infantis de Erico Vertissimo
13-O Incidente 2005 Direção Cléber Lorenzoni Texto Adaptação da obra Incidente em Antares
12-Bodas de Sangue 2003 Direção Cléber Lorenzoni Texto Federico Garcia Lorca
11-Macbeth 2002 Direção Cléber Lorenzoni Texto Shakespeare
10-Feriadão 2002 Direção Cléber Lorenzoni Texto HErcules Grecco
9-Tartufo 2001 Direção Cléber Lorenzoni Texto Molière
8-Antígona 2000 Direção Cléber Lorenzoni Texto Sófocl
7-O Conto da Carrocinha 1999 Direção Dulce Jorge Texto: Adaptação dos contos de Andersen
6-Dorotéia 1998 Direção Helquer Paez Texto : NElson Rodrigues
5-Bulunga O Rei Azul 1997 Direção: Dulce Jorge Texto Pedro
4-Cordélia Brasil 1995 Direção Cezar Dors Texto Antonio Bivar
3-O Dia em que Júpiter encontrou Saturno 1994
2-A Bruxinha que era boa 1993
1 -Um dia a Casa Cai 1992 Direção Giane Ries Texto Ivo Bender

Um dos momentos mais divertidos de A Roupa Nova do Rei

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Cena às 7

68)A Roupa Nova do Rei - (estréia) 15/10/2017

67) O Santo e a Porca - 24/09/2017

66) Olhai os Lírios do Campo -20/08/2017

65) O Santo e a Porca-16/12/2015

64) O Santo e a Porca -27/07/2014

63)Feriadão - 19 de Janeiro de 2014

62) A Maldição do Vale Negro - 08 /11/ 2013

61) A Serpente - 13, 14 de Julho de 2013

60) A Serpente - 23 de Junho de 2013

59) Ed Mort -26 de Maio de 2013

58) Deu a Louca no ator - 16 e 17 de março de 2012

57) Lili  Inventa o Mundo - 16 e 17 de Fevereiro de 2012

56) As Balzaquianas - 12 e 13 de Janeiro de 2013

55) O Santo e a Porca - 15 e 16 de dezembro de 2012

54) Tartufo - 10 e 11 de Novembro de 2012


53) Os Saltimbancos - 13 e 14 de Outubro de 2012


52) O santo e a Porca - 08 e 09 de Setembro de 2012

51) O Santo e a Porca - 18 e 19 de Agosto de 2012

50) Esconderijos do Tempo- 21 e 22 de Julho de 2012

49)-Tartufo - 23 e 24 de Junho de 2012


48)Os Saltimbancos- 26 e 27 de Maio de 2012

47)A Maldição do Vale Negro - 21 e 22 de Abril de 2012

46)Deu a Louca no Ator - 18 de Março de 2012

45)As Balzaquianas - 15 de Dezembro de 2012

44)Esconderijos do Tempo - 04 de Dezembro de 2011

43) O Incidente - 06 de Novembro de 2011

42) Feriadão  - 09 de outubro de 2011

41) Ed Mort  - 18 de Setembro de 2011

40) Deu a louca no ator -21 de Agosto de 2011

39) A Maldição do Vale Negro 17 de julho de 2011

38) As Balzaquianas 19 de junho de 2011

37) As Balzaquianas -ESTRÉIA- 15 de maio de 2011

36)Lili Inventa o Mundo- 10 de outubro de 2010

35)Esconderijos do Tempo - 29 de agosto de 2010

34)Ed Mort - 18 de julho de 2010

33)A Maldição do Vale Negro - 13 de junho de 2010

32)Ed Mort - 13 de setembro de 2009

31) Esconderijos do Tempo - 12 de julho de 2009

30)A Maldição do Vale Negro - 14 de junho de 2009

29)A Maldição do Vale Negro - 3 de maio de 2009

28)Ed Mort - 14 de novembro de 2008

27)Bodas de Sangue-outubro 2008

26)Tartufo - 14 de setembro de 2008

25)Ed Mort -10 de agosto de 2008

24)Ed Mort - Estréia - 6 de julho de 2008

23)Esconderijos do Tempo - 8 de junho de 2008

22)O Incidente - 11 de maio de 2008

21)Esconderijos do Tempo - ? de dezembro de 2007

20)Lili e Tartufo - 11 de novembro de 2007

19)Um Inimigo - 14 de outubro de 2007

18)Um Inimigo do povo - ESTRÉIA-9 de setembro de 2007

17)O Incidente - 16 de agosto de 2007

16) Feriadão -15 de Julho de 2007

15) Tartufo - 10 de junho de 2007

14) Esconderijos do Tempo - 20 de maio de 2007

13) Bodas de Sangue - 21 de abril de 2007

12) Romeu e Julieta - 3 de dezembro de 2006

11) Esconderijos do Tempo

10) Esconderijos do Tempo - Maio de 2006

9) Amanajé

8) Feriadão - Fevereiro de 2006

7) Casa de Samba

6) O Castelo Encantado - 8 de Janeiro de 2006

5) Macbeth

4) Impressões

3) Bodas de Sangue

2) Amanajé

1)Tartufo - 17 de outubro de 2005

A Roupa Nova do Rei - Mais um sucesso do Máschara


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Castelo Encantado 785 (tomo 129)

O Lúdico e o Telúrico

                                      Quando o Máschara viaja e leva sua arte para outras paragens, está criando um fluxo, pequeno, quase imperceptível. Está trocando energias, abrindo comportas entre plateias, construindo pontes. Dando vasão a necessidade da arte que é como a água, ela vai encontrando brechas nas rochas, sulcos na terra e vai se esparramando. A arte precisa se espalhar. Claro que seus efeitos serão perceptíveis através da continuidade, da permanência de seus fundamentos entre uma mesma platéia. Por isso mesmo em Cruz Alta o programa Cena Às 7 tenta criar o hábito de se ir ao teatro. Por outro lado, algumas vezes um único contato entre público e teatro, consegue criar um diapasão, consegue despertar um novo olhar. 
                                 O Castelo Encantado pendeu nessa ultima apresentação para o Telúrico. A energia sobre o palco era explosiva. Acredito que há dois canais de contato, um é o do poético, o outro é o da energia. Havia energia, e até ritmo. Mas o poético ficou um tanto de lado. O Máschara é muito capaz e Castelo Encantado vem se reinventando. Mas falta há alguns atores o domínio da microfonia. Não basta largar um microfone nas mãos de alguém, erguer o volume máximo e esperar que os atores brilhem. 
                                         Alessandra Souza e Renato Casagrande, são dois "bons" do Máschara, mas sua energia, sua força, foram seus maiores inimigos durante a apresentação. É preciso ao lado de um microfone que irá propagar sua voz, conter-se, acalmar-se, pensar com a mente no microfone. Ele é seu contato com o público. Grande parte do que foi dito perdeu-se no ar, tornou-se incompreensível. Raquel Arigony perdeu-se em meio à tantos adereços, microfone, pau de macarrão, bengala. Sua comunicação corporal ficou prejudicada. 
                                          Por outro lado, foi uma apresentação de desafios, a entrada do elenco, o tamanho do palco, a adaptação do cenário, a construção do mise en scène, tudo exigiu trabalho em equipe. No entanto alguns pontos precisam ser mencionados. Renato Casagrande ocupa o Status II da companhia, pois na mesna não há ninguém que faça o que ele faz. Organizar o material cênico para viajar, reunir adereços, figurinos, etc... Mas seu maior mérito não pode ser visto como titulo simbólico. É preciso trabalhar com afinco para mantê-lo, do contrário deveria ocupar o Status III. Seu trabalho não é favor, é mostra de capacidade digna de aplauso, por isso mesmo quando era esquecendo apetrechos importantes, deve admitir seu erro e buscar não errar mais. 
                                       Cléber Lorenzoni, embora muito bem em cena, já passou da fase de esquecer pequenos detalhes, então é inadmissível que adentre o palco portando uma aliança nos dedos. Um espetáculo tão cuidado não pode pecar nos detalhes. 
                                       Alessandra Souza é uma atriz com méritos e fraquezas. Mas o que mais me surpreende é essa dificuldade em compreender códigos rápidos, em saber ouvir uma crítica sem dar mil explicações desnecessárias. se quer ser uma grande atriz, precisa de mais humildade. E principalmente precisa buscar ser a melhor. Buscar subir degraus. Ou ficará estagnada como vários atores que conheço que simplesmente estacionam, julgando-se razoáveis e contentando-se com isso. 
                                         A trilha de Gabriel Giacomini, a energia de Evaldo Goulart, a disponibilidade de Stalin Ciotti e Laura Hoover, foram detalhes perceptíveis e louváveis. Mas ainda assim, não foi um bom dia de teatro. 

                        Para lembrar: O trabalho em equipe, a tentativa de solucionar problemas.
                         

Arte é Vida

 A RAINHA

Alessandra Souza (**)
Renato Casagrande (*)   
Raquel Arigony (*)
Cléber Lorenzoni (*)
Evaldo Goulart (**)
Gabriel Giacomini (**)
Laura Hoover (**)
Stalin Ciotti (**)     




quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Grupo Máschara e direção da escolinha Arco Íris


Os Saltimbancos - Escolinha Arco Íris - 784 (tomo 33)

                    Sempre que há teatro, todos os teatros, quaisquer teatros. Lá estou eu, disposta, ativa, interessada. Sou fã do trabalho do Máschara, que luta, luta, mete o pé, tentando impor o teatro em um mundo cada vez mais vazio de arte e cultura (que não são a mesma coisa). O problema é que estas são gotas, gotas pequenas em meio a fogueiras inteiras, queimadas de vazio cultural. A cada dia as pessoas mais se distanciam da arte, fecham museus, tornam-se viciadas em práticas deprimentes. Os modismos que surgem levam as plateias para todos os lados, menos ao teatro e a dança. Em Cruz Alta, o teatro do Máschara tem muitos adeptos, fãs, e isso me enche de orgulho.
                        Vi a trupe reunida na FENATRIGO, dias chuvosos e tristes, vendas, comercio, negócios, onde tentava-se emplacar algumas gotas culturais. Lá estavam os super-heróis do Máschara. Em uma criativa ideia de Cléber Lorenzoni, mas as vezes executada com menos interpretação e mais exibicionismo. Para ser arte é preciso mais da linguagem artística, mais construção e menos clima de "festa anos 80". No sábado surpreendi-me com um visual impecável. O verdadeiro circo místico.
Não há como não elogiar profundamente Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni por suas ideias bombásticas. Claro que Alessandra Souza, e Douglas Maldaner podem e devem aprofundar-se muito mais nessa linguagem, vencer obstáculos. Visual sozinho não preenche espaços, não atrai público. O que atrai é talento/técnica. Já havia me retirado quando soube que um dos atores sofreu um acidente durante a prática de seu oficio. Fiquei preocupadíssima. Sei que acidentes acontecem e  certamente uma equipe tão unida se apoiou nessa hora. Pois como sempre digo, no teatro a vida do outro vale mais que a nossa.
Poucos dias depois (sim, o Máschara é incansável), lá estão eles em cena novamente, dessa vez com Os Saltimbancos. A inspiração de Chico Buarque para o conto dos Irmãos Grimm, Os Músicos de Bremen. Quando chegamos para assistir Os Saltimbancos, algumas coisas já vem em nosso consciente coletivo. Gata leve, Galinha com a cabeça para frente e corpo em pliè, cachorro com a parte de trás das mãos levantadas para cima e jumento pesado e lento. Pois bem, algumas dessas bases não estavam presentes. Escolhas. Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni fazem o que querem com a platéia, isso os torna louváveis. Alessandra Souza estava impagável, divertidíssima. Evaldo Goulart é um ator jovem que precisa de mais maturidade. Quando está no palco, preenche maravilhosamente a cena. Mas o que quer? Qual sua caminhada? Para onde vai? Precisamos ter objetivos. O jumento de Goulart é fraco na cena, por vários momentos os colegas tentam lhe ajudar a conduzir a cena que começa a afundar, mas ele parece não querer essa ajuda. 
As vezes penso que os atores do Máschara deveriam descer de Status, pois se por um lado são mágicos, poderosos, eficientes e talentosos, por outro lado deixam a desejar em situações simples e que deveriam nos surpreender. 
Abrir perguntas ao público é matéria para atores de tarimba, pois é preciso saber conduzir as crianças, encerrar um assunto para começar outro. Renato Casagrande consegue se impor com sua voz e coordena a cena como bem quer. Cléber Lorenzoni usa de outros macetes, e com uma graça que adquiriu em sua caminhada teatral consegue reiniciar, recomeçar ou dar fim a cenas. 
Os Saltimbancos na escolinha Arco Íris, foi uma dessas situações em que o Máschara tenta lançar gotas, as crianças de Cruz Alta estão cada vez mais conquistadas pelo teatro, e isso gerará frutos no futuro. Espero que os pais percebam o quão bem essa presença do teatro faz bem aos jovens. Claro que apresentar um espetáculo em um espaço pequeno sem o aparato cênico acaba por esfarelar um pouco o trabalho, a criação cênica. A peça mais parecia uma contação de historias. Ainda assim, era o teatro fazendo sua parte. 
Quanto a trilha sonora, é preciso treinar melhor os operadores de som, comentários sobre a sonoplastia confusa podem ser sinônimo de incompetência profissional. E uma equipe como a do Máschara não pode se dar ao luxo de ser considerada incompetente. 
Ainda sobre status, atores bons não são superiores a ninguém. São bons e serão inesquecíveis, mas são ainda colegas de trabalho e devem não se encher de egos. Todos precisam de todos. Quem chegou para se apresentar deve ser agradecido a quem chegou muito antes e montou seu cenário. Quem precisa de seu cachê para pagar as contas do mês deve ser agradecido a quem ficou dias negociando um espetáculo. Quem recebeu o aplauso no final do espetáculo deve lembrar que não nasceu sabendo atuar, que ao contrário, precisou de muitos ensinamentos e dicas para chegar onde está. Quem veste o elenco deve lembrar que não ocupa espaço superior, apenas ganhou um voto de confiança para mostrar sua capacidade. Quem aparece uma vez ou outra para participar de algumas peças deve ser agradecido por as portas lhe estarem sempre abertas. Quem aponta defeitos em todos deve recordar-se que todos os temos. Quem tanto critica deve lembrar que não só com critica se ensina. Teatro é ensinamento, o que estou ensinando?


Arte é vida, você faz arte? Tem certeza? Então como é sua vida?

A Rainha


Cléber Lorenzoni (**-***-**)
Alessandra Souza (**-*-***)
Evaldo Goulart (**-**-*)
Douglas Maldaner - (**-**)
Stalin Ciotti (*)
Renato Casagrande (**-***-**)