quarta-feira, 18 de julho de 2018

811-A Maldição do Vale Negro - (Tomo 26) 74ª Cena às 7

Três atores...

              Assisti recentemente ao grande espetáculo do Máschara A Maldição do Vale Negro, grande por que foi de grande ousadia levar em 2010 o texto de Caio Fernando Abreu ao palco. Um espetáculo longo, de certa forma difícil, já que passeia pelo retórico enquanto nos apresenta a postura complexa da atuação melodramática. Algumas pessoas pensam que Cléber Lorenzoni dirigiu esse espetáculo atuando no papel de Rosalinda por que não quis colocar nenhuma atriz no papel, ou por que se achava mesmo melhor como atriz que as próprias atrizes. Nada disso, o jovem diretor foi buscar em O mistério de Irma Vap, dirigido pela falecida Marília Pêra, a inspiração para um espetáculo de quase uma hora e meia, onde três atores trocam de roupa, e interpretam vilões e mocinhos, mártires e algoses. 
              Figurinos perfeitos, criativos, que sublinham corretamente a narrativa. Segundo ato mais intenso de ação, pontuando a curva dramática. A iluminação um tanto precária de nossa Casa de Cultura foi driblada por Fabio Novello, embora um espetáculo desse porte pedisse mais focos(pinos). A trilha é um tanto exagerada, mas cumpre-se e foi razoavelmente operada por Evaldo Goulart. 
             Ricardo Fenner vem encontrando a maturidade em cena. Seus personagens estão mais centrados, mais calmos em cena, sua respiração é mais perceptível e não se perde em meio as réplicas. A cigana Jezebel continua sendo seu trunfo, mas o Conde Maurício merece todo o meu respeito, um personagem que foi sendo aperfeiçoado juntamente com o talento e técnica conquistada pelo ator. 
                    Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande companheiros em cena e fora do palco, possuem uma química perfeita. Renato Casagrande em cada apresentação que tive o prazer de assistir valorizou algum dos personagens, nesse tomo, elenco Rafael como seu melhor intento. Acredito que sua governanta, embora incrível, merecia um cuidado de diva. Afinal é a balança direta contra Rosalinda. 
                    Já o diretor, ah o diretor! Da para ver nos olhos de Lorenzoni sua preocupação e intenção em salvar cada cena, em orquestrar e dirigir o espetáculo. Rosalinda é impecável, como uma bailarina de caixas de musica. 
                   Mas meu principal elogio vai para o fato de que o elenco conseguiu diminuir um pouco aquele ritmo exacerbado e nos dar um texto palatável, compreensível. Ir ao teatro e não compreender o que é dito me irrita profundamente. O texto é sagrado e não quero perder nada que o ator passou dias, meses decorando, preparando, estudando. 
                    A Maldição do vale Negro do Máschara tem oito anos de estrada e logicamente os atores não são mais os mesmos, evoluíram, cresceram e então me pergunto. Será que não tem outro ideal? Será que um espetáculo como esse resiste, ainda que não seja datado, talvez aquelas ideias devessem dar lugar a ideais mais atuais. 
                     O máschara acaba de mudar-se para o "Palacinho do Máschara", um novo ciclo se inicia. É hora de pesquisar, evoluir, o teatro nunca deve ficar estagnado e as pessoas que fazem teatro tem que buscar transcender-se, desafiar-se, chegar à sua capacidade total, para então eleger um novo desafio. Fazer valer a pena serem chamados de atores, de artistas, serem dignos do aplauso e de seus fans. Por enquanto obrigado a todos que fazem o teatro acontecer em Cruz Alta, vocês nos enchem de orgulho. 


Cléber Lorenzoni (***)
Renato Casagrande (***)
Ricardo Fenenr (***)
Alessandra Souza (**)
Laura Hoover (**)
Stalin Ciotti (**)
Fábio Novello (**)
Evaldo Goulart (*)
Kauane Silva (**)
Sandra LAzzari (**)
Elen Faccin (**)
Laura (**)
Clara Devi (**)
Gabriel Giacomini (**)
Douglas Maldaner (**)


 
                               A Rainha

Dia 16 de Agosto todos os caminhos levam à Fortaleza dos Valos


Tiradentes ou Aleijadinho? - Inconfidência Maçônica

Adicionar legenda
Nietzsche afirmava que possuir idéias assemelha-se a possuir peixes e aquários, e para se possuir  peixes é preciso ir à pesca e ter um pouco de sorte. Será que no teatro não estão todos satisfeitos com seus velhos aquários e com medo de sair pescar?  
Bem, na noite de sábado saí pescar, acompanhada de uma prima distante que não aprecia muito o teatro, me dirigi ao auditório do ateneu Annes Dias. 
Surpreendi-me ao ver a platéia no escuro estacionamento da escola. O espetáculo já havia iniciado e uma chuva de serpentinas dava um ar lúdico a batalha entre Franceses e Russos. Esse clima de diversão pareceu aproximar espectador do interprete. Não consegui ouvir muito bem, mas acredito que esse nem era o objetivo. 
A palavra mais forte do teatro para mim é a convenção, quando você a detecta tudo fica mais prático. Aquele clima Artaudiano foi se esparramando pelo auditório e me instigando. É preciso estar aberto para o teatro, recebê-lo como um presente que o artista está oferecendo. Bastante verborrágico, o ator John Vaz passeou por vários acontecimentos que no ver dele seriam necessários para compreendermos as peripécias pelas quais o inconfidente Tiradentes marchou até sua morte. O texto traz o ideário Iluminista que influenciou fortemente a Revolução Francesa a própria independência dos Estados Unidos e por fim a conjuração mineira. 
Tudo muito claro para mim, já que historia sempre foi minha disciplina preferida. No entanto o teatro tem essa capacidade de te catapultar para o acontecimento mencionado como se la estivéssemos vivenciando aqueles fatos. 
A iluminação um tanto precária, mais indicada para espetáculos de arena me incomodou um pouco mas a narrativa e a força do ator me mantiveram atenta. 
Ainda no segundo ato, membros da comunidade foram sendo inseridos, como se estivéssemos assistindo um espetáculo de Boal. Meio confusos, meio perdidos. Minha prima aliás estava mais preocupada se os jovens estariam nervosos ou não, do que propriamente com seus textos e personagens. 
Um arrojo foi ver no elenco dois atores cruzaltenses. Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande. Em cenas realmente marcantes. Engraçado que ainda que em um espetáculo de linguagem muito próprias, as cenas dos dois atores apresentaram-se muito semelhantes ao trabalho do Máschara de onde ambos são oriundos. Talvez Joaquim Silverio pudesse ter sido mais aprofundado, afinal sua importância na historia é de peso semelhante à Judas na paixão de Cristo. Por outro lado a dobradinha Vice Rei e Barbacena foi inesquecível.
A trama desenrola-se um pouco arrastada, mas cumpre-se e a praticidade de John Vaz me agrada muito. Alguém me disse que ele fez novelas ou que é o mil caras do teatro. Não me importa muito, para mim não o que vem antes que faz a pessoa e sim o momento, seu trabalho ali, frente ao público, isso é teatro. 
Mil caras? Precisaria ver esses mil espetáculos para ter um ponto de vista. 
Quanto a Tiradentes, cumpriu-se, seduziu-nos, e o final com todo o panteão de Aleijadinho foi emocionante, e seria ainda mais se os colegas de cenas fossem atores. 
Uma noite de elucidação e pequenos prazeres, onde me deleitei com o eloquente discurso sobre um auditório deteriorado, enquanto todos preocupam-se com hospitais e pouco olham para as doenças da cultura. 

                                                                   *  *  * 
                                  Preciso dar uma classificação de três estrelas para o trabalho.

A Rainha