sábado, 29 de maio de 2010

Diário de Bordo XI - Lili Inventa o Mundo em Lagoa Vermelha

Coisas da Fada Mascarada...
Quando um grupo de artistas chega à uma cidade pequena, rapidamente é iniciado dentro da realidade que o cerca, e artistas são sensíveis, da para captar pelo cheiro, pelo caminhar das pessoas, pelo seu modo de falar, se aquela é uma cidade preparada para a arte, se estão realmente interessados em ver teatro, se são mais ou menos tôlos, mais ou menos ignorantes, da para sentir... A Feira de Livros de Lagoa Vermelha estava começando na quinta pela manhã quando o Grupo Máschara lá chegou, e o que percebemos foi a correrria transloucada para que tudo ficasse a contento, felizmente uma gentil-mulher, nos acolheu em sua clínica estética para que pudessemos nos preparar a contento para as duas seções do espetáculo.
                           As investidas seríam na Lona, o que já é de praxe nas feiras de livros, e os atores dedicaram-se, mas a organização pecou, não havia um lugar determinado para que os atores pudessem se maquiar, se vestir, fazer sua higiene após suas quase quatro horas de viajem, e ao final o máxim que receberam foi "Que não tomassem café". Será? Será que o artista não merece o mínimo de conforto antes de entreter centenas de pessoas? Será que nem mesmo o cara que equaliza o som, ou até mesmo quem monta as tais tendas, ou quem trouxe as cadeiras para que o evento acontecesse, não merecia um minuto para se preparar para continuar...
                             O Teatro aconteceu em sua plenitude, ví em Alessandra Souza a percepção das forças: corpo x fala. Observei também o jogo, a criatividade aguçada de Gabriel Wink em momentos de improviso como quando a matriz de seu microfone auricular caiu no chão. Angélica Ertel e seu domínio de cena perfeito. Mas nesse dia e mais particularmente na segunda encenação eu ví e deliciei-me com o trabalho de Cléber Lorenzoni. Ah mas que bela atuação! Precisa, mágica, sensível. Completa por assim dizer. Em cada nova aparição havia um estrondo no ar, o público estava em sua mão e em seus olhos eu ví a dor mesclada com a alegria de estar em cena, ah! receita infalível para o mistério da interpretação.
                               Tatiana Quadros foi econômica, mas o jogo que se estabelece com o intéprete do senhor poeta é exuberante, vibrante como notas musicáis. 
                                Renato Casagrande não destacou-se muito e sau partitura perde força. A cena mágica da transformação já não tem o mesmo fulgor, e para um dos personagens mais importantes da narrativa isso é devéras prejudicial.  Uma dica, as novas construções teatrais não podem esquivar do cérebro do ator as personagens antigas que alí habitam, Um ator não é um, mas mil em um. 
                              Mas o que realmente jamais esquecerei, será o momento em que as luzes da feira se desligaram... Os atores estavam no meio do espetáculo e parte do público infantil debandou, ora o Sr. Poeta inventou de dizer que eram coisas da Fada Mascarada... No entanto após três minutos de queda de energia, que mais pareceram uma eternidade, tudo voltou ao normal e o espetáculo voltou exatamente de onde havia parado, não ouve diminuição de rítmo ou perda de lógica... Os atores realmente  "pegaram" o público.  Para mim foi uma inspiração após uma monocórdia contação de historia, assistir um espetáculo que já vi mais de 70 vezes ser revisitado com ar de novidade, com vida, com o vigor de algo inédito...