domingo, 7 de junho de 2015

Ponto de Vista

Talento, técnica ou o que mais gostei?


Sempre que saio de um festival de teatro, tento encontrar justiça naquilo que vi, pois foi em busca disso que lá estive.
Durante anos falei para atores e público, que o teatro não é para ser gostado ou não. Isso o tornaria muito pequeno, muito simplório. O teatro é para aplacar, chocar, questionar. Nelson Rodrigues já dizia que as boas ações ficavam bem em um jardim de infância, o teatro é o lugar da gangrena.
Atores, atrizes, diretores, contra-regras, técnicos, saem de suas casas e percorrem kilometros em busca de que? Levando em conta a dificuldade em se fazer teatro, levando em conta o amor pela vida no palco, levando em conta a total prostração por essa entrega, só posso pensar que buscamos reconhecimento, luz, e valorização no que se faz. Durante anos, ví grupos se esmerando em alcançar algo que o conhecimento coletivo de vários festivais ia ditando.
Uma grande mestra que muito admiro, uma verdadeira mulher de teatro, por sua luta, garra, conquistas, por tudo isso cabe lhe esse titulo. Disse uma vez: Quem decide os premiados do festival, não somos nós jurados, mas sim uma coisa muito maior, superior a todos nós. Preciso acreditar que "essa coisa maior", é o saber coletivo, o bom senso de todos. Uma percepção cênica que os jurados e demais presentes notam e que é o que faz o todo aceitar, concordar. Se eu for a um festival apenas para mostrar meu trabalho, e esse festival não tiver o caráter ético e serio, se o juri não pensar que está fazendo um serviço ou um desserviço dependendo daquilo que fala, prega ou julga, qual será minha contribuição para o teatro? Para atores de todo o estado que querem melhorar sua obra? 
Uma vez no palco, o que está sendo levado em conta? Minha compreensão do que fiz? O efeito de minha obra sobre o público? A excelência de meu elenco? O profissionalismo de minha trupe? Ou o simples gosto dos julgadores?
Recordo que sempre que estive nessa função, me cobri de culpas e preocupações pela simples imaginação de não ter agido com total sapiência. Estava recebendo para aquilo, estava durante um pequeno período de tempo, com o poder de ditar o que era o certo e o que era o incerto. Atores jovens levariam aquilo em conta por algum tempo em seus novos trabalhos. Em minhas mãos, trabalhos advindos de várias historias diferentes, trabalhos universitário, trabalhos instintivos, trabalhos de pesquisa, improvisos...Por várias vezes preferi trabalhos que perderam, pois me tocavam fundo, mas não os premiei, pois não preenchiam as qualidades  que os ganhadores precisavam ter. Ao mesmo tempo espetáculos com ideologias ou técnicas que não aprecio, eu os galardoei, pois chegavam ao público, os atores atuavam com a primazia esperada. 
No ultimo festival vi muitas coisas, vi atores com domínio corporal incrível, vi cenas tórridas, difíceis de serem executadas, vi atores falando baixo, vi trilhas sonoras absurdamente escolhidas, vi técnica e vi instinto, vi intuição. Lado a lado companhias antigas e jovens. Grandes textos da dramaturgia mundial e carpintarias pequenas, algumas muito amadoras. Vi grandes interpretes, vi aspirantes. Vi talento, vi técnica, vi acidentes... 
Fazer um festival não é fácil, fazer um grande festival é ainda mais difícil. Fazer um festival em que os que não se fizeram presentes sintam vontade de estar na próxima edição, é ainda mais difícil. Pois lida-se com pessoas, seres humanos contraditórios por natureza. Mas não é impossível,  Muitos de nós os presenciaram, com grandes mestres. para citar dois deles: Luis Paulo Vasconcellos e Sandra Dani... Poderia citar vários, mas esses são para mim o Panteão do teatro gaúcho. Agora alguém dirá: Mas qualquer um pode ser jurado! Pois a arte é democrática e o conhecimento não é de poucos. -Qualquer um, se o que estiver sendo levado em conta for o gosto pessoal, se o que é levado em conta é o crescimento justo do todo, a parcimônia e  a tentativa da alusão, nesse caso precisaremos sempre dos melhores. 
Durante muito tempo ausentei-me de festivais, durante toda a década de 90 e a primeira dos anos 2000, adquiri muito em festivais, muito esse que tento passar para os novos atores que o universo nos oferece. SIM essa é a tarefa dos que vem antes de nós, preparar-nos qual anciãos em volta da roda da fogueira. Preciso agora tomar cuidado, não estamos naqueles áureos anos, precisa-se ver bem o que será ensinado ao jovens atores. 
Certamente muitos que lerão essa opinião me criticarão, afinal nesse mundo de rabos presos, onde nossa pequenez é tão visível, ninguém quer se comprometer com ideologias, ou lados do muro, afinal não sabemos qual mão lavará a nossa amanhã. 
Parabéns a tantos tantos tantos que conheci, que o teatro vingue-se por si só e que de forma ou outra o conhecimento nos venha. Que a consciência de cada um não esteja apenas limpa, mas cheia de incertezas. Afinal são as duvidas que nos levam de volta ao palco.



Teatro é vida

A Rainha