segunda-feira, 14 de abril de 2014

Vem aí- Os Saltimbancos


Esconderijos no sesc de Ijuí- tomo 77

                                  Engraçado como o teatro para quem olha de fora é apenas uma arte de repetição, como ele parece simples e fácil, como ele se esbarra em olhares ignorantes e cai em meio ao vão da analise medíocre. O teatro não é necessário, não é mesmo indispensável para quem não foi treinado, acostumado com ele. Teatros são como museus, necessidades de terceira ou quarta instancia, em uma realidade tão pobre onde se clama por saúde e educação. Não há como não julgá-lo prazer de elite. Claro, respeitando aí os 30% dedicados aos prazeres etílicos da noite, ao futebol, e as baladas... Para esses sempre haverá dinheiro.
                                       Tudo parece contra o teatro, poucos lutam por ele e muitas vezes nem mesmo os atores tem garra para defendê-lo. Em Santa Rosa a secretaria de cultura e de esportes fundir-se-á em uma única pasta. Em Cruz Alta há mais de um ano não há auditório para o teatro. As coisas vão de mau a pior.
                                        Na ultima noite de sexta a Cia. Máschara subiu ao palco do SESC em Ijuí, para dar mais uma vez vida aos personagens de Mario Quintana. E quase que precisamos pedir o "Guarda-chuva do Sr. Gouvarinho emprestado", pois a torrencial chuva que caiu não parecia querer deixar o público chegar. Os Deuses do teatro são complexos e geniosos, ciumentos, exigentes e por algum motivo não cessaram a chuva naquela noite. Mas a casa teve bom público mesmo assim, na certa daqueles que não podiam ficar sem teatro.
                                          O elenco estava muito afinado, em perfeito equilíbrio, a dicotomia ocorrida nas ultimas apresentações não se estabeleceu, dando ao espetáculo um clima elegante, apurado, e técnico sem perder a emoção. Isso logicamente enche de orgulho a direção do espetáculo que prima sempre pela excelência do trabalho. Alessandra Souza confirma o porque é uma atriz de Status II, com belíssima interpretação e preenchimento vivaz nas marcas. Dulce Jorge e Tatiana Quadros triangulam com uma leveza, a primeira nos faz esquecermos que estamos ouvindo um texto escrito por alguém, ela simplesmente vive tão organicamente a personagem que na penúltima cena de Esconderijos do Tempo, quem ainda não chorou, acaba sendo consumido pela melancolia proposta pelo encontro entre o casal protagonista. Já a segunda, ainda que em silêncio, preenche o palco com uma sonoridade interna que assombra. 
                                             Fábio Novello vem amadurecendo em um papel que não criou mas que ganhou por vários méritos, sua maior dificuldade é agora dar vida a partituras e inspirações que outro ator anteriormente propôs e isto não é tarefa fácil. Contudo percebo grande evolução. Não sei se foi o fato de estar "jogando em casa" em frente a seus alunos, que proporcionou uma ótima atuação. Fernanda Peres tem o segundo papel do espetáculo e portanto uma tarefa difícil,  vem se esmerando cada vez mais, acredito no entanto, que precisa prestar mais cuidado na sua respiração, a ofegância que as vezes se notou atrapalha seu brilhantismo. Renato Casagrande preenche com presença e força, e na cena final pronuncia um texto honroso e célebre que talvez resuma aí toda a proposta de Esconderijos do Tempo. 
                                        Quanto ao interprete de Mario Quintana continuam elogios e talvez, apenas para incomodar, devo dizer que a concentração caia as vezes, saía do prumo, e percebi sua preocupação com a chuva e com a técnica do espetáculo. Mas nada que colocasse em risco a magnifica interpretação.
                                              A contra-regragem desse trabalho tem importancia ímpar. Toda a plástica do espetáculo perpassa pela iluminação, montagem de cenário e trilha sonora clássica. Tudo nas mãos de uma afinada equipe, Ricardo Fenner, Evaldo Goullart e o principiante auxilio de Evandro Amorim.
                                          Ijuí foi agraciado com um grande trabalho. E Mario Quintana onde estiver deve estar mais feliz por sua poesia ter sido levada a mais plateias.



                                                         A Rainha

Elenco:
Cléber Lorenzoni (**)
Fernanda Peres (**)
Dulce Jorge (**)
Fabio Novello (***)
Alessandra Souza (***)
Renato Casagrande (**)
Tatiana Quadros (**)

Operador de Som; 
Evaldo Goulart (***)

Operador de Luz 
Ricardo Fenner (***)

Contra-Regragem
Evandro Amorim

Roger Castro como Zé do Cordel


Direção de Cléber Lorenzoni

Direção de Cléber Lorenzoni da composição Cênica "Cordel com a corda toda" para Roger Castro