quarta-feira, 6 de abril de 2011

Diálogo entre atores sobre o Santo e a Porca (Montagem)

Nesse período de montagem de espetáculo surgem muitas idéias, e a mente fica recheada de dúvidas e de planos criativos. Sendo assim, dialogar, discutir, debater torna-se importantíssimo para que a equipe una-se em pról de um mesmo objetivo. Abaixo segue a conversa entre Alessandra Souza, Renato Casagrande, Gabriel Wink, Dieguito Pedroso, Dulce Jorge, Angélica Ertel, Cléber Lorenzoni e Ricardo Fenner...

Cléber Lorenzoni: Depois de dezenove anos de existência o Máschara vai finalmente trabalhar com texto de Ariano Suassuna, como vocês compreendem seu universo? A.E: É um universo árido, tanto pelo calor do sertão, como pelas inter-relações dos personagens. Acho que todos os personagens estão sedentos em busca de sexo/amor/dinheiro e isso faz com que a peça tenha nuances que se dão pela procura de algo. R.C: É um universo pobre, onde as mulheres trabalham na terra para ajudar os maridos a sustentar os filhos, mulheres fortes, sol quente, calor insuportável, há fome, há miséria, solidão, falta de dinheiro, seca, casas de barro. D.J :Essa pobreza está intimamente ligada ao comportamento de Euricão. A leitura que faço vai d eencontro ao receio de se tornar pobre, até mesmo existe uma tentativa e suprir um vazio interior, canalizando carência ao acúmulo de bens, transformando dinheiro em objetivo. A.S: Também fala muito forte da fé que é o que leva as pessoas a acreditar e ainda terem motivação e esperança para viver. G.W: A avareza de um homem é capaz de deixá-lo cego e o fazer esquecer das importantes coisas da vida. 
Cléber Lorenzoni: E como vocês enchergam essa montagem, como deve ser a interpretação? A.E: O cômico do espetáculo deve ser o farsesco e as personagens devem psicofisicamente seguir seus objetivos e persegui-los sem esquecer do sertanejo, do sotaque nordestino, da farsa, do calor nas partes baixas que faz com que o público perceba a busca. D.J: Temos no espetáculo outros objetivos ligados ao amor, estabilidade familiar. E ainda, a questão "o mundo é dos espertos" ou, para conquistar o que se almeja é preciso muito "jogo de cintura", principalmente quando se é pobre. É um universo bastante rico que não deve ser menosprezado a mera comédia.
Cléber Lorenzoni: É o paradoxo do riso/tristeza? R.F: No fundo o que acontece com o principal personagem da peça, também acontece com cada um de nós. Talvez por isso, gostamos as vezes de ficar sozinhos, para irmos nos acostumando com a solidão do fim da vida.
Cléber Lorenzoni: São personagens incríveis, pelo que percebí suas personagens já começam a surgir, isso se dá na mente ou no corpo ou nos dois juntos? R.C: As duas coisas estão interligadas, ou seja, é claro que o personagem nasce na mente, em forma de imagem, de pensamento, ações internas, daí eu tento transmitir tudo isso para o corpo físico. R.F: Na verdade juntamente com a mente nasce o personagem no corpo, pois é necessário ter os dois em harmonia para tornar orgânico o personagem que criamos. A.S: Comecei me preocupando com o corpo mas faltou energia, dominio da personagem, mas agora junto todas as minhas irritações de atriz e assim estou encontrando minha personagem. D.P: Eu primeiro tenho que superar as dificuldades do corpo. Então buscar o emocional do personagem. A.E: Em muitos casos acho que o trabalho do corpo no ensaio estimula a mente e que de pensar no personagem o corpo reage de diferentes formas e isso faz a construção do personagem. D.J: Agora fiquei confusa! O que sei é que inicio de montagem exige muita calma, pois é uma fase de experimentação e de crise, de neuroses, dúvidas, estress.
Cléber Lorenzoni: A maneira como o diretor guia a equipe nessa fase é importantíssima para o sucesso ou fracasso... G.W: Por isso não confio em outra pessoa que não você para dirigir. R.C:O Cléber tem uma ideologia teatral fantástica e brilhante e para falar a verdade a Angélica tem idéias e formas bem parecidas com as do Cléber.  Cléber Lorenzoni: O que vc quer dizer é que também confia nela...? R.C: Quando entrei no grupo ela me ajudou em cena e até hoje ela me ajuda. D.J: Gosto da paciência e da calma da Ange para dirigir. É um bom contraponto com relação ao Cléber que é mais agitado e menos paciêncioso. Falta só se apreciar mesmo da direção. R.F: O espetáculo só acontece quando todo trabalham em pról do mesmo objetivo. A.E: Ser dirigida por mim mesma é um trabalho complexo, pois não tenho o olhar de fora, e muitas coisas que faço parecem ser equivocadas e o distanciamento em relação ao personagem acaba ficando muito mais necessário. D.P: Acho que a Angélica é uma diretora com muita gana, e quer o melhor para que a peça funcione, e que os atores mostrem o seu melhor, principalmente para mim que não sou um ator preparado e não possuo a técnica necessária para entrar em cena. Cléber Lorenzoni: A técnica é algo necessário a todos e todos precisam treiná-la, estarmos sempre prontos, com o corpo e a mente que são nosso aparato de trabalho funcionar perfeitamente. D.J: Eu mesma estava muito acomodada, e esse inicio de montagem fez com que eu me cobrasse mais. Cléber Lorenzoni: E o interessante é que cada um tem um objetivo ainda que todos se reúnam ao mesmo que é o teatro! A.S: Embarcar em uma montagem é sempre uma aventura sem saber o destino, como entrar em uma floresta desconhecida, num labirinto, quando você tenta chegar ao final sem saber as surpresas que o caminho reserva. G.W: Eu quero me sentir bem, me divertir, assim como em A Maldição. A.E: A Cada montagem me sinto escalando uma montanha, e com a leitura, as cenas, a construção da personagem vou cravando bandeiras e subindo até chegar ao topo. A.S: Para se tornar um bom ator ou atriz, vai além do ensaio. Lendo livros, passando e repassando cenas, ficando horas na frente do espelho até sair algo diferente. Cléber Lorenzoni: Eu percebo que cada um tem um jeito de ver as coisas, e portanto um estilo uma ideologia. E esse é o caminho para o verdadeiro oficio, como pessoas que se colocam com idéias e podem ser portanto chamados de Atores-Pensante-Atores...