terça-feira, 29 de maio de 2012

Os Saltimbancos II


          A maior qualidade do Grupo Máschara tem que ser sim a coragem...
Poucos grupos do interior do estado ousam tanto quantoo grupo de Cruz Alta. Nesses vinte anos o Máschara percorreu as mais variadas linguagens sempre querendo propor algo de diferente ao público. Em sua ultima incursão, trouxeram “Os Saltimbancos”. Cantando e dançando.
O público desse domingo fartou-se no belíssimo espetáculo apresentado. Trabalho corporal de primeira, elenco coeso, som de primeiríssima qualidade e um encantador momento artístico que ficará na certa memorizado para sempre pelas crianças que ocorreram ao nosso “teatro” Prudêncio Rocha.  A iluminação assinada por Cléber Lorenzoni e operada por Ricardo Fenner (**)  teve alguns resvalos, mas nada que colocasse em risco o visual de primeiríssima qualidade.  Algumas cenas apresentavam climas que deviam ser repetidos sempre que a mesma convenção se estabelecesse. Afinal um espetáculo é uma sequencia de signos, que estão presentes não só no texto, mas no visual (luz-cenário-figurino), e na trilha sonora, ou ainda nos sons do espetáculo. Personagens podem sim ter sombras cobrindo-lhes o rosto, mas quando isso for proposto pela direção do espetáculo. Cléber Lorenzoni nos dá um Saltimbancos totalmente diferente de todas as montagens que vi. A direção de elenco de Dulce Jorge é muitíssimo pertinente, embora alguns atores que se deixam tocar pela prepotência, acabam não aproveitando tudo o que a delicada e sutil direção da mesma propõe. Talvez por isso as vezes alguns atores se sobreponham a outros. A trilha sonora é de Bardotti e Buarque, mas carrega também pequenas alterações propostas por Gabriela Varone (**)e pelo elenco; Tudo sai a contento, mas as vezes a mão que toca a mesa de som precisa de mais leveza, sutileza, delicadeza... Alma.
Os desenhos das cenas, a construção das cenas, tudo é muito bem pensado, calculado. E Saltimbancos deslumbra quem assiste. Méritos do texto original e das mais de 40 novas réplicas adicionadas pelo elenco. Gabriel Wink(**) na pele de jumento, guia muito bem o elenco. E carrega consigo um aprendizado muito bom de contato com a plateia que vem crescendo desde Lili Inventa o Mundo (2006). Alessandra Souza (**) esteve inteira nesse espetáculo, não é ainda uma grande atriz, mas apresenta qualidades ímpares que a direção pode usar a favor. Renato Casagrande(**)  ao lado de Cléber Lorenzoni é quem mais tem noção do ritmo e consegue auxiliar o elenco na curva que deixou a desejar nessa apresentação. O último citado, fazendo o papel da gata, me deixou muito apreensiva, pois durante todo o espetáculo torci para que criança alguma percebesse tratar-se de um homem seu interprete. Claro que para os já admiradores de várias outras edições do Cena às 7, Cléber Lorenzoni(***) torna-se inconfundível em cena. O que também pode muito bem ser o grande diferencial do espetáculo. As maquiagens são irretocáveis. Verdadeiras. Bonitas! Da vontade de voltar a ser criança para curtir com mais prazer todas as belezas que o espetáculo propõe.
A rica cena em que os animaizinhos cantam sobre a carroça poderia ser mais demorada, para que o encantamento da chuva de papéis picados fosse mais aproveitada. Mas isso são fillinsde cada um.
Saltimbancos precisa agora é ser muito apresentado, entrar em longas turnês, para que o espetáculo cresça ainda mais, para que os atores apoderem-se daquilo que ainda é muito da direção.  Da concepção do espetáculo. Mas preciso encerrar dizendo que somente uma mente com ainda muito de percepção infantil e delicadeza humana criaria espetáculos infantis tão mágicos e sublimes como os que o Máschara cria. Pena, a Cia. demorar tanto tempo para apresentar novas peças infantis.
Também preciso parabenizar Luis Fernando Lara(**). Um membro do Máschara que já está presente há anos, e em quem os atuais integrantes deveriam sim espelhar-se mais, teatro é feito de amor e dedicação, e é preciso ter um senso de obrigação quase que inexplicável, uma devoção para algo intocável. Impalpável. Poucos possuem isso e são certamente os que se tornarão inesquecíveis!


                                                            A Rainha


domingo, 27 de maio de 2012

48º Cena às 7 - Os Saltimbancos


...Mas é o que nós somos!!!

                 Espectador, lembre-se que em espetáculos de bulevar devemos exigir nível técnico excepcional, pois só assim o espetáculo terá justificado sua existência.

                 A obra infantil “Os Músicos de Bremem”, foi escrita pelos Irmãos Grimm, no leste Europeu há mais de duzentos anos e revisitados por Bardotti e Buarque na década de setenta. Na primeira, um cão, um galo, um jumento e um gato ( o mundo era machista demais para uma gata e uma galinha ), uniam-se para sobreviver na floresta e partiam para Bremem, uma cidade que prometia ser para eles,  algum tipo de paraíso. O panorama social quando “Os Saltimbancos” foi escrita não era dos melhores, “Os ômi”(DOPS) sumia com as pessoas, os artistas não podiam “cantar” sua paixão pelo país. As classes mais baixas da sociedade precisavam trabalhar, e o lazer pouco era permitido.  Os revoltados que se opunham a ditadura eram tratados como bichos e chamados de “pau de arara”. Enfim, a ideia dos quatro animaizinhos que unem suas forças é um clássico, senão do teatro infantil, então da literatura universal.
               Bremem, “a cidade prometida”, para nossos atores, pode muito bem ser a ânsia do Máschara em chegar à algum lugar maior nesses vinte anos de luta pelo ideal artístico. E não apenas quatro seres unem-se nessa empreitada, mas dezenas de “esforçados animaizinhos”. Alguns “barões” acham mesmo que para ter sucesso é preciso encontrar um lugar maior, fazer seu teatro em grandes cidades como a utópica Bremem. Algumas gatas até já partiram e almejam tornarem-se grandes “Super-Stars”. E torcemos por isso. No entanto, as vezes as coisas que procuramos podem estar mais perto do que imaginamos! Aqui há uma casa da cultura cheia de público interessado (não tão cheia ontem, é verdade), mas é que “há muito trabalho ”- diz o jumento. E cada um tem uma função, que é preciso ser bem feita. Há os que precisam cuidar de tudo, preparar as coisas para os outros. Há os que precisam propagar, divulgar, vender a ideia. Há os líderes, que devem manter seus ideias e guiar os có-có-cómpanheiros e há é claro as estrelas. As super-stars. Mas o trabalho é complicado e difícil. É preciso estar sempre atento, tomar cuidado com os barões que querem explorar, tirar proveito dos animaizinhos e em troca, nem uma maçãzinha.
                    Enfim, um espetáculo cheio de lições. Para o público e para o Máschara. Só não concordo com a frase que diz “e afinal não éramos tão bons  cantores assim”. Ir embora nem sempre é sinônimo de ser bom. As vezes é sinônimo de ser fraco! As vezes!!!
                 E por isso o teatro é maravilhoso, por que cada pessoa do público, cada criança, fez a sua leitura, a sua interpretação.  E eu percebi alguns aquéns do espetáculo. Provenientes é lógico da falta de união que a peça propõe. Falta de união no elenco e na parte técnica. É preciso afinar as vozes, alongar o corpo, repassar o texto, ser sensível a arte, enfim arregaçar as mangas... pois chega um dia que o bicho chia!!!

Tenho que parabenizar ainda Gabriel Wink pelo maravilhoso contato que criou com o público, e Renato Casagrande por seu belíssimo trabalho de composição.

 Renato Casagrande e Luis Fernando Lara (***)
Cléber Lorenzoni  e Dulce Jorge (**)
Alessandra Souza, Gabriel Wink, Ricardo Fenner, Gabriela varone(*)



                                                                      A Rainha

segunda-feira, 21 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Castelo Encantado


Analisando O Castelo Encantado

                    ...E o Máschara mais uma vez aventurou-se pelo universo infantil de Erico Verissimo.  O inesquecível Elefante Basílio, e Os três porquinhos pobres, são alguns dos personagens que o espetáculo infantil O Castelo Encantado carrega em sua narrativa.  A peça foi escrita por Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, adaptando para o palco cinco livrinhos infantis, ao final de tudo o que se tem é uma miscelânea organizada que consegue reunir tudo de forma adequada e interessante. Um dos maiores méritos em O Castelo, é que ali as coisas não são mastigadas, podem até parecer bobinhas a princípio, infantis demais, mas elas dão vazão a criatividade das crianças. O espetáculo não preocupa-se em dar muito sentido as coisas, definir demais, ele quer que as crianças viagem por mundos que elas vão compor em suas mentes infantis a partir de pequenas ideias, contos curtos que apresentam em sequência.  Ao final de tudo, O Castelo Encantado fala em fé, não a fé religiosa, mas a fé humana, do homem em si mesmo, de sua capacidade, não importa sua idade, em acreditar! Rosa Maria vai acreditando e tudo vai acontecendo como em um passe de mágica. Durante o espetáculo é impossível não pensar em outra obra do grupo, Lili Inventa o Mundo, ou ainda em O Mágico de Óz.
                     O elenco é de cinco atores, Cléber lorenzoni, Gabriel Wink, Alessandra Souza, Renato Casagrande e a atriz convidada, Tatiana Quadros.  E embora o espetáculo tenha demasiados méritos, não parece ter funcionado muito bem em sua primeira incursão ao palco nesta terça feira. Tudo começou acelerado, desigual, descompassado. O cenário simples de Lusi Fernando lara,  já propunha a ideia rápida da construção e desconstrução de um grupo de contadores de historias. Mas as músicas, embora de versos simples, estavam mal interpretadas. Não basta ser afinado, ou cantar com volume, é preciso interpretar quando se é ator.  Os volumes eram desiguais, o elenco masculino tinha boa potência, Tatiana Quadros falou baixo e Alessandra Souza praticamente berrava.  A sonoridade das falas e das frases era constantemente atropelada pela réplica do colega. Havia no palco uma balburdia, uma insegurança, ao ponto de certas frases serem ditas incontinuadamente. Isto é alguém começava a dar um texto e não seguia até o fim. Havia cortes, deformidades, situações que essa crítica que conhece o espetáculo percebeu. O público logicamente nada percebeu, mas não reagiu como poderia ter reagido caso a situação fosse contrária.
                  Eu conheço o Máschara e o admiro pelo seu trabalho perfeito, só posso pensar que isso é reflexo de uma semana de correria para estrear Saltimbancos, a falta de ensaios e a ausência da atriz principal que, aliás, foi substituída por Tatiana Quadros. Esta, embora seja uma atriz para papéis mais ousados, grandes coadjuvantes, cumpriu bem sua função e o fez com profissionalismo a sua altura.  Mas tenho certeza que aquele não é um papel para sua alçada. Prefiro vê-la como Erotildes em O Incidente(2005), ou a esperta Dorina de Tartufo(2001). Na segunda incursão de O Castelo, Tatiana conseguiu dar clima a sua personagem,  falou mais alto, (a balburdia diminuiu) e ainda conseguiu jogar, e me pareceu realmente aproximar-se do que a protagonista buscava.
                Cléber Lorenzoni não deu grandes voos, parecia mais preocupado em guiar a trupe. Sua voz foi logicamente muito bem ouvida, mas havia uma rouquidão, proveniente suponho de três espetáculos seguidos ao ar livre. A única personagem que mantem o frescor de sua original concepção é o porquinho Linguicinha. Na segunda intervenção, assim como Gabriel Wink e Tatiana Quadros, estava largamente melhor. 
                          As personagens do espetáculo baseiam-se na imagem dos pequenos adereços que carregam. Nas máscaras que trazem em cada nova cena. Alguns são personagens estruturados, outros apenas tipos. Os três porquinhos, o elefante Basílio, Rafael, Fernando, O ursinho com musica na barriga e logicamente Rosa Maria, são personagens com uma historia, enquanto o restante são tipos. As vezes alguns atores perdem a noção do foco da cena e querem super valorizar tipos, pondo em risco o âmago das cenas. Renato Casagrande traz agilidade, frescor as cenas, mas precisa tomar cuidado para não tornar “gana, força” em “rispidez, agressividade”. As  vezes ataca suas frases, confundindo as emoções da personagem sem nos deixar compreender realmente as inter-relações pelas outras personagens.
                            O Anãozinho e o dono do “Circo do Castelo Encantado”,  precisam de jogo, um jogo que infelizmente a atriz Alessandra Souza e o ator Gabriel Wink, parecem trabalhar muito pouco quando contracenam juntos. Gabriel Wink não apareceu por inteiro no primeiro espetáculo da tarde, o que felizmente melhorou no segundo. Eis um ator que tem muito talento, mas que aos poucos parece relaxar com sua técnica. A arte é um dom, o talento é um presente que alguns pouco recebem, mas se não trabalha-lo pode acabar por burilar sua profissão. Alessandra Souza estava muito tensa, acelerada, preencheu bem as necessidades da peça, mas tem muito mais talento confundido com preocupações e autoanalises desnecessários quando no palco.
                        A trilha sonora de Gabriela Varone  pareceu prejudicar algumas cenas. É preciso alma querida, não é algo prático, é arte! Arte não são botões, são inspirações! Enfim, O Castelo Encantado, é um belíssimo e divertido espetáculo, pena que alguns membros do Máschara pareçam não dar-lhe o valor merecido. As crianças amaram, opinaram, e essa é a prova de que aceitaram, gostaram e queriam algo bom, algo bom que foi mostrado de forma mais eficaz para a turma das 15 horas.

Gabriel Wink (*)(**)
Alessandra Souza(*)(**)
Tatiana Quadros(***)(**)
Cléber Lorenzoni(*)(**)
Renato Casagrande(**)(*)
Gabriela Varone(*)(*)
Luis Fernando Lara(***)(**)

                                                                    A Rainha 
                                               Bento Gonçalves, 15 de maio de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Análise de A Maldição do Vale Negro



                              A Maldição do Vale Negro subiu ao palco atrasada, não sei se por culpa dos atores ou por desejo da organização da feira. Os atores começaram bem. Gabriel Wink expontâneo e criativo de inicio, Ricardo Fenner um tanto formal e Cléber Lorenzoni com a "gana" já conhecida, o que não adiantou já que havia um clima de afobamento e desorganização que perpassava por todo o espaço. A sonoridade estava agressiva, as mãos do resaponsável pelas trilhas atacavam os botões. Ser um bom sonoplasta, tecnico de som, é uma arte!
A luz era obtusa, amarelada, e não se decidiu durante os cinquenta e tantos minutos de espetáculo. Isto é, havia tentativas de organizar, de criar algo, climas com as cores e intensidades, mas isso só piorava.
As primeiras cenas demoraram a cair no gosto. Talvez o cansaço dos atores tenha colaborado para uma desorganização cênica.
                   Os diálogos estavam acelerados, o que condizia com a situação. (noite fria, espetáculo praticamente ao ar livre). A movimentação da platéia era estressante. O público as vezes não percebe que ao movimentar-se para ir embora ( o que é direito seu), atrapalha queme stá interessado em assistir ao espetáculo.
                             Passadas as primeiras cenas o clima estabeleceu-se de forma mais apropriada. O cenário foi adaptado, eis um agradável mérito do Máschara. Algumas Cias. ao viajarem pelo país, ligam antes e pedem aos organizadores que arrumem sofás, camas, tapetes, enfim, infinidade de materiais para compor os seus cenários. Sem a mínima preocupação se aquilo terá tratamento homogêneo com seu espetáculo, um cenário não é algo que possa ser jogado no palco, é preciso um tratamento adequado para adereços e composições. O Máschara sempre carrega suas coisas, mas se precisa de alguma forma fazer uso de materiais que já estarão no ambiente, o faz de forma tão qualificada, que é impossível detectar o que antes já não fazia parte de seu material cênico. O sofá vermelho adequou-se perfeitamente, e apesar do tamanho, os atores  e em um estalar dedos o fizeram ser "o sofá".  O palco era pequeno, desajeitado para um espetáculo de grande porte como é o caso de A Maldição, e algumas cenas ficaram prejudicadas pela falta de iluminação, tendo que ser adequadas rapidamente.  
                               O público demorou mas embarcou na piração desse melodrama e o espetáculo passou sua mensagem, que aliás em dias estabanados confunde-se um pouco. O Máschara e já o disse em várias ocasiões, tem que aprender a atuar com microfones. A voz de Ricardo Fenner (**) ficava estridente, e facilmente tornava-se incompreendível. Gabriel Wink (**) improvisou de forma interessante, mas alguns excessos do Marquês me entristeceram, não é necessário ser tão sexual, pesar tanto nas insinuações para ser engraçado. O Máschara na verdade nunca precisou disso e sempre me orgulhei da equipe por essa opção. É uma escolha do ator eu sei, mas Gabriel Wink é um ator tão incrível, com tanto humor a empregar em seus personagens, não precisa de subterfúgios. Cléber Lorenzoni (**)  parecia desesperado em salvar o espetáculo, eu que o conheço percebi sua aflição. Esse ator se cobra de mais, se exige em excesso e aproveita de menos. Sua dicção é sempre perfeita, mas fiquei chateada com a forma que resumiu as cenas da louca. Por outro lado tive conhecimento de que a organizadora da feira pediu-lhes que acelerassem o espetáculo. Um espetáculo é uma obra de arte redonda, completa. Se hoje algo é tirado do espetáculo e ainda assim o público compreenderá a cena então aquele algo era uma barriga... Deverá ser o quanto antes suprimido da cena. 
                              Não sei direito opinar sobre esse espetáculo em uma feira de livros, talvez não seja a escolha mais certa. Não compreendo os objetivos com os organizadores em certas feiras. O único interesse é arrancar risadas, ou questionar, ou levantar bandeiras, ou divertir, ou educar... A Maldição do Vale Negro  é uma comédia mais que bem feita. Mas em determinadas situações não parece a escolha mais acertada para uma feira de livros. A não ser que com ela venha a análise do texto, de período histórico de quem foi Caio Fernando Abreu. O teatro é uma arte complexa, pode-se tudo sempre, tudo é permitido, mas onde isso chega, para onde estamos caminhando? O que será o futuro do teatro, da arte e de nosso povo? 
                                   A contra-regragem de Renato Casagrande e Alessandra Souza merece o céu, pois faz milagres em qualquer palco que a Cia esteja, e nada seriam os três atores sem o apoio dos dois artistas se ambos não estivessem muito afinados. A trilha sonora de Gabriela Varone infelizmente merece o Xeól, foi de minima competência e não me refiro apenas a erros e acertos, mas à insensibilidades e falta de técnica na função.  
                                                                              A Maldição do Vale Negro é um dos melhores espetáculos do Máschara e deveria ser ainda muito assistida, quer por Caio Fernando Abreu, quer pelos três atores em cena, quer pela direção que esmerou-se criando essa linda performance em melodrama. Mas para isso atores precisam de ensaios, ensaios, ensaios, essa é a arte do teatro.

                                                                                           A Rainha

                                                                Bento Gonçalves 14 de Maio de 2012.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Analise de Os Saltimbancos

Animais cantando, atores dançando, personagens enchendo de magia o palco, e que lindos costumes. Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni acertaram novamente. É de longe a mais linda montagem de Os Saltimbancos que já tive o prazer de assistir. Não digo a melhor interpretada, não entro nesse mérito, mas sem dúvida não sei de outra montagem desse texto que tenha tão delicadas e perfeitas composições para esses já conhecidos quatro personagens de Chico Buarque. O texto do musical é simbólico: O Burro representa o inteligentista: a galinha a classe operária; o cachorro, os militares e a gata os artistas. Os barões, inimigos dos animais, são a personificação da elite, ou "os detentores do meio de produção". Mas a peça, embora tenha sido composta para determinada situação social do país, não pode ficar restrita a tal leitura, uma obra artística é imortal pela sua reinvenção em todas as épocas e quaisquer situações.
No elenco, Renato Casagrande de quem estou virando fã assumida, Cléber Lorenzoni me surpreendendo novamente, esse ator simplesmente ousa e faz qualquer coisa! Gabriel Wink com um trabalho delicado, e a Alessandra Souza, me surpreendendo positivamente. 
O figurino de Dulce Jorge e a maquiagem de Cléber Lorenzoni são destaques a parte de uma das melhores concepções em espetáculos infantis do grupo. O cenário também assinado por Cléber Lorenzoni precisa ainda de certo acabamento, mas simplifica a cena de forma genial, criando ilusões necessárias e colaborando para a criação de planos e cenas. Aprecio a tangencialidade que percorre o CD original de Bardotti, e penso que ainda muita coisa vai se criar. 
A trilha é a já conhecida por todo ator que se preste, e sinto não ouvir apenas a voz do elenco, mas acredito que com o tempo a direção aos poucos irá suprimir a trilha em playback. 
Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge adaptaram a historia em uma sequencia na qual os animais parecem estar contando algo já ocorrido, e eles mesmos interpretam seus barões, creio que aí falte uma melhor solidificação no roteiro. A peça tem duração agradável, mas merece uma curva mais acentuada. Renato Casagrande (***)  tem um border-collie muito bem composto. Seu personagem é o mais redondo nessa estréia e também a melhor investida do ator em sua breve carreira. O trabalho corporal de Casagrande é louvável, tem trabalho continuo e seu corpo dançante prende a atenção do público durante toda a encenação. O jogo de cena a personagem da gata é o que mais anima a platéia e nos faz crer na verdade cênica das personagens. 
Alessandra Souza está muito bem, precisa ainda nos dar mais da personagem, há muito para se fazer em uma galinácia, uma ave, e tenho certeza que a atriz se dedicará cada vez mais, mas aconselho e cabe a atriz, logicamente, acatar ou não minha sugestão, "cócócomo vão", seria mais interessante do que "côcôcomo vão"! (**) Alessandra está carregando um dos mais bonitos e criativos figurinos do espetáculo, pode tirar mas proveito disso. Há uma infinidade de possibilidades para uma jovem atriz em meio a Saltimbancos. 
Gabriel Wink ainda não está totalmente entregue a personagem como em Lili inventa o Mundo, ou mesmo em Feriadão com seu Filipinho. O Jumento é um personagem maduro, inteligente, que precisa de mais peso, e será fácil para esse ator transmutar a presença que tem no peso que necessita. (**) Outra coisa mencionavel é a facilidade com que o mesmo pegou a platéia, me pergunto se Gabriel Wink tem noção da capacidade que tem de elouquencia junto as crianças. Ou se tornará um desses atores que não aproveita todo o talento que tem. Sua capacidade de  improviso rápido visto em tantos outros espetáculos e mesmo nessa estréia, aind apode render e muito.
Quanto à Cléber Lorenzoni, (***) esse tem um tino muito bom para sua carreira, escolhendo muito perspicazmente as personagens que interpretará. Sua gata é simplesmente inigualável. E muito inteligente se faz sua inspiração no conhecido musical Cats. O jogo entre Gata e Cachorro é bem construído e ninguém percebe que um ator faz a personagem que é feminina. Não suporto atores que  embora interpretem papéis femininos, o façam pelo simples prazer de usar um "vestido", teatro é mais que desculpa para travestir-se. Ou também teatro é desculpa para o qualquer coisa. Mas Cléber Lorenzoni o faz com o respeito e a distinção que o público e os Deuses do teatro merecem. O elenco enfim é de bailarinos! Falta afinar um pouco a vóz e ouvir com calma a sonoplastia de Gabriela Varone (***) e não esquecer nunca desse jogo poderoso que os quatro possuem. Os Saltimbancos já é um dos melhores espetáculos do Máschara.



                                                 A Rainha.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Entrevista com Cléber Lorenzoni, feita por esta crítica de teatro...




Então vocês acabam de estrear Os Saltimbancos de Chico Buarque. Como foi o processo? Como se sentiram, e quais as expectativas para o futuro?

As expectativas são as melhores... Apresentar muito... Fechar o ciclo! As musicas são lindas, são de Chico Buarque e Sergio Bardotti e nos emociona muito fazê-lo, afinal há muitos anos tínhamos essa talante. Fomos estrear agora em Bento Gonçalves, para um público muito legal, em plena 27ª Feira de Livros. O processo foi maravilhoso e exaustivo, bem ao estilo Máschara de fazer teatro. Muitos ensaios, pesquisa corporal, construção há várias mãos. Aliás, esse espetáculo que estreou aqui em Bento Gonçalves, começou a ser construído, concebido, em 2003, com outra formação de elenco. E todos eles colaboraram de alguma forma, afinal como tu sabes, essas criações ficam todas codificadas em nossas mentes, memorizadas por muito tempo. Na época Lauanda Varone faria a Gata, que agora é interpretada por mim, Rafael Aranha faria a galinha, e Alexandre Dill faria o cão e eu o Jumento. Mais tarde em 2009, Roberta Correa e Angélica Ertel também abraçaram a idéia, mas não vingou. Sei lá, são os deuses do teatro que decidem essas coisas... Talvez não fosse o momento, mas claro, ficou-nos muita coisa dessas tentativas e que agora aparecem na cena.

E quem são os envolvidos agora? Como tu escolheste o elenco?
Para grupos do interior não há muito o que escolher, afinal tu vais trabalhando com quem está ali afim. No elenco somos eu, Gabriel Wink que é um ator muito criativo, muito intuitivo e que faz o Jumento. Alessandra Souza, uma atriz que está aos poucos se revelando um grande intérprete e que faz a Galinha. Há também Renato Casagrande que é um jovem muito dedicado e desafiador no papel do cão. Na direção somos eu Dulce Jorge. Na contra-regragem e responsável pela execução da sonoplastia tenho Gabriela Varone, que é natural de Julio de Castilhos e que vem se adaptando muito bem ao grupo e é claro contamos com o apoio de vários outros colegas que nos ajudam a por tudo em cena. Mas queríamos um elenco pequeno, fácil de reunir, de trabalhar. Por isso apenas quatro atores. Renato Casagrande tinha que ser o cachorrinho, seu crescimento é visível, vai ser com certeza um grande ator. Gabriel Wink era nossa melhor opção para o Jumento, afinal tem quase seis anos de palco, um bom trabalho corporal. Alessandra Souza também tem sido uma companheira de lutas e provou estar a altura do papel.

Tu sempre dirigiste os espetáculos do Máschara, e também fostes o primeiro papel, agora divides a direção com Dulce Jorge e entregas o papel principal a Gabriel Wink, por que, estás começando a cansar?

Na verdade em As Balzaquianas(2011) eu e Angélica Ertel dirigimos juntos, e em A Maldição do Vale Negro(2009) Dulce Jorge dirigiu ao meu lado. É uma questão de idéia, de inspiração, da situação atual. Acho que também há o interesse em dividir algo. Algo que se quer muito. E a Dulce Jorge é minha irmã de alma, de gostos teatrais. São anos cirando, compondo, idealizando juntos. Então na verdade tudo o que dirijo tem a assinatura dela também. Quanto ao papel principal, durante anos tive que ser a cara dos espetáculos, mas também por uma questão de disponibilidade. Eu vivo inteiramente para o teatro, para o Máschara. Posso dedicar 24 horas por dia para a cena. Então isso me da uma confiança em mim mesmo.Mas claro que depois de tempos trabalhando com Gabriel Wink, e já que eu queria fazer o papel da gata, decidimos que ele deveria assumir o primeiro papel. Mas não vou mentir que não tive milhões de receios. Sou libriano, indeciso sempre.
E como é dirigir um grupo de jovens artistas?
Não é fácil e não é de todo difícil. Diretor tem que ser meio psicólogo, meio conselheiro. Tem que ser muito político. Gabriel Wink é um ator de muita personalidade. Ele sabe o que quer fazer no palco. Renato Casagrande é o tipo de ator que te desperta a vontade de desafiá-lo. Alessandra Souza tem algumas dificuldades, e aos poucos vem revelando muita independência. Por tanto tu não podes chegar mandando, tu precisas absorver muito dos atores. Afinal eles tem muito a dar.
Tu me surpreendes, até pouco tempo atrás pensava que tu preferias trabalhar com atores que omitissem seu ponto de vista e apenas cumprissem sua vontade cênica, como Charles Chaplin...
Sim, sim, mas acho que isso tem haver com amadurecimento. Agora é mais vivaz, mais prazeroso saber o que os atores tem para ofertar à cena. Por exemplo, com Renato Casagrande fazendo o cachorro e eu a gata, é uma festa, criamos muito juntos. Enfim dirigir é muito complexo.

E por que Saltimbancos?
Saltimbancos é um clássico do teatro. Foi escrito em plena ditadura e seu texto está repleto de críticas a política e ao regime da época. Mas não é texto morto, embora pareça muito datado. Quase todo mundo já montou ou vai montar e meu preconceito para com esse texto era enorme e paradoxal. Mas ele me toca em dois aspectos. Ele fala de união e de diversidade. Não gosto de falar em mensagem do espetáculo, penso que isso é mastigar o texto, a idéia, no entanto é indiscutível a força com que Chico representou a premissa de que a união faz a força. Em O Conto da Carrocinha (1999) havíamos discutido a fábula de O patinho feio, não me convencia a idéia de que O “patinho-cisne” precisasse viver com seus iguais para viver feliz. E por isso ele não quis ficar nem com os Cisnes nem com os “Patos”. Quis viver com alguém que simplesmente era outro ser. A diversidade está aí, presente nos chocando, nos questionando e é hora sim de falar disso. Tenho a pretensão de mudar o mundo, não no quesito para melhor ou para pior, quero virá-lo de ponta cabeça ao menos. Em uma cena maravilhosa de A Dama de Ferro com Meryl Streep, a atriz, intepretando Margareth Teacher, comenta que as pessoas sentem demais e pensam de menos. Talvez por isso haja cada vez mais depressivos e burros no mundo.
E desse ano eleitoral, o que espera para o teatro para as artes?
Que se os políticos não forem ajudar que ao menos não atrapalhem. Eles passam a arte fica!

                                          Bento Gonçalves 14 de Maio de 2012

                                                 A Rainha e Cléber Lorenzoni

sábado, 12 de maio de 2012

domingo, 6 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012