sábado, 28 de setembro de 2019

Recebendo a visita de Raquel Arigony


Elenco do Máscara, equipe Sesc, equipe da secretaría de saúde


Selfie com o público de Estrela Velha


Turma de iniciação


Infância Roubada -equipe de peso


867- Infância Roubada - 04

O jeito Máschara de se fazer as coisas...

                         Hoje vou pedir auxilio aos diretores do Máschara para escrevermos essa critica há oito mãos. Então não assino sozinha o que abaixo escrevo. Até por que desconheço alguns dos entraves e as peculiaridades do grupo.
                O teatro é o mesmo em qualquer lugar, mudam as pessoas, muda-se o teor, a intensidade, mudam-se os objetivos secundários, mas o teatro continua o mesmo. Em um bairro qualquer em Maceió, em que haja teatro, fala-se em Stanislavski. Um grupo de teatro de rua em Goiás, também estudará Brecht; a UFSM certamente dará espaço para falar-se em Eugênio Barba. O teatro é um só. Dependerá apenas do que se busca, da quantidade de patrocinadores, da garra de atores que será distinta de acordo com suas culturas, o grau de instrução ou a ótica com a qual se quer trabalhar. 
                       Dito isso, certamente o trabalho do Máschara é parecidíssimo com o "status quo" do teatro de qualquer lugar. Ou seja: com as técnicas adquiridas, as práticas de palco, o enfrentamento do público que você conhece ali, você estará apto a ser contratado por qualquer companhia. Poderá fazer teste em qualquer lugar.
                            Mas em 2000 começou a ser construída mutuamente uma cartilha, um formato de se fazer as coisas nessa companhia. Com dedicação, entrega, busca pela perfeição, respeito ao público. Somou-se aí talentos, estudo, sacrifícios. Tudo em prol do teatrão. Com esse formato o Máschara tornou-se entre 2003/2006, uma das Cias. teatrais mais importantes e respeitadas do rio grande do sul. Tournês em Porto Alegre, troféu Cultura Gaúcha, respeito da classe artística, convites para as mais variádas ações na área. Cléber Lorenzoni ainda somou aí performances, danças, criação da ESMATE, comissões de frente de agremiações carnavalescas. Hoje o Máschara é um nome. Uma marca. Que ultrapassa fronteiras e está acima de picuinhas, egoísmos, egocentrismos, Quando há uma apresentação qualquer, não é fulano ou beltrano que está se apresentando. Quem está se apresentando é a marca. E essa mesma marca é que tem poder de abrir espaços, de dar suporte, de criar opções para que cada um brilhe ao sol. 
                       É difícil? É impossível!
                       Por que? Por que as vezes, em situações assim, perde-se a personalidade própria em prol de algo maior. As vezes é preciso deixar amizades para trás, as vezes magoa-se, as vezes a necessária rapidez do trabalho passa por cima de pessoas, as vezes você se sente pequeno em meio a um turbilhão de obrigações. E no mundo atual ninguém quer ser obrigado a nada. Para completar há o pouco dinheiro que se ganha fazendo teatro. A humilhante situação de tantos atores, que entregam-se de corpo e alma, mas ao voltar para casa tem poucas opções de conforto. Difícil manter-se assim, dedicado ao teatro. No ar há uma velada competição, todos querem ser aplaudidos, reverenciados, amados. Afinal de contas se não há dinheiro, que se anime o ego. Forma-se então a fogueira das vaidades: Todos querem saber, saber mais que seu colega. Saber é poder, só não sabiam que aquele que propaga sabedoria aos quatro ventos passa por tolo mesmo sem querer. 
                              Como manter essa estrutura funcionando com tantos estopins? Nunca saberemos. Mas a cartilha segue afiada, e pessoas sobem e descem a todo instante. Será que perceberam que dentre tudo o que usam para tentar escalar, o que marca unicamente e fica é o trabalho? Esse sim, esse é reflexo de capacidade e talento. Trabalho e mais trabalho. 
                               Cada vez que alguém precisa desistir do teatro para seguir o dito sistema, cada vez que alguém se curva, sente-se fraco e corre para outro lugar, baixamos a cabeça, sentimos no fundo do peito. Será que não deveríamos fazer o mesmo? Mas seguimos, seguimos por nós e por todos aqueles que não conseguiram lutar, por todos aqueles que foram vencidos. Mas a arte precisa seguir. Se fossemos correr a cada empecilho, o teatro não teria vencido seus mais de três mil anos. 
                                   Quando o diretor escolheu Infância Roubada, precisava de um elenco capaz. Precisava de bons atores. Uma boa "equipe". Alguns arrependimentos? Alessandra Souza substituiu Raquel Arigony. Afinal nos últimos tempos essa atriz vem se tornando muito mais madura e capaz. Mas ela também se formou na cartilha antiga e está ali por que a acham capaz de fazer grandes coisas, de segurar as pontas, de erguer a "lona do circo". Souza está ali para ser braço direito. É isso que se espera dela. Por isso talvez Cléber Lorenzoni exija tanto e espere tanto da colega. O trabalho da atriz em cena tem crescido muito, no entanto não se pode satisfazer-se com o que temos, é necessário sempre buscarmos mais. Clara Devi foi convidada a ir nas viagens pois é dedicada, capacitada, um ótimo exemplo. Laura Heger foi convidada para o elenco por seu trabalho riquíssimo em O Hipocondríaco, alí ela mostrou sua dedicação e entrega. Continue assim! Eliane Aléssio está na equipe pela simpatia prazerosa que tê-la como colega de cena. Eliane é o tipo de atriz que parece entender o que é ter um diretor. E não falo sobre apagar-se ou achar que o diretor é um Deus que sabe tudo. Não, ao contrário, o ator pode certamente questionar, contrariar. Mas precisa saber que ambos são funcionários. O ator executa o trabalho de dar vida e organicidade ao que o diretor pede e propõe. A função do diretor é observar, trabalhar dentro de si a sensibilidade para compreender aquele ator e poder tirar e exigir o melhor dele. Eliane Aléssio ao lado de Kauane Silva são as atrizes que mais cresceram em 2019, por uma simples premissa, deixaram-se ser dirigidas!
                          Stalin Ciotti é um talento nato, ele abraça personagens, se bem que não abraçou muito o "pequenote", mas são coisas, há personagens que amamos, há personagens que fazemos.  Laura Hoover é daquelas atrizes difíceis pois tem dentro de si um furacão. Ela é forte, geniosa, intensa. Mas precisa ter muito cuidado, mares bravios assustam e muitas vezes afastam. Seu olhar tem luz em cena, seu gesto tem fogo, mas precisa transformar tudo isso em TRABALHO (partitura, jogo cênico, criatividade, interação, triangulação) . 
                                 Kauane Silva esparramou-se na boneca, aliás um papel cobiçado. Cada gesto funciona, cada olhar. Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni são os alicerces principais, principalmente por terem essa capacidade de fazer quase tudo sobre o palco. Cléber Lorenzoni faz um dos papeis mais simples do espetáculo. Tirando a novidade de Cesar ter uma cena suicida, de resto é um dos seus papeis mais simples. Mas Cléber o cumpre com dignidade e profissionalismo. Renato submete-se à algo novo. Tânia está ótima, mas sinto informar ao ator que ele é sim um dos diretores da Cia. Isso muda tudo, muda a resposta dos colegas, muda seu valor no palco, muda suas obrigações. 
                                   Felipe Padilha cumpre sua função. Mas deve estudar muito, correr atrás do teatro. Abrir os olhos, Observar mais. Aprender com os "grandes". 
                                  Maria Antonia Silveira Netto e Henrique Lanes estão ali para aprender. Cléber Lorenzoni não poderia tê-los convidado por seu talento em sonoplastia ou técnica em operação de som, afinal nunca foram técnicos em sonoplastia de outro espetáculo. Estão ali para aprender. E aconselho-os a estudar sempre e nas próximas apresentações intercalarem. Para que ambos testem suas capacidades. 

                      


              O pior: Não havia um banner, não havia um indicador da grandeza da marca, sem ser o próprio trabalho. Em uma apresentação falta estojo de costura, em outra canos, em outra ferros, em outra adereços. Quem são os responsáveis? A resposta é muito clara: Os braços direitos da Cia. Uma dica: Tenham vocês também seus braços direitos. Ninguém é tão superior que não precise de ajuda, de distribuição de tarefas. Renato Casagrande pode dividir funções entre Kauane e Clara. Alessandra Souza pode dividir funções entre Stalin e Laura. Isso se chama "equipe", onde eu não fui clara? Quanto aos novos, ouçam, talento não segura ninguém no máschara. O que segura é trabalho. Gente amontoada no palacinho mexendo em celular ou jogando pode muito bem ficar em casa. 
                               
                O melhor: A disponibilidade de Eliane Aléssio e Alessandra Souza em mudar uma cena poucos minutos antes de entrar no palco. A sensibilidade de Kauane Silva em atender um pedido da direção para que o publico visse melhor sua personagem. A sensibilidade de Clara Devi em dar o lugar à Felipe Padilha na vã, a coragem de Stalin Ciotti e Laura Heger em receberem mudanças para a cena também pouco antes de entrar em cena. 



Renato Casagrande (*) Porém muito bem no palco
Alessandra Souza (*)  Porém muito bem no palco
Satlin Ciotti (**)
Eliane Aléssio(***)
Kauane Silva (**)
Laura Heger (**)
Clara Devi (***)
Felipe Padilha (**)
Laura Hoover (**)
Maria Antonia Silveira Netto (**)
Rique Artêmi (**)


Arte é Vida


                                             A Rainha

Em outubro tem Halloween CCEE


domingo, 15 de setembro de 2019

Salsa/merengue/bombom/cumbia


Corpo de Baile do Máschara


Interação na rua do laser, com a equipe do Kangoo


861/862 -Infância Roubada - 02/03

Camelot/ Camelot


                               "Existe a lenda de um lugar místico, entre florestas de fadas, magos, duendes e dragões. Lá a coroa era muito clara, todos teriam títulos de nobreza e vida farta. Todos seriam amados se cumprissem as regras da távola redonda. Uma grande mesa redonda, onde doze cavaleiros sentavam-se ao lado do rei Arthur. Ali eles decidiam o que julgavam ser o melhor para o reino, ali, na távola redonda eles pensavam o futuro e discutiam como proteger Camelot, os cavaleiros seguiam uma hierarquia ancestral, o rei era capaz de tudo por eles, e eles capazes de tudo por seu rei."

Máschara / Máschara

                                "Existe um grupo real, em uma cidade do interior, com dificuldade iguais as de todas as outras cidades; uma cidade com muitos talentos que precisam se expressar, provar que a arte é inclusiva e reflete o pensar do homem. Lá a hierarquia é muito bem organizada, todos se tornam estrelas no céu iluminado do Máschara. A direção do Cia. faz tudo o que pode para dar espaço há todos, para que todos revelem, descubram e aperfeiçoem seus talentos. Uma grande mesa redonda, onde doze atores sentam-se ao lado do diretor. Ali eles decidem o que julgam ser o melhor para o teatro em Cruz Alta. Ali planejam espetáculos, performances, e mensagens para defender a arte comunicadora do teatro e seu lindo trabalho. O palacinho é uma trincheira. Lá fora é um front, onde tudo e todos parecem se opor à arte. Por vários motivos, mas principalmente por que nosso país é incentivado à não querer o artista, a mandá-lo para o exílio. Pais preferem filhos em casa mexendo nos seus aparelhos de internet do que em uma sala de ensaios produzindo. Há ainda o medo de que no teatro o jovem fale de sexo, descubra as drogas, se descubra. Prefere-se o contrário, que o jovem não fale no sexo, afinal quando as situações complexas como bebês, homossexualidade ou doenças aparecerem finge-se que não são grandes coisas, e vai se empurrando com a barriga. Há sim uma busca louca pelo ENEM, pelo sufocamento do cidadão em detrimento de uma robotização e uma castração. Você não deve fazer o que te faz bem, mas o que eu decido que é o melhor para você. Como se alguém soubesse saber o que é melhor. Como se nossa sociedade tão capaz não tivesse feito escolhas terríveis por toda a sua historia. Há ainda a equivocada ideia de que apenas jovens e crianças devem fazer teatro, ir ao teatro. Pois bem, a ESMATE tem espaço para todos e Cléber Lorenzoni é capaz de tudo por ela, seriam também seus atores/cavaleiros capazes de tudo?
                                     Fazer teatro é para todos, deve ser incentivado desde a tenra idade, o teatro revela a capacidade do homem em analisar sobre o palco a vida, Ele emana da vida para falar da vida e ele faz homem (quando bem feito) modificar ou tentar melhorar. Uma palestra de uma hora com exemplos mencionados pelo melhor palestrante que for, poderá fazer a platéia pensar, ou até lembrar de algo que aconteceu em sua casa por exemplo. Mas somente a arte-cênica tem o poder de arrancar a plateia de seu momento em assistência e levar sua mente para a sala de uma casa onde uma criança é violada, conduzir sua lembrança para os tempos de infância. A arte cênica com duas ou três tréplicas faz o homem voar para outro país, para a época de cristo, para o dia em que Mario Quintana morreu, para a Verona de Romeu e Julieta. Há ainda a percepção de que somos capazes de sermos o que quisermos se "tivéssemos escolhido", mais corajosos, mais fortes, mais doces, mais gentis, mais tranquilos... Posso ser sensual como uma assessora de Rodrigo S.A em A Hora da Estrela. Posso ser sensual como Salomé em A Paixão de Cristo, posso ser ingênua e romântica como Marcy em A noviça Rebelde. Posso ser engraçado, posso ser severa, posso ser maldosa como Gloria em A hora da Estrela, posso ser astuta e rápida como Toninha em O Hipocondríaco, posso ser o que quiser... A pergunta que devo fazer é: O que quero ser?
                                             Todos podem fazer teatro, mas nem todos podem ser artistas do Máschara. Fazer teatro é subir no palco, estudar seu papel, pensar o mundo. Ser do Máschara é uma missão, é lutar para manter o teatro em Cruz Alta, É abrir espaço para quem vem vindo, promover a arte do teatro para que cada  vez mais gente queira PENSAR-PENSAR-PENSAR sua existência e a existência ao seu redor. Não queira ser do Máschara se não está disposto a lutar pelo teatro. Só queira ser do Máschara se você acredita que tem algo para fazer a mudança. Para fazer crescer essa Camelot! 
                                                       Na hierarquia do Máschara há nobres que sobem e descem, momentos inesquecíveis. Cléber Lorenzoni constrói mitos, deuses, heróis. Cléber Lorenzoni elenca talentos. Revela poderes, forças inesquecíveis. Como a índia poderosa de Kauane SIlva em Lendas da Mui Leal Cidade, ou a vingativa Ereda de Alessandra Souza, a inesquecível Lili de Kelem PAdilha, a eterna Lady Macduff de Simone De Dordi em Macbeth. A Mariana imbatível de MArcele Franco em Tartufo. ODr. Cícero Branco do grande Alexandre Dill em O Incidente. A princesa guerreira Antígona onde Dulce Jorge se desfigura lindamente no palco. Imortais, imortais que somam talentos que Cléber descobre, revela e une à suas criações de diretor exigente, e tão cheio de signos e códigos, as vezes difíceis de entendermos.  
                                                 No espetáculo de sexta-feira, atores intensos se revelaram, se esforçaram, foram aplaudidos com majestosa admiração. Majestoso sim, pois tornam-se nobres do teatro. A arqui-duquesa por exemplo esteve brilhante, com sua capacidade de se expor, de se permitir ser diminuída e apequenada em cena. Os tapas que levou do Visconde revelam generosidade e maturidade. As vezes essa grande atriz, precisa apenas ser mais humilde e esperar o que o outro tem à dar. Ser nobre hoje em dia, não tem a ver com o dinheiro que se possui, mas a humildade com que se ouve o outro. A noite ao lado do Grão Príncipe, conseguiram acertar o tom de uma cena que pela manhã ficara demasiado estridente, gritada. Teatro é correr atrás, é vencer-se a si mesmo procurando sempre a melhor inflexão, sempre o melhor para das ao público. Aliás é o que vejo no Grão Príncipe que se esforça muito, se dedica muito. Como alteza que é, certamente é o próximo na linha sucessória, precisa se esforçar, precisa crescer, aceitar, saber liderar, brincar nas horas certas. Dar exemplo. Gosto muito de sua criação como Tânia, é madura, e natural, deve apenas tomar cuidado para não deixar a personagem se vitimizar por demais. Pela manhã o o Grão Príncipe foi aplaudido em cena aberta, um mérito de sua capacidade de evoluir e tornar-se cada vez um ator melhor.
                                                           O espetáculo teve momentos lindos, difícil recordar-me de todos, mas certamente a maioria foram estrelados por sua Baronetesa, que sempre que entrava em cena tinha uma nova expressão, um entendimento tão grande da linguagem que o diretor queria, a ponto de não saber se sua M.R não criou a boneca ao lado da atriz. Nesse ano vimos muitos grandes momentos.  A Baronesa como Salomé, a Arquiduquesa como Cremosina, a Milady como Frosina, Lady Aléssio como Glória. Esse é sem duvida o momento da Baronetesa. 
                                                                 Lady Aléssio cresce dia após dia, deveria ser logo chamada para compor o hol de altezas do Máschara. Sua Flávia esteve melhor a cada apresentação. A noite ela estava desfigurada em frente a sua M.R. Drama intenso, realista e intenso. Mas Lady Aléssio ainda precisa estar atenta ao final das palavras, para não baixar o volume.
                                                                 Sir Ciotti está fantástico. Talvez um tanto repleto de clichês ou estereótipos. No entanto a platéia vai ao delírio com ele. O mal é quentinho, nunca nos esqueçamos! Segundo Leandro Kamal esse é o problema de nossa sociedade. Sir Ciotti deve apenas ser mais atento, seu talento o levará facilmente para um status maior no grupo, mas é preciso observar mais, saltar e ter as ideias antes que alguém lhe pergunte. Saber perceber oque vão lhe pedir antes que lhe peçam.
                                                                    Os Lordes Padilha e Artemi estão começando também uma linda caminhada. É preciso sempre perguntar-se: -O que estou fazendo aqui? - Lorde Padilha é jovem e cheio de pontos de vista, isso é ótimo, mas para estar perto de atores mais velhos, precisa saber guardar esses pontos de vista, nem todo mundo é compreensivo como S.M.R. Parece que a conversa que tiveram a tarde surtiu efeito, pois a noite Lorde Padilha esteve muito melhor em cena. Sensibilidade! Instinto! Corra sempre atrás deles meu jovem, se quiser ser um ator. E nunca esqueça, querer não serve para nada, é preciso AGIR! 
                                                 Lorde Artemi, foi convidado a juntar-se a nobreza do Máschara, para crescer, aprender, ariscar-se. Se saiu muito bem para primeira viagem. Talvez já soubesse, ali, trabalha-se muito. no sentido literal, carregar, montar, correr buscar coisas... A trilha que pela manhã ainda estava sendo operada um pouco canastrona, a noite melhorou muito, também pelos conselhos da Arquiduquesa e o apoio da Lady Silveira Netto, que embora as vezes faça um pouquinho de drama, está amadurecendo muito. Uma ótima escolha como técnica. 
                                              Nunca esqueçam, o ator que aprende a fazer bem uma trilha sonora, compor uma iluminação, operar botões, erguer uma coxia, tem certamente capacidades para ser muito mais sensível ao palco. Parabéns Lorde Artemi, as vezes damos ideia, queremos opinar, nos ouvem e não nos dão muita importância, pois talvez nossas ideias não se enquadrem ao todo. Mas isso não quer dizer que não tenhamos que sempre estar atentos e dar nossas ideias. A faixa de Rosemar's Baby acrescentou muito à Infância Roubada, foi um grande acerto perspicaz e inteligente.
                                                   A Baronesa entra em cena muito linda, e nos toca muito. Claro que o teatro é algo difícil, principalmente se nos falta um pouco das aulas do "cênico". Rafa precisa ser mais cênica a partir da segunda cena, mas isso virá certamente com o tempo. A baronesa tem olhos intensos e parece ótima de contracenas, a forma como olha dentro dos olhos do ator que interpreta seu pai nos toca muito. Lady Heger é uma principiante muito dedicada, ótima de conviver pelo que soube. Silêncio e reflexão são ótimos para se crescer em qualquer profissão. Lady Heger ainda é bastante nova, mas parece gostar muito do palco e criar, e se entregar. Foi uma explosão em O hipocondríaco e deve sempre lembrar que papeis serão fácies, outros não tanto. Em alguns acertamos, em outros erramos... Antes de tudo é nossa profissão. 
                                               Milady trabalhou muito, opinou muito. Admiro muitos talentos no Máschara e na ESMATE, embora alguns só conheça de rosto, do palco, ou por comentários. Mas uma das minhas maiores admirações respeitosas vai para essa jovem, tão jovem, tão esforçada. Certamente Sua Graça já percebeu que Milady gosta de dedicar-se ao material, a composição, a estrutura. Não se desmotive nunca minha jovem, vai ser difícil, vão te criticar, vão tentar te demover. Te sentirá sozinha e desamparada. Fraca, pequena, desvalorizada. Mas se ama, se te sentes bem, algo dentro de ti procura o palco, os camarins, a vida do teatro, não desista!
                                                 Sua Graça, M.R. parecia um tanto desconcentrado em cena. Via-se em seus olhos a preocupação com os novos, com a trilha que as vezes equivocava-se em questão de volume, via-se seus olhos preocupados com os temas do espetáculo, com as coxias, com o tapa, com os iniciantes, com o teto de gesso, com os holofotes pendurados de forma improvisada para tentar oferecer o melhor no espetáculo. Via-se ele tentando solucionar aquele pequeno pedaço de mundo que são cinquenta minutos de peça teatral, mas que parece uma vida inteira. Um forte em cena, mas líderes, poderes, forças, estão conectados diretamente a mais trabalho. Admiro muito Sua Graça, pelo que faz e propõe o tempo todo, mas guarde-se, ainda há muito pela frente nessa missão. Ainda há festival de teatro, mais atores, mais alunos, mais peças, mais público, mais performances, a construção de um teatro em Cruz Alta. Força!
                                                 Eu admiro a cada dia mais Camelot, o reino de faz de conta, de heroísmo e luta. Esse reino só é forte se cada um estiver unido ao outro. Vida longa ao teatro!


                                        O Melhor: O começo de um lindo projeto - Infância Roubada, com um elenco e uma técnica que parecem querer crescer e aprender.
                                                O pior: Os maus exemplos dados pelo Grão Principe e pela Arquiduquesa, voluntaria e involuntariamente. 



                                              Arte é VIDA
                                                                                       A Rainha



Grão Principe (**)(***)
Arquiduquesa (*)(***)
Lady Aléssio (**)(***)
Baronetesa(**)(**)
Lady Heger (***)(**)
Sir (**)(***)
Milady (**)(**)
Baronesa (**)(**)
Lorde Padilha (*)(**)
Lorde Artemi (*)(**)
Lady SIlveira Netto (*)(**)        
                    
                                                  
                            

Infância Roubada - Salto do Jacuí


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Grupo Máscara em Infância Roubada


Analise do espetáculo A hora da Estrela por alunos da ESMATE






Quando cheguei na Casa de Cultura não sabia o que esperar. Um elenco grande, formado principalmente por atores que experimentavam o palco pela primeira vez, me encheu de memórias sobre a peça de 2018, Lendas. O que mais diferencia essas duas apresentações, acredito ser a idade dos atores. Desta forma, minha maior curiosidade era de ver homens e mulheres já adultos procurando a arte com tamanho interesse. Não são mais crianças tentando equilibrar lazer com aprendizado ou jovens experimentando tudo o que a vida lhe oferece de novo. Aquele elenco já tinha uma bagagem de vida maior, mais vivências e mais com o que se preocupar, por assim dizer. Então, a curiosidade em saber o por quê eles estavam ali e o que estavam dispostos a fazer pela arte me encheu de expectativas.


A casa estava lotada. Compartilhei com meus colegas a alegria em ver o público enorme que iria prestigiar o teatro seja por causa dos parentes, seja por amizades ou, quem sabe, por gostar de teatro. É sempre emocionante ver pessoas novas sentadas nas cadeiras e, mesmo que no fim tenham ido apenas aquela vez, talvez elas escutem e vejam o necessário para que saiam de lá com um pensamento diferente.

Outro momento que me chamou a atenção foi quando o aviso gravado de Cléber terminou e um longo silêncio se estendeu. Foi hora de pensar se algo de errado aconteceu ou se estavam preparando para nos dar um susto do nada. Apesar dessa inquietação, não se escutou nenhuma conversa na plateia. Naquela hora me perguntei se era isso que o Grupo Maschara havia modificado nas pessoas de Cruz Alta. Aquele silêncio, sem nenhuma conversa alta, com olhares atentos e ansiosos sobre o palco escurecido, nenhum movimento com pum da cadeira. Respeito, pensei. Apenas respeito.

A peça começou com energia, luz e cor. Como não conhecia nada sobre a história base, fiquei deveras confusa. Aquele radialista era uma pessoa real narrando uma rádio novela? No fim o comparei ao Corifeu em uma tragédia Grega, pelo fato dele narrar a história, interagir razoavelmente com os personagens, estar em um outro plano visual e aparentar sempre saber de toda a trama.
A tia de Macabéa, aparecendo no início da peça e retornando mais para o final, vi que emocionou uma parte do público, mas senti falta que ela mesmo se emocionasse. O nervosismo aparece se pensarmos que temos que seguir as marcações, falar alto, ficar na luz e ainda assim sentir a cena. Minha dica particular seria que ela olhasse bem nos olhos de sua colega de cena, Kauane, principalmente durante as falas. Dessa forma se estabeleceria uma conexão entre atores e personagens que resultaria em um grande achado na cena do beijo na testa.
As moças que moravam junto a Macabéa eram compostas de uma atriz com muita experiência, outra que já havia subido ao palco em outras oportunidades e uma nova que até então não conhecia. Esta por sua vez não ficou para trás e não destoou do resto, garantindo a atenção e mostrando bem a personalidade de sua figura. Alessandra Souza, com sua personagem pessimista e reclamona me lembrou de muitas pessoas e quase vi minha própria companhia se virando para mim e dizendo "Olha lá, se não é o fulano". A uma determinada altura da peça você acabava criando uma engraçada pena da personagem. Martha Medeiro, sim arrancou ótimas risadas da plateia. Com uma personalidade ao meu ver inocente e convicta. Acredito, porém que na cena quase muda dela com Macabéa, quando esta está ouvindo distraída o rádio, ter levado mais tempo falando sobre a bíblia ao invés de brigando com a garota teria sido mais proveitoso. Outro detalhe que talvez deixasse ela mais engraçada seria se não houvesse empurrões de sua parte. Ela chacoalhar Macabéa quebrava um pouco a convenção de que as duas estavam em mundos diferentes.
A dona do lugar era uma das que mais falava alto entre o elenco de novos alunos, o que ajudou muito para mim que estava sentada no fundo da Casa de Cultura. No entanto, faltou força na personagem. Não me pareceu que ela conseguiria acalmar aquelas três mulheres apenas com sua presença. O leque funcionou bem para ajudá-la a ganhar recursos, talvez tenha lhe faltado alguns ensaios apenas. O que prejudicou também o momento em que ela escolhe uma das moças para ser a sua protegida. Não entendo bem o por quê dessa atitude justamente para com ela.

Houve vários momentos de falas sobrepostas umas nas outras, um deles foi na cena do pipoqueiro, o qual falava tremendamente baixo. Sua figura passava a sensação de ser frágil, velha e lenta, mas isso escorreu para a voz. Uma pena, pois em questão de força presencial ele estava ótimo. A cena acontecia sobre a luz agitada e interessante, mas quando aquele vendedor de pipoca entrou não consegui tirar meus olhos dele, esperando para ver suas reações sobre tudo o que estava acontecendo.
Eliani e Romeu me impressionaram. Ver a mesma atriz que fez a esposa de Cézar durante a Paixão de Cristo, fazer aquela mulher tão despojada, sexy, ousada e malvada, deixou-me atônita. O mesmo digo de seu colega de cena, que exalava energia e presença, esperneando pelo palco jogando folhas para todos os lados. Um belo estereótipo de chefe. Os dois interpretaram com tanta maturidade, sem mostrar nervosismo na cena mais "ousada" ou fazendo as pressas apenas para se livrar da marcação imposta. Acredito que Teatro é doação e, na Hora da Estrela, esses dois se doaram muito.
Eliani criou gestos que deixou sua personagem sempre interessante. Utilizando de vários achados em momentos diferentes e não apenas se contentando com sua divertidíssima risada.
Douglas dá para se dizer que estava bem "Douglas". Apenas características como um modo de falar diferente o destoavam. Acredito que serviu perfeitamente para ele aquele personagem, todo o seu jeito naturalmente engraçado de ser garantiu longas e boas risadas de todo o público. Nos fazendo realmente acreditar que aquele homem era o par perfeito para Macabéa e seria sua salvação no fim. Ele fez parecer que o personagem surgiu facilmente, mas acredito que sempre quando temos essa impressão significa exatamente o contrário.
O que dizer agora daquela Marilyn Monroe interpretada por Vagner Nardes? Este ator estava tremendamente inteiro em cena, se tinha preocupações não transmitia isso. Ela dançava sobre o palco e andava feito uma ilusão da noite. Uma personagem que acredito ser muito querida por nosso ator e que ele a abraçou com vontade. Não soube dizer se ela era apenas da imaginação de Macabéa ou se seria algo maior, devido ao contato com o radialista. Renato também estava completamente mergulhado. Um personagem que poderia sim ser feito com sua própria forma de ser acabou não pendendo para esse "fácil" e deu origem a uma figura única, divertida e poderosa.

Uma das certezas que tinha era de que Kauane estaria bem em cena. Ouvi falar de seu tremendo esforço para carregar o nome de Macabéa e, após sua atuação como Musa Inspiradora em Esconderijos do Tempo, eu criei ansiedade para vê-la como protagonista.
Ela permaneceu em cena praticamente toda a peça e despertou a curiosidade em mim como plateia. Quem era essa figura a minha frente? Novamente sem nenhum conhecimento prévio sobre a obra, Kauane nos deu a sua Macabéa. Uma garota avoada, solitária, perdida e sem propósito aparente. Sua miséria tocou a muitos e me arrepiou em várias cenas, como a do batom, por exemplo. Todavia, como um protagonista não consegue brilhar sozinho, o fato de não conseguir se apoiar para com atores mais experientes e na verdade ser esse ator de apoio, deixou Macabéa um pouco mais apagada.

As cenas eram compridas e divertidas, muito diferentes uma para a outra, com ritmos e propósitos diferentes. As cenas entre Douglas e Kauane pareciam tão naturais e interessantes, mesmo com um texto comum e uma certa repetição divertida de desentendimento entre os dois. Eu sempre queria ver um pouco mais da relação dos dois e posso dizer que fiquei chocada com a traição.
Já esperava que utilizassem de efeitos de luz e som para ajudar na criação dos climas, mas isso não quer dizer que eu não tenha me encantado mesmo assim. Sobre esta perspectiva, claramente minha cena favorita foi a dos médicos.
A sensação de claustrofobia, o medo que Macabéa sentia e passava para nós, a ansiedade deixando nossos corações acelerados, a cena dos médicos robotizados mal me deixou piscar. Aquelas figuras passando de um lado para o outro no escuro, falando juntas e mexendo com nossa personagem principal me fez encolher em minha cadeira.
Ricardo interpretava o médico principal e estava ótimo com sua tensão corporal. Não estava relaxado, mas também não pareceu forçando cada parte de seu corpo para garantir uma tensão sobre-humana. Uma figura que mesmo aparecendo por poucos minutos, trouxe inúmeras críticas e se gravou em minha memória.

A cigana interpretada por Cléber fez muito bem o seu papel. Acredito que uma personagem como aquela teria poder e recursos para tomar o palco todo para si, arrancando toda a atenção de Macabéa. No fim senti que estavam ambos estavam bem balanceados.

A cena final me deixou com tantas interrogações no rosto que mal poderia citar todas. Gabriel Giacomini estava um verdadeiro "homem dos sonhos". Uma chama de esperança para o final feliz que não aconteceu.
Não entendi bem se os personagens que vinham um por um conheciam ou não a moça morta no chão. Uns interagiam com ela como se a reconhecessem, enquanto outros não. Antônio apareceu nesse final, apenas para mostrar aquele lado sujo e triste da vida. Acredito que ele aparecer exatamente naquele momento, quando toda a plateia esperava alguma explicação, alguma boa notícia, destruiu qualquer boa esperança nossa.
Um ótimo fechamento de história, completamente inesperado por minha pessoa, mas como disse não compreendi vários quesitos. Isto, no entanto, é um dos fatores que mais adoro no teatro. O caminho para casa foi cheio de questionamentos e debates para com meus acompanhantes. Cada um se emocionou em um momento, cada um tinha uma ideia sobre o radialista, sobre a Macabéa, sobre a srt. Monroe e sobre o garoto loiro de terno.

Estou deveras impressionada com todo o elenco, sem exceção de ninguém. Extremamente feliz por ter assistido a essa peça e de poder dar minha opinião particular. Agora apenas podemos esperar para a apresentação a seguir e prestigia-los também.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

860 -Infância Roubada - (tomo 01)-Pré-estreia no Palacinho

Grandes Atores

"As boas ações ficam bonitas no jardim de infância. O teatro é o lugar da gangrena"

                    Haviam boas exposições gangrenosas sobre o pequeno palco da ESMATE nessa quarta-feira a noite (11/09). Um espetáculo não irá realmente mudar o mundo, mas ele precisa gerar ondas no lago, ele precisa despertar pensares que podem ser estopins para coisas grandes começarem. A direção de Infância Roubada vem construindo essa obra há mais de dois anos, um espetáculo que em primeiro momento parece muito simples. Não há cenários, grandes iluminações, há um minimo de adereços, e uma premissa cristalina: Dor! A dor humana que parte do desentendimento, do vazio, da solidão. Trabalho de ator, e para isso Cléber Lorenzoni elencou uma equipe imensurável, que nos deu interpretações  quentes, realistas, dolorosas, corretas.  Renato Casagrande e Alessandra Souza atores hercúleos do Máschara, que ao lado de Cléber tem vasto conhecimento na faina teatral. Os três divididos em núcleos, onde desdobram-se ou agregam-se três aprendizes: Stalin Ciotti (ator de criação delicada, sutil e detalhista), Kauane Silva (com seus estonteantes olhos de ressaca, uma força atrativa à nós meros mortais) e ainda Laura Hoover (forte, intensa, dramática). Os três juntos apontam caminhos e dão significado ao futuro do teatro do Máschara. Para completar o rol de forças humanas sobre o palco, três atores convidados: A deliciosa Eliane Aléssio, que vem se destacando comumente desde o Auto de Natal II (dez/2018), Laura Heger, que deu sua mordida de talentosa atriz ao interpretar Toninha em O Hipocondríaco (agos/2019) e Felipe Padilha, que está a espera de seu grande momento que certamente virá em breve. 
                            Nove forças sobre o palco, nove vidas, que se entrelaçam e sofrem influencias indiretas umas das outras. O palco é o cosmos inteiro e dentro dele habitam Nice, Tânia, Rafa, Flávia, Cesar, Cão, Teco, Emily e o espectro de uma boneca que pode muito bem ser a infância perdida ou roubada de todas aquelas pessoas. 
                                    Logo na primeira percepção, a boneca que entra no palco dançando nos toca pela semelhança com o brinquedo no chão, Kauane está perfeita e pode brincar ainda mais com a leveza versus rigidez da personagem. Não compreendi o fato da personagem do Cão atacar a menina e depois a boneca, a direção precisa optar por apenas um signo. As cenas são bastante curtas, podem ter mais silêncios, pausas. Alessandra Souza por exemplo pode ser mais cricri, faladeira, a ponto de Dona Flávia não suportar ouvi-la; Laura Hoover precisa cuidar para ser mais dengosa com Nice do que malvada. É uma barreira bem tênue. Felipe Padilha precisa parecer um menino de rua, mais revoltado, mais marrento. Na verdade ele tende a crescer e se tornar um cão, esse é o ciclo sem fim.
                                       Eliane Aléssio compõe muito bem a esposa que está presa em um casamento infeliz. Penso que na cena com Nice possa ser ainda mais perua, falando de planos e sonhos enquanto a empregada passa mal. Cléber Lorenzoni na cena da rua pode sentir mais repulsa com a travesti, peitá-la mais, talvez até mostrar a arma que carrega. Isso seria chocante e levantaria a questão do armamento. 
                                       Laura Heger tem uma leveza linda na cena, e deve buscar dentro de si as memórias para compor a dor da menina.  Na cena da travesti compreendo que Renato Casagrande queira mostrar a destruição interna de Tânia, mas não fica legal tirar os sapatos. Tudo está no rosto! Alessandra Souza compõe muito bem a cena final ao lado de Stalin e das outras personagens da família. Na hora do tapa, o terror precisa percorrer todas as personagens. Heger e Padilha precisam sofrer muito, talvez gritar, Felipe poder se avançar e Stalin segurá-lo pela blusa. Enfim, coisas da direção. 
                                        O crescendo do pai e da mãe nas cenas com Rafa precisam ser maiores para que essa ultima possa construir as reações mais fidedignas, Laura usou muito de sua emoção, agora pode trabalhar o cênico. Usar mais a musica. Outro detalhe importante é não esquecer que há um bebê dentro de seu ventre. Valorize isso! A discussão com Cão na rua me comoveu muito, usuários de drogas não são vagabundos ou marginais, são doentes, que precisam de ajuda.
                                         Encantadora a cena em que Lólli dança com Flávia. Ali o lúdico se estabelece. A infância que ficou para traz... Outro momento muito lindo é a empregada abraçada em Flávia. Nice precisa ficar bem alta para Dona Flávia apoiar-se em seu braço. Acalentar-se. A maquiagem de Stalin Ciotti é interessante, provavelmente em um lugar maior surtirá também um efeito melhor. 
                                       Amo teatro intenso, Almodóvar, a dama Irlandesa, ou mesmo o melodrama., amo atores que entram no palco pelo tudo ou nada. A equipe técnica que muitas vezes são os próprios atores, precisa ter mais cuidado com entradas e saídas da linda trilha. Calma. O público não pode perceber que uma musica está entrando. As vezes mais sensibilidade na percepção das emoções sobre o palco. Por exemplo, quando Laura entrou em cena para impedir o suicídio do pai, a musica foi retirada tão de súbito que eu me desconcentrei. A musica precisava embalar a cena, permanecer e ir sumindo em meio a discussão.
                                           Emocionada também com o instinto da atriz que interpreta a boneca. Sua queda quando Rafa cortou o braço foi tão linda como se uma boneca de porcelana estivesse caindo e se quebrando. Parabéns às sutilezas do espetáculo.
                                          Uma pena as Lauras, Ciotti e Padilha terem pisado na palavra Esperança no agradecimento. O elenco posicionado atrás da palavra é tocante, pisando nela não.
                               

                                            O melhor: As emoções intensas que um espetáculo como esse podem provocar.
                                                   O pior: O espaço apertado atrapalhando a grandeza de alguns atores.


Alessandra Souza (***)
Kauane Silva (***)
Eliane Aléssio (**)
Stalin Ciotti (***)
Laura Hoover (**)
Laura Heger (**)
Felipe Padilha (**)

Gabriel Giacomini (**)
Maria Antonia Silveira Netto (**)
Henrique Lanes (**)
Clara Devi (***)

                                       A Rainha
                                         
                     

No palco o elenco de Infância Roubada


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Olhar crítico sobre A hora da Estrela

                                   O espetáculo apresentado no dia 1° de Setembro, na casa de Cultura Justino Martins, era uma adaptação do livro da escritora brasileira Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, escrito e lançado em 1977. Conta à história da Jovem Macabêa, Alagoana de 19 anos, e suas desventuras. O grupo teatral Maschara carrega com ele uma história muito rica, é um grupo compromissado com o seu público, suas peças sempre nos cativam, sempre nos interessam com suas trilhas sonoras, seus figurinos, seus atores e seu diretor, este último domina sua arte! Cleber Lorenzoni foi diretor, ator, iluminador, ele domina o espetáculo. Arrisco-me a dizer que vejo em “A Hora da Estrela” um de seus melhores trabalhos como diretor. Junto a ele temos o seu braço direito: Renato Casagrande e seu domínio de cena. Casagrande nos conduz pela história, o seu radialista nos atrai e prende-nos do início ao fim. Ainda Sobre os atores da Cia, temos Alessandra Souza e Ricardo Fenner, atores do alto escalão do Maschara, mas que deixaram a desejar na noite. Ela estava ali como uma boa atriz, seu volume era bom, sua presença era boa, Mas não havia personagem construído. Ele com um personagem inseguro, sua presença é de um grande ator, mas apenas isso não basta. 
                                      Gabriel mesmo com pouco tempo de palco consegue nos passar um personagem muito bom! Agrada-me muito o ver passar à cena por varias vezes antes de começar, assim como Douglas Maldanner e seu trabalho digno de aplausos! Um dos melhores personagens da noite, seu carisma chamou a atenção, Olimpico esteve ali antes de o espetáculo começar, uma excelente construção de personagem, Maldanner está de parabéns pelo seu trabalho. No Papel da protagonista: Kauane Silva. Um dos trabalhos mais bonitos da atriz, ela nos entrega uma Macabêa doce, ingênua, vulnerável, Macabêa está exposta a todo mal que o ser humano pode causar. Sua ingenuidade fez com que a plateia se tornasse cumplice das maldades que sofrera, a rejeição do namorado, o preconceito pelas colegas de quarto, a perda da unica pessoa que se importava com ela, etc. Kauane esta viva em cena, ela é grande dentro de uma personagem tão pequena. A Noite era dos alunos da 10° turma em formação, tantos talentos no palco! Vagner Nardes é um ator que nos enche os olhos, sua figura de Marilyn é linda, encantadora. Eliane nos entrega uma das melhores construções, Gloria nos conquista com seu carisma. A energia e entrega da atriz nos enche de orgulho, Eliane assim como Olimpico, teve o público em suas mãos e é uma atriz com um grande talento. 
                                       Martha Medeiro e sua fanática Maria da Penha: Medeiro carrega em suas personagens uma sutil delicadesa, ela representa na peça um dos pilares da nossa sociedade. A hipocrisia torna a personagem mesquinha, e a jovem atriz constrói isso muito bem dentro de espetáculo. As alunas Eveline, Leonir e Schu fecham o elenco feminino, as três nos entregam bons resultados. É admirável ver a dedicação de Leonir, ver o quanto estar no palco lhe fez bem, nos passa uma boa sensação, gostaria de vê-la de novo em mais espetáculos. Aliás, o palco é sagrado, nele deve estar quem realmente gosta de estar ali! Eveline compõe Maria da graça, esteve segura. O arco de sua personagem não foi alcançado, mas Eveline nos mostra uma grande evolução em seu trabalho. E por último temos a dona da pensão, Schu com um ótimo volume, mas um pouco insegura em sua construção, ainda assim, teve uma boa presença e fez um bom trabalho. O trabalho de Romeu como seu Raimundo é bem construído, reflexo de sua dedicação ao teatro, seu jeito de andar e falar, apesar de ser caricato, encaixou muito bem na peça! Mas o mesmo deve cuidar sua voz, deve aquecer mais a garganta antes de entrar em cena. 
                          A delicadeza do Pipoqueiro construído por Henrique também nos agrada, por mais que seu volume tenha sido baixo. Seu personagem presencia uma das cenas mais triste da peça, e perante aquilo, nos passa um pouco de esperança. Antônio esteve muito bem em seu enfermeiro, embora deva levar mais a sério o seu trabalho, faltar ensaios em dias importantes não prejudicam só a si mesmo, mas sim um todo. Na parte técnica, devo confessar que fiquei muito feliz com Evaldo Goulart e sua dedicação, é muito bom ver atores colocando a mão na massa, esse é o sentido de uma equipe, todos trabalhando por um bem maior. A trilha sonora foi muito bem escolhida, méritos ao diretor. Tenho certeza que “Tunel do Amor” ficou na cabeça de muitos na plateia. A operação de Clara Devi foi nervosa, quase colocando em risco o espetáculo, sonoplastia deve ser operada com frieza. Os Figurinos estavam lindos, a composição de figurinos do grupo sempre nos encanta. “A Hora da Estrela” vai deixar saudades, foi uma noite linda de teatro. Os atores e alunos envolvidos estão de parabéns! Que mais trabalhos assim sejam apresentados, o publico merece.

Oficina de clowns - janeiro 2019


Ó mágico de Oz


Análise da obra A hora da Estrela por alunos da ESMATE

Somos comunicadores, temos a missão de plantar uma semente de conhecimento na mente do espectador, fazendo germinar questionamentos e posicionamentos, que darão frutos positivos para o futuro da arte.

A turma nove da Esmate está cheia de novos talentos, é muito bom ver o desejo de fazer teatro que emana deles. Entretanto, não podemos nos dar o luxo de esquecer a técnica, ela é o que te torna brilhante em cena.
Chegando no espectáculo, fiquei com um misto de sensações por ver a casa cheia. Sentei bem na frente, pois não queria perder nada, minhas expectativas estavam nas alturas. Logo no começo, me incomodou o fato de Renato sempre dizer as primeiras palavras de suas falas no escuro, pois demorava para ascender a luz do holofote. Casagrande estava divino, volume vocal, domínio corporal, tudo que um ator com o seu tempo de teatro deveria ter.
Porém, senti falta da entrelinha do personagem, achei um tanto raso, ainda mais nos padrões de criações dele. 
Já que queremos ser comunicadores, temos que aprender a trabalhar o volume e a clareza com que a frase é dita. Romeu Waier o tom escolhido te prejudicou, fez o público ter que se esforçar para compreender o que estava sendo dito. Quando o ator compõe um trabalho tão exato como Waier fez, se torna uma pena não conseguir entendê-lo. Martha Medeiro, tão jovem, dedicada, compôs uma personagem fora dos seus vícios corpórais e que arrancou risos da platéia.
Leonir Batista, Rick Lanes, Antonio Longue e Ana Claudia conquistaram o público de jeitos diferentes. Aproveitem mais o palco, digo isso no sentido de se jogar, "curtir como se a vida fosse acabar". Longue e Ana, faltas atrapalham os colegas.
Alessandra tem me preocupado de uns tempos pra cá. A atriz parece que sempre fica sem cartas na manga quando seus achares não dão  certo. Contudo, tento não me preocupar, pois no fim das contas Alessandra sobe no palco poderosa.

Ricardo Fener, como membro do grupo Máschara e um dos anciãos, soube ser genero em cena e carregar uma grande crítica social como sua verdade. Douglas Maldaner me surpreendeu, o ator não demonstrou dificuldades com as falas, mas sim segurança e uma grande capacidade em cena. Quero ver mais desse lado de Maldaner. 
Eveline Drescher, primeiramente, adorei seu sobrenome (sempre quis ter um nome difícil). Em segundo, eu sou amante das garotas malvadas, queria muito que sua maldade tivesse me feito levantar da platéia e ter começado a amar te odiar. Acredito que seu tempo trabalhando com jornalismo te deixou segura do que estava fazendo, você é uma ótima comunicadora e espero que continue no teatro. Eliane Aléssio é outra estrela desse espetáculo que me surpreendeu. Quando vi você em cena não consegui lembrar que foste tu que interpretou a Claudia, mas também você evoluiu tanto, nem quis me lembrar para não atrapalhar a contemplação. Aléssio descobriu uma veia cômica que deu mais vida para a personagem.
Vagner Nardes o novo garoto prodígio, sempre que vejo Nardes em cena fico me questionando - "Será talento, técnica ou uma soma dos fatores". Não entendo seus motivos para se afastar do grupo. No entanto, digo que você seria um grande achado para o Máschara. Cléber é impressionante ver o quanto o público fica nas suas mãos sempre que está em cena. Finalmente, Kauane Silva, Macabéa! Kauane eu tenho uma admiração por você, sempre me transmiti a ideia de que está ali de corpo e alma, seja para fazer o som, a atuação, ou até mesmo ambos no mesmo espetáculo (assim como nas Lendas). Você viveu o que Macabéa passou, sentiu as dores no corpo e morreu com a alma do personagem. Meus parabéns pelo protagonismo, seu diretor fez uma boa escolha.
Com o passar dos anos da Esmate, me atrevo a dizer que este é o seu momento de ouro. Que cada vez mais pessoas queiram fazer arte, precisamos de arte, o mundo está tão caótico que nesses momentos o que a Esmate e o Máschara fazem são nossas boias de salvação.


Com amor, a Arqueduquesa

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Eliane Aléssio e Romeu Waier - Visceralidade em A hora da estrela


Leonir Batista, entrega e teatro


Lá no túnel do amor... A hora da estrela


Turma nove da ESMATE - Despedida da aluna Eveline Drescher


Véchoros -Teatro Independente

...por Cléber Lorenzoni



                                    Como ator de teatro há mais de duas décadas, tento me debruçar sobre todo o tipo de arte-cênica. O teatro é vivo, mutável, técnicas, estéticas, linguagens, tudo vai mudando para se adaptar a realidade do tempo atual. Eu devo, sempre que posso, exercer minha função primeira de agente teatral, que é refletir a arte, pensar o teatro, promover a discussão, instigar a análise critica sobre a criação cênica. Caso contrário o teatro pode tornar-se apenas uma forma de de exibição que motivada pelo crescente despreparo e desinformação do público, que a cada dia parece mais desinteressado, e menos capaz de analisar a arte. 
                                     Será que nós pensamos a arte? Será que nós queremos pensar a arte, assim como devíamos pensar e questionar a religião, a politica e etc...
                                     Véchoros é um espetáculo delicado, recheado de signos, que conta "um dia" na vida de dois palhaços. Não se sabe de onde vem, ou para onde vão, assim como a vida. Eles apenas estão. A premissa é bastante simples, tudo o que um fizer será destruído ou alavancado pelo outro. À quase todo momento, percebe-se que um dos personagens parece dominar a cena, quando um gesto, ou uma réplica silenciosa do outro retira-lhe a atenção e consequentemente o poder.  Essa relação equidistante , com posturas paralelas, avança rumo a um desfecho que poderia ser sublime, porém parece morno. Um espetáculo de atores e que talvez por isso seja difícil. Não sei quanto tempo de teatro há em Guilherme Orzechoski, ele é esforçado, intenso, vivaz, mas para alcançar o time do histrião ao seu lado vai precisar de mais prática frente a frente com o público, o que certamente virá com o tempo. Ele tem um lindo físico cênico, com certa técnica circense imagino. Há no jovem um encantamento pelo palco, pelo colega de cena, ema entrega muito agradável, que nos toca a todo instante, porém a palhaçaria carrega um segredo muito lindo, "é na dor que vive a graça" e essa graça deve tornar-se técnica.  No roteiro de Véchoros, há altos e baixos, quadros que se perdem, precisam ser encerrados antes de se transformar em outros quadros. Por exemplo as bolinhas que saem dos calçados de um dos palhaços podiam render muito mais, mas elas param para dar espaço a algo previamente escolhido que é o momento de malabares. A cena da luta de vassouras é outro exemplo, ele está gessada, é é muito criativa. 
                             O quadro da marionete gigante é lindíssimo, mas não conectou nesse dia, parecia confuso, embolado. Já o havia visto em outras montagens, assim como algumas outras micro-cenas, o que é natural, as gags de palhaço embora sejam um terreno vasto, sempre se cruzam por terem em comum a singeleza da criação humana. 
                                   A trilha é bem escolhida, mas precisa de mais sutileza, a iluminação anulou os membros superiores de Orzechoski quando ele subiu na perna de pau. O cenário é poderoso, muito bem equilibrado e centralizado, os tons escolhidos casam perfeitamente com figurinos e adereços. 
                                    Véchoros é o tipo de teatro que eu admiro, pesquisado, verdadeiro, comedido. Talvez o fato de ser dirigido por um dos atores, torne-o tarefa perigosa. Fábio Novello domina a arte do clown, mas estar em cena e ainda ter domínio do todo ao seu redor é desgastante e pode, apenas "pode", colocar em risco todo o trabalho. 
                                      O final foi emocionante mas deve ser mais ensaiado para evitar a banalização, ou seja, ainda pode ser mais triste. O pai que parte, o palhaço que fica órfão no palco, é uma mensagem muito forte. Pode ser ali o ápice de Véchoros. Achei o espetáculo muito bonito, instigante e comprometido, precisa é claro, de mais e mais ensaio, até ficar no fio da navalha.
                                      Uma pena algumas professoras serem despreparadas e ficarem tirando fotos com flash, triste e deseducado. Um espetáculo como véchoros precisa de silêncio por parte da assistência.
                                         Vida longa à Véchoros, vida longa ao colega lutador, Fábio Novello.
                                 

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A pensão de A hora da estrela


A hora da Estrela - (tomo 01)- 80º Cena às 7

                        Profissão é a ação de exercer uma ciência, um oficio ou uma arte. Ao final do espetáculo de domingo a noite, deu para ter uma ideia dos pontos de vista deste diretor que começou sua carreira no Máschara em 1995, há exatos vinte e quatro anos atrás. Cléber Lorenzoni já havia pisado no palco antes disso, dirigido pela diretora Giane Ries. No entanto foi como o Rico de Cordélia Brasil (Ricardo Hoosvelt IIº) que o jovem diretor começou sua carreira. Cléber Lorenzoni tornou-se diretor de espetáculos em 2000 com Antígona (sófocles), em 2005 assumiu a direção com Dulce Jorge e em 2007 assumiu a direção geral do grupo. Em 2013 Cléber Lorenzoni inaugurou a ESMATE- espaço Máschara de Teatro, e em 2018 foi um dos grandes entusiastas da criação do Palacinho do Máschara. 
                                   Cléber Lorenzoni dirigiu inúmeros espetáculos: o hilariante Tartufo (2001), uma comédia poderosa de Molière que arrancou gargalhadas de centenas de pessoas e ainda trouxe grandes prêmios para o Máschara. Em 2005 a adaptação da obra do imortal Erico Verissimo, O Incidente, levou milhares de pessoas ao teatro em todo o estado. Mais de oitenta municípios assistiram as peripécias dos sete mortos de Antares. Ed Mort e A Maldição do Vale Negro ainda abriram espaço para grandes atores e estruturaram um dos maiores grupos do Rio Grande do Sul. Esconderijos do Tempo foi premiado em todos os festivais de teatro em que esteve e mostrou o quanto partituras, conhecimento e técnica são essenciais ao teatro. 
                                      O diretor iniciou em 2013 esse incrível projeto de formar atores, e daí já surgiram grandes interpretes como Clara Devi, Stalin Ciotti, Laura Hoover, Vagner Nardes e Gabriel Giacomini. Na noite do dia primeiro de setembro eu tive o privilégio de ver novos atores despontando e principalmente ver uma direção muito coerente e sensível sobre o palco. A hora da estrela, ultima obra de Clarice Lispector ganha montagem muito íntegra e honesta. 2019 tem sido um ano exaustivo com inúmeras discussões politicas e a arte nunca esteve tão banalizada e desrespeitada, mas Cléber Lorenzoni continua lutando, levando ao público uma mensagem muito importante: "nós não vamos parar de fazer teatro, nós somos o Máschara e nos reinventaremos ano após anos e aqui ficaremos".  Kauane Silva foi escolhida para encabeçar um elenco de atores e não atores, a jovem atriz ainda é uma aprendiz, mas sua primeira protagonista não deixa a desejar em nada. Emoções, energias, ritmo, força, tudo estava presente em pouco mais de uma hora de narrativa. O espetáculo não era realista, Lorenzoni não aprecia esse tipo de espetáculo, é preciso ser simbolista, é preciso passear pelo surrealismo, pelo subconsciente para tocar realmente a platéia. Para criar sua assinatura estética o diretor foi dissecando a obra, reestruturando-a em uma alegoria. A novela da vida humana. Um novela de rádio apresentada por Rodrigo S.M., um alter ego de Lispector. 
                                               Macabéa sofre como sua criadora sofria nos últimos dias de vida, enquanto um câncer a massacrava. Talvez a fragilidade à que se sentia exposta e a frieza com que precisava enfrentar a doença, deram à Macabéa um tratamento fatal, feroz. A alagoana virou estrela, nos últimos minutos, assim como a arte concede ao artista o estrelismo máximo após sua morte. 
                                                   Kauane Silve abraçou Macabéa com unhas e dentes, sofreu com ela, compreendeu-a e certamente morreu um pouco com a personagem. Interpretar é aceitar morrer um pouquinho, afinal parte de nós fica ali, estatelado sobre o palco. Nossa maturidade cênica leva embora um pouco de nossa ingenuidade humana. Macabéa é diferente do dito normal, e por isso parece tão fantástica, até inverossímil; no entanto é quando nos vemos ali, quando percebemos em nós sua fraqueza , que compreendemos a grandeza criada por Clarice. 
                                                     Cléber Lorenzoni revelou através das moças da pensão, de Glória, da senhoria, de seu Raimundo, de Olimpico  e de outros pequenos tipos, a maldade humana. A capacidade do homem em eleger o lobo fraco da matilha e defrauda-lo. Assim tem sido com os negros, os índios, as mulheres, os LGBTSe tantos outros. Macabéa não percebe, mas chega a um ponto tão extremo de anulação, de pressão, que sua única saída só poderia realmente ser a morte, e até mesmo após a morte a maldade se faz presente. O "tipo" de Antonio Longui joga-se sobre o pequeno corpinho de Macabéa e arranca-lhe o que há em sua carteira, aliás o jovem aluno entregou-se no palco com muita energia, ainda que em uma participação pequena. Espero que se esforce sempre para o vermos mais presente em novas montagens da turma.
                                                         Protagonizar um espetáculo não é tarefa fácil. Há o risco de tronar-se antipático e cansativo perante a platéia. Kauane vence esse desafio, comove e até faz rir. Falta-lhe ainda um domínio maior do elenco coadjuvante, algo que certamente irá alcançar com um pouco mais de estudo. Seu elenco de apoio é bastante diversificado. Isso acrescenta ao espetáculo um ritmo próprio, uma energia explosiva. Ana Claudia por exemplo tem potencia vocal muito intensa e embora sua vibração vocal se apresente um tanto monocórdia, o élan, ou a "presença" é muito forte. O tom da pensão é vigoroso, graças às rixas entre as meninas, muito bem incorporadas por Martha Medeiro, Eveline Drescher e Alessandra Souza. A primeira muito engraçada em sua composição, a atriz criou praticamente do nada uma personagem quase fanática, uma figura cheia de códigos e símbolos que muito enriqueceu o espetáculo. Eveline pode ser mais malvada, e Alessandra, embora forte em cena e com presença aplaudível, poderia lapidar melhor sua MAria José.
                                                           Leonir Batista me orgulha muito, teatro não é para crianças ou jovens, teatro é para todos. Leonir compôs com dedicação um papel pequeno mas de indispensável importância à narrativa. Volume e segurança no palco. A complexidade da obra literária transforma-se em drama com a capacidade de Cléber em lidar com o "grande mecanismo", não há sequencia lógica, ou temporalidade. Uma cena vai simplesmente transformando-se em outra. Sem que se diga nada, conseguimos perceber que dias se passaram. Rodrigo S.M. continua presente, narrando a divina comédia, suas partner's são ironicamente assustadores e anunciam na primeira cena o final triste que virá. Quando Macabéa se vê cercada pelas mesmas três jovens dançarinas na pensão e no hospital, percebe-se que elas estão ali como os cavaleiros do apocalipse. Os humores que nos fazem rir em A hora da estrela me lembram muito o desequilíbrio humoral apontado pelos gregos. O popular sanguíneo e o sereno fleumático, eles vão nos revolvendo até grand finale, quando o forte colérico e finalmente o soturno melancólico encerram a cena. A apoteose epilogal, não tão constante quanto os prólogos em espetáculos do Máschara, arrancou lágrimas da assistência. 
                                                        Ricardo Fenner e Cléber Lorenzoni, atores de anos do Máschara, fizeram pequenas pontas, assim como Gabriel Giacomini. Que agradável ver grandes atores dividindo espaço com quem está começando. Para isso servem as montagens da ESMATE. O quadro hospitalar e a ópera são dois momentos sublimes. Ali mais uma vez destacam-se Martha Medeiro e Alessandra Souza corporalmente.  Eliane Alessio quase foi aplaudida em cena aberta, sua veia cômica abriu espaço para que a dor de Macabéa ficasse ainda mais forte. Caracterizações impecáveis, maquiagens pontuais. Rick Lanes apareceu pouco, mas acresceu delicadeza e sensibilidade à cena. Talvez o humanidade das personagens em seu sentido mais simples seja um dos grandes méritos da obra: o pipoqueiro, o metalúrgico, a estenógrafa, a cartomante... Romeu Waier é outro achado da produção, seu tom gutural prejudicou um pouco sua cena, mas não tirou o brilho de sua interpretação. Eis outro ator cômico e com perspicácia de quem nasceu para a arte. 
                                                        Ainda no plano do surreal, o espectro de Merilyn Monroe é um achado perfeito, encarado por Wagner Nardes com coragem e delicadeza. O ator consegue ser feminino com a afetação característica do ícone que incorporou. Renato Casagrande passeou pelo palco como se esperava. Foi narrador, contador, radialista e analista. A personagem de Rodrigo S.M. ainda tem muito a descobrir, pois faz parte das entrelinhas da autora, Casagrande tem que imaginar que interpreta não um radialista, mas a própria Clarice. 
                                                          Maldaner compôs seu melhor trabalho no Máschara até hoje. Sutil, forte, engraçado. Um ator que logo deverá subir de Status. Talvez possa ainda ser mais bruto com Macabéa, mas sem perder essa delicadeza do ator, que torna Olimpico mais fracassado como deve ser.  Lorenzoni dirigiu, coordenou, preparou, ensinou e atuou e pelo que soube há pouco, executou a iluminação do espetáculo. Como consegue fazer tudo?
                                                                Os méritos de A hora da Estrela são vários, parece que nasceu uma estrela de várias pontas, que ainda pode brilhar muito. Li o livro há duas décadas atrás, não li novamente agora queria revê-lo através do estilo Máschara, e aprovei.
                                            
                          O melhor: Além do elenco feminino, a luz tão linda mesmo com tão poucas condições, montada em quase que sua totalidade por Evaldo Golarte e operada por Cléber Lorenzoni. 
                                     O pior: a falta de entrega por parte de alguns membros da equipe, o que quase pôs tudo a perder e as incompetências que colocam em risco um trabalho perfeito.

        Arte é vida
   
                                                                                                 A Rainha

                              Grupo Máschara e sua técnica

                      Kauane Silva- (***)
                      Evaldo Goulart (***)
                      Stalin Ciotti (**)
                      Clara Devi (*)
                      Ricardo Fenner (**)
                      Alessandra Souza (**)
                      Douglas Maldaner (***)
                      Laura Hoover (**)
                      Fabio Novello(**)
                      Gabriel Giacomini (**)

P:S: Um agradecimento especial à contra-regragem de Maria Antonia Silveira Netto, à pedido do diretor Cléber Lorenzoni