segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

sobre diálogos e debates necessários

Por Cléber Lorenzoni


                É preciso falar, falar sobre muitas coisas que foram sendo silenciadas em nós. É preciso refletir o mundo, pensá-lo para o amanhã. Durante muito tempo passou-se a diante a imagem/ideia de que o teatro é uma brincadeira, algo bonitinho, para ganhar aplausos e preencher carências. O teatro é uma arma, eis aí o motivo de tantos pais não quererem que seus filhos participem. O teatro liberta, transgride, questiona. Mas no ano em que o Máschara completa vinte oito anos, foi preciso perguntar. O que estamos transgredindo? Muito pouco. Um personagem ali, uma frase mais ousada acolá. Muito pouco. 
                         Quando abrimos nossa boca para dizer que estamos mudando o mundo, o que realmente estamos mudando? Sendo bonzinhos e dizendo obrigado? Dizendo bom dia e ajudando uma idosa a atravessar a rua? Dando um pratinho de sobra do almoço para o morador de rua? É até aí que vai nossa vontade de mudar a sociedade? 
                             Bertoldt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão do século vinte passeia por ideias ousadas de um teatro que  precisa refletir  o mundo a sua volta, que precisa educar os "culinários", precisa questionar a sociedade. 
                                   Durante sua curta passagem pela terra, Brecht criou um legado de ensaios, prosas, poemas, textos que juntos são uma verdadeira bomba relógio no pensamento atual. Claro que não é todo o artista que se deixa tocar pelas ideias do bardo alemão. No mundo atual onde todos buscam likes e curtidas nas redes sociais, ninguém quer ser o corajoso a dar um passo na direção contrária. Marquise, atriz do século dezessete, dizia que atuar é aceitar morrer; talvez ousar interpretar Brecht seja ter coragem para arriscar-se a perder o público. 
                            Uma semana de Brecht na ESMATE não nos transforma a ponto de sermos outros artistas, ou mesmo de mudarmos totalmente nossa ideologia, mas ao menos nos da a chance de repensarmos o que estamos fazendo com nossa arte. Enquanto diretor/professor, procuro cobrir o ator de ideias novas, emparedá-lo para obrigá-lo a pensar. 
                                      Assim chegamos à Mãe coragem e seus filhos. Nós estamos em guerra, guerras diárias, de um lado as religiões parecem querer nos reger, do outro as leis atuais impostas por homens que não se transformam e não olham para o futuro. Dentro do meu olhar tentei pegar códigos musicais e cênicos que ajudassem o elenco a compreender a fundo minha ideia. Assim surge um teatro provocativo para os próprios atores. Nessa vanguarda que o Máschara propõe, aqueles que participaram dessa oficina, conseguirão compreender muito mais os caminhos que o grupo irá traçar no futuro. 
                            Mas não se confundam, Stanislavski continuará em seu trono, porém o dividirá com Brecht, para que percebamos a diversidade do teatro. 
                                 A evolução dos atores é muito importante. É a busca pela transformação e o ato de se reinventar que fazem evoluir os atores. Alcançarem a capacidade de tocar todo o tipo de público. Durante anos quando perguntava sobre Brecht ouvia meus alunos falarem: Alemão que nasceu em tal ano... Não suportava mais ouvir isso. 
                               A dialética, o épico, o distanciamento/estranhamento, está aí e funciona. Percebi isso enquanto observava as reações da pequena plateia presente. Romeu Waier trouxe muita coisa, Martha Malheiros evoluiu e conseguiu trazer uma neutralidade necessária. Laura Heger a cada dia nos deixa vermos o quanto ela percebe o teatro, e isso é ótimo. Stalin Ciotti apropria-se muito rápido do que vamos aprendendo e isso só traz orgulho a quem ensina ou mostra caminhos. 
                                   Eliani Aléssio sempre surpreende no palco, seja quem for o teórico. Todos cresceram Kauane Silva, Douglas Maldaner e Clara Devi foram alunos muito dedicados nesses seis dias. 
                                          Os anciãos da ESMATE são os que talvez tenham tido mais reviravoltas em suas observações, afinal caminharam por muito tempo pelo teatro um tanto restrito de Stanislavski que por alguns é colocado como chefe supremo, como guardião do teatro. O que não é verdade. 
                                       Mas Ricardo Fenner, Renato Casagrande, Alessandra Souza e Dulce Jorge se permitiram rever o teatro. No fim todos ganhamos e o Máschara subiu mais degraus. 
                                        Ninguém precisa focar sua carreira em um único ponto de vista, mas pode escolher com mais sabedoria quando tem todas as opções na mesa.  Brecht foi certamente uma das oficinas de maior repercussão na ESMATE.
                                 Em fevereiro nos reuniremos para formar o elenco final de Mãe Coragem!

                      Namastê/Esmatê