segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Esconderijos do Tempo na Ielb Cruz

Sobre o altar, "o homem"

               Durante centenas de anos, o teatro é tido como celebração pagã, as vezes ofensa a igreja, pretensão contra os políticos ou ainda reflexo da dita vida desregrada da parte mais baixa da sociedade. É claro que centenas também são, os tipos de atores, os estilos de interpretação, as linhas de espetáculos. No entanto a visão muitas vezes preconceituosas, ainda é a de que teatro e religião não se conversem. Há, por incrível que pareça, o teatro religioso, que educa, catequiza, informa ou homenageia. Mas esse vive em um lugar distante da verdadeira intensão do teatro. Do objetivo primordial, questionar o homem em sua existencia, balança-lo em sua área de conforto.
                   Sobre o altar o Máschara expôs a vida de Mario Quintana, mas muito mais que isso, suas próprias feridas, dificuldades, problemas internos de grupo, insatisfações, complexos de quem luta há anos. O Mario Quintana de Esconderijos do tempo carrega nos ombros um peso de criatura que luta para sobreviver. Muito diferente do verdadeiro Mario Quintana, o Quintana do espetáculo é amargurado pelas rasteiras que o teatro vem levando há anos. Quem tem um pouco mais de sensibilidade percebe a alma da Cia. por trás do espetáculo.
                      Durante o dia inteiro os atores foram somando-se, preparando o palco. Já não há mais aquela gana de alguns anos atrás, há ainda a preocupação em oferecer o melhor, mas há um cansaço. Vinte e três anos, sem dinheiro, com pessoas entrando e saindo e ainda com a obrigação velada de ser sempre o melhor, o teatro sofre. 
                  A encenação durou pouco mais de cinquenta minutos. Não foi das melhores apresentações do espetáculo, que tive o prazer de assistir, ao contrário. Estava um pouco sem ritmo, provavelmente devido ao palco adaptado que devido ao degraus, impossibilitava muitas ações.  Iluminação? Não havia, existe uma diferença nada sutil entre iluminação e dois ou três pontos de luz acesos. Iluminação é algo pensado, com um apelo artístico. A trilha? pessimamente executada, com resvalões terríveis. Esconderijos precisa de delicadeza. O SONOPLASTA PRECISA EXECUTAR DELICADAMENTE A TRILHA COM ZELO E POESIA. O cenário foi posicionado tentando cumprir as necessidades do espetáculo, mas acabou por prejudicar a disposição dos atores. 
                      Quem ler essa analise, irá me julgar como pessimista, afinal pareço estar pondo defeito em tudo. No entanto a culpa, se há alguma, não é da Cia. É da situação. Da opção em colocar o espetáculo em um ambiente que não tem nada de parecido com um teatro italiano. Observando por essa premissa, então  apresentação é repleta de méritos. Sim a equipe conseguiu executar Esconderijos do Tempo em uma igreja, ponto!
                   Fábio Novello esteve bastante marcante na encenação, é mensionável o fato de o ator estar a cada apresentação tornando Gouvarinho em um personagem italiano. O Soneto para o menino doente, também está muito melhor pronunciado. Bruna Malheiros também trabalhou com afinco ao lado de Renato Casagrande para que o espetáculo estivesse brilhante na cena. Logicamente um dos aspectos problemáticos quando se apresenta em locais adaptados é o cansaço a que a equipe se expõe em prol da montagem do cenário.
                        Ao final do dia o dever cumprido. Algumas cenas bem executadas tocaram o público. O teatro se cumpriu.

Alessandra Siuza (*)
Dulce Jorge (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Renato Casagrande (**)
Fabio Novello (***)
Evaldo Goulart (*)
Fernanda Peres (**)
Bruna Malheiros (***)
Ricardo Fenner (**)
Douglas Maldaner (**)


                      A Rainha
                      
                         
                         
                   



O Castelo Encantado em mais uma matinê do Máschara


Entrevista sobre Casa de Cultura

Entrevista Cléber Lorenzoni a pedido do univeristario  Rudimar Cardias
Pauta: “Descaso com a Casa de Cultura Justino Martins de Cruz Alta”

1.      Qual a importância da Casa de Cultura Justino Martins para a comunidade de Cruz Alta? ´

Como cidadão eu digo que um prédio histórico, uma lugar para a Cultura, um ambiente que deve estar lá e sua visita ser incentivada por professores, afinal tínhamos lá espaço para aulas de dança e teatro, sala de xadrez, biblioteca, palco para eventos, espetáculos, tínhamos inclusive dois grandes pianos, para aulas de musica, etc... Sem falar no memorial a grandes artistas que também está lá. Um prédio que conta uma parte da historia do município. Algumas pessoas não frequentavam a Casa de Cultura porque a consideravam um espaço de elite. Nós do Grupo Máschara queríamos trazer a comunidade para dentro daquele espaço e estávamos conseguindo bons frutos. Tenho que mencionar também, que nós só continuamos por que fomos muito persistentes, um grupo mais fraco, menos preparado e organizado teria entregado as pontas. Cruz Alta, uma cidade com sua importância histórica, não poderia simplesmente dar as costas para sua própria cultura. Em Cruz Alta resta a coxilha e o carnaval. Mas há toda uma gama de ações que estavam engatinhando e podiam frutificar muito. A função de um bom secretário de cultura é criar politicas públicas que oportunizem os artistas da cidade, as ações culturais. Se pararmos para dividir cultura e arte, aí a cultura continua acontecendo, logicamente, os corais, as ações religiosas, a capoeira, as escolas de dança, os grafiteiros, tudo isso é cultura e continua. Mas a arte é mais especifica e mais frágil. O Artista precisa quase sepre de um local próprio. Onde penduro um quadro de um grande artista cruz-altense? Na sala de minha casa?

2.      A Casa de Cultura era utilizada como forma de promover a cultura aqui no município. Desde que a mesma foi interditada, como você considera a perca que foi para os cruz-altenses? Uma vez que a cultura- teatro- aqui não tem tanta visibilidade. 

Acredito piamente que as coisas começam a acontecer quando as pessoas empreendem, eu sempre fui empreendedor por que do contrário o teatro já teria acabado. Criamos então em 2005 o Cena às 7, e aos poucos as pessoas foram se acostumando, chegando, em 2012 fazíamos teatro todo mês na Casa de Cultura, e o público sempre se fazia presente. Quando perdemos a Casa de Cultura, esse hábito gostoso de ir ao teatro que estava sendo criado foi caindo por terra e soma-se aí a aproximação das pessoas à nossa Casa de Cultura. Nada tem muita visibilidade até que se comesse a fazer, até que se bata na mesma tecla, mas agora com tudo parado, realmente fica difícil.

3.      Você considera que é um descaso da parte do poder publico referente a esse assunto? 

Não posso acusar ninguém de nada, mas é vergonhoso que a reforma esteja parada em seu terceiro ano. O Ginásio da cidade foi reformado às pressas, por que? Por que o esporte é mais importante que a cultura? Por que o secretario de esportes é mais capaz que o de cultura? São perguntas que ficam. Há tanta historia mal contada que já estamos nos acostumando com o fim da casa de cultura.

4.      Você como diretor do grupo teatral, e também como cidadão cruz-altense, procurou informar-se ou pedir explicações do poder publico sobre a Casa de Cultura? Se sim, o que o mesmo argumenta para você?

Procuramos muitas vezes, os meios de comunicação não insistiram muito talvez por receio, em cidade pequena todos tem medo de se queimar com políticos. Mas o fato é que as historias que nos chegam são sempre confusas, mal contadas. O que nos foi dito é que uma empresa saltou fora e agora seria necessário fazer nova licitação, contratar outra empresa, no entanto uma parte foi paga para a primeira, então não há verba para terminar... Algo assim.

5.      Prestes há completar mil dias sem Casa de Cultura, é possível somar por cima quantos espetáculos de teatro o grupo deixou de fazer? 

Bom o Cena às 7 era mensal, sempre no segundo sábado e domingo do mês. Deixamos de fazer 31 edições do Cena às 7 na Casa de Cultura, ou seja muito teatro. Pessoas nos ofereceram outros espaços, o trabalho continuou, mas aquele clima legal de teatro na nossa Casa de Cultura, parou, e isso sem falar em toda uma gama de ações na área de cultura que nosso município foi perdendo, inclusive o Dança Cruz Alta.

6.      Você acredita que ainda vai demorar para o poder publico tomar alguma atitude sobre esse assunto? 

Não sei dizer, mas sei que isso não é o mais importante para eles. E o pior é reconhecer que nosso povo está carente de tanta coisa, que fica difícil levantar uma bandeira declarando a importância da cultura, afinal a saúde está carente, a educação...

7.      .Na sua opinião quando a Casa de Cultura voltar a ter seu funcionamento normal, o que a comunidade de Cruz Alta ganha com isso? O que a cultura ganha? 

Ganha dignidade, respeito para com uma cidade que está sempre perdendo tantas coisas. A oportunidade de grandes Cias. virem se apresentar em Cruz Alta. Um lugar próprio para ações culturais, dança, musica, aulas de musica, capoeira, balé, até cinema já assisti na Casa de Cultura. As vezes tenho a sensação de que estamos virando uma cidade fantasma, daquelas de faroeste, onde não se pode falar, e as praças e reformas soltam tanto pó e areia e terra, que ajuda nesse clima de faroeste. Todo mundo indo embora em busca de emprego, em busca de vida melhor... O que será de nossa Cruz Alta?