terça-feira, 6 de agosto de 2019

Espetáculo para alunos de cruz alta


Prólogo der O Hipocondríaco


O Hipocondríaco - 852 (tomo 1)

Mais sucesso na ESMATE
                         
                               Sempre que há uma nova edição do Cena às 7, la estou, curiosa, excitada, embora tenha meus informantes e já saiba muito do que virá na apresentação. A comédia que assisti nesse cena às 7, não é nem de Molière, nem de Cervantes, ou mesmo de Martins Penna, todos eles grandes escritores de Farsas, mas do novo dramaturgo que a ESMATE foi criando, Cléber Lorenzoni. Embora Lorenzoni use de inspiração: nomes e vieses da obra do pai da comédia, percebe-se que há em Hipocondríaco o estilo Lorenzoni, que não deixa de ser o estilo atual do Máschara. Frosina, Belinha, Toninha, Sr. Argan, fazem parte do imaginário da comédia Clássica. Onde o mais curioso é o fato de que a comédia extremamente popular de Molière é considerada obra clássica. O que mais uma vez realça que clássico nem sempre signifique  elite ou erudito.  A ESMATE (espaço Máschara de Teatro) tem contribuído muito para o teatro, em 2017 com Bruxamentos e 2018 com Lendas. Nesse ano seus integrantes mergulharam em uma grande empreitada com O Hipocondríaco. A ideia havia sido mentalizada em 2001, quando Cléber Lorenzoni lera pela primeira vez O Avarento, O doente imaginário e Tartufo. Na ocasião acabara optando pela obra maior do autor, Le Tartufe. A comédia é algo difícil, que exige intensidade, jogo, dedicação, estudo da alma humana, senso de humor, preparo físico e principalmente respeito. Tudo tem sua ótica cômica, mas nem tudo merece ser jogado sob os holofotes.
                                          A auto medicação é assunto preocupante, pessoas indicam e aceitam indicações de receituário o tempo todo, esquecendo-se que medicina é fruto de estudo, preocupado em fazer bem e nunca fazer mal ao corpo humano. Senhor Argan parece afogado em lavagens intestinais que certamente não lhe farão bem, e tira daí boas risadas. Os méritos desse primeiro grande protagonista do ator, ultrapassa as expectativas. Cléber Lorenzoni inclui-se sempre como aluno e por isso talvez, trate seus atores sempre como estudantes de teatro." Todos estão sempre sendo testados". É o que me diz sempre que conversamos. Casagrande evolui à passos largos, talvez ele mesmo não tenha se dado conta, mas é um grande ator. As gags de Casagrande são divertidíssimas. Acredito que ainda deva aprender sobre ritmo, mas são percepções que nascem da prática e levando-se em conta que esse é apenas o começo de uma carreira como protagonista, certamente ainda o veremos muito mais ritmado em cena. A caracterização do senhor Argan Avar Eza (apreciei muito o trocadilho proposto pelo autor) é profissional, bonita e funcional.
                                             Renato Casagrande consegue ser generoso em várias cenas, mas a qual  ficou clara tal generosidade, foi a da pequena Luisa Nicolodi. A generosidade cênica é típica dos grandes atores, algo que vi em alguns dos grandes atores do passado do Máschara.  Saber dividir a piada, saber colocar-se como escada, saber apoiar, erguer ou impulsionar o colega é algo lindíssimo.                                                  O espetáculo de mote tão simples vai envolvendo a platéia a ponto de ficarmos relaxados nas poltronas. Espetáculo longo para ser interpretado por alunos, mas uma característica de Lorenzoni é que ele não subestima ninguém, ele expões mesmo, lança desafios e tem fé, muita fé. Thalia certamente puxou pelas mãos o elenco, abençoou a noite. Do palco emanava-se energia, prazer, e por que não dizer uma certa tensão positiva. Os figurinos assinados por Cléber Lorenzoni e Renato Casagrande, criaram peças lindíssima. O chinelinho do velho hipocondríaco, o Tutu de Angelica, o visual de Belinha, ou o uniforme da neurótica Flipota são peças de um bom guarda-roupa teatral. A unidade ficou por conta dos padrões e cores. O azul do varão Cleanto em contra-partida ao rosa da virginal Angelica, o vermelho da maniqueísta Frosina, enfim grandes achados, que infelizmente me pareceram prejudicados pela proposta confusa do praticável. Muitas cores, muitos ideias. Percebam, a ideia é extremamente útil, um jogo, uma farsa, uma  brincadeira de adultos, uma caixa de segredos de onde salta a leveza, a intriga, e o quase triunfo do dolo e da mentira. Mas reveja-se suas cores. 
                                          Ri muito, ri da graça e do gracejo. E sempre que recordava-me que era um espetáculo de alunos, que provaram o gostinho do jogo profissional ficava bastante satisfeita. Ora, montar um texto teatral e apresentar em qualquer lugar é certamente empreitada fácil. No entanto montar um espetáculo dentro da linha de atuação do Máschara, enfrentar seu público, acostumado com grandes trabalhos e com olhar crítico é no mínimo assustador. Fiquei me pondo no lugar daqueles jovens, e um frio me percorreu a espinha. Há ainda  o alto grau de exigência de Cléber Lorenzoni, que para alguns deve soar como tirano, para outros como perfeccionista. Sem esquecer do corpo de anciãos, que nos bastidores vão analisando e dissecando cada aluno da ESMATE com potencial para ser ator da Cia.
                                           No elenco além de Casagrande, Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Alessandra Souza, Evaldo Goulart, Laura Hoover, Clara Devi e Stalin Ciotti, todos com estilos próprios. Os quatro últimos, claro, ainda precisam aprimorar muito suas técnicas, descobrir suas "cartas na manga". Sem desfazer dos pequenos iniciantes, é lindo ver o poder dos atores maduros. Quando adentram o palco há um silencioso respeito por eles. Tem a ver com carreira, com dedicação e entrega. Isso vem com o tempo. Cléber Lorenzoni tem o público na mão. Dulce Jorge, como em toda a comédia de época traz a solução exagerada de todo o drama, e estava tão linda na cena. Alessandra Souza roubou a cena, com eloquência, aproveitou cada piada e acresceu ritmo adequado às cenas. 
                                          Devemos ser agradecidos aos atores mais maduros que passeiam pelo palco auxiliando os mais jovens. Fabio Novello ao que me consta, deu de presente uma galharufa À Laura Hoover, poucos minutos antes de entrar em cena. Um palhaço adulto (no sentido mais rico da palavra) que dá carinhosamente uma piada funcional à jovem atriz. E aquela pequena piada somada ao talento da atriz arrancou gargalhadas. 
                                   Evaldo Goulart foi muito divertido, sofreu, lutou para chegar a essa composição, mas seu Boa Morte foi engraçadíssimo. Ele é um ator que tem historia própria, e as vezes parece se negar a mergulhar da forma que a velha guarda do Máschara precisa, se souber aceitar conselhos e se deixar dirigir vai ser cada vez mais poderoso sobre o palco. Ele me pareceu um pouco responsável pelo bom trabalho da iniciante Ellen Faccin, que em Lendas(2018) não se destacava tanto entre outras lavadeiras, aqui sim ela destacou-se e de forma tão graciosa. Ambos jogaram muito, dividiram muito. Os membros superiores poderiam talvez fluir de forma mais orgânica. Ela e Stalin Ciotti  na verdade podiam fluir mais, fisicamente, já que sua atuação, voz e energia eram incríveis. Eu demorei para reconhecer a jovem Laura Heger, como não há programas, recorri ao aparelho telefônico ainda durante o prólogo, para reler os nomes do elenco. Sim, a criada, o papel mais importante da alta comédia foi dado à essa jovem promissora. A garota fez coisas incríveis no palco e conseguiu igualar-se à outras duas grandes do Máschara, Dulce Jorge e Simoni De Dordi, respectivamente Caroba e Dorina. O jogo, o ritmo, o domínio do palco. Obrigado Laura Heger por nos divertir tanto. 
                                               O Senhor Argan tinha ao seu redor, Beraldo, Toninha e Angelica praticamente o tempo todo, o que causava um equilíbrio de luxo. Era a maturidade cênica com a profusão de ritmo e corpo. Nicholas Miranda roubou a cena. Sua potencia vocal, sua leveza, que jovem atore é esse? Parece que a direção encontrou um bom lugar para ele, o que não apareceu em Lendas(2018). Clara Devi é outra potencia. Foi se espalhando, se esparramando aos poucos no Máschara. As cenas de Frosina são as mais ricas em armações e vilanias, a atriz faz um bom trabalho, mas afobou-se um pouco e pôs em risco muitas de suas piadas. O palco é poderoso, forma deuses e derruba poderosos. Há dias e dias. Dias de sucesso e dias de fracassos. O mais bonito de ver é a luta. Clara Devi lutou em cena. Pelo brilho, pelo poder. Pelo seu lugar ao sol. Eu daria uma dica, diria a ela para curtir mais, relaxar mais. No conjunto de filhas, Maria Antonia Silveira Netto e Luisa Nicolodi estavam lindas. Eu adoro crianças então acho que me deixei levar pelo olhar mimoso de Elisa. Maria Antonia nasceu para o palco, ela se esparrama perante a platéia e tem uma simpatia cênica incrível. Algumas propostas da personagem não chegaram. Me perguntei: Seria ela uma bailarina? Para encerrar ela poderia ter chorado muito, de felicidade talvez. Enfim, gosto de atores que sabem o que fazem, que recebem desafios da direção e  tentam descobri-lo, vencê-lo. De toda a forma, Maria Antonia lutou também para construir algo que ficou muito bonito e funcional. Luísa é jovem,me parece que sua primeira vez no palco, ainda tem muito que percorrer, mas está no caminho certo, precisa sempre lembrar que teatro é coisa seria. Que teatro exige sacrifícios. Mas certamente essas percepções virão com o tempo.
                                                 Gabriel Giacomini e Kauane Silva cuidaram da parte técnica e não desejo à ninguém manusear luz e trilha posicionado ao lado da cena. São coisas do palco. São entraves que pdoem colocar tudo em risco, mas ambos se solucionaram. Apenas não gostei de enxerga-los durante todo o espetáculo.
                                                        Teatro é vida, pois emana de nós para nós. Teatro é vida, nossa vida, nós mesmos vencendo os nossos desafios. E nossos sucessos e fracassos são reflexos das pessoas que somos, da criação que tivemos, do ambiente em que vivemos. O sucesso no palco somos nós vencendo a nós mesmos. Evoluindo. Crescendo. Florescendo. Alguns de nós não nascemos para dedicar uma vida ao palco. Mas todos devemos respeitá-lo já que o teatro coloca sobre o palco um espelho da plateia. Mentira, amor, dissimulação, ódio, honradez, sabedoria, desejo, volúpia, frustração... Tudo está no palco. Tudo está na vida.
                                                         Um degrau a mais foi vencido no domingo. Alguns vieram para ficar, outros estão de passagem. Uns acertaram, outros nem tanto. Haverá outros dias para acertar. Sigamos com a arte. 


                                                  o Melhor: o lindo trabalho de equipe que criou um inesquecível trabalho técnico de Farsa e a dedicação de Clara Devi que tem se dedicado tanto em todos os setores. (vide cadeira)
                                                        o pior: o nervosismo que atrapalhou alguns atores e o cenário um tanto atrapalhado.


                         A RAINHA