quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Glorinha e Mario em uma praça qualquer...


Esconderijos do Tempo 80- Nova Bassano /667

...E eu que atuei em uma caixinha de sapatos...

                Quando me informaram que os espetáculos do Grupo Máschara em Nova Bassano, seriam apresentados no Ginásio da Escola 15 de Novembro, fiquei no mínimo curiosa, iriam encarar o desafio de apresentar Esconderijos do Tempo no chão? Em uma quadra, como nos idos de 2006? Ou será que Ed Mort, um espetáculo com sete atores em cena, iria ser apresentado em um palco com pouco mais de quatro por seis. Uma caixa de sapatos. Ironias quintanas à parte, caso Esconderijos fosse apresentado no chão, sem cenário ou  sem iluminação, promoveria sim o "acontecimento teatral", envolveria provavelmente o público com trama tão eloquente. No entanto, o espetáculo concebido por Cléber Lorenzoni, não mais estaria ali. É preciso saber compreender o que é concepção, o que alguns chamam de perfumaria, mas que dentro do entendimento da semiótica teatral, forma com um todo o "Espetáculo". Ora, a platéia não irá ter a mesma compreensão da proposta sem levar em conta todas as esferas do trabalho. A luz, o conjunto de cores, escuro-claro. As músicas, o cenário, a limpeza, ou sujeira organizada. Enfim o visual do trabalho, a forma como ele é colocado para nós (público) traz uma mensagem silenciosa, que certamente no chão do ginásio, sem cenário, logicamente não traria o mesmo efeito.
                        Os atores adentraram o palco às 20 hs e 14 min, para uma assistência de mais de trezentas pessoas. O espetáculo ficou mais condensado, não havia muito espaço e por tanto a narrativa acelerou-se um pouco, sem perder ainda assim seu mote. Cléber Lorenzoni I. começou repleto de energia, com a empostação que o ator deve ter, coluna rija, músculos das costas tencionados, ao mesmo tempo com a silhueta alongada para a partitura do Mario jovem. Optaram por não usar os microfones auriculares, o que quase foi um risco. O rosto do intérprete ficou excessivamente pálido, o que destoa um pouco do cuidado plástico. La Peres falou um pouco baixo, carece de mais técnica, força na caixa. Ambos triangulam muito bem juntos, e a cena vai crescendo visivelmente, o que atrapalha um pouco é a ansiedade de Fernanda C que não respeita a fala da platéia. O texto precisa ir em direção a quarta parede e voltar como resposta, seja em forma de silêncio, ou em forma de riso, ou em forma de vaia. Mas o ator no palco precisa dar esse tempo. Por outro lado preciso dizer que me orgulho em perceber que nasceu a terceira Glorinha. Tivemos a Glorinha lirica de Daiane Albuquerque (St.III 2002/2006), e a Glorinha vigorosa de Angelica Ertel (St.II 2006/2012), Agora parece ter surgido uma Glorinha tresloucada que combina muito com a juventude que a cena pede, com a cena de brincadeira poética que o espetáculo propõe. Atrizes diferentes, Glorinhas diferentes, o que é ótimo.
                           Souza também está inteira em Lili, e embora corra atrás de uma "Musa" que se eternize, há ainda uma falta de apuro nos detalhes. Por exemplo quando Lorenzoni ergue a mão ao som de Jivago e acena para a morte em resposta ao aceno recebido, Alessandra + já desviou o olhar para o lampião e o jogo não acontece. E precisa acontecer, é quando o menino percebe que a morte o acompanhará pela vida inteira, é quando ele aceita a dor da existência em sua vida e destaca-se de todas as outras pessoas. Alessandra Souza precisa aprender a ter menos controle sobre as ações, é daí que nasce a "alma" em cena.
                               Quase no meio do espetáculo, desprende-se do céu uma intensa queda d'águas, o teto de zinco do ginásio rapidamente respondeu com poluição sonora tal que praticamente ceifou o som vindo do palco. "Benzadeus não tivemos queda de luz". Eis um velho ditado das tias que cruzavam os corredores fazendo ranger as tábuas das casas velhas que Mario tanto apreciava. Cléber Lorenzoni e Fabio Novello  + simplesmente quebraram definitivamente a quarta parede e chegaram a trazer objetos de fora de cena para o palco, dois microfones de mão. O interessante foi a calma e a simplicidade que a ação foi feita, de uma forma tão cautelosa que não atrapalhou em nada o andamento. Logicamente não é o tipo de ação positiva para um espetáculo tão formal e não digo que tenha sido um gesto correto, enquanto público me incomodou ver as personagens se descolarem da pintura (cenário) e virem ao vale dos mortais buscar dois apetrechos que não combinavam em nada com a plástica. Mas foi no mínimo corajoso permitir-se solucionar algo.
                                Fabio Novello pega o público pela comicidade, mérito seu e da cena. As vezes precisa tomar mais cuidado com a formalidade da marca, ela triangula legal pelo palco e deve estar a serviço do ator. A marca propõe distancias, proximidades, aconchegos e separações que auxiliam na semiótica da informação. O soneto foi muito prejudicado pela chuva, e falta o ator encontrar o paradoxo do rápido/lento naquele momento. Existe uma linha de narrativa que vai se esticando até que na ultima frase do soneto a platéia não mais recorda a primeira. Aí precisa ser revisto. Casagrande + e Jorge optaram por torcer o nariz para o microfone. Ok, escolha corajosa, mas perigosa em meio a intempérie. Casagrande segue um pouco viciado na fórmula. Existe aí um paradoxo obscuro, o ator tem talento para muito, mas a personagem exige pouco. Ou não? na cena em que Malaquias traz a bengala, poderia nos deixar claro qual sua emoção para com o velho homem a sua frente. Dulce Jorge + é uma atriz para grandes papéis, para Tchekhov ou Ibsen, a cena final de Esconderijos do Tempo quase sempre é prejudicada ou pelo aceleramento que a direção propõe ou pela necessidade de vencer o tempo quase sempre curto em feiras de livros.
                                  Não foi das melhores encenações do espetáculo e a sonoplastia de Evaldo Goullart +, embora muito bem operada, trabalhou contra o elenco já que não havia retorno. Um interessante tópico. Os sonorizadores em eventos no interior, sempre tão empafiósos  com sua sabedoria de garagem, dizendo o que pode ou não ser feito aos meros mortais seres que os cercam, quase sempre estragam os eventos que estão inseridos. Promovem verdadeiras poluições sonoras, achando que decibéis altíssimos são exemplo de profissionalismo. A volta dos palcos uma infinidade de caixas sonoras, e no palco nem um único retorno para o artista. Nada sabem de som para teatro, nada sabem de luz para teatro. Se dizem sim profissionais... Ora, para mim e para muitos, ouso dizer, profissionalismo não é saber tudo sobre sua área, mas ser humilde para aprender as necessidades dos artistas que fazem uso de sua maquinaría.

Vida longa ao teatro...


                                     Arte é vida, teatro é alma.



A Rainha