quinta-feira, 8 de novembro de 2018

830 - O Santo e a Porca -(tomo 13)

Noite de estreias e amadurecimentos...

                      Quando contrato os serviços de algum trabalhador autônimo, costureira, doceira, marceneiro, etc... Sempre pago exatamente o que o trabalhador cobra, clara mediante prévio acordo. Vejo outras pessoas comentarem: -Nossa! Como essa costureira cobra caro. - Ou: - Que absurdo cem reais um cento de salgado...A questão é que quem contrata os serviços desses profissionais raramente para para analisar, que está contratando além do material, a mão de obra, ou como se dizia em meu tempo de escola, a "mais valia". Está contratando um reconhecido trabalho que levou anos para ser aprimorado. Está esquecendo que no valor vem incluído o nome, que equivale a uma marca, que precisou ser estabelecido. Esquece que aquele profissional autônomo é um diferencial, que ele luta quase sempre com muito sacrifício para se manter como profissional liberal, e que se eu não fizer minha parte, pagando talvez um pouquinho mais, nossa sociedade poderá perdê-lo. Quando uma cidade, uma secretaria contrata um grupo de teatro, esquece de tudo isso, esquece que não está pagando uma peça que foi ensaiada um dia antes, com atores que surgiram um dia antes. Contrata na verdade, no caso do Máschara, vinte e tantos anos de luta, de batalha, de trincheiramento. Contrata estudo, anos de estudo. Contrata busca de tecidos, criatividade. Enfim, um caminhão de questões estão embutidas. O que você vê no palco é reflexo de muita historia, de uma longa trajetória para chegar até o palco.
                              Na noite da última terça-feira, o Máschara levou ao palco de Catuípe, cidade onde já estivera com O Incidente (2005) Esconderijos do Tempo (2006) Tartufo (2007) e Olhai os Lírios do CAmpo (2017). No espaço não muito adequado para espetáculos teatrais o Máschara esparramou sua caravana. Cenários erguidos sob o olhar severo de Cléber Lorenzoni e figurinos distribuídos sob a fiscalização de Renato Casagrande. Aliás Cléber tem feito distribuições alternadas de seus contra-regras para descobrir capacidades, para desenvolver personalidades cênicas. Percebe-se aí muitas coisas. Devi por exemplo se esmera, se divide em mil braços para cumprir funções. Ela faz algo que admiro muito, ela pensa o que precisarão dela antes de as pessoas pedirem. Silva por exemplo é mais discreta, sutil nas ações, mas silenciosamente observa e resolve situações. Ciotti precisa atuar mais, solucionar mais, destacar-se. A trilha de Gabriel Giacomini é  eficaz, mas em alguns momentos poderia ser mais pontual, perde-se ali algumas piadas, ou seja ela está apenas sublinhando. A não ser nas cenas de Eudoro, ali percebe-se uma tentativa de criar gags sonoras. Fábio Novello não pode mostrar suas capacidades brilhantes de iluminador, mas como sempre é um grande braço direito do Máschara. 
                                O cenário foi muito bem distribuído e ainda que apertados sobre o palco, o espetáculo não perde nesse sentido. Outro grande mérito do Máschara, coxias, cenários, acabamentos, quase uma caixa preta erguida. A platéia, depois de uma premiação demorada de uma hora e meia, estava exausta na hora de assistir O Santo e a Porca. O texto de Suassuna é incrível, divertido, e de longe percebemos aqui as mesmas características de penetração crítica às fraquezas humanas que o autor já demonstrara anteriormente em textos como o Auto da Compadecida. Claro que naquele, há uma disciplina maior de idéias, no sentido por exemplo da condenação de vícios e etc... Não há é claro em nenhuma de suas peças moralizações desnecessárias, no entanto aconteceu por exemplo que lá na compadecida aconteceu um equilíbrio exato entre forma e conteúdo. Sendo assim alguns chatos de carteirinha, que só assistiram, nem sequer leram, O autor, parecem querer julgar toda a obra de Suassuna por aquele trabalho.  Em O santo, o autor parece ter sido traído por sua genialidade inventiva, assim me parece que os verdadeiros objetivos ficam diluídos ou perdidos na exuberância de incidentes e na prodigalidade de formas variantes de uma mesma ideia nas falas. 
                                          A habilidade do autor mantém-se através de gênero nada fácil que é a farsa. Ela de forma bem colocada prende o espectador, e quando esse se percebe enrolado pela trama, não quer desprender-se até a exata solução. Eis aí o mérito do autor, do diretor e da atriz principal, Dulce Jorge que com assistência de seu Dodó-Pinhão consegue nos enredar. Cléber Lorenzoni é um diretor maduro e ao mesmo tempo jovem, quando o comparamos com os diretores de sua época. Uma época em que há menos apelo aos clássicos, menos estudo, menos apuro. Cléber Lorenzoni criou um estilo de direção que sobressai-se, cativa e surpreende. O Santo e a Porca é romântico, rítmico e apaixona a todos. 
                                         Dulce Jorge é uma grande atriz, e a reverencio novamente, corre de um lado para o outro, mantém volumes, mantém a cena intensa e vivaz. 
                                          Foi noite também de muito orgulho ao ver Alessandra Souza e LAura Hoover em novos papéis. A primeira divertida, transformada, forte. Uma grande atriz. Aliás nos dois últimos anos Souza alcançou um novo patamar como interprete. Sua percepção de Benona e sua presença cênica, fizeram o público apreciar muito seu trabalho e por conseguinte a dupla com Ricardo Fenner. Até mesmo o coronel Eudoro ficou mais agradável com a mudança de par. 
                                        O elenco maduro e coeso de O santo e a Porca, praticamente todo composto pela velha guarda do Máschara preenche o palco com maturidade e responsabilidade, ainda assim percebi em seu Eurico uma preocupação, como conheço muito bem o diretor, analiso como tensão ao ver suas crias. Cléber Lorenzoni dirige muito durante o espetáculo e isso o prejudica e as vezes prejudica também o elenco. Precisa lembrar que no dia faz-se o que dá! A hora de estudos já acabou. Sobre o palco o reflexo de um trabalho. Lorenzoni parecia querer sair logo de cena, não estava inteiro.
                                        Laura Hoover foi um doce achado. claro que para quem acompanha o trabalho há tempos, ou tem o costume de ir ao teatro, percebia-se que Laura era estreante. Mas ela está calcando um bom caminho. Espero que haja novas apresentações logo do espetáculo, para que a atriz possa praticar, melhorar, crescer. O contraponto com sua Glorinha é percebível. Mais uma vez um trabalho de equipe. A direção de Cléber, a partitura bem pontuada de Alessandra Souza e a disponibilidade da própria Laura Hoover.
                                           Para o público foi uma noite de diversão. Para mim uma noite de reflexão e para o Máschara uma noite de estudo. 
                                          Noite de bom teatro. Alguns pequenos erros aqui e ali, poucos equívocos. Muita luta, disputa pela atenção do público. Cortes, jogo, estratégias. Noite de bom teatro.

                                            Arte é vida!




                                         O melhor: O talento e a maturidade dos anciãos do Máschara
                                     O pior: O local perigoso, despreparado e sujo onde os atores se apresentaram.
                                          

Rainha

Stalin Ciotti- (**)
Clara Devi (**)
Kauane Silva (**)
Gabriel Giacomini (**)
Laura Hoover (**)