sábado, 3 de abril de 2010

Diário de Bordo III - O Castelo Encantado em Capão da Canoa

Torre de Babel

"E Ninrode decidiu construir uma torre tão alta que chegasse aos céus. Mas o senhor se enfureceu e fez com que cada homem falasse uma lingua diferente..." Mas se os homens tivesses se olhado nos olhos e por algum momento a corrente chamada jogo tivesse se estabelecido, Babilônia não teria sido um dilema.
E a confusão foi avassaladora. Havia microfones, mas eles estavam assonoros, havia cenário mas ele não se movimentava, havia adereços, mas não estavam coesos; havia sonoridade, mas faltava musicalidade; Nesse dia não estou certa de que houvessem atores, faltavam com certeza personagens e todos se movimentavam quais baratas zonzas.
Há de se perguntar, tenho capacidade para fazer o que me cabe? E mais o desafio não está exatamente em alcançar o que me pedem para fazer?
Da beira do palco o que se percebia era a falta extrema de ensaios, e todo o bom ator sabe que o lugar do teatro é o ensaio, que é lá na concentração diária, na repetição metódica que nasce a beleza que será depois mostrada no palco.
O Remake de O Castelo Encantado fala da obra infantil de Erico Verissimo, e há algo de mágico em cada personagem, em cada cena... Mérito da direção do Máschara, que sempre agrega muita emoção e sensibilidade aos seus espetáculos. No entanto, a ação deste dia era afoita, ríspida, imediativa demais. Se alguem tinha medo de comparar O Castelo Encantado à Lili Inventa o Mundo, pode ficar descançado, os "palhacinhos" de Lili Inventa o Mundo povoam espaço bem distante No imaginário das crianças.
Mas estréias são cheias de perscalços, o que me assusta é ver que há crianças na cena. Aliás a "belle époque" povoa demais o Grupo Máschara atualmente. O que deve ser buscado nos ensaios é o amadurecimento. O saber ouvir, o retrucar menos, o deixar-se tocar pela sutileza e delicadeza dos integrantes mais antigos. Teatro é uma sabedoria que vem com o tempo.
Teatro, como a dança e outras expressões que formam as Artes Cênicas, é a arte do corpo. Da psicomotricidade, da versatilidade dos músculos.
O Teatro está em todo nosso corpo, está onde passa nosso alimento, nosso prazer, nossa dor e nossos dejetos. Será por isso que teimamos que ele deve ser sentido em todo o corpo?
Teatro é uma fogueira que queima por dentro, teatro é a gangrena humana...
Mas se não compreendemos nosso corpo, se não temos controle sobre o que sai dele para esparramar-se pelos figurinos e pelo palco, então como dominaremos a cena  e o público?
Para a intérprete de "Rafael", existe algo  chamado convenção, e essa convenção deveria estar presente no epílogo...
Para o intérprete de "Fernando", quando Stanislavski criou a quarta parede, imaginou que os atores fossem respeitá-la.
Para os atores mais antigos, atuar não é apenas queimar no centro do palco em sua furia, cheios de seu talento, mas ser generosos com os jovens atores.
Enfim, em Babilônia as pessoas falavam todas ao mesmo tempo, gesticulavam confusas, gritavam tentando se fazer compreender em uma cena absurdamente digna de uma farsa. Mas não havia graça, havia o desespero da perda de contato. O medo da estagnação. De ser uma ilha...
E vocês, sentem esse medo?


A Rainha