sábado, 13 de fevereiro de 2016

Os prêmios entregues pelo Máschara aos melhores do ano em 2015


Literatura Indicada

Esse livro é bem básico, mas bem útil para quem pretende dar oficinas ou aula de teatro, e seu prefácio é muito interessante para qualquer pessoa da área.

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     PREFÁCIO 


                                      O teatro como pedagogia de vida

                                   Este livro de Vic Vieira Granero vem preencher uma indesculpável lacuna em nossa literatura pedagógica. Ele mostra como a representação teatral constitui um instrumento indispensável na educação de crianças e jovens para a vida, em sua plenitude de sentidos. 
                                 Com efeito, a vida humana é, essencialmente, uma representação, vale dizer, uma duplicação: toda pessoa, pela sua própria natureza, apresenta-se no mundo como um personagem. O que cada um de nós é, para os outros, nunca coincide com o que somos para nós mesmos. 
                                  Daí decorre a dupla importância pedagógica do teatro: para cada um de nós, pessoalmente, e para a vida social, como organização da convivência humana. 
                                      Na verdade, o ator teatral tem possibilidade de se conhecer, mais e melhor, do que o não ator. São frequentes os casos de pessoas tímidas e retraídas, que manifestam no palco uma segurança e uma desenvoltura invulgares; pois é só como personagens que elas podem exprimir desembaraçadamente seus sentimentos e juízos de valor. Nessa expressão de valores e sentimentos, elas passam a enxergar de modo reflexo o seu ego, com mais nitidez do que no divã do psicanalista.                                         Para a vida social, da mesma forma, a função pedagógica do teatro é inegável. Foi o que sucedeu – para ficarmos só com dois exemplos históricos – na Grécia clássica e na Idade Média.  
                               Enquanto nos poemas homéricos os personagens eram apresentados como modelos ideais de conduta, a partir do século v a.C. (o 8 “século de Péricles”) as peças teatrais passaram a realçar as contradições e fraquezas do ser humano. As comédias de Aristófanes constituíram momentos decisivos de crítica dos costumes e da vida política. Quanto à tragédia, muitos séculos antes da psicanálise, ela representou a primeira introspecção nos subterrâneos da alma humana, povoados de paixões, sentimentos e emoções, de caráter irracional e incontrolável. O homem apareceu, assim, aos seus próprios olhos, como um problema, no sentido que a palavra tomou desde logo entre os geômetras gregos: um obstáculo à compreensão, uma dificuldade proposta à razão humana. 
                                 Para a explicação desse problema, os gregos foram, aos poucos, acrescentando ao saber mitológico tradicional o exercício de uma crítica racional. Essa transformação progressiva, do mito à explicação puramente terrena do ser humano, correspondeu, de certa forma, no campo da tragédia, à sucessão da tríade máxima dos autores: Ésquilo, Sófocles e Eurípides. 
                                  Na verdade, as representações teatrais na Atenas clássica, por ocasião das festas dionisíacas, eram autênticos serviços públicos, organizados pelas autoridades políticas com o concurso financeiro dos cidadãos mais abonados. Não havia atores profissionais; qualquer cidadão podia representar. No quadro de manifestações religiosas – o sacerdote de Dionísio tomava assento no centro do teatro, diante do altar do seu deus –, o teatro constituía uma forma institucional de educação popular, à qual todos tinham o dever cívico de comparecer. O preço dos assentos dos cidadãos mais pobres era pago com os recursos de um fundo público dos espetáculos (theoricon).                                        Igual função educativa exerceu o teatro religioso na Idade Média. 
                                Já a partir do século x, a par do culto litúrgico, iniciou-se, primeiro no interior das igrejas, depois no seu pátio externo e, em seguida, nas praças públicas, a representação de dramas religiosos, com a finalidade de incutir entre os fiéis, em geral analfabetos e pouco instruídos, o sentido sobrenatural das grandes festas, como a Páscoa da Ressurreição e o Natal. Para tanto, o idioma vernáculo substituiu o latim, e as vestes litúrgicas foram sendo aos poucos abandonadas, passando os atores a representar em trajes leigos. Ao final da Baixa Idade Média, tais representações teatrais eram feitas por guildas de atores profissionais, mas sempre com o mesmo intuito pedagógico. 
                       Convém assinalar hoje – e é a razão deste livro – a importância a ser dada à representação teatral como método privilegiado de educação escolar. 
                                Na França, por exemplo, no ano letivo de 2007-2008, para enfrentar o problema da indisciplina e da violência nas escolas, experimentou-se com êxito, em Paris e em duas cidades próximas, a técnica teatral. Os alunos, conforme suas atitudes pessoais, foram classificados em cinco tipos: medrosos, indiferentes, agressivos, vítimas e justiceiros. Cada criança ou adolescente foi obrigado a assumir, em rodízio, o papel de um desses personagens. Ao término do ano escolar, verificou-se que os alunos haviam adquirido um apreciável controle sobre as suas emoções e tendências; ou seja, eles passaram a se conhecer a si mesmos. Realizou-se, dessa forma, a grande finalidade de todo verdadeiro sistema educacional: preparar os educandos para a vida. 
                                 Por tudo isso, espero que este livro possa ter, em nossas escolas, a ampla difusão que ele merece.


 Fábio Konder Comparato 
Advogado e professor titular aposentado da Universidade de São Paulo
 Doutor honoris causa da Universidade de Coimbra


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