quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sobre a composição da personagem Mario Quintana

Pois é... Eu fui mario Quintana, e ele foi eu... Nós fomos um ao outro durante quase quatro anos.
Ele viveu há muito, mas cheio de minha existência, eu vivo agora, não sei até quando e repleto de sua passagem por aqui. Eu o encontrei quando pequeno, em Porto Alegre, no hotel Majestic, senhorzinho, baixinho, apoiado por uma bengala. Eu gurizinho, baixinho, apoiado pela mão de minha mãe.
Foi rápido, dei-lhe um beijo no rosto e sai puxado por minha mãe para longe daquele homem tão repleto de vidas...
Anos mais tarde, eu pude senti-lo em mim. Ainda não era sangue quintana quando pisei no palco na noite de estréia de Esconderijos do Tempo. Mas sim, já era a percepção d euma vida diferente e tão parecida em mim. "Isso ficou bonito", ambos escrevemos... "Moro em uma caixinha de sapatos", há tão pouco espaço para minhas complexidades... "Sou um pobre menino, acreditai..." Tão sozinho, tão carente, tão reservado... Que caminha de nariz empinado pela rua, mas que está tão de cabeça baixa... As Glorinhas em minha vida, são as Dulces... Todas elas: amante, companheira, "cigana", dama, e um dia direi verdadeiramente a ela: Ai de mim, tão cheio d etua ausência!!! A cada espetáculo Mario morria, e eu morria um pouquinho com ele. Eram nossas mãos cênicas, era meu vazio habitado pelo seu vazio. A Lili que o beijava, era a pequena criança dentro de mim beijando Mario la pelos idos da década de 80. Entrelaçamo-nos, choramos juntos, rimos juntos, desabafamos, exorcisamo-nos.
Desejamos a morte amiga, brincamos com ela.
"Não existe nada mais triste do que o grito de um trem no meio da noite..." Eramos nós gritando, ele no quarto do Magestic, eu no Palácio da Montanha, éramos nós, eu e Quintana, Cléber e Mario!!!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Em cena Cléber Lorenzoni e Alessandra Souza

Sobre O Incidente

Por Gabriel Wink   


                      A interpretação em O Incidente, peça do Grupo Teatral Máschara, inspirada na obra O Incidente em Antares, do escritor Erico Verissimo, é um exemplo do quão tenaz a construção corporal e visual auxilia e tem expressão indispensável para a eficácia do trabalho teatral.  Partindo da premissa de que os sete personagens centrais da narrativa estão mortos, o elenco desenvolve as ações usando algo próximo a descrição do autor. (...)vinham quais bonecos de engonço(...) Não há uma exata idéia de como deveria ser a postura de tais personagens, mas partindo de um imaginário sem fim, de criaturas cinematográficas, zumbis, mortos vivos, e outra infinidade de entidades pós-mortem, os atores compuseram figuras que preenchem o palco, causando na platéia a ilusão estética de que aqueles sete atores/personagens, estão realmente mortos.
                         Poderia dizer que os atores se contorcem e exprimem toda uma gama de escatologias, o resto quem faz é a mente do público.  Não poderia excluir do objeto artístico a porcentagem participativa da platéia.
                      Os mortos de Antares morreram de causas diferentes: derrame cerebral, infarto de miocárdio, tuberculose, envenenamento, seccionamento das veias dos pulsos, falência múltipla recorrente de tortura e rompimento de aneurisma. Ora, já é desmistificada a idéia errônea de que atores trabalhariam apenas mente e voz. O teatro moderno e contemporâneo, faz uso cada vez mais da linguagem corporal para dar vida a idéias artísticas das companhias. Cada ator trabalhou por tanto, sua construção corporal de acordo com a historia de sua personagem, incluindo aí status social, drama humano, experiências de vida, idade, etc...  Pesaram para os atores, o que era de se esperar, idéias tais como a postura prepotente e arrogante do advogado, a altivez da beata, a coluna ereta e elegante do maestro, a ginga da prostituta, o peso e a severidade do sapateiro anarco-sindicalista, a humildade e o desleixo do bêbado e ainda a revolta do jovem idealista. Tudo isso acresceu expressividade tanto facial quanto física. Leveza, peso, lentidão e agilidade foram pesadas para dar credibilidade a personagens que as vezes deveriam aparentar algumas décadas a mais de existência do que seus intérpretes.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Crítica de Esconderijos do Tempo no 44º Cena às 7

     
            O teatro cruzaltense é de tal forma versátil que atende aos mais variados assuntos que a população cultural possa imaginar. Seu repertório passeia entre comédias e dramas. Da farsa aos costumes, do melodrama a tragédia. Claro que ainda falta o Máschara embrenhar-se por muitos outros gêneros, mas enquanto isso não acontece vamos nos deleitando com os espetáculos que a Cia. nos apresenta aos domingos de Cena às 7. Esconderijos do Tempo subiu ao palco pela oitava vez no programa de teatro aos domingos e tinha no elenco Cléber Lorenzoni, Dulce Jorge, Angélica Ertel, Gabriel Wink, Alessandra Souza, Renato Casagrande e Tatiana Quadros. O espetáculo gira em torno da obra de Mario Quintana, mas principalmente das peculiaridades de seu olhar para com a solidão...          
                                                 O mais interessante é que Esconderijos do Tempo, fala o tempo inteiro do tempo, do seu peso, da sua continuidade cíclica. Do peso das horas. O espetáculo tem uma linha tênue, uma melancolia extrema que assusta um pouco e que as vezes pesa demais. Há poesia e muito bem pronunciada por sinal... E o senso poético está no cenário, nos ruídos, nos costumes e claro, nos silêncios. O espetáculo da uma aula de Mario Quintana, são detalhes ditos lentamente e que só os muito atentos percebem. Por exemplo o fato de que Mario nasceu no dia em que o cometa Halley passou pela terra; O fato de morar sozinho em um hotel na rua da praia; De falar em francês - aliás, traduziu Miss Dalloway  de Virginia Woolf. Enfim, um espetáculo que tem todos os motivos para ser assistido. Pois é uma aula de interpretação. O elenco é coeso, uniforme, e trabalha com técnicas diversas. Por exemplo: Como o espetáculo lida com o tempo, as três crianças que podem muito bem ser Mario e os irmãos Marieta e Miltom, na infância do Alegrete, como também podem ser Mario, Glorinha e Gouvarinho, (que aliás existiram mesmo, lá no Alegrete) vão envelhecendo no decorrer do espetáculo. Mas cada um de uma forma diferente. Cléber Lorenzoni que certamente mereceu três estrelas nessa apresentação, pois estava impecável (seu melhor trabalho) vai envelhecendo aos poucos, sem maquiagem, apenas alguns acessórios e muita interpretação. Angelica Ertel começa interpretando Glorinha jovem e depois é substituída por uma Dona Glorinha idosa concebida pela não menos dramática Dulce Jorge que merece o máximo de estrelas nessa apresentação. Enquanto que O Senhor Gouvarinho é apresentado por Gabriel Wink e envelhece com a ajuda da maquiagem e da interpretação obviamente. 
 As personagens espectrais, anjo e morte saíram da obra do poeta e compõe muito bem o espetáculo. As poesias que vão sendo ditas pelas personagens se correspondem e foram muito bem organizadas pela dupla Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni que roteirizaram o espetáculo. Alessandra Souza é Lili Inventa o Mundo e depois de muita dedicação dessa atriz, fiquei muito fascinado pelo seu trabalho nessa apresentação. Leveza, agilidade, versatilidade e  hibridismo com a personagem mais famosa de Mario Quintana. Merece claro, três estrelas. Esconderijos do tempo é um desses espetáculos que deve ser visto por todos e deve ser mantido pelo máximo de tempo possível. Pelo teatro e por Mario Quintana.


                           A Rainha