sábado, 20 de fevereiro de 2016

Fim de Jogo- Um processo

                    Que o teatro é mais necessário na vida dos atores do que para o público, não há duvida. O Ator, precisa do teatro, a ponto de adoecer caso seja impedido de praticá-lo. Por outro lado, há em meio a milhares de textos, aquele que cabe exatamente, se ajusta perfeitamente a cada ideia que se quer dizer. Mas como escolher sem conhecer o maior número de narrativas? Durante a oficina "Ideias modernas para um teatro", a direção do Grupo Máschara decidiu mergulhar em uma estética totalmente distante da realidade da Cia. O que foi maravilhoso, já que essa é a função mais esperada de uma boa Cia. teatral. Oferecer aos atores a opção de pesquisar-se, desafiar-se. Em meio à Boal, Brecht e Becket, surgiu a esquete "Fim de Jogo, um processo".
                         O teatro precisa ser vivo, ou corre o risco da estagnação do artista e portanto seu esmorecimento. Fim de Jogo é desconcertante, e desacomoda as tensões internas, seu texto lida com paradoxos como otimismo-pessimismo ou realismo-absurdo. Isso desencadeia as mais variadas reações, coloca o ator em seu estágio mais vivo, já que ele precisa perceber-se "ator-pensante-ator."
                             Cléber Lorenzoni criou um pseudo-texto, inspirado em Fim de Jogo, e os atores compuseram cenas para acrescer ao texto base. O que criou vida, foi uma intensa e audaciosa cena, repleta de indagações e pontos de reflexão. 
                           Com uma filosofia forte,Becket  construiu uma obra movida pelos impasses, em que a invenção formal, o abalo dos limites dos gêneros literários entre si e entre a literatura e outras artes (a narrativa televisiva ou radiofônica, o cinema e as artes visuais), o apreço pela economia de meios e o respeito pelo silêncio traduziram-se num percurso de continuidade e adensamento exemplares. Sendo assim, muitas são as leituras que podemos ter das situações em cena, mas elas nos ficarão mais claras se compreendermos o cenário do século XX. Para um ator que serve-se durante anos da jarra Stanilsavskiana, fica difícil adentrar tão rapidamente no jeito becktiano de compreender a vida. Mas levando em conta a cena vista no dia do encerramento da oficina, eu diria que em sua maioria a equipe conseguiu abrir um caminho em meio a obscuridade desse novo cenário. 
                           As quatro personagens originais Nag, Nell, Clov e Hamm, foram muito bem caracterizadas. Acredito que com a decisão de montar esse texto, certamente os quatro atores criariam e encontrariam muitos signos de interpretação icônicos. As maquiagens do elenco, casaram perfeitamente com o figurino composto por Cléber Lorenzoni, o que mostra a conexão entre a equipe da oficina.
                               Evaldo Goulart e Gabriel Giacomini não alcançara o timing dos outros, provavelmente por sua juventude excessiva e sua imaturidade cênica, algo que o tempo soluciona. A própria Alessandra Souza é uma atriz que levou muito tempo para alcançar uma maturidade que hoje em dia é  maravilhosa de se perceber.
                                   Douglas precisa ler mais, mergulhar mais no conhecimento das mais variadas formas de interpretação. Ser mais observador e atento, isso o tornará um encenador melhor. Renato Casagrande tem estalos criativos muito pertinentes. A seu Hamm faltou talvez maior compreensão da idade da personagem. Evaldo Goulart precisa de mais intensidade. E diferenciar a "loucura" interna da loucura estereotipa. A loucura mostrada de fora para dentro não comove plateias. A cena em que o filho recebe a perna da mãe, deveria ser muito mais intensa e é aí que Evaldo deve investir. Gabriel precisa de mais e mais exercícios, de postura, presença e energia. E Ricardo Fenner foi ótimo em seu Nag, talvez devesse fazer mais esse tio de personagens. Sempre que uma oficina acaba me entristeço, pois sei o quanto é difícil no mundo de hoje, conseguir reunir as pessoas e começar algo.




A Rainha

Nell e Nag juntos e separados