quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Maldição do Vale Negro -663/664 - Marau

                         O Melodrama é caracterizado pelo exagero das interpretações, o gênero que se espalhou durante o século XIX, foi aos poucos dando espaço ao teatro moderno e outras tantas vertentes da arte. O que nos restou do melodrama foram os textos escritos, e várias formas de tentar explicá-lo. Caio Fernando Abreu tentou fazer uma piada, uma brincadeira em cima do tema, o que causa uma certa confusão junto à atores principiantes. O melodrama enquanto gênero deve e precisa ser encarado com verdade, com fé cênica e com respeito. Sua relação com o público está, é verdade, ultrapassada, mas nem por isso jaz sob o manto do esquecimento. Floresce ainda nas novelas, em alguns filmes e pelos palcos de alguns ousados artistas. 
                            A platéia de Marau/RS foi surpreendida por A Maldição do Vale Negro, um texto ágil, repleto de revelações e momentos farsescos. Tecnicamente falando, o Máschara compilou aí várias linguagens criando uma obra exclusiva e difícil de ser "classificada". Há na peça, recursos do "besteirol", do "pastelão", da "farsa" e etc... Assim sendo, crianças e adultos conseguem se divertir, e prova disso foi o aplauso cheio de energia ao final das duas sessões do espetáculo.
                          Na 21º os atores estavam mais ágeis, rápidos como a farsa pede. CLÉBER LORENZONI parecia querer acelerar o espetáculo. Criou e improvisou muito. O que não se repetiu na segunda inserção, quando talvez tomado pelo cansaço, parecia pesado, lento... (***)(*)Algumas ideias acrescentaram muito, como o buquê de flores, os cortes precisos, e a piada final: "Você me adiciona no Facebook?" 
                               RICARDO FENNER não esteve muito bem na primeira seção, já na segunda sua cigana estava engraçadíssima, embora, por um problema de operação nos volumes dos microfones, tivemos o tom de voz de suas personagens, um pouco acima do que o necessário. Sendo, o intérprete de Jezebel parecia estar sempre agredindo seu texto. (**)(***)
                              RENATO CASAGRANDE tem um vocação para o palco, joga de forma muito agradável e divertida, mas as vezes não percebe o ritmo caindo ou a narrativa se arrastando. (***)(**) É preciso que um ator desenvolva seu cronômetro pessoal, que aprenda a sentir ritmos, energias, tempos... para que em situações complexas posso solucionar, controlar ou apurar um espetáculo no seu decorrer.
                                      A Maldição do Vale Negro foi apresentada em um palco grandioso, com uma iluminação razoável afinada por CLÉBER LORENZONI e ANGÉLICA ERTEL e operada por FÁBIO NOVELLO (**)(***).Que embora tenha assistido ao espetáculo apenas uma vez, conseguiu efetuar um bom trabalho. ALESSANDRA SOUZA atuou junto brilhantemente atras das cortinas, conseguindo sozinha arrumar os três atores em cena. (***)(**) EVALDO GOULLART tem se mostrado a cada dia mais esforçado, mais competente e cuidadoso com suas funções, o que é motivo de orgulho, afinal ele faz parte da nova geração e muito se espera dele para o futuro do Máschara. (***)(***)
                                     O Teatro do Máschara impera por sua versatilidade, consegue chegar ao público de forma facilitada ainda que sem subestimá-lo.  


                                      Teatro é um sacerdócio! Poucos são os vocacionados.


                                       A Rainha

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A Maldição do vale Negro, arrancando risos em Marau

Foto: Fabio Novello


Falávamos dos males que afligem vosso padrinho...

Vídeo de divulgação de O Santo e a Porca do Grupo Máschara


Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, oito anos de dedicação pela poesia de Mario Quintana


Esconderijos do Tempo 78/79 - Marau

                       "O teatro não é arte estagnada, o teatro não fica concentrado atrás da quarta parede; o teatro deve e precisa escorrer pelas tábuas do palco e envolver o público, entrar em sua mente, em sua derme e modificar o ser humano."
                       Na linda Casa de Cultura de Marau/RS, Esconderijos do Tempo penou para adaptar-se a um público praticamente infantil. Na apresentação da manhã, o público além de infantil, não parecia interessado em prestar atenção. Pelo contrário, internet e conversas paralelas ceifavam o silêncio que a Cia. tentava estabelecer. 
                        Em cena atores lutaram com seus microfones e sofreram por sua vontade de ser claros para os ouvintes. CLÉBER LORENZONI parecia desconcentrado, avoado em cena, tentando obviamente organizar o espetáculo, dirigi-lo em cena o que para o ator/diretor pode ser o fracasso. Algumas cenas foram extremamente monótonas, sem ritmo. FERNANDA PERES lutava para acompanhar as propostas mas algo seguia fora do prumo. Essa cena mais tarde, na segunda apresentação foi ao contrário vivaz, segura, pouco formal é verdade, mas não se pode ser formal com um público tão jovem e tão pouco acostumado a teatro. Enquanto vimos uma Glorinha confusa na primeira inserção, na segunda ela veio com um trabalho corporal digno, um texto muito melhor pronunciado e olhar brilhante. 
                         O teatro depende muito do estado de espirito do ator, alguns podem dizer que o ator precisa desligar-se de si mesmo para estar inteiro em cena. Mas aí questiono, será que não exatamente o estado de espirito do dia, que faz com que amemos tanto o teatro? Que o compare a um jogo de tabuleiro, onde cada dia é um novo embate. Onde os próprios  colegas de cena não sabem qual será o jogo do outro.
                                 ALESSANDRA SOUZA esteve inteira em cena, sua Lili cumpre-se cada vez melhor, no entanto não há um porquê especifico para a interprete da Musa e de Lili serem a mesma. A proposta pode até ser bonita, mas confunde o público. Uma vez na cena, tudo o que se vê em cena deve ter um sentido, real ou mesmo simbólico.
                                  A canção inicial foi prejudicada pelos microfones. já expliquei isso aos atores, e até mesmo a meus alunos; não basta enfiar um microfone na boca e achar que se está sendo audível. É preciso dominar o microfone, vencê-lo, usá-lo a seu favor. Todos cantando juntos no microfone causa um excesso de gritos e desafinações que enfeiam o começo de Esconderijos. o que não se repetiu na segunda inserção do espetáculo. É preciso sentir a canção inicial, interpretá-la. Perguntem-se o que ela fala de cada um dos personagens. CLÉBER LORENZONI tentou tornar tudo mais facilitado. Palmas para o cometa Halley somado a explicação de que cruzou o céu no dia em que Mario nasceu. O teatro não deve ser formal ou corre o risco de tornar-se obra morta, fria perante a platéia. FABIO NOVELLO preenche muito bem as necessidades cômicas do espetáculo, mas pode acrescentar mais efeito em seu soneto. DULCE JORGE teve a cena encurtada, nem por isso menos efetiva. Mas sua participação na apresentação da tarde foi memorável. EVALDO GOULLART aprimora a cada dia sua ação na técnica do espetáculo. RENATO CASAGRANDE tem se tornado muito mais plástico o que certamente orgulha a direção.
                                         Uma dica aos atores é lembrarem que por um lado, o que mais importa é a interpretação e não as "muletas", por outro lado não deixar de perceber o quanto a "perfumaria", deve estar bem afinada. A arte invade a platéia através de todos os sentidos. Mario Quintana foi oferecido em grandes taças, mas a platéia nem sempre está preparada para tanto e por isso bebe pequenos goles. Os atores não devem se revoltar, façamos nossa parte, o resto cabe ao público.
                                             O dia contou ainda, com a presença da atriz Angelica Ertel, em visita ao Grupo Teatral Máschara. Relembrando os tempos de Máschara ela operou a iluminação acrescendo muito ao espetáculo. Às 14 e 27 desta segunda feira, o Grupo Máschara recebeu uma calorosa ovação, não importa a idade ou o local, os atores da Cia. de Dulce Jorge e Cléber Lorenzoni sempre emocionam.


Cléber Lorenzoni (*) (**)
Fernanda Peres (*) (***)
Alessandra Souza (**)(**)
Fabio Novello (*) (**)
Dulce Jorge (**)(***)
Renato Casagrande (**)(**)
Evaldo Goullart (**)(**)

                                            A   Rainha

                       

Dez anos de O Incidente

O espetáculo O Incidente, inspirado na obra Incidente em Antares de Erico Verissimo, está prestes a completar 10 anos. Parabéns a todos os atores que levaram essa linda historia a todos os públicos. Que o teatro continue sempre em todos os lugares. 

Formação dos mortos.

1.Dr.Cícero 2.Quitéria Campolargo 3.Menandro Olinda 4.Erotildes 5.Barcelona 6.Pudim de Cachaça 7.João Paz 
2005
1Alexandre Dill 2
.Dulce Jorge 3.Cléber Lorenzoni 4.Lauanda Varone 5.Rafael Aranha 6.Cristiano Albuquerque 7.Gelton Quadros
2006
1. Cleber Lorenzoni 2.Miriam Kempfer 3.Gabriel Wink 4. Thaty Quadros 5.Nando Lara 6. Jhow D'mandynne 7.Gelton Quadros
2007
1.Gabriel Wink 2.Dulce Jorge 3.Cléber Lorenzoni 4.Thaty Quadros 5.Nando Lara 6.Jhow D.mandynne 7.Gelton Quadros
2008
1.Cléber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3.Jhow D.mandynne 4.Thaty Quadros 5.Nando Lara 6. Gabriel Wink 7. Renato Casagrande
2009
1.Cléber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3. Gabriel Wink 4.Thaty Quadros 5.Nando Lara 6.Renato Casagrande 7.Gelton Quadros
2010
1.Cléber Lorenzoni 2.Angelica Ertel 3.Gabriel Wink 4Alessandra Souza5.Ricardo Fenner 6.Diego Pedroso 7.Renato Casagrande
2011
1.Cléber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3. Gabriel Wink 4. Alessandra Souza 5.Ricardo Fenner 6.Cristiano Albuquerque 7.Renato Casagrande
2012
1.Cleber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3. Gabriel Wink 4. Alessandra Souza 5. Nando Lara 6.Cristiano Albuquerque 7.Renato Casagrande
2013
1.Cléber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3.Ricardo Fenner 4.Alessandra Souza 5.Diego Pedroso 6.Cristiano Albuquerque 7.Gelton Quadros
2014
1.Cléber Lorenzoni 2.Dulce Jorge 3. (?) 4.Alessandra Souza 5.Ricardo Fenner 6.Cristiano Albuquerque 7. Renato Casagrande 


Obrigado à todos que colocaram o teatro acima de tudo e fizeram seu melhor para contar essa historia e porque acreditam no teatro!

domingo, 20 de julho de 2014

Lista de elenco

 

Atores        Tempo     Status  

                         1- Dulce Jorge (Fundadora)  ---->
2- Giane Ries
3- Claudia
4- Diogo
5- Cezar Dors
6- Thire
7- Marli
8- Wilson
9- Nadia Régia (1992/1994) I
10- Eduardo Gonçalves (1992/1995) II
11- Janaína Peroti (1992/1996)
12- Dão Dill (1992/1995) III
13- Vera Porto (1992/1998) IV
14- Fernandra Strainbrenerr (1996)
15- Altiva Soares (1993/1997) IV  + 2009
16- Katiússia (1996)
17- Claudia Cavalheiro (
18- Odacir Pena (1996/1997) II
19- Carolina Monteiro (1996/1997) III
20- Evandro Silva (1992/1994) IV

                             21- Cléber Lorenzoni (membro remido) I A

22- Fábio Branco (1996)
23- Bibiana Monteiro (1996/1997) IV
24- Zenaide Perez (1996/1997) IV
25- João Paulo Perez (1996/1997) IV
26- Maiara
27- Paulo César Perez (1996/1997) IV
28- Alexandre Dill (1996/2006) I
29- Janiele Peroti (1996/1997) IV
30- Adriane Fiúza (1997/1998) IV
31- Adilson Sattes (1997) IV
32- Naiara (1996/1997) IV
33- Simone De Dordi (1997/2002) I --->
34- Luciano
35- Maria Amélia
36- Ariane Pedroti (1998/2003) III    
37- Fernanda Garrido (1998/2001) V
38- Cristiane (1999)
39- Leonardo Mattos (1999/2002) IV
40- Matheus da Rosa (1999) IV
41- Úrsula Macke (1999/2000) V
42- Guilherme Macke
43- Eduardo
44- Rosimere
45- Marcele Franco (1998/2010) III
          46- Fábio Novelo (2001) IV (2014_____)Honorário

47- Diego Barcellos (2001) IV

         48- Ricardo Fenner (2001/____) III A

49- Yanna Monge
50- Suzzete Siqueira

51- Cássius
52- Lauanda Varone (2002/2006) II
53- Pothira
54- Rafael Aranha (2003/2006) III
55- Daiane Albuquerque (2002/2006) III
56- Ana Paula (2002) V
57- Jorge Pittan (2002) IV
58- Guto Baugrathz (2002) V
59- Monique Vogel (2002/2003) IV
60-Luiz Fernando Lara (2002/2013)IV
61-Lilian Kempfer (2005) V
62- Cristiano Albuquerque (2002/2011) IV
63- Gelton Quadros (2005/2010 ) III
64- Kellen Padilha (2005/2007) II
65- Mirian Almeida (2005/2006) II
66- Ezequiel Mattos (2005)IV
    67- Tatiana Almeida (2005/2014) II Honorário
68- Fabiúla
69- Claudia
70- Gabriel Wink (2006/2012) III 
71- Marciele Benittes

72- Angélica Ertel (2006/___)II Honorário

73- Luiz Henrique Da Costa (2006/2008) IV
74- Jéssica Martins (2006/2007) V
75- Kauane Leite Linassi (2006/2007) IV


   76- Alessandra Souza (2008/____) II

77- Roberta Corrêa (2008/2010-2012/2013) III (2014)
  
78- Renato Casagrande (2008/____)II

79-Pamêla Canciani
80-Rodrigo Fabrício
81-Michele da Rosa
82-Diego Pedroso (2011)IV -
83-Lucas Padilha 
84-Newton Moraes (2011)IV
85-Gabriela Varone (2011/2013)IV
   
                

          86-Fernanda Peres (2011/____)III
  
               87-Evaldo Goulartt (2012/____)V

                88-Evandro Amorim (2014/____)V

64º Cena às 7


quarta-feira, 25 de junho de 2014

5ª Matinê do Máschara

Os Saltimbancos

               O dia em que o teatro desaparecer da face da terra, e espero que isso não aconteça, as pessoas possivelmente nem percebam, não sintam falta, não compreendam em um primeiro momento o quão ele faz falta. E diretamente realmente ele não faz falta, assim como os museus, as orquestras, e toda uma serie de ações artísticas que parecem privilégios de elites. Não parecem fazer diferença, mas foi a arte que contou através tempos a historia do mundo, as complexidades das nações e as emoções do homem. Não foi a historia que contou a existência do homem, mas sim a arte nas paredes das cavernas, no poder dos povos antigos em suas pirâmides. Foi a arte através das telas que representaram o homem e o olhar do homem sobre si mesmo. O Teatro é o braço direito da filosofia, é versão leiga da psicologia e as vezes seu principal mote. 
                  Em Cruz Alta, vou contar mais uma vez, o teatro foi sendo emparedado, e isso revolta artistas e amantes da arte. O teatro alcançou um espaço invejável, conquistou um bom público e repentinamente perdeu quase toda a sua batalha. Agora os atores cruzaltenses se espremem em espaços que tentam adequar a arte do mise en scene. 
                   Algum desconhecedor do trabalho do Máschara deve pensar em um primeiro momento que seu trabalho é muito amador, pois caiu por terra o trabalho de luz em um local onde não há urdimento ou maquinaria. O som passou a ser simplório, e mesmo o espaço da assistência é desconfortável e sem a agradável inclinação necessária para a visualização da cena. 
                   Os atores estavam alí, inteiros? Talvez. Intensos? Alguns. Verdadeiros? Todos. 
                    Os Saltimbancos é um espetáculo difícil, gessado, comprometido. Ou você é muito ousado e modifica extremamente algo que já tem uma longa historia, uma tradição mesmo, correndo o risco de comprometê-la. Ou você segue a proposta. O Máschara teve como objetivo principal compor quatro animais, o fez, cumpriu seu objetivo. Mas o teatro impõe ao ator objetivos novos a cada representação. Do contrário seria algo repetitivo, robótico, decorado. Seria circo e este definitivamente não aprecio. Sendo assim o espetáculo parece ter cumprido sua função inicial, mas está condenado a se repetir na mente dos atores. Ainda que com pequenos improvisos vivazes. O espetáculo peca no ritmo principalmente nas primeiras cenas, onde o mesmo é vital. Com a entrada dos outros animais parece corrigir-se. A historia é bonitinha, diverte, envolve principalmente nas rixas entre cão e gata. No entanto o conflito, base do teatro ocidental, foi prejudicado. Há claro os conflitos pequenos, paralelos, mas não se bastam. Da para perceber que algo importante foi suturado, e assim Os Saltimbancos acaba-se repentinamente. Ele envolve pois é feito com o cuidado típico dos trabalhos do Máschara, mas ainda é escravo das velhas formulas. É hora do Máschara buscar novas formulas. Os atores precisam disso para se auto conhecerem melhor.              
                    Os saltimbancos foram apresentados 22 vezes, cumpriram sua função corporal, acrescentaram versatilidade aos atores e principalmente, divertiram centenas de crianças. Mas aconselho ao Máschara algo novo, algo desafiador para seu atual momento. Algo que una e aproxime "TODO" seu elenco. 
                     Sentada na primeira fila da platéia, ouvia-se apenas a voz de um dos atores, depois uma variante de hora um, hora outro. Isso em um musical é fatídico!!!
                      O teatro é o grito de alegria, de torpor, de dor ou de ódio, que grito foi os saltimbancos? Que grito os atores de Cruz Alta querem gritar?

Alessandra Souza (**)
Cléber Lorenzoni (**)
Renato Casagrande (**)
Ricardo Fenner (**)
Evandro Amorim (***)
Fernanda Peres (**)
Evaldo Goullart (***)


                                                             A Rainha

terça-feira, 24 de junho de 2014

A ROUPA NOVA DO REI


Hans Christian Andersen
Versão livre:
Alfredo Braga


Era uma vez um Rei que apreciava de tal maneira roupas novas que despendia com elas grandes fortunas. Ele não se importava com as bibliotecas, com as escolas, ou com os museus, a não ser para exibir as suas roupas. Para cada hora do dia vestia uma diferente. Em vez de o povo dizer:Ele está em seu gabinete de trabalho, dizia: Ele está em frente ao espelho no seu quarto de vestir. Mesmo assim a vida cultural era muito movimentada naquele reino que postulava ser de primeiro mundo.
Um dia foram contratados, pela Fundação Cultural do Reino, vários curadores e artistas, e entre eles dois que se apresentavam como estilistas-tecelões e que se gabavam de costurar os mais belos trajes com os mais belos tecidos do mundo. Segundo eles, não só os padrões, as tramas e as cores dos modelos eram belíssimos, mas os tecidos fabricados por eles tinham a infalível virtude de ficarem completamente invisíveis para as pessoas dissimuladas, ou as incompetentes, ou as destituídas de inteligência.
— "Essas roupas com esses tecidos serão maravilhosas." — pensou o Rei — "Usando-as poderei descobrir quais pessoas são falsas, ou que não estão em condições de ocupar cargos, e então poderei substituí-las por outras... Mandarei que fabriquem muitas peças desse tecido para mim..."
Fez um adiantamento em moedas de ouro para que começassem a trabalhar imediatamente. Os estilistas então encomendaram uma grande quantidade de bobinas e carretéis dos mais caros fios de seda e fios de ouro (que escamotearam sorrateiramente e guardaram em seus baús enquanto simulavam trabalhar nos teares vazios) e começaram a tecer, mas nada havia na urdidura ou nas lançadeiras.
Depois de alguns dias, o Rei estava ansioso e andava de um lado para o outro enquanto procurava se distrair com algum casaco ou chapéu do qual ainda não estivesse muito enjoado, ou que ainda estivesse na moda.
— Eu quero saber como vai indo o trabalho dos tecelões. — dizia o Rei, mas andava vagamente pensativo e preocupado... Ele não tinha propriamente dúvidas sobre a sua honestidade e inteligência, mas achou melhor mandar outra pessoa ver o andamento do trabalho.
Todos na cidade também já tinham ouvido falar no poder maravilhoso do tecido, e cada um estava mais ansioso para saber quem era o mais falacioso e burro entre os seus vizinhos.
— "Mandarei o Primeiro Ministro observar o trabalho dos estilistas-tecelões; ele verá o tecido, pois é inteligente e desempenha as suas funções com perfeição." — cavilou o Rei.
Mandou chamar o Primeiro Ministro e ordenou que fosse ao salão (onde os dois charlatães simulavam trabalhar nos teares vazios) saber do tecido.
— "Deus me acuda!" — pensou o Primeiro Ministro, arregalando os olhos quando lhe mostraram o tear. — "Não consigo ver nada!" — no entanto teve o cuidado de não dizer isso em voz alta.
Os tecelões o convidaram a aproximar-se para verificar como o padrão da trama estava ficando bonito e apontavam para os teares. O pobre homem apertava a vista o mais que podia, tirava e punha os óculos, mas não conseguiu ver coisa alguma.
— "Céus!" — pensou ele — "Será possível que eu seja tão fingido e incompetente? Bem, ninguém deverá saber disto e não contarei a ninguém que não vi o tecido."
— Vossa Excelência nada disse sobre o tecido... — queixou-se um dos estilistas.
— Ah, sim. É muito bonito. É encantador! — respondeu o Primeiro Ministro, limpando os óculos com um lenço de cambraia de linho —O padrão é lindo e as cores são de muito bom gosto. Direi ao Rei que me agradou muito.
— Estamos encantados com a vossa opinião, Senhor Primeiro Ministro. — responderam os dois ao mesmo tempo, e iam descrevendo as cores e a trama especial daquele pano tão caro. O Primeiro Ministro prestou muita atenção a tudo o que diziam para poder depois repetir diante do Rei.
Os estilistas pediram mais dinheiro, mais seda e mais ouro para prosseguir com o trabalho e, como das outras vezes, puseram tudo em seus baús e continuaram fingindo que teciam.
Poucos dias depois o Rei enviou o Ministro da Cultura e das Artes para olhar o trabalho e saber quando ficaria pronto. Aconteceu-lhe como ao Primeiro Ministro: Olhou, olhou, tornou a olhar, mas só via os teares vazios.
— Não é lindo o tecido? — indagavam os tecelões, e davam-lhe as mais variadas explicações sobre a trama, o padrão, os brilhos, as cores.
— "Eu penso que não sou muito desonesto..." — refletiu o Ministro da Cultura e das Artes — "e nem estúpido... Se fosse assim, não teria chegado à altura do cargo que ocupo... Que coisa estranha!..."
Pôs-se então a elogiar as cores e o desenho, e mais tarde, não só como Ministro mas como Curador de exposições de artistas e fotógrafos, comunicou ao Rei:
— É um trabalho sublime... em seus aspectos de inconcretude material... hã... uma obra-prima em sua fundamentalidade semântica... e visualidade sígnica... hã... o imagético e o invisível se fundem num todo de... hã... expectativas estético-formais... neste simulacro crítico... se percebe a função... hã... as funções, semióticas... da transcendente imaterialidade da arte...
E já completamente tomado:
— Assim, neste procedimento referencial do não-objeto... hã... em sua virtual vacuidade... o deslocamento do olhar... em sua intensa... hã... re-significação... a obscurecer ao limite extremo... toda e qualquer possibilidade de reflexão perceptiva... hã... insere-se nesta vertiginosa... pós-modernidade... hã... Mas, por outro lado... o discurso estético... das poéticas da segunda metade do século XX ... hã...
O Rei teve de o interromper:
— Está bem, já compreendi.
A cidade inteira só falava nesse deslumbrante tecido, de modo que o Rei resolveu vê-lo enquanto estava nos teares. Acompanhado por um grupo de cortesãos e cortesãs, entre os quais os Ministros que já tinham ido ver o prodigioso pano, e curadores e artistas convidados, lá foi ele visitar os ardilosos tecelões. Eles estavam trabalhando mais do que nunca nos teares vazios.
— Veja, Vossa Alteza Real, que delicadeza de desenho! Que combinação de cores! — balbuciavam os altos funcionários do Rei enquanto apontavam para os teares vazios e os curadores desenvolviam os seus discursos. — Ofuscante... Estonteante... — suspiravam as cortesãs.
O Rei, que nada via, preocupado pensou: — "Serei eu o único cretino e não estarei em condições de ser o Rei? Nada pior do que isto poderia me acontecer!" — então, em alto e bom tom, declarou:
— Muito bom! Realmente merece a minha aprovação!
Por nada deste mundo ia confessar que não tinha visto coisa alguma. Todos aqueles que o acompanhavam também não conseguiam ver o tecido, mas exclamavam em prolongados murmúrios:
— Oh! Deslumbrante... Magnífico... — e aconselharam ao Rei que usasse a roupa nova por ocasião da parada anual que ia se realizar daí a alguns dias. O Rei até concedeu a cada tecelão-estilista a famosa Comenda das Artes e o nobre título de Cavaleiro Estilista-Tecelão.
Na noite que precedeu o desfile, os charlatães tecelões fizeram serão. Iam acendendo todas as lâmpadas do atelier para que todos pensassem que estavam trabalhando à noite para aprontar os trajes do Rei. Fingiam tirar o tecido dos teares, cortavam a roupa no ar com um par de tesouras muito grandes e coseram-na com agulhas sem linha. Na manhã do dia seguinte disseram:
— Agora, a roupa do Rei está pronta.
Sua Majestade, acompanhado dos cortesãos, veio provar a roupa nova. Os estilistas embusteiros fingiam segurar alguma coisa e diziam:
— Aqui estão as calças, aqui está o casaco e aqui o manto. Estão leves como teias de aranhas; até parece que não há nada cobrindo o Rei, mas aí é que está a rara e fina qualidade deste modelo e deste tecido.
— Sim! — concordaram todos, embora nada estivessem vendo.
— Poderia Vossa Majestade despir-se? — pediram os impostores. — Assim poderemos vestir-lhe a roupa nova.
O Rei despiu-se e eles fingiram vestir-lhe peça por peça. Sua Alteza Real virava-se para lá e para cá, olhando-se ao espelho (vendo sempre a redonda imagem de seu corpo nu).
— Oh! Como lhe assentou bem o novo traje, Alteza! Que lindas cores! Que bonito padrão! — diziam todos com medo de caírem no ridículo e perderem os altos cargos se descobrissem que não viam nada. Entretanto o Mestre de Cerimônias anunciou:
— A carruagem está esperando para conduzir Vossa Majestade.
— Estou quase pronto. — respondeu o Rei.
Mais uma vez virou-se solenemente em frente ao espelho, com o rosto erguido sobre o ombro, numa atitude de quem está mesmo apreciando alguma coisa.
Os pagens que iam segurar a cauda do manto, inclinaram-se como se fossem levantá-la e foram caminhando com as mãos à frente, sem dar a perceber que não estavam vendo roupa alguma. Durante o desfile o Rei ia caminhando cheio de pompa à frente da carruagem. O povo nas calçadas e nas janelas, também não querendo passar por tolo, ou mentiroso, exclamava:
— Que caimento tem a roupa do Rei! Que manto majestoso! E que brilhante tecido!
Nenhuma roupa do Rei jamais recebera tantos elogios! Entretanto um menino que estava entre a multidão, achou aquilo tudo muito estranho e disse:
— Coitado do Rei... Está nu!
Os homens e as mulheres do povo, conhecendo que o menino não era nem falso e nem tolo, começaram a murmurar... e logo a seguir, como numa onda, em altos brados repetiam:
— O Rei está nu! O Rei está nu!
O Rei, ao ouvir aquelas vozes do povo, ficou furioso por estar tão ridículo! O desfile entretanto devia prosseguir, de modo que se manteve imperturbável e os pagens continuavam a segurar-lhe a cauda invisível.
Depois que tudo terminou ele voltou ao Castelo Real de onde nunca mais pretendia sair. Mas, como sempre acontece, uma semana depois o povo já havia esquecido o escândalo, e os funcionários do reino seguiam como se nada houvesse acontecido: Os cargos continuavam a ser distribuidos entre as mesmas duas ou três famílias e seus agregados; os impostos sonegados; o desvio de verbas continuava em alta, enfim, tudo voltou ao normal.
Quanto aos dois estilistas-tecelões, desapareceram misteriosamente levando o dinheiro, os fios de seda e o ouro. Meses depois um viajante contou que eles haviam pregado o mesmo golpe em outro pequeno reino, onde os cidadãos também andavam de nariz empinado, cheios de soberba e afeitos às pequenas e às grandes hipocrisias.
Há muito tempo, a atividade de pessoas como a desses e de outros tecelões, vem se espalhando mundo afora, como coisa natural da sensibilidade e do intelecto de uns estilistas de academias e villas kyriais; Somerset Maugham escreveu sobre essas pessoas e seus fantásticos dons que podemos ler em O impulso criativo. Aqui entre nós, recomendo a uma certa escultora e professora de grego, o nosso Lima Barreto que nos deixouO homem que sabia javanês. Outros autores tem escrito sobre a trama dessas urdiduras, e sobre a plástica ética dessas pessoas tão comuns e, principalmente, daquelas que ainda se pretendem tão importantes e sábias... Caberia agora ao leitor fazer uma lista de outros textos que, de algum modo, vêm desnudando essas inacreditáveis senhoras e esses incríveis senhores.