sexta-feira, 4 de junho de 2021

Arte é Vida VI -coluna do diretor Cléber Lorenzoni

 

                    

                       Arte ruim / arte boa

 

                       Há poucos dias questionava junto aos meus alunos, se haveria um conceito quanto a arte ruim ou arte boa. E caso existisse, quem estaria a altura de julgar. Claro que podemos levantar questionamentos quanto ao poder influenciador de algumas artes, quando comparadas a outras. Porém, não consigo crer que algo que está inteiramente ligado ao impalpável, ä sensações, sentimentos, reflexões, possa ser colocado em balanças. Alguém me dirá: - Mas Cléber, e os concursos, eles não analisam por acaso a arte bem feita, ou não? – Ao que responderia: - Um corpo de jurados, baseia-se em seus próprios conceitos e conhecimentos técnicos, empíricos, etc... Mas veja bem, o galardoamento dado por uma banca é extremamente subjetivo, ele te coloca em primeiro lugar em relação ao segundo, até que mude-se os jurados, e aí outro ponto de vista poderá ser emitido. Se falarmos de inspiração, alma, força sensitiva, enfim, esse lugar quase metafisico no qual o tal “talento” reside, então a situação é ainda mais subjetiva, pois quem estava inspirado em uma apresentação hoje, pode não estar amanhã.

                       A arte, é efêmera e emana do homem como luz, golfada de ar, fuga, expressão de satisfação de um amor correspondido ou mesmo de um rompimento, de um estado de graça, do prazer indizível ou do desprezo doloroso. Por tanto, o que me causa sensações, pode não causar simplesmente nada, a quem estiver ao meu lado.

                      Mas o que me assusta, me choca, e até me entristece, é o julgamento ferrenho de quem não acrescenta, ao contrário, desmotiva, enfraquece, castra! A arte, precisa ser incentivada, motivada. Ela é solução, cura, mudança de habito. Uma musica, um poema, uma bailarina que se entrega ao palco, ou o ator que da vida a criaturas que só existiam na mente de uns poucos, escultores, pintores, enfim, todos eles precisam do aplauso, da motivação e do silencio.

                      Mas qual silêncio? O silêncio de quem vê ou ouve constrói ou destrói dentro de si paradigmas, mas que não deve influenciar, pois alguns de nós ainda estão sendo lapidados, ora, todos somos pedras brutas, desde que nascemos, e vamos nos lapidando no decorrer da existência. É preciso deixar o outro fazer suas análises próprias.

                     Amai! Amai e valorizai cada ato que constrói, que cria, que ergue e da vida, e ao criticar, critiquemos os  inócuos, acomodados, que nada fazem, que não dão vida a nada, apenas  torcem seus longos narizes repletos de orgulho e soberba.

O Ator Douglas Maldaner, interpreta o Mordomo do Paço Municipal em mais um projeto 200 anos


 

sábado, 29 de maio de 2021

Arte é Vida V

 

                 Constantemente ouço pessoas de várias faixas etárias comentando que tiveram que em outrora abrir mão de seus sonhos e embarcar em vidas que, na maioria das vezes, elas mesmas consideram frustrantes ou medíocres.  Essas pessoas estão se referindo à carreiras artísticas que abandonaram. São ex-bailarinas,  ex-atores ou ex-músicos, se é que podemos chamar os artistas de “ex” já que talento, creio eu, jamais se extingue por inteiro, o fato é que talvez,  por morarmos em um país de terceiro mundo ou ainda distantes de uma capital, o olhar que damos para a arte enquanto profissão é sempre crítico ou por demais exigente. Nos parece difícil aceitar, que alguém possa supor ter uma vida confortavelmente rica, baseada apenas na arte como centro de lucro, ou ainda na  manutenção de uma família.

              Alguém me disse: ”o mundo capitalista nos exige pés no chão”. Mas abriríamos mão de Beethoven, de Shakespeare, de Carlos Drummond de Andrade, ou de Carlos Gomes? Trocaríamos o teto da capela Cistina, o Davi de Michelangelo ou o prazer em assistir Norma, Copélia, ou Turandot, com seus grandes corpos de baile?

              Olhai para vossos pais, tios, vizinhos da terceira idade, e perguntai, quantos deles recusaram sonhos, talentos, dons... Por que tristemente deviam por os tais pés no chão. Qual chão seguro é esse de que falam? Pois mesmo  aqueles, ditos sensatos, me parecem preocupados, e cheios de contas inalcançáveis de quitar. 

              A arte, oásis de prazer, respiro em meio as atribulações da vida, formadora de opinião ou enquanto base filosófica na evolução dos tempos, deveria ser incentivada a todos e exercida com louvor e orgulho. Pois é através dela, que temos maior contato com o “mistério”, com o impalpável, com o lugar comum onde todas as línguas se encontram. Certa vez li que se fossemos nos encontrar pela primeira vez com extraterrestres, não devíamos tentar falar nada, apenas deixar tocar a nona sinfonia, e ali, naquele momento os visitantes do outro planeta compreenderiam a pequena e grandiosa existência humana. Então para concluir, preciso fazer uma pergunta, que talvez machuque nossos egos, mas: até quando vamos  frustrar nossos filhos e destruir sonhos?

 

domingo, 23 de maio de 2021

Quarta Coluna do diretor Cléber Lorenzoni sobre Arte e Cultura

 

A Saga do Herói Tropeiro

 

                            Na última semana passei envolvido até os crespos com o tema tropeirismo. Confesso que o mesmo sempre me atraiu, sempre apreciei história. Nos livros da sexta serie, o que ficou para mim foi uma imagem que mais tarde descobri no livro de Rossano Cavalari, tratar-se de uma pintura de Charles Landseer.  Pois bem dia 8 de maio é o dia municipal do tropeirismo e durante todo o mês, vários lugares do país celebram esses desbravadores. Para mim heróis, já que a definição: “personagem modelo, que reúne, em si, os atributos necessários para superar, de forma excepcional, um determinado problema”, parece caber perfeitamente.

                         Homens que durante dois séculos mais ou menos enfrentaram todo o tipo de intempéries e perigos, para fazer algo crucial: Cruzar culturas. Estes homens que carregavam mais do que canastras amarradas às mulas, carregavam historias, cantigas, tradições e as cambiavam com povos, vilas, e cidades, mudando e evoluindo ideologias, pensares e fazeres.

                      Se a globalização teve grandes marcos, um deles certamente foi o tropeirismo. E estes homens que passavam semanas longe de suas casas, de sua prole, foram abrindo caminhos, criando estradas, desenhando nas patas de suas mulas os contornos que formaram o nosso mapa.

                      Depois desse primeiro raciocínio, passei a me questionar quanto a típica cultura do cruzaltense, em mudar-se, em migrar para outros pagos e comumente retornar, não estaria aí uma herança ancestralizada em nosso organismo? A necessidade de ir de um lugar a outro? Eu enquanto ator, sempre senti essa necessidade mambembe de cruzar culturas, de viajar levando minha arte, cambiando também conhecimentos e vivências de lugares. Não andamos sobre mulas, mas meu sonho seria viajar em carroças como nossos primos da Commedia Dell Art.

                  Em Cruz Alta inúmeras são as famílias descendentes desses intrépidos pioneiros, que muitas vezes desconhecem o valor histórico/cultural que carregam em suas raízes. Olhemos para nossas casas com sensibilidade, para os tesouros que estão guardados nas histórias dos anciãos, e mantenhamos viva a chama das nossas tradições, nossas próximas gerações merecem, merecem que o passado não seja deslumbrado apenas em uma pintura de Jean-Baptiste Debret.