sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Grupo Máscara em Infância Roubada


Analise do espetáculo A hora da Estrela por alunos da ESMATE






Quando cheguei na Casa de Cultura não sabia o que esperar. Um elenco grande, formado principalmente por atores que experimentavam o palco pela primeira vez, me encheu de memórias sobre a peça de 2018, Lendas. O que mais diferencia essas duas apresentações, acredito ser a idade dos atores. Desta forma, minha maior curiosidade era de ver homens e mulheres já adultos procurando a arte com tamanho interesse. Não são mais crianças tentando equilibrar lazer com aprendizado ou jovens experimentando tudo o que a vida lhe oferece de novo. Aquele elenco já tinha uma bagagem de vida maior, mais vivências e mais com o que se preocupar, por assim dizer. Então, a curiosidade em saber o por quê eles estavam ali e o que estavam dispostos a fazer pela arte me encheu de expectativas.


A casa estava lotada. Compartilhei com meus colegas a alegria em ver o público enorme que iria prestigiar o teatro seja por causa dos parentes, seja por amizades ou, quem sabe, por gostar de teatro. É sempre emocionante ver pessoas novas sentadas nas cadeiras e, mesmo que no fim tenham ido apenas aquela vez, talvez elas escutem e vejam o necessário para que saiam de lá com um pensamento diferente.

Outro momento que me chamou a atenção foi quando o aviso gravado de Cléber terminou e um longo silêncio se estendeu. Foi hora de pensar se algo de errado aconteceu ou se estavam preparando para nos dar um susto do nada. Apesar dessa inquietação, não se escutou nenhuma conversa na plateia. Naquela hora me perguntei se era isso que o Grupo Maschara havia modificado nas pessoas de Cruz Alta. Aquele silêncio, sem nenhuma conversa alta, com olhares atentos e ansiosos sobre o palco escurecido, nenhum movimento com pum da cadeira. Respeito, pensei. Apenas respeito.

A peça começou com energia, luz e cor. Como não conhecia nada sobre a história base, fiquei deveras confusa. Aquele radialista era uma pessoa real narrando uma rádio novela? No fim o comparei ao Corifeu em uma tragédia Grega, pelo fato dele narrar a história, interagir razoavelmente com os personagens, estar em um outro plano visual e aparentar sempre saber de toda a trama.
A tia de Macabéa, aparecendo no início da peça e retornando mais para o final, vi que emocionou uma parte do público, mas senti falta que ela mesmo se emocionasse. O nervosismo aparece se pensarmos que temos que seguir as marcações, falar alto, ficar na luz e ainda assim sentir a cena. Minha dica particular seria que ela olhasse bem nos olhos de sua colega de cena, Kauane, principalmente durante as falas. Dessa forma se estabeleceria uma conexão entre atores e personagens que resultaria em um grande achado na cena do beijo na testa.
As moças que moravam junto a Macabéa eram compostas de uma atriz com muita experiência, outra que já havia subido ao palco em outras oportunidades e uma nova que até então não conhecia. Esta por sua vez não ficou para trás e não destoou do resto, garantindo a atenção e mostrando bem a personalidade de sua figura. Alessandra Souza, com sua personagem pessimista e reclamona me lembrou de muitas pessoas e quase vi minha própria companhia se virando para mim e dizendo "Olha lá, se não é o fulano". A uma determinada altura da peça você acabava criando uma engraçada pena da personagem. Martha Medeiro, sim arrancou ótimas risadas da plateia. Com uma personalidade ao meu ver inocente e convicta. Acredito, porém que na cena quase muda dela com Macabéa, quando esta está ouvindo distraída o rádio, ter levado mais tempo falando sobre a bíblia ao invés de brigando com a garota teria sido mais proveitoso. Outro detalhe que talvez deixasse ela mais engraçada seria se não houvesse empurrões de sua parte. Ela chacoalhar Macabéa quebrava um pouco a convenção de que as duas estavam em mundos diferentes.
A dona do lugar era uma das que mais falava alto entre o elenco de novos alunos, o que ajudou muito para mim que estava sentada no fundo da Casa de Cultura. No entanto, faltou força na personagem. Não me pareceu que ela conseguiria acalmar aquelas três mulheres apenas com sua presença. O leque funcionou bem para ajudá-la a ganhar recursos, talvez tenha lhe faltado alguns ensaios apenas. O que prejudicou também o momento em que ela escolhe uma das moças para ser a sua protegida. Não entendo bem o por quê dessa atitude justamente para com ela.

Houve vários momentos de falas sobrepostas umas nas outras, um deles foi na cena do pipoqueiro, o qual falava tremendamente baixo. Sua figura passava a sensação de ser frágil, velha e lenta, mas isso escorreu para a voz. Uma pena, pois em questão de força presencial ele estava ótimo. A cena acontecia sobre a luz agitada e interessante, mas quando aquele vendedor de pipoca entrou não consegui tirar meus olhos dele, esperando para ver suas reações sobre tudo o que estava acontecendo.
Eliani e Romeu me impressionaram. Ver a mesma atriz que fez a esposa de Cézar durante a Paixão de Cristo, fazer aquela mulher tão despojada, sexy, ousada e malvada, deixou-me atônita. O mesmo digo de seu colega de cena, que exalava energia e presença, esperneando pelo palco jogando folhas para todos os lados. Um belo estereótipo de chefe. Os dois interpretaram com tanta maturidade, sem mostrar nervosismo na cena mais "ousada" ou fazendo as pressas apenas para se livrar da marcação imposta. Acredito que Teatro é doação e, na Hora da Estrela, esses dois se doaram muito.
Eliani criou gestos que deixou sua personagem sempre interessante. Utilizando de vários achados em momentos diferentes e não apenas se contentando com sua divertidíssima risada.
Douglas dá para se dizer que estava bem "Douglas". Apenas características como um modo de falar diferente o destoavam. Acredito que serviu perfeitamente para ele aquele personagem, todo o seu jeito naturalmente engraçado de ser garantiu longas e boas risadas de todo o público. Nos fazendo realmente acreditar que aquele homem era o par perfeito para Macabéa e seria sua salvação no fim. Ele fez parecer que o personagem surgiu facilmente, mas acredito que sempre quando temos essa impressão significa exatamente o contrário.
O que dizer agora daquela Marilyn Monroe interpretada por Vagner Nardes? Este ator estava tremendamente inteiro em cena, se tinha preocupações não transmitia isso. Ela dançava sobre o palco e andava feito uma ilusão da noite. Uma personagem que acredito ser muito querida por nosso ator e que ele a abraçou com vontade. Não soube dizer se ela era apenas da imaginação de Macabéa ou se seria algo maior, devido ao contato com o radialista. Renato também estava completamente mergulhado. Um personagem que poderia sim ser feito com sua própria forma de ser acabou não pendendo para esse "fácil" e deu origem a uma figura única, divertida e poderosa.

Uma das certezas que tinha era de que Kauane estaria bem em cena. Ouvi falar de seu tremendo esforço para carregar o nome de Macabéa e, após sua atuação como Musa Inspiradora em Esconderijos do Tempo, eu criei ansiedade para vê-la como protagonista.
Ela permaneceu em cena praticamente toda a peça e despertou a curiosidade em mim como plateia. Quem era essa figura a minha frente? Novamente sem nenhum conhecimento prévio sobre a obra, Kauane nos deu a sua Macabéa. Uma garota avoada, solitária, perdida e sem propósito aparente. Sua miséria tocou a muitos e me arrepiou em várias cenas, como a do batom, por exemplo. Todavia, como um protagonista não consegue brilhar sozinho, o fato de não conseguir se apoiar para com atores mais experientes e na verdade ser esse ator de apoio, deixou Macabéa um pouco mais apagada.

As cenas eram compridas e divertidas, muito diferentes uma para a outra, com ritmos e propósitos diferentes. As cenas entre Douglas e Kauane pareciam tão naturais e interessantes, mesmo com um texto comum e uma certa repetição divertida de desentendimento entre os dois. Eu sempre queria ver um pouco mais da relação dos dois e posso dizer que fiquei chocada com a traição.
Já esperava que utilizassem de efeitos de luz e som para ajudar na criação dos climas, mas isso não quer dizer que eu não tenha me encantado mesmo assim. Sobre esta perspectiva, claramente minha cena favorita foi a dos médicos.
A sensação de claustrofobia, o medo que Macabéa sentia e passava para nós, a ansiedade deixando nossos corações acelerados, a cena dos médicos robotizados mal me deixou piscar. Aquelas figuras passando de um lado para o outro no escuro, falando juntas e mexendo com nossa personagem principal me fez encolher em minha cadeira.
Ricardo interpretava o médico principal e estava ótimo com sua tensão corporal. Não estava relaxado, mas também não pareceu forçando cada parte de seu corpo para garantir uma tensão sobre-humana. Uma figura que mesmo aparecendo por poucos minutos, trouxe inúmeras críticas e se gravou em minha memória.

A cigana interpretada por Cléber fez muito bem o seu papel. Acredito que uma personagem como aquela teria poder e recursos para tomar o palco todo para si, arrancando toda a atenção de Macabéa. No fim senti que estavam ambos estavam bem balanceados.

A cena final me deixou com tantas interrogações no rosto que mal poderia citar todas. Gabriel Giacomini estava um verdadeiro "homem dos sonhos". Uma chama de esperança para o final feliz que não aconteceu.
Não entendi bem se os personagens que vinham um por um conheciam ou não a moça morta no chão. Uns interagiam com ela como se a reconhecessem, enquanto outros não. Antônio apareceu nesse final, apenas para mostrar aquele lado sujo e triste da vida. Acredito que ele aparecer exatamente naquele momento, quando toda a plateia esperava alguma explicação, alguma boa notícia, destruiu qualquer boa esperança nossa.
Um ótimo fechamento de história, completamente inesperado por minha pessoa, mas como disse não compreendi vários quesitos. Isto, no entanto, é um dos fatores que mais adoro no teatro. O caminho para casa foi cheio de questionamentos e debates para com meus acompanhantes. Cada um se emocionou em um momento, cada um tinha uma ideia sobre o radialista, sobre a Macabéa, sobre a srt. Monroe e sobre o garoto loiro de terno.

Estou deveras impressionada com todo o elenco, sem exceção de ninguém. Extremamente feliz por ter assistido a essa peça e de poder dar minha opinião particular. Agora apenas podemos esperar para a apresentação a seguir e prestigia-los também.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

860 -Infância Roubada - (tomo 01)-Pré-estreia no Palacinho

Grandes Atores

"As boas ações ficam bonitas no jardim de infância. O teatro é o lugar da gangrena"

                    Haviam boas exposições gangrenosas sobre o pequeno palco da ESMATE nessa quarta-feira a noite (11/09). Um espetáculo não irá realmente mudar o mundo, mas ele precisa gerar ondas no lago, ele precisa despertar pensares que podem ser estopins para coisas grandes começarem. A direção de Infância Roubada vem construindo essa obra há mais de dois anos, um espetáculo que em primeiro momento parece muito simples. Não há cenários, grandes iluminações, há um minimo de adereços, e uma premissa cristalina: Dor! A dor humana que parte do desentendimento, do vazio, da solidão. Trabalho de ator, e para isso Cléber Lorenzoni elencou uma equipe imensurável, que nos deu interpretações  quentes, realistas, dolorosas, corretas.  Renato Casagrande e Alessandra Souza atores hercúleos do Máschara, que ao lado de Cléber tem vasto conhecimento na faina teatral. Os três divididos em núcleos, onde desdobram-se ou agregam-se três aprendizes: Stalin Ciotti (ator de criação delicada, sutil e detalhista), Kauane Silva (com seus estonteantes olhos de ressaca, uma força atrativa à nós meros mortais) e ainda Laura Hoover (forte, intensa, dramática). Os três juntos apontam caminhos e dão significado ao futuro do teatro do Máschara. Para completar o rol de forças humanas sobre o palco, três atores convidados: A deliciosa Eliane Aléssio, que vem se destacando comumente desde o Auto de Natal II (dez/2018), Laura Heger, que deu sua mordida de talentosa atriz ao interpretar Toninha em O Hipocondríaco (agos/2019) e Felipe Padilha, que está a espera de seu grande momento que certamente virá em breve. 
                            Nove forças sobre o palco, nove vidas, que se entrelaçam e sofrem influencias indiretas umas das outras. O palco é o cosmos inteiro e dentro dele habitam Nice, Tânia, Rafa, Flávia, Cesar, Cão, Teco, Emily e o espectro de uma boneca que pode muito bem ser a infância perdida ou roubada de todas aquelas pessoas. 
                                    Logo na primeira percepção, a boneca que entra no palco dançando nos toca pela semelhança com o brinquedo no chão, Kauane está perfeita e pode brincar ainda mais com a leveza versus rigidez da personagem. Não compreendi o fato da personagem do Cão atacar a menina e depois a boneca, a direção precisa optar por apenas um signo. As cenas são bastante curtas, podem ter mais silêncios, pausas. Alessandra Souza por exemplo pode ser mais cricri, faladeira, a ponto de Dona Flávia não suportar ouvi-la; Laura Hoover precisa cuidar para ser mais dengosa com Nice do que malvada. É uma barreira bem tênue. Felipe Padilha precisa parecer um menino de rua, mais revoltado, mais marrento. Na verdade ele tende a crescer e se tornar um cão, esse é o ciclo sem fim.
                                       Eliane Aléssio compõe muito bem a esposa que está presa em um casamento infeliz. Penso que na cena com Nice possa ser ainda mais perua, falando de planos e sonhos enquanto a empregada passa mal. Cléber Lorenzoni na cena da rua pode sentir mais repulsa com a travesti, peitá-la mais, talvez até mostrar a arma que carrega. Isso seria chocante e levantaria a questão do armamento. 
                                       Laura Heger tem uma leveza linda na cena, e deve buscar dentro de si as memórias para compor a dor da menina.  Na cena da travesti compreendo que Renato Casagrande queira mostrar a destruição interna de Tânia, mas não fica legal tirar os sapatos. Tudo está no rosto! Alessandra Souza compõe muito bem a cena final ao lado de Stalin e das outras personagens da família. Na hora do tapa, o terror precisa percorrer todas as personagens. Heger e Padilha precisam sofrer muito, talvez gritar, Felipe poder se avançar e Stalin segurá-lo pela blusa. Enfim, coisas da direção. 
                                        O crescendo do pai e da mãe nas cenas com Rafa precisam ser maiores para que essa ultima possa construir as reações mais fidedignas, Laura usou muito de sua emoção, agora pode trabalhar o cênico. Usar mais a musica. Outro detalhe importante é não esquecer que há um bebê dentro de seu ventre. Valorize isso! A discussão com Cão na rua me comoveu muito, usuários de drogas não são vagabundos ou marginais, são doentes, que precisam de ajuda.
                                         Encantadora a cena em que Lólli dança com Flávia. Ali o lúdico se estabelece. A infância que ficou para traz... Outro momento muito lindo é a empregada abraçada em Flávia. Nice precisa ficar bem alta para Dona Flávia apoiar-se em seu braço. Acalentar-se. A maquiagem de Stalin Ciotti é interessante, provavelmente em um lugar maior surtirá também um efeito melhor. 
                                       Amo teatro intenso, Almodóvar, a dama Irlandesa, ou mesmo o melodrama., amo atores que entram no palco pelo tudo ou nada. A equipe técnica que muitas vezes são os próprios atores, precisa ter mais cuidado com entradas e saídas da linda trilha. Calma. O público não pode perceber que uma musica está entrando. As vezes mais sensibilidade na percepção das emoções sobre o palco. Por exemplo, quando Laura entrou em cena para impedir o suicídio do pai, a musica foi retirada tão de súbito que eu me desconcentrei. A musica precisava embalar a cena, permanecer e ir sumindo em meio a discussão.
                                           Emocionada também com o instinto da atriz que interpreta a boneca. Sua queda quando Rafa cortou o braço foi tão linda como se uma boneca de porcelana estivesse caindo e se quebrando. Parabéns às sutilezas do espetáculo.
                                          Uma pena as Lauras, Ciotti e Padilha terem pisado na palavra Esperança no agradecimento. O elenco posicionado atrás da palavra é tocante, pisando nela não.
                               

                                            O melhor: As emoções intensas que um espetáculo como esse podem provocar.
                                                   O pior: O espaço apertado atrapalhando a grandeza de alguns atores.


Alessandra Souza (***)
Kauane Silva (***)
Eliane Aléssio (**)
Stalin Ciotti (***)
Laura Hoover (**)
Laura Heger (**)
Felipe Padilha (**)

Gabriel Giacomini (**)
Maria Antonia Silveira Netto (**)
Henrique Lanes (**)
Clara Devi (***)

                                       A Rainha
                                         
                     

No palco o elenco de Infância Roubada


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Olhar crítico sobre A hora da Estrela

                                   O espetáculo apresentado no dia 1° de Setembro, na casa de Cultura Justino Martins, era uma adaptação do livro da escritora brasileira Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, escrito e lançado em 1977. Conta à história da Jovem Macabêa, Alagoana de 19 anos, e suas desventuras. O grupo teatral Maschara carrega com ele uma história muito rica, é um grupo compromissado com o seu público, suas peças sempre nos cativam, sempre nos interessam com suas trilhas sonoras, seus figurinos, seus atores e seu diretor, este último domina sua arte! Cleber Lorenzoni foi diretor, ator, iluminador, ele domina o espetáculo. Arrisco-me a dizer que vejo em “A Hora da Estrela” um de seus melhores trabalhos como diretor. Junto a ele temos o seu braço direito: Renato Casagrande e seu domínio de cena. Casagrande nos conduz pela história, o seu radialista nos atrai e prende-nos do início ao fim. Ainda Sobre os atores da Cia, temos Alessandra Souza e Ricardo Fenner, atores do alto escalão do Maschara, mas que deixaram a desejar na noite. Ela estava ali como uma boa atriz, seu volume era bom, sua presença era boa, Mas não havia personagem construído. Ele com um personagem inseguro, sua presença é de um grande ator, mas apenas isso não basta. 
                                      Gabriel mesmo com pouco tempo de palco consegue nos passar um personagem muito bom! Agrada-me muito o ver passar à cena por varias vezes antes de começar, assim como Douglas Maldanner e seu trabalho digno de aplausos! Um dos melhores personagens da noite, seu carisma chamou a atenção, Olimpico esteve ali antes de o espetáculo começar, uma excelente construção de personagem, Maldanner está de parabéns pelo seu trabalho. No Papel da protagonista: Kauane Silva. Um dos trabalhos mais bonitos da atriz, ela nos entrega uma Macabêa doce, ingênua, vulnerável, Macabêa está exposta a todo mal que o ser humano pode causar. Sua ingenuidade fez com que a plateia se tornasse cumplice das maldades que sofrera, a rejeição do namorado, o preconceito pelas colegas de quarto, a perda da unica pessoa que se importava com ela, etc. Kauane esta viva em cena, ela é grande dentro de uma personagem tão pequena. A Noite era dos alunos da 10° turma em formação, tantos talentos no palco! Vagner Nardes é um ator que nos enche os olhos, sua figura de Marilyn é linda, encantadora. Eliane nos entrega uma das melhores construções, Gloria nos conquista com seu carisma. A energia e entrega da atriz nos enche de orgulho, Eliane assim como Olimpico, teve o público em suas mãos e é uma atriz com um grande talento. 
                                       Martha Medeiro e sua fanática Maria da Penha: Medeiro carrega em suas personagens uma sutil delicadesa, ela representa na peça um dos pilares da nossa sociedade. A hipocrisia torna a personagem mesquinha, e a jovem atriz constrói isso muito bem dentro de espetáculo. As alunas Eveline, Leonir e Schu fecham o elenco feminino, as três nos entregam bons resultados. É admirável ver a dedicação de Leonir, ver o quanto estar no palco lhe fez bem, nos passa uma boa sensação, gostaria de vê-la de novo em mais espetáculos. Aliás, o palco é sagrado, nele deve estar quem realmente gosta de estar ali! Eveline compõe Maria da graça, esteve segura. O arco de sua personagem não foi alcançado, mas Eveline nos mostra uma grande evolução em seu trabalho. E por último temos a dona da pensão, Schu com um ótimo volume, mas um pouco insegura em sua construção, ainda assim, teve uma boa presença e fez um bom trabalho. O trabalho de Romeu como seu Raimundo é bem construído, reflexo de sua dedicação ao teatro, seu jeito de andar e falar, apesar de ser caricato, encaixou muito bem na peça! Mas o mesmo deve cuidar sua voz, deve aquecer mais a garganta antes de entrar em cena. 
                          A delicadeza do Pipoqueiro construído por Henrique também nos agrada, por mais que seu volume tenha sido baixo. Seu personagem presencia uma das cenas mais triste da peça, e perante aquilo, nos passa um pouco de esperança. Antônio esteve muito bem em seu enfermeiro, embora deva levar mais a sério o seu trabalho, faltar ensaios em dias importantes não prejudicam só a si mesmo, mas sim um todo. Na parte técnica, devo confessar que fiquei muito feliz com Evaldo Goulart e sua dedicação, é muito bom ver atores colocando a mão na massa, esse é o sentido de uma equipe, todos trabalhando por um bem maior. A trilha sonora foi muito bem escolhida, méritos ao diretor. Tenho certeza que “Tunel do Amor” ficou na cabeça de muitos na plateia. A operação de Clara Devi foi nervosa, quase colocando em risco o espetáculo, sonoplastia deve ser operada com frieza. Os Figurinos estavam lindos, a composição de figurinos do grupo sempre nos encanta. “A Hora da Estrela” vai deixar saudades, foi uma noite linda de teatro. Os atores e alunos envolvidos estão de parabéns! Que mais trabalhos assim sejam apresentados, o publico merece.

Oficina de clowns - janeiro 2019


Ó mágico de Oz


Análise da obra A hora da Estrela por alunos da ESMATE

Somos comunicadores, temos a missão de plantar uma semente de conhecimento na mente do espectador, fazendo germinar questionamentos e posicionamentos, que darão frutos positivos para o futuro da arte.

A turma nove da Esmate está cheia de novos talentos, é muito bom ver o desejo de fazer teatro que emana deles. Entretanto, não podemos nos dar o luxo de esquecer a técnica, ela é o que te torna brilhante em cena.
Chegando no espectáculo, fiquei com um misto de sensações por ver a casa cheia. Sentei bem na frente, pois não queria perder nada, minhas expectativas estavam nas alturas. Logo no começo, me incomodou o fato de Renato sempre dizer as primeiras palavras de suas falas no escuro, pois demorava para ascender a luz do holofote. Casagrande estava divino, volume vocal, domínio corporal, tudo que um ator com o seu tempo de teatro deveria ter.
Porém, senti falta da entrelinha do personagem, achei um tanto raso, ainda mais nos padrões de criações dele. 
Já que queremos ser comunicadores, temos que aprender a trabalhar o volume e a clareza com que a frase é dita. Romeu Waier o tom escolhido te prejudicou, fez o público ter que se esforçar para compreender o que estava sendo dito. Quando o ator compõe um trabalho tão exato como Waier fez, se torna uma pena não conseguir entendê-lo. Martha Medeiro, tão jovem, dedicada, compôs uma personagem fora dos seus vícios corpórais e que arrancou risos da platéia.
Leonir Batista, Rick Lanes, Antonio Longue e Ana Claudia conquistaram o público de jeitos diferentes. Aproveitem mais o palco, digo isso no sentido de se jogar, "curtir como se a vida fosse acabar". Longue e Ana, faltas atrapalham os colegas.
Alessandra tem me preocupado de uns tempos pra cá. A atriz parece que sempre fica sem cartas na manga quando seus achares não dão  certo. Contudo, tento não me preocupar, pois no fim das contas Alessandra sobe no palco poderosa.

Ricardo Fener, como membro do grupo Máschara e um dos anciãos, soube ser genero em cena e carregar uma grande crítica social como sua verdade. Douglas Maldaner me surpreendeu, o ator não demonstrou dificuldades com as falas, mas sim segurança e uma grande capacidade em cena. Quero ver mais desse lado de Maldaner. 
Eveline Drescher, primeiramente, adorei seu sobrenome (sempre quis ter um nome difícil). Em segundo, eu sou amante das garotas malvadas, queria muito que sua maldade tivesse me feito levantar da platéia e ter começado a amar te odiar. Acredito que seu tempo trabalhando com jornalismo te deixou segura do que estava fazendo, você é uma ótima comunicadora e espero que continue no teatro. Eliane Aléssio é outra estrela desse espetáculo que me surpreendeu. Quando vi você em cena não consegui lembrar que foste tu que interpretou a Claudia, mas também você evoluiu tanto, nem quis me lembrar para não atrapalhar a contemplação. Aléssio descobriu uma veia cômica que deu mais vida para a personagem.
Vagner Nardes o novo garoto prodígio, sempre que vejo Nardes em cena fico me questionando - "Será talento, técnica ou uma soma dos fatores". Não entendo seus motivos para se afastar do grupo. No entanto, digo que você seria um grande achado para o Máschara. Cléber é impressionante ver o quanto o público fica nas suas mãos sempre que está em cena. Finalmente, Kauane Silva, Macabéa! Kauane eu tenho uma admiração por você, sempre me transmiti a ideia de que está ali de corpo e alma, seja para fazer o som, a atuação, ou até mesmo ambos no mesmo espetáculo (assim como nas Lendas). Você viveu o que Macabéa passou, sentiu as dores no corpo e morreu com a alma do personagem. Meus parabéns pelo protagonismo, seu diretor fez uma boa escolha.
Com o passar dos anos da Esmate, me atrevo a dizer que este é o seu momento de ouro. Que cada vez mais pessoas queiram fazer arte, precisamos de arte, o mundo está tão caótico que nesses momentos o que a Esmate e o Máschara fazem são nossas boias de salvação.


Com amor, a Arqueduquesa