quinta-feira, 12 de setembro de 2019

860 -Infância Roubada - (tomo 01)-Pré-estreia no Palacinho

Grandes Atores

"As boas ações ficam bonitas no jardim de infância. O teatro é o lugar da gangrena"

                    Haviam boas exposições gangrenosas sobre o pequeno palco da ESMATE nessa quarta-feira a noite (11/09). Um espetáculo não irá realmente mudar o mundo, mas ele precisa gerar ondas no lago, ele precisa despertar pensares que podem ser estopins para coisas grandes começarem. A direção de Infância Roubada vem construindo essa obra há mais de dois anos, um espetáculo que em primeiro momento parece muito simples. Não há cenários, grandes iluminações, há um minimo de adereços, e uma premissa cristalina: Dor! A dor humana que parte do desentendimento, do vazio, da solidão. Trabalho de ator, e para isso Cléber Lorenzoni elencou uma equipe imensurável, que nos deu interpretações  quentes, realistas, dolorosas, corretas.  Renato Casagrande e Alessandra Souza atores hercúleos do Máschara, que ao lado de Cléber tem vasto conhecimento na faina teatral. Os três divididos em núcleos, onde desdobram-se ou agregam-se três aprendizes: Stalin Ciotti (ator de criação delicada, sutil e detalhista), Kauane Silva (com seus estonteantes olhos de ressaca, uma força atrativa à nós meros mortais) e ainda Laura Hoover (forte, intensa, dramática). Os três juntos apontam caminhos e dão significado ao futuro do teatro do Máschara. Para completar o rol de forças humanas sobre o palco, três atores convidados: A deliciosa Eliane Aléssio, que vem se destacando comumente desde o Auto de Natal II (dez/2018), Laura Heger, que deu sua mordida de talentosa atriz ao interpretar Toninha em O Hipocondríaco (agos/2019) e Felipe Padilha, que está a espera de seu grande momento que certamente virá em breve. 
                            Nove forças sobre o palco, nove vidas, que se entrelaçam e sofrem influencias indiretas umas das outras. O palco é o cosmos inteiro e dentro dele habitam Nice, Tânia, Rafa, Flávia, Cesar, Cão, Teco, Emily e o espectro de uma boneca que pode muito bem ser a infância perdida ou roubada de todas aquelas pessoas. 
                                    Logo na primeira percepção, a boneca que entra no palco dançando nos toca pela semelhança com o brinquedo no chão, Kauane está perfeita e pode brincar ainda mais com a leveza versus rigidez da personagem. Não compreendi o fato da personagem do Cão atacar a menina e depois a boneca, a direção precisa optar por apenas um signo. As cenas são bastante curtas, podem ter mais silêncios, pausas. Alessandra Souza por exemplo pode ser mais cricri, faladeira, a ponto de Dona Flávia não suportar ouvi-la; Laura Hoover precisa cuidar para ser mais dengosa com Nice do que malvada. É uma barreira bem tênue. Felipe Padilha precisa parecer um menino de rua, mais revoltado, mais marrento. Na verdade ele tende a crescer e se tornar um cão, esse é o ciclo sem fim.
                                       Eliane Aléssio compõe muito bem a esposa que está presa em um casamento infeliz. Penso que na cena com Nice possa ser ainda mais perua, falando de planos e sonhos enquanto a empregada passa mal. Cléber Lorenzoni na cena da rua pode sentir mais repulsa com a travesti, peitá-la mais, talvez até mostrar a arma que carrega. Isso seria chocante e levantaria a questão do armamento. 
                                       Laura Heger tem uma leveza linda na cena, e deve buscar dentro de si as memórias para compor a dor da menina.  Na cena da travesti compreendo que Renato Casagrande queira mostrar a destruição interna de Tânia, mas não fica legal tirar os sapatos. Tudo está no rosto! Alessandra Souza compõe muito bem a cena final ao lado de Stalin e das outras personagens da família. Na hora do tapa, o terror precisa percorrer todas as personagens. Heger e Padilha precisam sofrer muito, talvez gritar, Felipe poder se avançar e Stalin segurá-lo pela blusa. Enfim, coisas da direção. 
                                        O crescendo do pai e da mãe nas cenas com Rafa precisam ser maiores para que essa ultima possa construir as reações mais fidedignas, Laura usou muito de sua emoção, agora pode trabalhar o cênico. Usar mais a musica. Outro detalhe importante é não esquecer que há um bebê dentro de seu ventre. Valorize isso! A discussão com Cão na rua me comoveu muito, usuários de drogas não são vagabundos ou marginais, são doentes, que precisam de ajuda.
                                         Encantadora a cena em que Lólli dança com Flávia. Ali o lúdico se estabelece. A infância que ficou para traz... Outro momento muito lindo é a empregada abraçada em Flávia. Nice precisa ficar bem alta para Dona Flávia apoiar-se em seu braço. Acalentar-se. A maquiagem de Stalin Ciotti é interessante, provavelmente em um lugar maior surtirá também um efeito melhor. 
                                       Amo teatro intenso, Almodóvar, a dama Irlandesa, ou mesmo o melodrama., amo atores que entram no palco pelo tudo ou nada. A equipe técnica que muitas vezes são os próprios atores, precisa ter mais cuidado com entradas e saídas da linda trilha. Calma. O público não pode perceber que uma musica está entrando. As vezes mais sensibilidade na percepção das emoções sobre o palco. Por exemplo, quando Laura entrou em cena para impedir o suicídio do pai, a musica foi retirada tão de súbito que eu me desconcentrei. A musica precisava embalar a cena, permanecer e ir sumindo em meio a discussão.
                                           Emocionada também com o instinto da atriz que interpreta a boneca. Sua queda quando Rafa cortou o braço foi tão linda como se uma boneca de porcelana estivesse caindo e se quebrando. Parabéns às sutilezas do espetáculo.
                                          Uma pena as Lauras, Ciotti e Padilha terem pisado na palavra Esperança no agradecimento. O elenco posicionado atrás da palavra é tocante, pisando nela não.
                               

                                            O melhor: As emoções intensas que um espetáculo como esse podem provocar.
                                                   O pior: O espaço apertado atrapalhando a grandeza de alguns atores.


Alessandra Souza (***)
Kauane Silva (***)
Eliane Aléssio (**)
Stalin Ciotti (***)
Laura Hoover (**)
Laura Heger (**)
Felipe Padilha (**)

Gabriel Giacomini (**)
Maria Antonia Silveira Netto (**)
Henrique Lanes (**)
Clara Devi (***)

                                       A Rainha
                                         
                     

No palco o elenco de Infância Roubada


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Olhar crítico sobre A hora da Estrela

                                   O espetáculo apresentado no dia 1° de Setembro, na casa de Cultura Justino Martins, era uma adaptação do livro da escritora brasileira Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, escrito e lançado em 1977. Conta à história da Jovem Macabêa, Alagoana de 19 anos, e suas desventuras. O grupo teatral Maschara carrega com ele uma história muito rica, é um grupo compromissado com o seu público, suas peças sempre nos cativam, sempre nos interessam com suas trilhas sonoras, seus figurinos, seus atores e seu diretor, este último domina sua arte! Cleber Lorenzoni foi diretor, ator, iluminador, ele domina o espetáculo. Arrisco-me a dizer que vejo em “A Hora da Estrela” um de seus melhores trabalhos como diretor. Junto a ele temos o seu braço direito: Renato Casagrande e seu domínio de cena. Casagrande nos conduz pela história, o seu radialista nos atrai e prende-nos do início ao fim. Ainda Sobre os atores da Cia, temos Alessandra Souza e Ricardo Fenner, atores do alto escalão do Maschara, mas que deixaram a desejar na noite. Ela estava ali como uma boa atriz, seu volume era bom, sua presença era boa, Mas não havia personagem construído. Ele com um personagem inseguro, sua presença é de um grande ator, mas apenas isso não basta. 
                                      Gabriel mesmo com pouco tempo de palco consegue nos passar um personagem muito bom! Agrada-me muito o ver passar à cena por varias vezes antes de começar, assim como Douglas Maldanner e seu trabalho digno de aplausos! Um dos melhores personagens da noite, seu carisma chamou a atenção, Olimpico esteve ali antes de o espetáculo começar, uma excelente construção de personagem, Maldanner está de parabéns pelo seu trabalho. No Papel da protagonista: Kauane Silva. Um dos trabalhos mais bonitos da atriz, ela nos entrega uma Macabêa doce, ingênua, vulnerável, Macabêa está exposta a todo mal que o ser humano pode causar. Sua ingenuidade fez com que a plateia se tornasse cumplice das maldades que sofrera, a rejeição do namorado, o preconceito pelas colegas de quarto, a perda da unica pessoa que se importava com ela, etc. Kauane esta viva em cena, ela é grande dentro de uma personagem tão pequena. A Noite era dos alunos da 10° turma em formação, tantos talentos no palco! Vagner Nardes é um ator que nos enche os olhos, sua figura de Marilyn é linda, encantadora. Eliane nos entrega uma das melhores construções, Gloria nos conquista com seu carisma. A energia e entrega da atriz nos enche de orgulho, Eliane assim como Olimpico, teve o público em suas mãos e é uma atriz com um grande talento. 
                                       Martha Medeiro e sua fanática Maria da Penha: Medeiro carrega em suas personagens uma sutil delicadesa, ela representa na peça um dos pilares da nossa sociedade. A hipocrisia torna a personagem mesquinha, e a jovem atriz constrói isso muito bem dentro de espetáculo. As alunas Eveline, Leonir e Schu fecham o elenco feminino, as três nos entregam bons resultados. É admirável ver a dedicação de Leonir, ver o quanto estar no palco lhe fez bem, nos passa uma boa sensação, gostaria de vê-la de novo em mais espetáculos. Aliás, o palco é sagrado, nele deve estar quem realmente gosta de estar ali! Eveline compõe Maria da graça, esteve segura. O arco de sua personagem não foi alcançado, mas Eveline nos mostra uma grande evolução em seu trabalho. E por último temos a dona da pensão, Schu com um ótimo volume, mas um pouco insegura em sua construção, ainda assim, teve uma boa presença e fez um bom trabalho. O trabalho de Romeu como seu Raimundo é bem construído, reflexo de sua dedicação ao teatro, seu jeito de andar e falar, apesar de ser caricato, encaixou muito bem na peça! Mas o mesmo deve cuidar sua voz, deve aquecer mais a garganta antes de entrar em cena. 
                          A delicadeza do Pipoqueiro construído por Henrique também nos agrada, por mais que seu volume tenha sido baixo. Seu personagem presencia uma das cenas mais triste da peça, e perante aquilo, nos passa um pouco de esperança. Antônio esteve muito bem em seu enfermeiro, embora deva levar mais a sério o seu trabalho, faltar ensaios em dias importantes não prejudicam só a si mesmo, mas sim um todo. Na parte técnica, devo confessar que fiquei muito feliz com Evaldo Goulart e sua dedicação, é muito bom ver atores colocando a mão na massa, esse é o sentido de uma equipe, todos trabalhando por um bem maior. A trilha sonora foi muito bem escolhida, méritos ao diretor. Tenho certeza que “Tunel do Amor” ficou na cabeça de muitos na plateia. A operação de Clara Devi foi nervosa, quase colocando em risco o espetáculo, sonoplastia deve ser operada com frieza. Os Figurinos estavam lindos, a composição de figurinos do grupo sempre nos encanta. “A Hora da Estrela” vai deixar saudades, foi uma noite linda de teatro. Os atores e alunos envolvidos estão de parabéns! Que mais trabalhos assim sejam apresentados, o publico merece.

Oficina de clowns - janeiro 2019


Ó mágico de Oz


Análise da obra A hora da Estrela por alunos da ESMATE

Somos comunicadores, temos a missão de plantar uma semente de conhecimento na mente do espectador, fazendo germinar questionamentos e posicionamentos, que darão frutos positivos para o futuro da arte.

A turma nove da Esmate está cheia de novos talentos, é muito bom ver o desejo de fazer teatro que emana deles. Entretanto, não podemos nos dar o luxo de esquecer a técnica, ela é o que te torna brilhante em cena.
Chegando no espectáculo, fiquei com um misto de sensações por ver a casa cheia. Sentei bem na frente, pois não queria perder nada, minhas expectativas estavam nas alturas. Logo no começo, me incomodou o fato de Renato sempre dizer as primeiras palavras de suas falas no escuro, pois demorava para ascender a luz do holofote. Casagrande estava divino, volume vocal, domínio corporal, tudo que um ator com o seu tempo de teatro deveria ter.
Porém, senti falta da entrelinha do personagem, achei um tanto raso, ainda mais nos padrões de criações dele. 
Já que queremos ser comunicadores, temos que aprender a trabalhar o volume e a clareza com que a frase é dita. Romeu Waier o tom escolhido te prejudicou, fez o público ter que se esforçar para compreender o que estava sendo dito. Quando o ator compõe um trabalho tão exato como Waier fez, se torna uma pena não conseguir entendê-lo. Martha Medeiro, tão jovem, dedicada, compôs uma personagem fora dos seus vícios corpórais e que arrancou risos da platéia.
Leonir Batista, Rick Lanes, Antonio Longue e Ana Claudia conquistaram o público de jeitos diferentes. Aproveitem mais o palco, digo isso no sentido de se jogar, "curtir como se a vida fosse acabar". Longue e Ana, faltas atrapalham os colegas.
Alessandra tem me preocupado de uns tempos pra cá. A atriz parece que sempre fica sem cartas na manga quando seus achares não dão  certo. Contudo, tento não me preocupar, pois no fim das contas Alessandra sobe no palco poderosa.

Ricardo Fener, como membro do grupo Máschara e um dos anciãos, soube ser genero em cena e carregar uma grande crítica social como sua verdade. Douglas Maldaner me surpreendeu, o ator não demonstrou dificuldades com as falas, mas sim segurança e uma grande capacidade em cena. Quero ver mais desse lado de Maldaner. 
Eveline Drescher, primeiramente, adorei seu sobrenome (sempre quis ter um nome difícil). Em segundo, eu sou amante das garotas malvadas, queria muito que sua maldade tivesse me feito levantar da platéia e ter começado a amar te odiar. Acredito que seu tempo trabalhando com jornalismo te deixou segura do que estava fazendo, você é uma ótima comunicadora e espero que continue no teatro. Eliane Aléssio é outra estrela desse espetáculo que me surpreendeu. Quando vi você em cena não consegui lembrar que foste tu que interpretou a Claudia, mas também você evoluiu tanto, nem quis me lembrar para não atrapalhar a contemplação. Aléssio descobriu uma veia cômica que deu mais vida para a personagem.
Vagner Nardes o novo garoto prodígio, sempre que vejo Nardes em cena fico me questionando - "Será talento, técnica ou uma soma dos fatores". Não entendo seus motivos para se afastar do grupo. No entanto, digo que você seria um grande achado para o Máschara. Cléber é impressionante ver o quanto o público fica nas suas mãos sempre que está em cena. Finalmente, Kauane Silva, Macabéa! Kauane eu tenho uma admiração por você, sempre me transmiti a ideia de que está ali de corpo e alma, seja para fazer o som, a atuação, ou até mesmo ambos no mesmo espetáculo (assim como nas Lendas). Você viveu o que Macabéa passou, sentiu as dores no corpo e morreu com a alma do personagem. Meus parabéns pelo protagonismo, seu diretor fez uma boa escolha.
Com o passar dos anos da Esmate, me atrevo a dizer que este é o seu momento de ouro. Que cada vez mais pessoas queiram fazer arte, precisamos de arte, o mundo está tão caótico que nesses momentos o que a Esmate e o Máschara fazem são nossas boias de salvação.


Com amor, a Arqueduquesa