sábado, 27 de outubro de 2018
828- Lili Inventa o Mundo (tomo 109)
O que é o teatro infantil? Uma preparação para o público, para que quando crescerem queiram ver, assistir espetáculos adultos? Ou o teatro infantil tem dogmas próprios, um objetivo específico diferente dos objetivos do teatro adulto? Ou é uma forma de ganhar dinheiro, mais fácil do que com o público adulto? O que me irrita um pouco no que diz respeito ao teatro infantil é o fato de os pais jogarem os filhos lá como se isso tirasse sua obrigação de também ir ao teatro.
Eu sempre gostei de ir com a família, e sempre mergulhei nas narrativas como se criança fosse. Penso que se for bom os adultos também vão gostar, pois trata-se de arte, de alma. Os espetáculos infantis do Máschara não tratam as crianças como idiotinhas, ao contrário exigem sempre raciocínio e quebram conceitos, saem do dito lógico. Criam mocinhos e vilões e os desestruturam.
Os poemas de Mario Quintana são poderosos e muito bem aproveitados para dar vida às peripécias de Mathias e Lili. Ela uma protagonista observadora, sem muitos quereres, Lili nos representa, somos nós entrando em contato com a poesia. O desconhecido mundo da poesia nos carrega, nos puxa pela mão e quando nos damos por conta estamos apegados ao delicioso Senhor Poeta e seu ajudante Malaquias. A interpretação de Cléber Lorenzoni é clownesca, viva, divertida. Senhor poeta tira sarro até mesmo da menina Lili. São doze anos de espetáculo. Doze anos que Cléber brinca, soma, aprende e descobre com sua personagem. Isso o torna cada vez melhor na cena. Teatro é técnica, é dom, mas também é pratica. Maturidade.
Enquanto assistia, me recordava muito do Palhaço Bozo e de sua partner Vovó Mafalda, palhaços famosos, saídos do teatro, que fizeram grande sucesso na tv dos anos 80. O que mais gostava neles, era exatamente o mistério, quem seriam aquelas pessoas, de onde vinham, e seu elemento surpresa me dava medo e de mantinha presa a tv. Elemento surpresa o espetáculo Lili tem de sobra. Sr. Poeta e Malaquias surgem de todos os lados. Kauane mais madura agora, mais preparada, vem construindo delicadamente uma bonita caminhada. Sem pressa, sem dar passos maiores que pode alcançar. Quando o teatro vai nos tomando devagarinho, apodera-se mais intensamente de nossa alma, e fica lá grudado para sempre. Kauane jogou bastante, mostrou força e não se desestabilizou quando seu lenço caiu. Honrou seu oficio, como toda a atriz deve fazer. Aliás falando em atriz, Alessandra Souza acertou a mão e muito. Não gosto da confusão de vestidos. Desnecessária e confusa. Mas esteve cheia de equilíbrios e desiquilíbrios, precisa, e engraçada. Souza é uma atriz de construções detalhistas, que vai aos poucos desabrochando.
Renato Casagrande carrega o espetáculo, levanta a bola para todo o elenco. Pontua com Cléber Lorenzoni mesmo que os personagens não troquem uma única palavra, a não ser um "quá" em determinado momento. Não é a toa que Cléber já fez Lili interpretando ao mesmo tempo os dois personagens. As vezes senti que Clara era meio levada por Mathias e deve ser assim, mas a atriz tem que parecer espontânea fazendo isso. Casagrande tem ritmo e time precisos e dessa vez fez tudo direitinho. Parecia ter onze anos em cena. Clara Devi recebeu de presente essa personagem. Lili é uma relíquia para atrizes novas, principalmente por que vem carregada de uma historia antológica. No entanto senti Clara tão frágil em cena. É necessário ensaiar mais, as vezes a linha se arrebentava, o fio de ariadne que conduz a cena ficava solto e Renato ou Cléber precisavam agir. A mim pareceu nervosismo, o que muito admiro em atrizes, quem não fica nervoso, quem não sente um frio antes de entrar em cena talvez nem mereça estar ali. Mas Clara já tem bagagem e trajetória. Ensaios! Ensaios! Ensaios!
Maria Antonia é muito novinha, deve ter calma, e ao mesmo tempo aproveitar, a infância é a melhor época para se aprender o oficio. Você ainda está desprovido de muitas manias e vícios. pode aproveitar cada pedacinho. Guardá-los no banco da Memória Emotiva. Maria tem aquele tipo que entra em cena e o público para, quer ouvi-la. Mas precisa lembrar de ser mais próxima do público na hora das fotos. É ali que os atores carimbam o documento, que mostram ao público que seu carinho em cena era verdadeiro.
O cenário de Lili cumpre-se, apaixona pela simplicidade e poder, parece que de traz das cortinas poderá sair qualquer coisa. Teatro, teatro do bom para firmar a tradição das cênicas em Nova Ramada. O Máschara criando plateias e dando sua contribuição para melhorar o mundo. Aos que estão começando a fazer teatro, mais ensaio, mais dedicação, mais intuição, mais estudo, mais coragem, mais iniciativa, mais seriedade. Mais humildade para atrizes, observar os mais velhos, fechar a boca, pedir conselhos, fingir que não sabe para ser gentil em certas ocasiões é bom e nos faz crescer como seres-humanos. Há sempre o que aprender. Quem tudo pensa saber, nada sabe.
O melhor: O jogo de Cléber, Alessandra, Renato e Kauane.
O pior: O despreparo da equipe técnica de Lili Inventa o Mundo.
Arte é Vida
Maria Antonia Silveira Netto - (**)
Kauane Silva (***)
Clara Devi (*)
Felipe Padilha (**)
Stalin Ciotti (**)
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
827- Esconderijos do Tempo (tomo 89)
Quando assisto um espetáculo de teatro, tento estar bastante aberta, disposta mesmo a receber toda e qualquer ideia que o espetáculo queira me passar. Quanto a interpretação dos atores, tento ser tocada pelo dom, pela alma dos atores, ou pela técnica. No espetáculo Esconderijos do Tempo, o que sempre me surpreende, é a formalidade, a direção de Cléber Lorenzoni, precisa, sagaz, firme. Cada gesto, cada ação, cada momento possui uma escolha muito firme, embasada em técnica. Talvez por isso esse espetáculo seja um dos melhores dramas que já assisti, carregando aliás consigo algumas características de tragédia.
É interessante analisar a quantidade de técnicas que há em um espetáculo, muitas vezes de forma intuitiva, o que prova que teatro tem dogmas milenares, estabelecidos há muito tempo de uma forma universal, ou seja você pode fazer teatro em qualquer lugar do mundo, a base será sempre a mesma, a ideia, o objetivo do teatro estará la. As formulas, as regras, os gráficos, os estilos, tudo se cruza, se mistura. De forma que é impossível dizer quem aprendeu o que, com quem e onde.
Esconderijos do Tempo fala das dores humanas do personagem central, desde o dia em que é surpreendido por uma criatura estranha, que lhe prende a atenção e que permanece presente em sua existência até o momento de sua morte. Se observarmos o período em que o espetáculo foi criado, em 2006, com roteiro de Cléber Lorenzoni e Dulce Jorge, vemos ali muito forte o MÉTODO de Stanislavski. Memória Emotiva, Ações Físicas e Analise ativa. Importante pensar como Grotowski e Brecht que em algum momento se deram conta de que tudo na verdade passeia de algum momento pelos métodos de Stanislavski, tão abrangentes e poderosos.
A curva dramática que começa a curvar-se com maior intensidade na segunda entrada do espectro da musa vai afunilando a narrativa, dá uma pausa cômica em Gouvarinho para novamente intensificar-se com anjo, visita de Dona Glorinha e finalmente o clímax máximo na morte do poeta. Cléber Lorenzoni nos da no mínimo quatro Mários. O adolescente, o homem adulto, o senhor de meia idade e finalmente o idoso que vê a iminência da morte. O senso de humor de Quintana é transformado aqui em força contrária e o Máschara nos apresenta a complexidade de uma vida celibatária, na qual um homem solitário tenta viver com toda a sua tristeza recolhida e a devolve em forma de poesia lírica ao mundo.
O público de Nova Ramada, tão acostumado às comédias do Máschara deve ter estranhado tanta tristeza explícita, tanta dor, e me questiono quanto a isso, o teatro deve ser levado aos públicos todos, mas deve haver uma escolha, uma decisão bem tomada, ou será que todos os espetáculos são para todos os públicos? Talvez, mas talvez quando o assunto tange aos pequenos, as crianças, deve haver uma boa escolha, pensada, baseada na transformação que se quer alcançar.
No elenco a veterana Dulce Jorge dominando sua cena, fazendo cortes precisos no texto para não alongar uma cena tão triste perante as crianças. Cléber Lorenzoni em um dia fraco, sem a grande interpretação pela qual é conhecido. Volume, técnica, mas pouca alma. Cléber Lorenzoni tornou-se um ator que sente demasiado o público e isso o atrapalha. Cléber Lorenzoni atua com toda a platéia em seu bolso.
Alessandra Souza esteve muito bem, mas ao vê-la em Lili senti vontade de dar um conselho a atriz. Não está na hora de dar o papel de Lili para uma atriz mais jovem, que esteja começando. E mergulhar integralmente na personagem da Musa? Renato Casagrande cumpre sua função, mas tem talento para muito mais que aquela pequena participação. Fabio Novello vem melhorando sua interpretação, seja como Gouvarinho, como o contador de historias em O Castelo Encantado ou tio Bertold em COmplexo, é gostoso ver o ator ir se dando mais espaço no palco, só acho que Novello pode e deve trabalhar mais a interpretação dramática, praticar mais as construções dolorosas.. Laura Hoover esteve linda com penteado de Renato Casagrande. Uma verdadeira mocinha ilustrada nos manequins dos anos quarenta. No entanto Laura pareceu um pouco cansada, cumpriu sua função. Uma bela atriz no palco, mas aquele vigor, aquela alma, aquele prazer que causava em quem assistiu das outras vezes não esteve presente. Uma pena. Atrizes que estão começando devem sempre se dar ao máximo em cena.
Não dava pra fazer muita coisa em um espaço tão desimpossibilitado como aquele de Nova Ramada, mas a cena final no escuro, foi ato muito penoso e incompetente. Em pleno final, quando todos deviam ver o olhar agradecido do interprete. Uma pena.
As "gentes" do teatro devem sempre fazer o melhor, pois nossa luta é apra criar o hábito, a tradição e o respeito pela categoria. Falhas não são, não devem e não precisam ser permitidas. Stalin Ciotti deixou muito a desejar. Primeiro escureceu o ator, depois quando o espetáculo acabou quando deveria ter tudo escurecido, deixou tudo iluminado de forma que a plateia não sabia se havia acabado ou não. Devemos cumprir aquilo que nos propomos ou declarar que não podemos assumir certas responsabilidades.
O melhor: A madura e lúcida interpretação de Dulce Jorge.
O pior: A escuridão no rosto do interprete na ultima fala da peça.
Laura Hoover (**)
Clara Devi (**)
Maria Antonia (**)
Kauane SIlva (**)
Stalin Ciotti (*)
Felipe Padilha (**)
Arte é Vida
Elenco de Esconderijos do Tempo 2018
Alessandra Souza - Dulce Jorge - Laura Hoover - Fabio Novello - Renato Casagrande e Cléber Lorenzoni
terça-feira, 23 de outubro de 2018
826- Complexo de Elecktra (tomo 13)
Quando terminei de assistir Complexo de Elecktra queria sair correndo pelas ruas de Cruz Alta, pegando as pessoas pela mão e as levando, arrastando para o Palacinho do Máschara. Aquele teatro precisa ser visto, é aquele teatro que vai modificar, é aquele teatro que a família Cruzaltense deve assistir. Um trabalho (sim, teatro é trabalho)coeso, intenso, poderoso. Tanto que dois dias antes uma leiga chamou de bobaginha satânica. Eis a prova do quanto a arte deve acontecer. Nossa vila pacata e perdida no meio do rio grande do sul, tão acostumada com seus espetáculos de dança, com bailarinas que nunca se questionam sobre o que é arte ou como mudarão o mundo com sua dança, precisam ver teatro, precisam ser chocadas, precisam ser sacudidas, precisam se alimentar de arte, alguns atores também. Mas é preciso lapidar a mente, abrir o olhar, compreender a entrelinha. Tirar do teatro, o texto, o ator, e o local onde se desenrola a ação. O drama não foi inventado arbitrariamente, é o resultado de uma necessidade inerente ao homem, ligada aos rituais, muitas vezes eminentemente plásticos, mas ligada também a fábula, eminentemente verbal, eminentemente preocupada com os destinos do homem. O assunto do drama é o homem, e comporta o bom e o mau, o belo e o grotesco.
O teatro grego, questionando a existência e os valores perante os deuses, a mãe que quase mata os filhos, motivada por um forte objetivo me faz indagar-me. Preciso olhar o homem ao meu lado como cidadão, como criatura e não como robô, como número em uma lista. Não é o meu cpf que me diferencia do outro, são meus princípios. Em tempos que nos dividimos em dois lados, esquecemos que o homem tem muitas facetas, muitos lados, muitos subterfúgios.
Elecktra, ou Ereda, e até agora não sei por que usa-se o titulo Complexo de Elecktra já que ele está intrínseco, recebe de Bender uma outra roupagem e essa roupagem se vê na plástica, muito embora Lorenzoni mantenha no Palacinho a premissa de Aristóteles: Uma tragédia deve acontecer toda em um mesmo lugar. Não há também o alívio cômico, ou seja a unidade do tom, é a tragédia pura. A ação também é mínima, pois a narrativa vai encerrando a personagem trágica em uma caixa, como ratos em laboratórios, estudados e depois dissecados. O coro grego está presente na trilha, nos diálogos e claro na maldição da dinastia de Atreu, (avô de Elecktra).
O Grupo não muda a concepção básica da tragédia, talvez por que os estudos de Cléber na época de Antígona (2000) ainda estejam presentes na hora de mergulhar no mito grego. A cena inicial foi um presente pela delicadeza do trabalho de Gabriel Giacomini, que ao lado do veterano Renato Casagrande compôs um relacionamento dúbio e necessário para nossa compreensão do confuso Orestes(Henrique). Sófocles e Bender conseguem nos dar uma trama apartidária, a platéia que tire suas conclusões, a vida é o que é. E embora em um primeiro momento tomemos partido daquela que vinga o pai, não há como não questionar se a necessidade da paixão na vidade Ulrica não nos arrebataria também.
A construção que Cléber Lorenzoni nos dá poderia ser exageradamente vitimista, mas quando vemos as cenas de Ulrica com bertold compreendemos a necessidade de msotrar uma mulher forte que quando perde a paixão torna-se fraca e facilmente derrotável. Seu último momento é o bife tão bem colocado à um palmo de distancia da platéia. A Universalidade está presente no fato de que Henrique se porta como um príncipe, herdeiro da fazenda do pai. Ereda não pode assumir tudo sozinha, como princesa do sexo feminino, precisa do irmão. Ulrica é plebeia por isso mesmo colocada como a vilã. No entanto o terror e a piedade, aspectos fortes da tragédia, vão adentrando a cena, não há solução para Ulrica e logo sentimos piedade pelos personagens que terão que curvar-se ao destino inevitável.
Tudo ficou mais perto, mais vivo, mais intenso dentro das sagradas paredes do palacinho, Fabio Novello compôs um Bertold covarde, fraco, ótima escada. A Ereda de Alessandra não tem o porte de rainha da heroína grega, mas tem um tom de escarnio e loucura que prende a todos. Os dois jovens Átridas planejam vingar a morte do pai, e o fazem em uma cena pungente, Úlrica tira a faca das mãos do filho, covarde demais para matá-la com a arma que ganhou do colega, e a própria mãe precisa ajudar o filho a ser homem, a cumprir seu destino, entregando-se abraço fatal. Sófocles é pura poesia, simplista e muito inspirado nos da uma tragédia muito superior ao tema quase piegas de Eurípides. Bender a torna ainda mais interessante quando a joga em um mundo atemporal mas nos mantém presos em uma única respiração.
Raquel Arigony traz um oráculo muito interessante que a direção do espetáculo moldou sobre vários signos. A mendiga cega que faz alusão ao velho Tirésias termina por assustar ainda mais Ulrica e prepara o final premonitório. Não compreendi muito bem sua maquiagem, no entanto a força, o trabalho corporal e o trabalho visceral certamente ganharam a todos.
O espaço pequeno, aconchegante do palacinho pode não se prestar a qualquer peça, mas certamente deu o tom de Complexo de Elecktra.
O jardim de inverno da família em contraste com o vazio da casa, o pé direito, a alta cama coberta de rubro me lembrando o tapete com o qual Clitemnestra recepcionou o marido após a guerra de Tróia, as flores de luto, o altar. Tudo teve um cuidado detalhista tão sutil que mereceria ser visto por mais e mais plateias. Implico apenas com a trilha, confusa, um pouco apelativa. Apesar de tudo, foi certamente o maior acerto do ano além de Lendas da Mui Leal Cidade.
O teatro deve sempre ter o frescor do novo, ou a arte terá peso e forma do antiquado e careta. E os atores não mais serão reflexo de liberdade e prazer.
O melhor: As interpretações de um elenco coeso que poderia ter apresentado no meio da rua e ainda nos prenderia a todos.
O pior: A trilha que ainda que bem operada destoou de muita coisa.
Arte é vida
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