terça-feira, 23 de outubro de 2018

826- Complexo de Elecktra (tomo 13)

                         Quando terminei de assistir Complexo de Elecktra queria sair correndo pelas ruas de Cruz Alta, pegando as pessoas pela mão e as levando, arrastando para o Palacinho do Máschara. Aquele teatro precisa ser visto, é aquele teatro que vai modificar, é aquele teatro que a família Cruzaltense deve assistir. Um trabalho (sim, teatro é trabalho)coeso, intenso, poderoso. Tanto que dois dias antes uma leiga chamou de bobaginha satânica. Eis a prova do quanto a arte deve acontecer. Nossa vila pacata e perdida no meio do rio grande do sul, tão acostumada com seus espetáculos de dança, com bailarinas que nunca se questionam sobre o que é arte ou como mudarão o mundo com sua dança, precisam ver teatro, precisam ser chocadas, precisam ser sacudidas, precisam se alimentar de arte, alguns atores também. Mas é preciso lapidar a mente, abrir o olhar, compreender a entrelinha. Tirar do teatro, o texto, o ator, e o local onde se desenrola a ação. O drama não foi inventado arbitrariamente, é o resultado de uma necessidade inerente ao homem, ligada aos rituais, muitas vezes eminentemente plásticos, mas ligada também a fábula, eminentemente verbal, eminentemente preocupada com os destinos do homem. O assunto do drama é o homem, e comporta o bom e o mau, o belo e o grotesco.
                            O teatro grego, questionando a existência e os valores perante os deuses, a mãe que quase mata os filhos, motivada por um forte objetivo me faz indagar-me. Preciso olhar o homem ao meu lado como cidadão, como criatura e não como robô, como número em uma lista. Não é o meu cpf que me diferencia do outro, são meus princípios. Em tempos que nos dividimos em dois lados, esquecemos que o homem tem muitas facetas, muitos lados, muitos subterfúgios. 
                              Elecktra, ou Ereda, e até agora não sei por que usa-se o titulo Complexo de Elecktra já que ele está intrínseco, recebe de Bender uma outra roupagem e essa roupagem se vê na plástica, muito embora Lorenzoni mantenha no Palacinho a premissa de Aristóteles: Uma tragédia deve acontecer toda em um mesmo lugar. Não há também o alívio cômico, ou seja a unidade do tom, é a tragédia pura. A ação também é mínima, pois a narrativa vai encerrando a personagem trágica em uma caixa, como ratos em laboratórios, estudados e depois dissecados. O coro grego está presente na trilha, nos diálogos e claro na maldição da dinastia de Atreu, (avô de Elecktra).
                                O Grupo não muda a concepção básica da tragédia, talvez por que os estudos de Cléber na época de Antígona (2000) ainda estejam presentes na hora de mergulhar no mito grego. A cena inicial foi um presente pela delicadeza do trabalho de Gabriel Giacomini, que ao lado do veterano Renato Casagrande compôs um relacionamento dúbio e necessário para nossa compreensão do confuso Orestes(Henrique). Sófocles e Bender conseguem nos dar uma trama apartidária, a platéia que tire suas conclusões, a vida é o que é. E embora em um primeiro momento tomemos partido daquela que vinga o pai, não há como não questionar se a necessidade da paixão na vidade Ulrica não nos arrebataria também. 
                                 A construção que Cléber Lorenzoni nos dá poderia ser exageradamente vitimista, mas quando vemos as cenas de Ulrica com bertold compreendemos a necessidade de msotrar uma mulher forte que quando perde a paixão torna-se fraca e facilmente derrotável. Seu último momento é o bife tão bem colocado à um palmo de distancia da platéia. A Universalidade está presente no fato de que Henrique se porta como um príncipe, herdeiro da fazenda do pai. Ereda não pode assumir tudo sozinha, como princesa do sexo feminino, precisa do irmão. Ulrica é plebeia por isso mesmo colocada como a vilã. No entanto o terror e a piedade, aspectos fortes da tragédia,  vão adentrando a cena, não  há solução para Ulrica e logo sentimos piedade pelos personagens que terão que curvar-se ao destino inevitável. 
                         Tudo ficou mais perto, mais vivo, mais intenso dentro das sagradas paredes do palacinho, Fabio Novello compôs um Bertold covarde, fraco, ótima escada. A Ereda de Alessandra não tem o porte de rainha da heroína grega, mas tem um tom de escarnio e loucura que prende a todos. Os dois jovens Átridas planejam vingar a morte do pai, e o fazem em uma cena pungente, Úlrica tira a faca das mãos do filho, covarde demais para matá-la com a arma que ganhou do colega, e a própria mãe precisa ajudar o filho a ser homem, a cumprir seu destino, entregando-se abraço fatal. Sófocles é pura poesia, simplista e muito inspirado nos da uma tragédia muito superior ao tema quase piegas de Eurípides. Bender a torna ainda mais interessante quando a joga em um mundo atemporal mas nos mantém presos em uma única respiração. 
                                Raquel Arigony traz um oráculo muito interessante que a direção do espetáculo moldou sobre vários signos. A mendiga cega que faz alusão ao velho Tirésias termina por assustar ainda mais Ulrica e prepara o final premonitório. Não compreendi muito bem sua maquiagem, no entanto a força, o trabalho corporal e o trabalho visceral certamente ganharam a todos. 
                              O espaço pequeno, aconchegante do palacinho pode  não se prestar a qualquer peça, mas certamente deu o tom de Complexo de Elecktra. 
                                   O jardim de inverno da família em contraste com o vazio da casa, o pé direito, a alta cama coberta de rubro me lembrando o tapete com o qual Clitemnestra recepcionou o marido após a guerra de Tróia, as flores de luto, o altar. Tudo teve um cuidado detalhista tão sutil que mereceria ser visto por mais e mais plateias. Implico apenas com a trilha, confusa, um pouco apelativa. Apesar de tudo, foi certamente o maior acerto do ano além de Lendas da Mui Leal Cidade. 

                                O teatro deve sempre ter o frescor do novo, ou a arte terá peso e forma do antiquado e careta. E os atores não mais serão reflexo de liberdade e prazer. 


                                   O melhor: As interpretações de um elenco coeso que poderia ter apresentado no meio da rua e ainda nos prenderia a todos.
                                   O pior: A trilha que ainda que bem operada destoou de muita coisa. 


                                                Arte é vida

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